Capítulo 46
Oliver
Mordo mais um pedaço do meu pão, já não aguento mais comer mas estou empurrando. O jornal disse que o tempo hoje seria agradável, sem o calor de 40 graus ao que estou acostumado. Olho pela grande parede de vidro, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo.
Ainda está cedo, não são nem sete horas ainda.
Olho para Anitta, que tem fingido não perceber meu jeito estranho nos últimos dias. Só estamos nós dois em casa hoje, meu pai está de plantão e Ana foi com Victor visitar a mãe.
— Vou terminar com a Emily hoje.
Escuto o barulho da torrada de Anitta caindo no chão. Ela me encara com os olhos arregalados.
— Amado? Bom dia? Como você joga isso assim em cima de mim, sem mais nem menos!? – ela diz, parecendo esquecer a torrada caída no chão.
— O que você quer saber? Não tem muito o que dizer – respondo e recosto as costas na cadeira.
— Eu achei que vocês estivessem bem. Por que quer terminar assim, do nada? – ela inquire, parecendo menos feliz do que eu esperava que ela fosse ficar
— Pensei que você fosse ficar mais feliz com a notícia – falo e ela afunda na cadeira.
— Você não parece feliz – pontua.
— Não estou. – Sou sincero.
Não queria chegar a esse ponto, mas não vejo mais solução.
— Então por que decidiu isso? – ela pergunta mais calma dessa vez
Fico sem saber o que dizer. São tantos motivos, mas escolho o mais fácil.
— Não é recíproco – digo.
— Você tem certeza?
Assinto.
— Já faz quase duas semanas que ela não fala comigo direito. E até onde eu sei não fiz nada.
Conto a ela sobre o dia na casa de Emily. Ela parecia ter surtado. Agiu super estranho e ainda pensou que estava disfarçando. Eu sinceramente não entendi nada do que aconteceu. Tentei mandar mensagem e perguntar se estava tudo bem, mas as respostas foram secas, como se ela não quisesse realmente falar comigo, então parei de mandar mensagem e a deixei em paz.
Ela não me procurou depois disso e eu também não me dei o trabalho. Não vou ficar correndo atrás dela o tempo todo, é cansativo.
— Eu estou apaixonado, Anitta, mas não quero ficar nesse vai ou não vai – continuo dizendo e ela me olha com aquele olhar de compreensão que me quebra.
Meus ombros caem e passo a mão pelo rosto. Só queria algo estável, é pedir muito?
— Se vai ser o melhor para você, então faça. Ela quem perde, alguém como você ela não vai encontrar tão cedo – minha irmã dá de ombros.
Reviro os olhos e contenho um sorriso pelo seu tom protetor.
Ela sorri de volta e segura a minha mão, fazendo carinho na palma.
Ficamos em silêncio, observando o céu e me sinto melhor por ter o apoio de Anitta. Ainda não sei como vou falar sobre isso com Emily, mas vou descobrir e não vai passar de hoje.
🔆
Queria saber o que aconteceu com os meus amigos, o desânimo é visível em todos nós, o que me preocupa, mas estou tão ruim quanto eles para fazer algo.
— Vai pra casa da Alice? – Davi pergunta e tento conter uma careta
Procurei por Emily no intervalo, mas não a achei em lugar nenhum. A princípio, eu recusei o convite de dormir na casa de Alice, porque o clima ficaria pior ainda depois que eu falasse com Emily e não achei que o melhor seria ficar próximo a ela tão cedo. E também não queria envolver nossos amigos nesse nosso redemoinho, mas não a achei em lugar nenhum. Procurei por ela no intervalo, mas não a localizei, então vou para o apartamento de Alice para falar com Emily e ir embora depois.
— Alguém sabe o que tá rolando com o Hugo? – Arthur indaga o que vem me preocupando a dias
Nego com a cabeça. Não sei o que rolou, mas Hugo está super estranho, irritadiço demais e se fechou de forma assustadora. Quase não fala conosco agora, fica o tempo todo de fone e em silêncio.
— Ele tava gostando de alguém, será? – Enzo chuta e dou de ombros, mostrando não saber
— Talvez não seja nada, tá todo mundo meio esquisito – Davi diz.
— Pois é – respondo.
O sinal toca e começo a arrumar meu material para sair. Nem tinha percebido que o professor parou de falar. Ponho a mochila nas costas e saio da sala.
— Oliver! – escuto Duda, uma garota da minha sala, me chamar e me viro para ela, que está parada na porta
— Fala.
— Precisamos resolver os negócios sobre o trabalho, é rapidinho – ela diz e assinto, me aproximando dela e do restante do pessoal do meu grupo.
Um dos professores passou um trabalho em grupo, e ele escolheu os grupos por ordem alfabética, então pessoas com nomes que se iniciam com M,N,O e P, ficaram no mesmo grupo.
Deixo que eles decidam e só balanço a cabeça para mostrar que estou prestando atenção.
Vejo Emily marchando até a minha sala e tento esconder a surpresa por vê-la. A sensação é de que eu não a vejo há anos, ela vem fugindo de mim com tanto afinco que quase não encontro com ela mais.
Sem saber como agir, dou um pequeno sorriso e aceno para ela. Me aperto por dentro ao pensar no que preciso fazer.
Emily para de andar e me encara melhor, parecendo estar em um conflito interno, assim como eu. No fim, ela faz o caminho contrário e começa a andar, quase que correr, para fora do corredor.
Franzo o cenho, o que eu fiz para ela?
— Vou passar em casa antes, quer ir? – Hugo aparece do meu lado e me surpreendo novamente ao perceber que ele está falando comigo
— Aham, perai – digo a ele e me despeço do pessoal da turma antes de segui-lo pelo corredor.
Me seguro para não despejar mil e uma perguntas em cima dele. Se Hugo me chamou para ir com ele, significa que ele quer conversar sobre o que o está incomodando, então vou tentar deixar que tudo siga o curso natural.
Nesse e em outros aspectos, Emily e Hugo se parecem, os dois têm dificuldade em expressar seus sentimentos e de primeira se fecham em uma concha e só saem dela quando se sentem preparados para falar.
— Briguei com a minha irmã – Hugo diz quando já estamos chegando na casa dele.
— O que aconteceu? – mantenho o tom ameno e ele faz careta
Finjo que não, mas me atento a casa de Hugo procurando por Emily, mas percebo que ela nem chegou ainda.
Hugo conta sobre seu irmão Brian e sobre Emily ter guardado segredo. Tento fingir que nada é novo para mim, mas devo estar falhando. São informações inéditas.
— Estou me sentindo péssimo — ele diz. — Fui infantil demais e acabei falando umas merdas.
— Peça desculpas então, ué.
— Estou com vergonha — ele admite, ficando em silêncio logo em seguida. Hugo mexe no armário, pegando suas roupas. — Eu disse para ela que ela não era da família – ele conta de costas para mim.
— Isso foi pesado.
Ele suspira.
— Eu sei. Você quer tomar um banho?
E o momento de desabafo acabou.
Faço que sim com a cabeça e Hugo sai do quarto, dizendo que vai pegar uma toalha. Peço comida por aplicativo enquanto ele toma banho e depois de comer partimos para o apartamento de Alice.
Somos um dos primeiros a chegar, junto de Camila e Davi, que provavelmente veio com a namorada. O silêncio entre nós pesa, mas ninguém fala um a para mudá-lo. Aos poucos, o restante vai chegando e eu ponho uma música para pelo menos não deixar o ambiente tão morto.
No momento em que Emily passa pela porta, me sinto agitado. Ela tenta nos animar falando coisas aleatórias, mas não recebe retorno e fica de braços cruzados com a cara emburrada no canto do sofá. Quero sorrir, mas me contenho.
Porra. Reparo nela todas as vezes em que ela não está me olhando e já sinto saudades. Não queria ter que chegar ao ponto de acabar com tudo, e uma parte de mim tenta me convencer a deixar que ela ponha um ponto final nisso, mas sei que não posso.
Preciso me pôr em primeiro lugar pelo menos dessa vez.
— Que cara é essa? – Camila me questiona e dou de ombros
— Estou pensando – me limito a dizer. Não quero contar ainda sobre o que decidi para não causar alvoroço antes da hora.
— Provavelmente em coisas não muito boas – ela diz e assinto.
Camila suspira, encostando a cabeça em meu braço.
— Queria dormir por mil anos – Mila diz e eu rio pelo nariz.
— Será que se fôssemos vampiros conseguiríamos? – compartilho o pensamento com ela, que parece rir
— Provavelmente não, e eu não gostaria de ser vampira, não ia morrer nunca!
— Mas imagina poder morder as pessoas e ser lindo de morrer? Eu gostaria.
— Você está assistindo muito The Vampire Diaries – ela pontua, me fazendo dar de ombros.
— Ninguém mandou me indicar – devolvo.
— Ele chegou! Já volto! – Lara se levanta num rompante, com um sorriso gigante
A animação dela perto do estado de espírito coletivo me deixa até desconcertado.
— Gente, vocês já viram aquela série nova que a Netflix lançou? – Arthur pergunta, o que faz com que comecemos a conversar mesmo que monossilabicamente. Já é um começo.
Devagar quase parando, nós conseguimos evoluir e conversamos como pessoas normais, o que me deixa aliviado e um pouco mais feliz.
— A Lara está demorando – Enzo fala depois de olhar a hora.
Alice opina, dizendo que ela provavelmente está pegando o contatinho que chamou e deixamos para lá, mas o assunto da demora dela retorna e entramos em acordo que alguém deveria descer para ver se está tudo bem.
Decidimos por meio de pedra, papel e tesoura — ou jokenpô — e Emily foi a ganhadora barra perdedora que precisou descer.
Voltamos a conversar, mas começo a ficar preocupado quando percebo que elas estão demorando muito para retornar ao apartamento. Me levanto, decidido a descer e procurar por elas e falar com Emily de uma vez, mas não dou nem um passo antes de a porta ser aberta com uma força maior do que a necessária.
Vejo Lara primeiro, ela está com o rosto vermelho e a cara fechada, quando me olha, seu rosto fica ainda mais avermelhado.
— Acho melhor você sentar – ela diz.
Sem saber muito o que fazer, a obedeço.
Emily entra logo depois e parece péssima. Seus cabelos antes presos em um coque, estão soltos e bagunçados, seus olhos estão um pouco arregalados e vejo como ela mantém as mãos fechadas, prensando as unhas na palma da mão.
Ela para, ainda na porta, e fica olhando pela janela atrás de mim. Olho também, para ver o que ela tanto encara, mas não vejo nada além do normal, que são gaivotas e a praia mais ao fundo.
Tento levantar de novo, mas um aperto de Hugo em meu braço me impede de prosseguir.
— Deixa ela, ela só precisa de um minuto – ele me diz, parecendo entender melhor que eu e o restante o que está acontecendo.
— Ela está parada aí já fazem cinco minutos – Camila olha a hora no celular.
— O que você fez com ela!? – Nina questiona Lara, que a ignora, me deixando intrigado
Espero, assim como os outros, pelo momento em que Emily irá se mexer. É um pouco desconcertante olhar de onde estou, ela parece um pouco maluca olhando pela janela de forma tão concentrada.
Quero me aproximar dela, perguntar se está tudo bem, sabendo que ela vai mentir para mim dizendo que sim e eu vou fingir que acredito e então vou a abraçar, também fingindo que é um abraço normal, mas é um abraço de: estou aqui com você. Porém permaneço no meu lugar.
Ela finalmente diz algo:
— Vamos jogar Verdades com Bebida.
E entendi um total de nada.
Caio levanta, indo atrás dela quando a mesma segue para a cozinha, escuto o barulho das portas dos armários abrindo e fechando e do meu lugar consigo ver Caio cochichar com Emily.
— O que seria "Verdades com Bebida"? – Davi faz a pergunta que eu estava querendo fazer
— O nome já diz tudo — Hugo começa —, todo mundo precisa dizer uma verdade e beber. Cada um tem cinco minutos para falar o que quiser falar, desde que seja uma verdade especial.
Franzo o cenho.
— Como assim uma verdade especial? – pergunto
— Ele quer dizer que não pode ser uma verdade tipo: terraplanistas são burros, porque é algo óbvio, todo mundo já sabe. Tem que ser algo mais profundo, uma verdade ou algo sobre você que você ainda não contou, entende? – Nina explica e assentimos
— Não sei como não pensamos nessa brincadeira antes, ela é ótima para essas horas – Alice se recosta no sofá, com uma cara pensativa.
— Verdade, sempre que o clima pesa demais nós jogamos – Camila complementa e as meninas concordam com a cabeça, com exceção de Lara.
— Foi tudo bem lá embaixo? – questiono Lara, que me olha sem paciência
— Você deveria desistir logo dela — ela diz e aperto os lábios. — Ela ainda não superou o ex e está só brincando com você.
Penso automaticamente em Bruno e na forma como ele e Emily agiram no aniversário dela. Eles realmente pareciam muito próximos, mas nunca mais ouvi ela comentar sobre ele.
Mas talvez...talvez esse seja o motivo de ela ter se afastado tanto de mim nos últimos dias.
Ela e Bruno voltaram, mas ela não sabe como me dizer porque fez tudo isso enquanto "estava" comigo.
Eles já devem estar namorando a essa altura.
Olho novamente para Lara, que assente, parecendo confirmar os meus pensamentos.
Eles devem estar juntos a quanto tempo? Algumas semanas ou mais? Desde o início? Será que eles estavam juntos desde o dia em que Emily me beijou no teatro?
Então tudo entre nós dois foi só uma brincadeira para ela?
Me sinto ferver por dentro e por fora. Quero sair o mais rápido possível daqui e nunca mais olhar para a cara de Emily.
Como ela pôde fazer isso comigo? Eu me dediquei a nós e é assim que eu sou recompensado? Com um chifre? Sinto vontade de rir. Nem chifre seria, já que não temos nada rotulado. Seria cômico se não fosse trágico.
— Você deveria calar a boca mais vezes, sabia? Te faria um bem do caralho – Alice quase bate com o dedo indicador na cara de Lara, que dá de ombros.
— O dia que a Lara entender que ela quieta é a melhor coisa que existe, a poluição deixa de existir junto do aquecimento global – Camila complementa, concordando com a amiga.
Lara finge não ligar para o que elas disseram, mas sei pelo modo como ela se remexe no sofá que isso a entristece.
O que me deixa ainda mais irritado, vão todas criticá-la por apenas me dizer a verdade? Agora entendi o porquê dela sempre me mostrar fotos de Emily e Bruno juntos. Ela estava tentando me ajudar, me dando dicas sobre o que estava acontecendo e eu não percebi.
Meu Deus, como eu sou burro! Eu todo idiota apaixonado e ela faz isso comigo.
— Ei, cara, relaxa — Hugo põe a mão no meu ombro, parecendo preocupado. — Minha irmã não tem ex. Ela nunca namorou ninguém.
Nem o respondo, os dois podem estar brigados, mas Hugo nunca deixaria de defender a irmã. E tudo bem, não posso culpá-lo, se fosse o contrário e fosse Anitta nessa situação, eu provavelmente diria a mesma coisa que ele.
— Estou falando sério — Hugo reafirma. — Nunca acobertaria algo desse nível se fosse o caso.
— Talvez você não saiba — digo. — Você mesmo disse que ela escondeu de você algumas coisas, o que me garante que ela não fez isso de novo? – pronuncio a segunda parte mais baixo para que os outros não ouçam
Hugo comprime os lábios, pensando.
— Emily sabe ser filha da puta quando quer, mas nunca faria isso – ele diz, decidido.
— Ela mal consegue ter coragem de assumir um relacionamento, quem dirá dois – é Camila quem fala dessa vez.
— As aparências podem enganar – Davi parece ponderar e acaba recebendo uma cotovelada da namorada.
— Não é possível que vocês possam ser tão idiotas assim – Alice diz.
Nego com a cabeça, parando de prestar atenção neles.
Quero mesmo acreditar que Emily não seria capaz. No fundo, sinto que talvez não seja realmente isso, mas deixo que a insegurança fale mais alto. Tudo se encaixa tão perfeitamente nessa perspectiva que não consigo deixar de pensar que fui feito de idiota.
Emily retorna a sala, fazendo com que o burburinho pare de vez. Ela pega o próprio celular que estava no rack e começa a mexer.
— Cinco minutos para cada um e vinte para mim. Eu começo – ela diz tudo de forma acelerada e quase tenho medo de sua feição.
Emily parece prestar a matar alguém.
Sentamos todos no chão, em círculo, e Emily põe as bebidas no meio, junto com copinhos de vidro. Em outro momento eu até riria, achando que aquilo parece alguma espécie de culto.
Ela abre a tampa da garrafa de vidro em sua mão.
Ela toma um gole direto do gargalo e respira fundo antes de começar a falar.
A princípio, não entendo nada do que ela fala, ela diz tudo tão rápido e parecendo estar prestes a pifar que me perco em sua fala. Se eu apertar mais os olhos consigo ver a fumaça saindo de sua cabeça.
Aos poucos passo a entender o que ela está dizendo e presto o máximo de atenção que consigo.
Emily conta sobre seu pai, sobre sua mudança para a casa dos irmãos e por fim, sobre Garret. Tudo isso entre goles de bebida.
Fico surpreso ao ouvir tudo o que sai de sua boca e não posso deixar de entender ainda mais sobre ela e diversas de suas atitudes. A história é tão absurda que não parece real.
Indo contra tudo que senti nos últimos dez minutos, sinto uma vontade louca de pegá-la nos braços e a abraçar até que ela durma como um bebê.
Se eu pudesse a pôr em um potinho, longe de tudo isso, eu a botaria.
Nunca imaginei que seu pai fosse a coisa mais simples: um bêbado filho da puta que ficou famoso e perdeu a cabeça.
Agora entendo o porquê dela não me deixar postar fotos nossas juntos no Instagram. Não era porque ela não queria ter nada comigo e estava me escondendo, e sim por não querer que as pessoas fossem falar sobre seu pai nos comentários.
Minhas teorias foram muito mais longe que isso, mas mesmo assim a verdade não deixa de ser surpreendentemente triste.
Eu sabia que Garret não era alguém por quem ela nutria apreço, mas ao longo do tempo supus que ele fosse ex dela, ou que pelo menos tivesse quase tido algo mais sério.
Quando Hugo se reuniu comigo e com os outros garotos novos — Enzo, Davi e Arthur — para conversar e disse para cortarmos relações com Garret ou não seríamos mais amigos dele, a ideia de que Emily e Garret tinham tido algo se fortaleceu. Nunca imaginei que ele tivesse tentado abusar dela. E também nunca imaginei que ela tivesse ficado grávida.
É muita informação ao mesmo tempo e a maioria parece estar como eu: atônitos.
Emily, que está com o rosto vermelho, para de falar e respira fundo, parecendo dar uma pausa.
Me surpreende que ela não esteja chorando a essa altura, eu com certeza estaria. Mas Emily mantém a expressão um pouco assustadora e nunca esteve com as costas tão eretas quanto agora. Ela não grita mais, mas seu tom contém tanta raiva que ela parece estar aos berros.
— Então, Lara, antes de me dizer, novamente, que eu acho que o mundo gira ao meu redor, repense com cuidado nisso. Eu sei que não contei nada e que em partes foi culpa minha, mas minha omissão não te dá o direito de me tratar como tratou. Antes de tudo, somos amigas, você deveria me apoiar para depois brigar comigo – ela diz a Lara, que chora.
Lara abre a boca e começa a gaguejar uma resposta, mas Emily balança a mão na direção dela, a fazendo se calar.
Minha vontade agora é pegar Lara pelos braços, a virar de cabeça para baixo e a balançar e balançar para ver se a idiotice sai da cabeça dela. Quero arrastá-la pela sala e gritar com ela por ter deixado Emily nesse estado. E quero ainda mais matar Garret.
Nunca fui um cara fã da violência e por mais que minha mãe desejasse que eu seguisse esse caminho e tivesse me posto nas mais diversas lutas, nunca cheguei a ser alguém violento, mas neste momento eu daria qualquer coisa para encontrar com Garret e o encher de porrada.
— E puta que merda, eu estou apaixonada por você, Oliver! Não sei outra forma de dizer senão assim!
Minha boca se abre em um "O" perfeito ao ouvir o que Emily acabou de me dizer.
Emily está apaixonada por mim? Uau.
Ela me encara tão fixamente que quase esqueço o restante das pessoas na sala.
Sem saber como reagir, fecho minha boca e dou um sorriso tímido a ela, que sorri de volta, fazendo um calor subir pelo meu pescoço e sei que estou corando.
Não esperava ser presenteado com essa informação.
Então ela não está com Bruno? O alívio me percorre de maneira arrebatadora e quase me sinto envergonhado por isso, mas não posso.
Emily estar apaixonada por mim e não saber como lidar com o sentimento faz bastante sentido, também.
— Ótimo, já terminei. Quem vai ser o próximo?
Emily pergunta, parecendo ter voltado ao seu estado natural. Suas costas não estão mais tão eretas e sua postura se torna relaxada da forma que estou acostumado a ver, seus pés balançam de um lado para o outro, batendo um no outro.
Ficamos em silêncio por um tempo, digerindo tudo que ela acabou de nos dizer até que Davi fala:
— Eu vou agora — ele pega uma outra garrafa no centro da roda e põe um pouco de vodka no copinho. Emily bate o dedo na tela de seu celular e imagino que ela esteja acionando o cronômetro. — Meus pais vão se separar e eu sinto que a culpa é minha — ele vira o líquido transparente na boca.
— Amor... – Alice inicia, mas ele nega com a cabeça.
— Eu sei que a culpa não é minha, mas sinto que é. Meu pai é um merda e até me sinto um pouco aliviado por eles estarem se separando, mas a tristeza da minha mãe me quebra – Davi enche o copo mais uma vez e o entorna.
Todo mundo continua em silêncio, deixando que ele desabafe.
Não posso dizer que não entendo, em partes, meus pais se separaram literalmente por minha culpa, mas nunca me senti culpado por isso. Foi o melhor para os dois.
No decorrer das horas, cada um de nós bebe e conta algo sobre si. Chega a ser engraçado ver a diferença entre as posturas quando acabamos de falar. Eu tinha que ter tirado uma foto do antes de desabafar e do depois.
Muitas lágrimas rolaram e por sorte Alice tinha bastante lenço.
Sou o último a falar e a dúvida sobre o que dizer me corrói. Eu poderia contar muitas coisas, já que meus amigos, tirando Enzo, não sabem quase nada sobre mim.
— Eu e minha irmã temos quase a mesma idade e estudávamos juntos no meu outro colégio — começo —, depois de um tempo, descobriram que minha irmã é super dotada e ela foi passada para séries à frente da minha. Eu sempre fui muito tímido e por isso tinha problemas em fazer amizade — rodo o copo no chão.
"Minha irmã e eu sofremos bullying até que ela saiu da escola e foi pra faculdade, mas eu fiquei e o bullying não parou. Por conta de tudo que eles me diziam e faziam comigo, adquiri ansiedade e entrei em depressão, algumas coisas já não tinham mais sentido, sabe? Mas aí meu pai percebeu o quão mal ficar naquele lugar me fazia, e me tirou lá. E aí eu conheci vocês, que me ajudaram a me erguer um pouco mais e me mostraram que nem tudo estava tão perdido assim. Sempre serei grato pela amizade de vocês."
Minha depressão não foi somente pelo bullying e por me sentir sozinho naquele inferno, mas também por outras coisas. Tento superar ela e a ansiedade a cada dia, mesmo que seja uma tarefa difícil, mas agora sem minha mãe tudo tem sido um pouco mais fácil para mim.
Coço a bochecha, mais por estar me sentindo vulnerável do que por ter algo para coçar.
— A gente também te ama – Enzo é o primeiro a falar, passando os braços pelos meus ombros.
Camila me abraça do outro lado e logo sinto muitas mãos em mim e estou em um abraço coletivo asfixiante.
Rio, sentindo todo o ar pesado entre nós ir embora. Verdades com Bebida é realmente um bom jogo.
Nos soltamos aos poucos e sinto minha nuca queimar com a sensação de estar sendo observado. Desvio o olhar de Camila e Arthur e procuro por quem está me olhando.
— Estou aqui – escuto Emily dizer nas minhas costas.
Viro-me para ela.
— Oi.
Ela suspira.
— Você me perdoa? – pergunta e encolhe os ombros
Observo seus dedos dos pés mexendo em um claro sinal de nervosismo.
Sem dizer nada, agarro um dos pés dela, a puxando para mais perto de mim.
— Promete que vai tentar ser mais aberta comigo?
Ela assente.
— Juro de dedinho – Emily estende o mindinho para mim.
Sorrio.
— Então tudo bem – entrelaço meu mindinho no dela.
Acho que já posso desistir da ideia de terminar com ela.
eles são tudo pra mim, que ódio! 😩
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top