X -Festival-
Hoje é o temido dia. Aqui dos bastidores vejo como esse lugar está lotado. CJ me disse que, após Kate publicar a foto comigo e dizer que eu me apresentaria hoje, o povo foi a loucura. Parte empolgada com a minha volta; parte ainda com críticas pesadas sobre o vídeo e sobre minha falta no outro festival, já que considerável quantidade era meu público. E a outra parte descrente de que isso realmente aconteceria.
Sou muito bem tratado pelos outros artistas e todos que trabalham nos bastidores. Vejo a lista de quem se apresentará hoje e fico mais tranquilo ao confirmar que Charlie estava certo sobre Humberto não comparecer. Faço o aquecimento vocal, tento me acalmar e me preparo para a apresentação.
Três degraus fazem a ponte entre onde estou e o palco. Subo o primeiro e respiro. Subo o segundo e já começo a suar. Subo o terceiro e as luzes se direcionam à mim enquanto sou anunciado. Não tem como voltar agora — penso. Todos já me viram. Me vejo no telão e percebo que estou com uma fisionomia abatida. Começo a caminhar para o centro e ouço aplausos, gritos e vaias. Os instrumentistas começam a tocar e sou apunhalado pelo medo de minha voz não sair. Imagino meu vídeo nú cheio de drogas ao lado passando naquele telão próximo a multidão e isso me apavora ainda mais.
Começo a cantar com um pouco de esforço e pensamentos bons vêm à minha mente. Eu estou aqui em cima, têm milhões de pessoas assistindo, seja aqui ou em suas casas, preciso mostrar para eles quem sou eu. Preciso que se lembrem de que meu lugar é aqui, ou melhor, preciso me lembrar de que meu lugar é aqui. Não posso deixar com que Clarice tenha acabado com tudo que eu sou. Não posso deixar que Humberto se aproveite da minha queda, depois do que ele fez no passado. Ele tentou me derrubar e não conseguiu e agora uma outra pessoa tentando isso novamente. Humberto deve ter adorado isso, não posso permitir — encorajo-me.
Sinto a emoção de tudo que já superei na vida. Do acidente, do coma, da perda do meu pai, dos meses de tratamento, das crises, do alavancar de minha carreira, da viajem à Noronha, de Clarice, do vídeo... Tudo passa pela minha cabeça como um filme e eu faço tudo isso convergir para a música. Canto com a alma, com toda a minha força. Provavelmente Humberto e Clarice estão vendo esse show, canto para eles.
A música acaba e grande parte aplaude enquanto uma minoria vaia. Não me importo, pois mandei o meu recado. Agradeço a todos e grito que estou de volta, que tentaram me derrubar duas vezes, porém não conseguiram.
Caminho em direção aos degraus de decida. Desço o primeiro e, quando piso no segundo, olho ao meu redor. É quando o vejo. Os cabelos ruivos jogados para o lado, o violão na mão esquerda e um copo de água na mão direita. Humberto — ouço gritos na minha mente. O que ele está fazendo aqui? Algum cantor cancelou em cima da hora e ele se pôs no lugar? Flashes invadem meus pensamentos. Lembro de estar nos bastidores de um show, um dos primeiros depois de ganhar popularidade e fama, e ele se aproximar. " Curtindo a fama, iniciante? É bom não é? A música nos faz sentir vivos, mas e se a música parasse de tocar?" Ele pronunciou essas palavras com aquela voz rouca e com o tom de voz mais pretensioso e ameaçador que eu já ouvi. Na mesma noite, após o show, sofri um acidente. Meu ônibus, segundo a perícia, tinha sofrido algumas panes. Meu pai, o motorista e toda a equipe de músicos morreram. Somente eu sobrevivi, entretanto fiquei em coma, entre a vida e a morte.
Depois de estar me recuperando em casa fiz umas pesquisas e constatei que Humberto, que já estava na estrada da música há algum tempo, estava perdendo popularidade por causa de mim. Soube que alguns shows dele foram cancelados e depois fui convidado para cantar em seu lugar. Juntei as "peças do quebra cabeça". Por aquele comentário que Humberto fez horas antes do acidente tive certeza de que ele estava envolvido. Ele queria o seu espaço de volta. Não sei como, mas sabia. Ninguém acreditou em mim. Me condenavam por essa acusação. Minha mãe me forçou a fazer terapia, visto que criei uma obsessão a Humberto.
Comecei a ter crises somente em ouvir o nome dele.
Era como se qualquer coisa sobre ele me fizesse lembrar de todo o sofrimento e me deixasse louco. A única coisa que ele não poderia imaginar é que eu seria o único sobrevivente e que todos iriam se conscientizar. A mídia repercutiu tanto o acidente e a minha recuperação que, quando voltei, fazia mais sucesso. Todos queriam me ver, todos ouviam falar sobre mim. O tiro dele saiu pela culatra.
Agora vendo Humberto depois de tanto tempo, sinto toda a emoção que senti agora no show indo embora. Meu corpo ferve, mas agora não de adrenalina como no palco e sim de ódio. Se eu ir em sua direção certamente acontecerá uma tragédia aqui. Sinto um borbulhar dentro de mim, meus membros superiores e inferiores começam a congelar. Não, não posso ter uma crise agora. Corro para o meu camarim na direção oposta a Humberto. Espero conseguir chegar lá sem perder a minha sanidade mental.
.....
Humberto tinha que aparecer agora quando tudo estava indo tão bem?
Agora dá pra entender melhor o porquê disso tudo, não é? Jhon passou por uma situação muito complicada. Mesmo assim, não deixa de ser uma obsessão por Humberto. Kkk
Prevejo muita confusão nos próximos capítulos. Espero vocês lá!
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