III -Clarice-

    Sinto uma pontada na cabeça e um fervor no corpo. Inicialmente não consigo abrir os olhos, mas, aos poucos, minhas pálpebras se desprendem e me deixam visualizar o quarto de hotel ao qual estou. Demoro um pouco para me lembrar de como vim parar aqui, até que uma imagem de Clarice surge em minha mente. Vejo seus cabelos loiros caídos sobre meu rosto enquanto me beijava, lembro de seu corpo sobre e sob o meu, lembro de desabotoar o seu sutiã... Onde ela está? — penso. Minha cabeça dói como se tivesse levado uma pancada. 

Olho para o meu corpo nú sobre os lençóis e, ao meu lado, sobre a cama, cigarros, uma garrafa de cachaça e maconha. Não entendo o que essas drogas fazem aqui ao meu lado e nem mesmo me esforço para entender. Procuro minha roupa no quarto, mesmo não conseguindo me locomover direito vasculho cada lugar, em vão. Sento na cama e tento raciocinar um pouco.

    Minha carteira — é como se meu subconsciente gritasse —, a encontro, porém vazia. Nem meus documentos, nem meus cartões e muito menos meu dinheiro estão aqui. Relógio — mais uma vez meu subconsciente me alerta. Não o encontro. Vejo um na parede oposta a cama, mas os números são pequenos e minha vista está embasada. Paro, respiro e ainda não consigo ver a hora. Vou até o banheiro, lavo o rosto e tento novamente. Espero que seja uma miragem, pois vejo que são duas horas da tarde. O festival. Me desespero ao perceber que perdi o festival.

— Isso é um pesadelo. Acorda, Jhon! — ordeno para mim mesmo enquanto dou leves tapas na face direita.

    O que farei? Nú em um quarto de hotel e sem meus pertences. Minha mãe, CJ e Charlie certamente estão me procurando desesperadamente. 

  — Pensa. Pensa... 

    Tento estabelecer uma mísera linha de raciocínio, porém não consigo. Por que minha cabeça dói tanto?

  — O que vou fazer? O que ela fez comigo?

    Pego o lençol da cama e me cubro. Abro a porta do quarto e não vejo ninguém no corredor. Me aproximo da escada para descer até a recepção e quase caio. Seguro no corrimão de alumínio, ainda estou muito mal. Consigo chegar na recepção e o casal que me atendeu na noite anterior está aqui.

— Gente, pelo amor de Deus, me ajudem! — Meus olhos transbordam lágrimas.
— Jhon? É você mesmo? Segura ele amor — a mulher declara ao homem quando percebe que eu estou quase caindo. 

   Me escoro no balcão e o casal me leva até o sofá.

— Jhon, o que aconteceu? — pergunta o homem.

— Eu não sei. — Sinto minha mente embaralhar. — Acho que fui dopado, lembro que não bebi ontem à noite. 
— A mulher que estava com você passou aqui e pagou a conta antes de sair. Não percebemos nenhum comportamento estranho. 
—  Ela esvaziou minha carteira. Dinheiro, documentos e cartões, levou tudo. Meu relógio, meu celular, minhas roupas... Não tenho mais nada aqui. — Acredito que levei minutos pra pronunciar essa frase, pois estou engasgando em minhas próprias palavras. — Eu tinha um festival hoje.

   Eles me levam até um quarto.O homem me ajuda a vestir uma bermuda e uma camiseta. Acredito que sozinho não conseguiria. Em seguida, me levam até um carro. Não sei o que seria de mim sem a ajuda deles.

 —  Por quanto tempo eu dormi? — pergunto à minha mãe quando abro os olhos e a vejo ao meu lado.
  — Haa, meu filho! Está se sentindo bem? — percebo a preocupação no seu tom de voz e confirmo com a cabeça. — Um médico veio te ver enquanto você estava desmaiado. Já estamos em casa, estamos no Rio de Janeiro.
 —  O que eu tinha? Não me lembro de nada desde que entrei no carro daquele casal do hotel.

— Eles foram verdadeiros anjos. Levaram você até o hotel em que estávamos hospedados lá em Noronha e não saíram enquanto não viemos embora. Você foi dopado, mas esquece, já passou! Você foi  medicado e por isso dormiu um pouco mais.

—  Não acredito que ela fez aquilo comigo — digo irritado. — Não tinha motivos para aquilo acontecer.

—  Já fiz o pedido de novos documentos pra você. Hoje eles vêm aqui tirar sua foto e coletar sua impressão digital. Quer tentar levantar?

   Levanto com a sua ajuda. Ainda sinto umas fracas pontadas na cabeça. Caminho até a cozinha para beber água.

  — E a mídia? O que disseram sobre eu não ter aparecido no festival? — questiono.

    Ela me olha sobressaltada.

— Então, você já está de pé? — CJ aparece quebrando o clima de tensão por parte da minha mãe.
— Estou tentando! — sorrio.

    Viro para minha mãe novamente.

  — Não vai responder minha pergunta? O que saiu na mídia? —  Ela não responde, apenas me olha com certo medo.
— Não contou pra ele ainda? — CJ interrompe.
— Combinamos que não falaríamos nada — grita minha mãe.

—  Acho que é melhor saber por você do que ligar o celular ou o computador e dar de cara com a cena.

—  Posso saber o que vocês estão me escondendo? — questiono preocupado. 
—  Não tenho coragem — minha mãe diz enquanto sobe rapidamente as escadas.
— Percebo que sobrou para mim! —  CJ senta no sofá e me sugere o mesmo. — Quer que eu fale ou prefere ver?
— Não sei o que responder. —  Estou realmente ficando nervoso.
— É melhor mostrar. 

    Ele pega o celular e meche na tela por uns segundos, até que o vira pra mim. Inicialmente vejo uma parede cor verde limão que me parece familiar. A imagem se move mostrando drogas sobre uma cama vermelha e é quando reconheço o local. Logo depois disso, conforme a imagem continua se movendo, me vejo deitado completamente nú sobre a cama do hotel.

.....

Clarice, Clarice... O que tu fez?
Coitado dele!
Infelizmente, esse poço vai ficar mais fundo!!!

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