II -Noronha-
Fernando de Noronha é realmente um lugar maravilhoso. CJ, meu amigo quase irmão, veio comigo e com minha mãe como de costume. Na verdade seu nome é Cleiton Júnior, mas, por não gostar desse nome, usa somente o apelido. Antigamente meu pai também costumava vir. Se ele não tivesse partido certamente estaria aqui conosco.
— Vamos mergulhar? — CJ sugere enquanto anda em direção ao mar.
A água está em uma temperatura muito agradável. Fico boiando por um longo tempo admirando o céu azulado. As ondas prestes a se formarem passam por minhas costas em direção à areia.
— Quanto tempo ficamos sem vir aqui, não? Tinha me esquecido de como é bom estar em contato com a natureza. Precisava mesmo relaxar um pouco — desabafo.
— Um ano e meio mais ou menos — responde CJ. — Lembra de quando você se perdeu brincando de se esconder quando éramos crianças?
— E tem como esquecer? — sorrio. — Foi perturbador!
— Bons tempos! Éramos crianças inocentes. Você sem fama, sem problemas, sem traumas...
— Precisava mesmo tocar nesse assunto? — Olho para ele de forma fulminante.
— Sua mãe me contou da crise que você teve há alguns dias.
— Ela não deveria. Era um segredo — pronuncio asperamente.
— Desde quando passou a existir segredo entre nós?
— Desde que você foi no show dele escondido, talvez — continuo com aspereza na voz.
— Você sabe que não tive escolha. Meus pais me arrastaram — ele diz um pouco irritado. — Jhon, o que quero dizer é que — percebo que ele gagueja um pouco ao falar —, já passou tanto tempo.
— Não quero falar sobre isso, CJ.
— Você nunca teve provas de que ele realmente foi o culpado pelo acidente — ele insiste.
— Já disse que não quero. — Aumento o tom de voz.
— Me escuta cara. Você alimenta esse trauma dentro de você por anos e talvez por nada. E se foi mesmo um acidente?
Dessa vez fico extremamente irritado. Olho pra CJ com total desaprovação e saio da água. As últimas palavras as quais escuto são: " Você já deveria ter deixado o passado para trás."
Chego no hotel ainda um pouco desnorteado. Ao encontrar minha mãe a repreendo por ela ter contado a CJ sobre aquela noite depois do show.
— Ele não precisava saber. Como se já não bastasse você me dando lição de moral agora tenho que tolerar ele também — disparo.
— Você nunca teve problemas em contar nada para o seu amigo.
— Sabe que não gosto de falar sobre aquele assunto. Nem mesmo com ele.
Subo para o quarto e me debruço sobre a cama. Pego um livro para ler e na segunda página minha vista destoa um pouco, fazendo com que as letras se embaralhem em minha frente. Desisto da leitura e arrumo minhas coisas para fazer uma trilha na mata. Caminho sozinho pelas maravilhas da ilha e paro em cada praia que encontro para mergulhar um pouco, até que vejo uma garota na trilha. Nos cumprimentamos e fazemos companhia um para o outro. É legal estar com alguém que não fica me repreendendo por problemas passados, contudo, o mais engraçado mesmo, é estar com alguém que não faz ideia de quem eu sou.
— Sério? Meu rosto não é familiar pra você?
— Deveria mesmo? — Ela me analisa. —Você é um ator da globo? Está na nova novela das nove?
— Não! — Brinco fazendo uma careta. — Sou um cantor.
— Nunca tinha conhecido um cantor antes! É que vivo numa pequena vila. Digamos que eu não tenho muito acesso a meios de comunicação!
— Mesmo assim nunca ouviu falar em Jhon?
— Caraca! Então é você o Jhon que todos comentam aqui na ilha?! — Ela faz uma expressão de surpresa.
— É... Espero que sim! — Sorrio novamente.
— Decidiu tirar férias aqui em Noronha? — ela questiona e eu confirmo com a cabeça. — Ninguém resiste às belezas desse lugar. — Ela se exibe um pouco por morar nessa maravilha natural.
— Então, falam muito de mim por aqui?
— Sim. Suas músicas tocam bastante nos bares, principalmente aquelas do novo cd.
— E você... — Paro e olho em seu olhar. — Gosta de alguma música minha?
Ela pensa um pouco antes de responder:
— Não curto muito essa nova onda sertaneja, mas pra você não dizer que eu sou do contra, "Chamei e você não veio" até que é legal!
Canto à capela e ela tenta me acompanhar.
— Você me deu uma ideia — pronuncio ainda formando algumas linhas de raciocínio.
— E o que seria?
— Vim diversas vezes pra Noronha e nunca fiz um show aqui. Isso parece um pouco egoísta!
— É, parece sim. — Ela me acerta um fraco soco no ombro como se me julgasse, claro que de brincadeira.
— Quer me ajudar a divulgar um show para hoje à noite?
— Um show assim de última hora? — assume descrença.
— Ainda está cedo. Consigo tudo rápido. Pode ser na praça ou até mesmo na rua. — Não disfarço a animação.
Volto para casa e escondo a novidade de minha mãe, já que ainda estou parcialmente irritado com ela. Ligo para o meu empresário Charlie e em menos de quatro horas ele chega aqui com tudo que preciso para o show, com a autorização para a locação e com panfletos para serem espalhados para a divulgação. Tudo resolvido com eficiência.
Subo no palanque e me sinto melhor do que nunca. Precisava extravasar um pouco a irritação que eu estava com minha mãe e com CJ. A galera vibra com as músicas e cantam todas juntamente comigo. Uma platéia que não é muito numerosa, mas que preenche o ambiente com a animação. Eles cantam, dançam, pulam e pedem bis. Depois de umas duas horas, me despeço e eles aplaudem com vigor.
— Você não tem noção de como você explodiu nas redes sociais com esse show. Só falam de você em todos os lugares — diz Charlie, em êxtase.
— Era o que eu precisava antes do festival. — Comemoro.
Minha mãe me olha um pouco de lado porque não gostou de me ver tomando uma atitude sem o seu consentimento.
Hoje é o terceiro e último dia que passamos aqui em Noronha. Amanhã sairemos cedo, pois me apresentarei em um festival no Rio de Janeiro. Serei um dos primeiros a pisar no palco, por isso não posso me atrasar. Foi bom passar esses dias na praia e pegar um bronzeado, eliminando a cor apática a qual eu estava. Claro que a melhor coisa foi ter feito aquele show.
Tenho um encontro marcado com Clarice hoje à noite. Desde o dia do show, em que a encontrei na trilha, temos nos visto e hoje será a despedida. Quando chego no barzinho Clarice já está. Nos cumprimentamos e passamos um bom tempo conversando. Recuso uma bebida mais forte, pois amanhã não posso acordar de ressaca e ela, elegantemente, faz o mesmo. Quando a conversa começa a esquentar, a convido para um hotel próximo ao bar.
.....
É, gente, parece que o passado de Jhon ainda tem muito impacto sobre ele.
E Clarice? Prevejo que essa garota não vai passar desapercebida na vida dele também não!
Alguém arrisca um palpite?
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