VIII -Convite-
Minha mãe surta ao saber que dei um cheque para Clarice, pois acredita que essa atitude somente alimentará, ainda mais, a vontade dela em pegar meu dinheiro.
— Eu só queria que aquela garota sumisse da minha frente. Estava desesperado por vê-la — desabafo.
Joana desiste de me contrariar e sai em direção a cozinha. Meu celular toca e, ao atender, escuto a voz preocupada de Charlie. Ele pretende me ver e eu não faço objeções.
Em exatamente dez minutos após ligar, Charlie toca a campainha. Atendo-o.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunto sem nem mesmo cumprimenta-lo.
— Desconsiderando o fato de que meu cliente mais rentável está sem proposta alguma de show, não aconteceu nada — diz sarcasticamente.
— Como assim?
— Durante meses fiquei sem fechar nenhum contrato. Você sumiu. Estou há duas semanas sem receber nenhuma ligação a sua procura.
Qualquer cantor com uma notícia dessa piraria, porém não sou atingido emocionalmente pela gravidade da situação.
— Você precisa voltar agora, ou então... — ele faz um certo suspense — a corda esticada em sua direção se romperá e você não conseguirá retornar a superfície.
Nunca havia escutado Charlie falando metaforicamente. Geralmente ele é mais objetivo.
— Não sei se estou preparado para retornar. Não sei se é vergonha pelo vídeo, mas sinto repulsa em me imaginar no palco novamente.
— Então trabalhe isso. Consegui te encaixar em um pequeno festival em São Paulo essa semana.
— Eu revelo que não estou preparado e você me diz que estarei em um festival?! Está maluco?
— Não se preocupe, será apenas uma música. — Pela expressão tranquilizadora, ele realmente pensa que será fácil.
Minha mãe chega com bolo e champanhe para amenizar o clima de tensão que estou proporcionando.
— Ouvi direito? Jhon participará de um festival? — pergunta animada.
— Não — pronuncio juntamente com Charlie, porém ele diz o contrário.
— Joana, se seu filho continuar isolado do mundo, será esquecido. — Minha mãe balança a cabeça em concordância a Charlie. — Existe uma forte concorrência — ele continua. — Vários artistas subindo enquanto Jhon só desce.
Dessa vez não falo nada, apenas como o bolo.
— Eu tento fazer ele mudar de ideia, mas é teimoso como o pai.
Fico extremamente irado com essa comparação da minha mãe. Precisava mesmo falar sobre meu pai? Sempre quando escuto falar sobre ele, lembro-me da noite do acidente e isso me causa pânico.
— Os outros aproveitaram esse sumiço dele. — Eles conversam sobre mim como se eu não estivesse aqui! — Alguns não saem das mais pedidas na rádio, como Humberto, por exemplo. — diz Charlie.
É rápido. A ira transita veloz e ferozmente pelas minhas veias corporais. Fico fora de mim quando se trata dele e por mais que me medique ou faça terapia, não adianta. É como se estivesse em um estado alucinógeno, como se qualquer coisa sobre ele ativasse algum botão raivoso dentro de mim.
Avisto o bolo e as taças de champanhe voando após eu estapear a bandeja. Uma outra taça de vidro se parte em minha mão ao ser pressionada fortemente.
— Sua mão está sangrando. Pare, Jhon — grita minha mãe, eufórica.
Charlie me evolve em seus braços, pressionando- os, me forçando a parar. Mas, é somente quando ouço minha mãe chorar que consigo me controlar.
Me solto de Charlie, corro para o meu quarto e, como de costume, me escondo nos travesseiros. Mancho os lençóis e as fronhas, de sangue. Tiro os pequenos cacos de vidro da minha mão direita. As lágrimas brotam sem pedir permissão. Aqui estou eu, Jhon, em meu quarto novamente chorando por causa de Humberto, clamando pelo meu pai.
Depois de constatar que minha mãe não desistirá de bater na porta do quarto e me chamar, decido deixá-la entrar.
— Mesmo que você não queira, uma hora terá que se alimentar. — Prevejo que ela começará com os sermões.
— Não estou com fome — declaro.
— Eu trouxe comida pra você. Não precisa sair do quarto se não quiser, só come — insiste ela.
Não resisto aos cereais. Desde ontem, depois da visita de Charlie, que não saio do quarto. E mesmo assim, antes disso, não havia comido quase nada, somente o bolo.
— Jhon, meu filho. Sinceramente, não suporto mais ver você assim. Aceita o convite para participar desse festival — suplica ela.
— Não tente me forçar assim como me força a ir na terapia — digo cruamente. — E, a propósito, não irei mais. Queira você ou não.
— Não pode deixar de ir as consultas. Você precisa de tratamento para atitudes como a de ontem. Olha sua mão. — Ela pega minha mão à força e analisa os cortes. — Isso não é normal.
— Você está querendo me deixar maluco como todas as pessoas que ficam naquela recepção — disparo.
— Por que você sempre complica as coisas, Jhon?
Minha mãe se descontrola, aumenta o tom de voz e anda sem rumo pelo quarto.
— Eu complico as coisas? — Deixo a pergunta no ar.
— Sim, você complica as coisas — rebate ela.
— Depois que acordei daquele maldito acidente fiz meses de tratamento e nada adiantou. — Aumento o tom de voz também. — Como se já não bastasse um mês em coma, perdido em algum lugar nos meus pensamentos entre o dormir e o acordar e saber que fiquei órfão de pai; tive que passar horas semanalmente naquele consultório com Lenin. Quem é afinal que complica as coisas?
Faço uma pausa para respirar, sinto que meu coração não para de acelerar.
— Não existem motivo para você falar sobre isso agora. — Ela tenta me calar, mas ainda não acabei.
— E depois que as crises foram embora, diminuí as sessões até terminá-las de vez. Até que veio a viajem para Noronha — sinto lágrimas brotarem em meu rosto — e você me obrigou a voltar para aquele consultório.
— Não teria feito isso se suas crises não tivessem voltado e se você não tivesse se escondido do mundo como uma criança indefesa — ela diz quase gritando.
— Já chega! — sussurro.
Ela continua lá, perambulando pelo meu quarto e pronunciando alguma coisa, porém saio sem me certificar de quais são as suas palavras.
.....
Charlie fazendo de tudo para Jhon se reerguer. Será que ele conseguirá se apresentar no festival? Espero que sim!
Mais uma crise só em ouvir o nome "Humberto". É, não tá fácil!
Que discussão foi essa entre Jhon e Joana agora no final??? Tenso demais!
Gostaram? Quais as expectativas para essa tal volta de Jhon? Digam aí...
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