TRÊS:
Meu cérebro foi incapaz de processar os acontecimentos recentes. Eu ainda não acreditava que mamãe estava fazendo aquilo comigo. Como ela pôde me obrigar a ir morar com meu pai? O mesmo pai por quem fui largada quando tinha cinco anos e era um completo estranho para mim.
Sem dúvidas, minha mãe queria apenas me punir e eu não permitiria!
Durante uma semana inteira, tentei convencê-la a mudar de ideia. Ah! E como tentei. Chorei, fiz todo o tipo de promessa e chantagem, mas nada adiantou. Eva era cabeça dura e quando decidia algo, nada a convencia do contrário. Ou seja, só me restava implorar.
— Mamãe, por favor, vamos conversar. — Foi a primeira coisa que eu disse ao vê-la cruzando a porta, chegando do trabalho.
— Ah, pelo amor, tive um dia estressante no banco e não estou com paciência para suas lamúrias. — Abandonou a bolsa sobre a mesa da sala de estar. — Vá procurar o que fazer e me deixe em paz.
— Eu não quero ir morar com meu pai, mãe — choraminguei, almejando despertar alguma piedade em seu coração duro.
— Deveria ter pensado nisso antes de ter me envergonhado, agindo como uma qualquer — proferiu, séria, e jogou-se no sofá, tirando o celular da bolsa. — Já me cansei de você e da sua ingratidão. É a vez do seu pai tentar te colocar na linha.
Como eu suportaria tudo aquilo? Como olharia na cara daquele homem? Eva sempre me disse que Samuel era um homem sem caráter, um vagabundo que, enquanto eles eram casados, vivia às suas custas, por isso, ela o expulsou e ele nunca voltou nem mesmo para perguntar sobre mim. Será que ela havia esquecido disso?
— Isso não faz o menor sentido! Aquele homem não presta, nunca quis saber de mim e agora vou ser forçada a morar com ele? Qual o seu problema, Eva? — chamei-a pelo nome, sabendo o quanto ela odiava quando eu fazia isso.
— Meu problema é a sua rebeldia, Marissol — murmurou, mais interessada na tela do celular do que na sua filha.
Desesperada, eu resolvi me humilhar, me ajoelhando na frente dela. Eu faria qualquer coisa para não receber aquele destino trágico.
— Mãe, por favor! — Segurei a barra do vestido longo dela e o puxei, como um cachorro carente. — Prometo que ficarei longe de Rodrigo, mas não me faça ir morar com aquele homem. — Senti o nó se formando em minha garganta. — Posso mudar! Eu juro, posso mudar.
— Para de drama, garota. Você só vai passar alguns meses com seu pai. Se mudar, reconsidero te buscar, do contrário ficará lá até completar 18 anos. — Ela me olhou de relance e afastou as pernas com brutalidade. — Só estou fazendo isso porque me importo com você e acho que seu pai pode colocar algum juízo na sua cabeça.
Inacreditável!
— Como pode querer se livrar de mim dessa maneira? Que tipo de mãe faz isso com a própria filha? — indaguei, mas ela voltou a atenção para a droga do celular, me deixando ainda mais irritada. — Você não se importa com nada além de si mesma.
Encerrei a discussão e fui para o meu quarto pisando forte, me lançando sobre a cama e enfiando a cabeça no travesseiro para soltar um grito abafado.
Minha vida era um pesadelo! Um terrível pesadelo do qual eu não conseguia acordar!
Odiava a sensação de abandono e rejeição e jamais aceitaria aquela ideia maluca da minha mãe.
“O que eu podia fazer para fugir daquilo?”
Nova Canaã seria minha cadeia pelos próximos meses e eu só escaparia quando completasse dezoito anos, isso se tivesse sorte. Não havia nada de bom para mim lá, exceto o fato de que, ao menos, eu ficaria longe da traidora a quem costumava chamar de mãe. Mas como suportaria a distância dos meus amigos? E quanto à escola? Será que ela não via o quanto eu já estava sofrendo por causa do meu término com Rodrigo?
Passei algum tempo queimando os miolos buscando alguma solução, mas acabei aceitando que não podia fazer nada além de me contentar e arrumar minhas malas.
Me mantive concentrada na tarefa por um longo tempo e só parei quando ouvi o barulho do interfone e mamãe dando autorização para alguém subir. Curiosa, esperei até ouvir o barulho da campainha ressoar e tratei de ir checar quem era, imaginando ser um namorado com quem mamãe saía. Quando espiei através de uma fresta da porta do meu quarto, tomei um susto ao ver os tios de Rodrigo sendo recebidos.
Ele não estava lá.
Rodrigo não se contentou em me humilhar e rejeitar, então também mandou seus tios santinhos virem em seu lugar para me dar mais lições de moral ou, quem sabe, limpar a barra do sobrinho. Por conta disso, nem sequer cogitei a possibilidade de ir até a sala cumprimentá-los, preferindo apenas espiar de longe.
— Miriam, Isabella e eu sentimos necessidade de virmos aqui para saber como estão lidando com a situação — começou o pastor depois de se servir com o café e bolacha oferecidos pela mamãe.
— Não está sendo nada fácil, pastor — minha mãe bancou a dama arrependida e eu revirei os olhos. Ela só queria dar uma de vítima. — Amo minha filha, mas não consigo imaginar as razões para ela ter se comportado daquela maneira. Sempre fiz tudo pelo bem dela e me esforcei para não deixar faltar nada, mas mesmo assim... — Ela caiu num choro compulsivo. — Se Isabella não tivesse me ligado, eu nem sei o que poderia ter acontecido!
— Você e sua filha precisam de ajuda, Eva — dona Miriam sugeriu e eu decidi parar de ouvir aquela conversa humilhante.
Outra vez sozinha, senti um profundo vazio que me deixou desesperada. Naquele instante fechei os olhos, minhas pernas fraquejaram e eu me ajoelhei, em um choro copioso.
Meu lamento foi tão grande que sequer ouvi quando a porta do quarto foi aberta. Só me dei conta da presença de alguém quando senti que dois braços finos me envolveram em um abraço.
— Por que você fez isso? Por que me entregou? Você não tinha o direito, era a minha felicidade — confrontei, observando Isabella por trás de seus cachos marrons soltos cobrindo parte de seu rosto.
Ela me encarou e vi uma tristeza profunda em seus olhos.
— Meu primo iria destruir sua vida, eu não poderia ver um pecado desses acontecendo e não intervir, pois iria contra a fé no meu Deus.
Assenti, impactada por aquelas palavras tão zelosas e, ainda muito abalada, deitei a cabeça no colo de Isabella e continuei chorando, sem conseguir me livrar daquela dor.
— Por que tudo isso aconteceu comigo? — questionei, arrasada.
— O diabo faz isso, primeiro nos tenta, aí nós pecamos sozinhos e sozinhos ficamos. Apenas Deus pode nos salvar de nós mesmos.
— Deus me abandonou, assim como todos os outros. — Levantei, irritada e fui até a mala pronta. — Sabe o que vai acontecer comigo agora?
Isabella acompanhou minha movimentação com os olhos e negou saber a resposta do meu questionamento.
— Vou morar com alguém que nunca se importou comigo, em um fim de mundo chamado Nova Canaã, onde não conheço ninguém. Minha vida está acabada! — gritei furiosa. — E a culpa é sua e do seu Deus!
Isabella também se levantou, veio em minha direção e segurou minha mão com firmeza.
— Não vou pedir perdão por ter te entregado.
— Tudo bem, você estava certa mesmo. Pelo visto, Rodrigo só me via como uma prostituta. — As lágrimas inundaram meus olhos em um instante. — Minha vida é uma desgraça, Isabella.
Sem pensar duas vezes, ela me abraçou outra vez com força e eu não resisti.
— Oh, minha amiga! Oro para te ver saindo desse deserto árido e feio para encontrar um jardim florido e bem cuidado pelas mãos de Deus.
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