Capítulo 65
Oliver
Eu não sabia que falar sobre isso em voz alta para Emily traria tanto alívio e certeza para mim. Sou demisexual. Nada mais e nada menos. É tão bom finalmente saber o que eu sou e não ficar me sentindo um zero à esquerda ou defeituoso.
— Demisexual? — Emily repete, testando a palavra na língua.
Me calo, dando a ela tempo para absorver a informação. Eu mesmo precisei de algum tempo para entender e me aceitar dessa forma. É assustador pra caralho descobrir algo tão importante sobre si mesmo depois de tanto tempo de vida. Dezoito anos pode ser pouco comparado a outras pessoas, mas é a minha vida inteira e mudar algo em que eu passei a acreditar esse tempo todo em menos de um mês não foi fácil. Não teria conseguido sem a ajuda do meu psicólogo, que introduziu a ideia aos poucos na minha cabeça.
Sem conseguir suportar o silêncio de Emily e a ideia de que ela possa não me aceitar assim, da maneira que eu sou, me ponho a falar.
— É por isso que sempre me senti desconfortável com a ideia de me relacionar com alguém desconhecido. Todas as vezes em beijei ou tentei fazer sexo com uma garota desconhecida, não me sentia à vontade e me via enjoado, me achando nojento, como se tivesse sido usado. Depois de um tempo, pensei que eu tivesse algum tipo de problema e me contentei com a ideia de que meu corpo veio com defeito e que eu nunca ia gostar de nenhuma dessas coisas. A última vez em que tentei algo com alguém diferente, me senti tão horrível e tão inútil, que desisti de vez.
— O dia da festa a fantasia…? — ela insinua.
Assinto, também lembrando do dia em que Emily me encontrou passando mal após ter me encontrado com a prima da aniversariante. Naquele dia, Emily conseguiu me distrair, quando nos levou para comer meu primeiro "podrão".
— Deixa eu ver se eu entendi direito — ela diz e a encaro, esperando. — Demisexual é alguém que não se atrai fisicamente e sexualmente por pessoas desconhecidas e que só sentem vontade de beijar ou transar com alguém por quem tem sentimentos ou sentem alguma conexão?
— Sim, em alguns casos, a pessoa pode não querer transar também, depende muito, varia de pessoa para pessoa — explico.
— E qual o seu caso? — ela pergunta, parecendo genuína.
Escolho os ombros por reflexo, antes de responder.
— Não sei — sou sincero. — Você é a primeira pessoa com quem eu realmente me senti confortável para querer alguma coisa, beijo ou… sexo. Depois de algum tempo em que estávamos juntos, eu sentia vontade, mas eu estava tão acostumado a acreditar que sexo não era para mim, que toda vez em que estivemos próximos a isso, eu simplesmente entrei em pânico. Não queria me sentir um merda com você — falo, sendo franco.
— Entendo.
O rosto de Emily é uma folha em branco, sem me dar uma única pista sobre o que ela está sentindo ou pensando.
— Eu sei que parece estúpido e vou entender se você não quiser mais nada comigo, são muitas informações e não é fácil compreender todos os aspectos da demisexualidade, eu também não sei tudo ainda. É um processo — repito o que Rafael, meu psicólogo, me disse na nossa última consulta. — Mas não vou pedir desculpas por ser assim.
Não mais, penso. Não vou mais me culpar ou me sentir menos homem por não sair pegando todo mundo, como a maioria dos garotos da minha idade.
Olho nos olhos de Emily, decidido.
— Você não vai dizer nada? — eu pergunto, agoniado com o silêncio dela.
— Estou digerindo as informações, só isso. Não estou pronta para desistir de você ainda.
Emily pisca para mim, espertinha. Sorrio.
— Fico feliz por isso.
— Eu também — concorda, devolvendo o sorriso.
— Isso quer dizer que se eu te beijar agora, não corro o risco de apanhar?
— Tem que testar para ver.
Engancho meu braço em sua cintura fina e a trago para perto de mim. Emily põe uma mão por dentro da minha blusa, acariciando minhas costas, me provocando arrepios.
Não sei ao certo dizer quem beijou quem primeiro, imagino que seja um empate. O beijo é carregado de sentimentos, saudades, amor, cumplicidade e um pouco de alívio pela trégua.
— Senti sua falta pra caralho — ela sussurra, passando o nariz pelo meu pescoço.
— Também senti sua falta pra caralho — respondo, fazendo o mesmo que ela e respirando seu cheiro de sabonete.
Emily se aconchega mais e mais, até estar entre as minhas pernas, quase jogada em cima de mim. Seguro ela o máximo que posso, sem acreditar que conseguimos nos acertar e ela me aceitou. Não deveria ter duvidado, mas minha insegurança gritou por cima das minhas certezas.
— Ah! — Emily pula, parecendo ter lembrado de algo.
— O que foi? — pergunto, a soltando a contragosto.
Ela fica em pé próxima ao armário e me olha com brilho nos olhos.
— Eu tenho uma coisa guardada aqui para você há um tempo — ela diz, sem revelar nada.
Vou para a beira da cama, para ficar mais próximo dela e fico em silêncio, esperando que ela termine de procurar o que quer que seja em seu armário.
Emily vira para mim, deixando as mãos atrás do corpo, escondendo de mim o que pegou.
— O que é? — indago, tentando bisbilhotar.
Puxo ela para se encaixar no meio das minhas pernas e apoio meu queixo em sua barriga, ganhando um olhar feio em resposta.
— Não vou mais largar você, nem adianta pedir — aviso e ela revira os olhos, sorrindo de lado.
— Antes de te mostrar isso, eu preciso que você saiba que eu me orgulho de você por ter tomado conhecimento sobre algo tão importante sobre si e por ter compartilhado comigo. Também quero pedir desculpas, por ter sido egoísta esse tempo todo, eu estava tão presa na minha bolha, pensando que tudo era sobre mim, que não vi que você estava sofrendo e…
Ela para de falar, coçando a garganta para tentar espantar o embargo na voz.
— Não é sua culpa, eu nunca te disse nada, você não teria como adivinhar — a tranquilizo, arrastando meu polegar pelo seu quadril. — Eu tinha vergonha de falar sobre isso antes, eu achei que tivesse algum defeito de fábrica, sabe? Mas agora, que eu entendo que o que sinto é algo completamente normal, me sinto melhor.
E é verdade. Meu psicólogo me incentivou a procurar nas redes sociais por outras pessoas que também são demissexuais, para compreender que não sou o único e que várias pessoas passam pelo mesmo processo pelo qual eu passei. A demissexualidade não é conhecida por todos, por isso, é difícil encontrar figuras representativas por aí com facilidade.
— Eu amo tanto você — Emily diz, usando uma de suas mãos para mexer em meu cabelo. — Desculpa por ter demorado tanto tempo para admitir isso.
— Você sabe, eu também te amo — lhe lanço uma piscadela, fazendo ela sorrir.
Trago ela novamente para o meu colo e ela se senta em uma das minhas pernas.
— Ok. Não surta — ela avisa, começando a trazer as mãos à frente. — Oliver Vilaça Medeiros, quer namorar comigo?
A encaro chocado, tendo sido pego de surpresa.
Olho para suas mãos, onde há uma caixinha de veludo preta e dentro estão presentes dois anéis de prata. Volto a olhar para o rosto de Emily, que segura o lábio inferior entre os dentes como se sua vida dependesse disso.
— Isso é injusto, my lady. Eu queria pedir primeiro — finjo indignação e ela sorri pelo uso do apelido.
— Bobeou, dançou, gatinho — ela devolve. — Então… isso é um sim?
— Não, é um é claro que sim! — respondo, sorrindo.
— Bobo! Me dê sua mão!
Estendo minha mão para ela, que põe o anel prata em meu dedo anelar. Admiro a aliança, percebendo uma lua prata desenhada sobre ela.
— Minha vez — digo, pegando sua mão direita.
Seguro a aliança dela, que ao invés de uma lua, tem um sol desenhado.
— São lindas — volto a falar, unindo nossas mãos. — Quem te ajudou a escolher?
— Está dizendo que eu não tenho bom gosto para ter escolhido sozinha? — ela finge estar ofendida.
— Você que está dizendo, não eu — rio e ela me dá o dedo do meio. — Que coisa feia, mocinha!
— Vai se foder — Emily xinga, rindo também. — Eu tive ajuda sim, mas eu que escolhi, tá! O Caio foi comigo — ela conta.
— Me lembre de agradecer a ele depois — brinco.
— Ele vai surtar quando souber que nos entendemos — ela diz, me fazendo concordar.
Passamos o restante da madrugada e o amanhecer pondo as notícias em dia e matando a saudade. Emily me conta sobre Brian, que foi para a reabilitação, sobre sua reconciliação com sua mãe e devolvo, falando sobre meu esbarrão com Ágata no corredor e como elas são parecidas.
— Oliver?
Emily chama, quando estou quase dormindo.
— Hm…? — tento abrir os olhos, mas estão pesados demais.
— Obrigada por não ter existido de mim.
Sem dizer nada, aperto meus braços ainda mais envolta dela. Beijo seus cachos, sentindo o cheiro de pêssego de seu creme de pentear.
— Nunca, my lady. Eu vou na sua garupa até onde você me permitir ir.
FIM!
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