Capítulo 5. B

Capítulo 5

Maria Eduarda

Encenação

Cheguei no apartamento, cansada e feliz, pois finalmente chegara o final de semana. Fiz uma cópia do material de um trabalho num pen drive, uma amiga passaria para pegar mais tarde.

Precisava fazer algo para relaxar, por isto coloquei uma música de relaxamento e comecei a alongar no meio da minha sala, afastei a mesa e o sofá.

Estava na parte final quando dei um pulo do chão. Uma música bem alta, vinda do outro lado, um rock pesado na verdade, tremia o meu apartamento. Era como se viesse do meu quarto.

Eu tinha comprado um tampão de ouvidos para ser utilizado nas horas de farra do meu vizinho. Seria uma boa hora de estreá-los. Coloquei. Mesmo assim escutava, porém com menor intensidade. Fiquei deitada no chão e tentava relaxar. Mas a casa parecia vibrar ao som daquela guitarra. Comecei a prestar atenção na música e ela deixou de me incomodar.

De repente parou tudo.

Já ia tomar um banho, percebi a luz do celular piscar. Uma mensagem.

Joice: Estou perto do seu prédio, posso pegar o pen drive?

Eu: Claro. Vou descer e esperar lá em baixo.

Joice: blz

Coloquei um vestidinho solto por cima da minha roupa de ginástica e desci. Assim que cheguei à portaria ela apareceu. Conversamos um pouco e ela me convidou para uma festa no sábado. Era em uma república de uma amiga.

— Não vai ser essas festas que ficam lotadas, é coisa selecionada — disse, com ar que isto era bom.

Fiquei de pensar. Não tinha saído à noite.

— Eu te entrego — Mostrou o pen drive. — na segunda pode ser?

— Pode. Não vou precisar.

Despedimos.

Assim que entrei na recepção o senhor Josué perguntou:

— Maria Eduarda, o som do Rafael não te incomodou? Os vizinhos ligaram aqui mais cedo.

— Um pouco, mas temos que ter paciência. Não acontece sempre.

— Menina, você é um anjo, nem todos pensam assim. E acabam me deixando louco aqui nesta portaria — disse, rindo nervosamente. — Você não o conhece ainda?

— Não! Ainda não! Por quê?

— Ele perguntou de você — Olhou dos lados e abaixou o tom de voz. —, não dê confiança a ele, é um bom menino, mas ô rapariga mulherengo. Não pode ver moça bonita.

Piscou para mim. Eu sorri e fui em frente chamar o elevador e falei:

— Vou me lembrar sempre, obrigada.

Entrei no meu apartamento e do outro lado estava um silêncio total. Tomei um banho, preparei algo para comer. Mais tarde terminaria minha parte do trabalho que teríamos que apresentar. O tema era instrumentos de trabalho de um dentista, como manter sempre esterilizados e em ordem.

Escutei barulho do lado, olhei no relógio digital da minha mesa, mostrava 22:20. Ele devia estar saindo. Corri na sala para olhar pelo olho mágico. Nada! Encostei-me à porta desanimada. Então veio o barulho de chave e porta se fechando. Olhei de novo e lá estava ele, todo de preto na frente do elevador. Não sei o que fiz, mas um barulho na porta o fez olhar a minha direção, olhou de um lado para outro e aproximou com ouvidos atentos. Então me encostei com mais força, ele aproximou mais. Dei de encontro na porta, ele afastou e ficou olhando como se esperasse que eu abrisse a porta. Como não aconteceu ele ficou parado. O elevador chegou e ele ameaçou a abrir a porta. Dei de encontro na porta e comecei a gemer.

Ele parou.

Ficou como uma estátua e eu ali grudada no olho mágico gemendo, parecia uma doida. Pior que contorcia de verdade, igual uma égua no cio. Se é que égua faz isso. Mas eu fazia de tudo para chamar atenção do vizinho.

E deu certo, ele ignorou o elevador e se aproximou mais da porta. Colou o ouvido. A atriz que habitava em mim teve que mostrar seu poder. Esfreguei-me na porta como se tivesse alguém me pressionando. Gemia e falava palavras de carinho. Tentava emitir sons abafados e diferentes com a mão na boca, como se estivesse sendo beijada.

Olhei lá fora e ele não arredou o pé. Então disse manhosa:

— Vamos para o quarto... vamos?

Observei-o afastar com a mão na boca.

Pensei:

E agora? Ele volta ou vai embora de vez?

Parei de gemer, para saber sua decisão. Ele ficou parado, olhou o relógio e voltou para dentro do apartamento.

Bingo!!

Precisava ser rápida e colocar o filme no ponto. Já estava no esquema. Gravei no pen drive para ninguém achar nada no meu Notebook. Tive que começar minha performance antes do filme, pois demorava para entrar.

Assim que começou a rolar o filme coloquei bem perto da parede e grudei nela o ouvido.

Eu poderia sentir sua respiração pesada de encontro a minha orelha, tinha certeza. Suas mãos deviam estar na parede e a outra lá, consolando o bicho.

Tinha certeza. Sua respiração ficou forte e sem controle. Até que o escutei entrar em êxtase.

Puts! E não é que ele gozou rente a parede! Que cara louco.

Dois pirados: eu e ele.

A fantasia é tudo mesmo. Eu aqui não fiz nada e na imaginação dele, eu sei lá o que pensava, fazia tudo. E pior! Ele não sabia quem eu era.

Quando o filme chegou nos finalmente, eu abaixei um pouco o som para o escutar melhor. Mas nada! Será que ele cansou? Fui tirando o som até parar de vez.

Então o escutei no telefone. Se gabando é claro. O estranho foi que não escutei o telefone tocar. Pode ser somente vibrou. Corri na sala.

Nada dele. Voltei no quarto e fiz um diálogo comigo dando risinho. Uma verdadeira louca. Se alguém visse, como se fosse um filme o que acontecia ali, com certeza era manicômio na certa. Com entrada única.

Precisava mudar essa situação. Eu ia deixá-lo louco a partir de agora, mostraria quem eu era.

Deitei na minha cama pensativa.

— O que eu estava fazendo? Ele vai achar que sou uma safada, mas o que importa isso? Eu não quero nada com ele mesmo.

Conclui que devia ser hora de parar com isso. Afinal ele já pagou pelas minhas dormidas na sala. Pronto! Estava decidido, nada de baixaria mais.

Assim nem pensei em vê-lo sair. Coloquei uma música e tentei relaxar para dormir.

Acordei com sussurros e gritinhos.

— Puta merda! Vai começar de novo?

Fiquei ali escutando olhando para o teto. Coloquei o travesseiro no rosto e fiquei imaginando a cena. Que saco! Agora era minha vez de sofrer do lado de cá.

Acabou?

De repente parou tudo. Vão ter quantas essa noite? Pareciam que conversavam.

Silêncio. Parece que saiam.

Corri na sala.

E lá estavam os dois no hall. Que coisa estranha, ele não estava nem aí para ela, que mexia na bolsa. Percebi que o pensamento dele se encontrava longe. Muito estranho. Elevador chegou e eles se foram.

Custei voltar a dormir.

Esses dois... 

O que vai acontecer?
Você sabe?
Tem algum palpite?
Abraço

Lena Rossi

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