CAPÍTULO 13

Atenção
A música no link acima faz parte da leitura. Indicaremos o momento exato para você começar a ouvir e ter uma experiência maior.

    O zelador que limpava os corredores, estava com fones de ouvido, e enquanto passava o esfregão no chão, dublava algumas músicas que estava tocando. Tomando cuidado para não passar vergonha, ele às vezes se empolgava e fingia que o cabo do esfregão era seu microfone, soltando até alguns passos para cá e para lá. Soltando seu quadril conforme a música.

    Quando Ester sumiu para dentro do relógio, o zelador ouviu um barulho da cadeira e se assustou. Retirou um fone de seu ouvido na tentativa de prestar maior atenção no que estava havendo no local, e olhando para a cadeira onde Ester estava, logo imaginou que ela havia saído rápido, deixando até a cadeira arrastar, como faziam a maioria dos jovens da cidade quando iam lá. Pouco antes dele colocar novamente o fone em seu ouvido e continuar sua jornada diária, percebeu a senhora bibliotecária falando em voz alta, tentando chamar a atenção de quem estivesse por lá:

    — O que houve por aqui? — ela andava sobre o corredor principal no meio da biblioteca onde ficavam as mesas, apontando para alguns livros caídos no chão — Olha tudo isso aqui! Se o mentor visse isso, eu seria uma senhora morta!

    A menina que estava sentada algumas mesas a frente de Ester, aparentava ter uns 17 anos, roupas antigas, e o óculos pretos quadrados combinavam com seus cabelos negros e pele branca, não conseguiu se conter e acabou soltando uma leve risada.

    — Está rindo do quê, menina? — a garota engoliu seco — Eu tenho 80 anos e estou muito bem, para a sua informação.

    — Desculpe Dona Meire, eu li uma coisa aqui no livro, e não aguentei —tentou fingir soltando uma leve risada.

    — Sei — seu olhar prepotente cobriu-a — E o que houve aqui? Foi mais uma piada de seu livro?

    — Não, senhora — levantou para ajudá-la a pegar os livros no chão — Eu vi uma menina sentada na mesa ali do canto, e me assustei quando ela gritou com o zelador. Depois disso só ouvi um barulho da cadeira dela arrastar, e ela não estava mais lá — ela pegava alguns livros espalhados pelo chão.

    — Como era essa menina? — dona Meire fez uma cara de quem se lembrava de algo.

    — Olha, eu não prestei muita atenção,  mas ela era mulata, um cabelo lindo cheio de cachos longos, e também..

    — Você viu o que ela tava lendo? — a senhora a cortou.

    — Não.. desculpa! — a garota colocou os livros em cima da mesa.

    — Você disse que ela gritou com o zelador?

    — Sim! Ela disse algo sobre um barulho alto.. se daria pra abaixar.. algo assim.

    — E você ouviu alguma coisa, filha? — suas costas já não eram mais as mesmas de sua juventude, e se esforçou para levantar, recebendo ajuda da garota.

    — Não, Dona Meire. A biblioteca estava tão quieta que se a gente gritasse, dava eco. Assim como ecoou quando ela gritou.

    — Tudo bem, minha querida! Obrigada! — colocou os livro em cima dos outros — Deixe-me ver onde está essa menina.

    A senhora foi em direção ao zelador, e a vendo chegar, retirou os fones rapidamente, dando pause na música.

    — Ooi, Dona Meire! — disse tentando esconder os fones.

    — Rubens, meu filho, você viu uma menina que estava naquela mesa — apontou-a.

    — Ah sim, a menina estranha! Ela tava aqui agora pouco, até gritou comigo.. — coçou a cabeça — Mas não consegui entender o que ela falou — esfregava o chão querendo mostrar que não estava parado.

    — Você viu para onde ela foi? — ajeitou o cabelo sem desarrumar o coque que o prendia.

    — Não a vi, Dona Meire, desculpa! Até pensei que a menina tinha dado no pé, como a maioria dos jovens que vem pra cá. Você sabe como eles são, não é?

    — Sei sim, Rubens — não escondia sua cara de preocupação.

    — Você precisa de alguma coisa, Dona Meire?

    — Não, não! Obrigada, meu filho! Deixe-me ir agora, preciso guardar alguns livros.

    — Qualquer coisa me chama, Senhora! — ela assentiu com a cabeça e continuou andando.

    Seu andar apressado atravessou novamente o centro da biblioteca, indo em direção ao balcão. Entrando, logo foi em direção a segunda gaveta onde havia deixado o livro para entregar ao mentor. Eles haviam combinado de guardá-lo até o pedido do novo suporte e a proteção de vidro fosse entregue para colocá-lo. Quando abriu-a, se irritou em não vê-lo lá dentro. Procurou em outras gavetas, remexendo alguns papéis dentro e fora, sobre o balcão, e bateu a gaveta fazendo ecoar o som pela biblioteca.

    — Essa pestinha me paga! — falou entre os dentes.

    Abrindo os olhos, Ester se sentia meio enjoada, olhou para o chão onde estava caída, o livro estava a alguns metros dela, e o chão era todo de madeira. Atordoada, tentou sentar e observar o lugar. Ela conseguia ver algo muito diferente da qual sua imaginação tentara um dia imaginar. As paredes longas de madeira a cobria por todos os lados, encontrando um telhado côncavo, seguindo caminho ao alto, até os dois lados se encontrarem. Algumas estruturas de madeiras compridas transpassavam abaixo do telhado, dando-o maior resistência, e sobre eles, Ester conseguia ver alguns corvos a encarando. Logo abaixo do telhado, a sua frente, havia uma engrenagem enorme, a qual cobria quase todo o espaço, toda dourada e reluzente, o que a fez pensar que talvez fosse de ouro. E logo abaixo, um pêndulo do mesmo material, tão grande quanto a engrenagem que ela a encarava a sua frente. Assustada com tudo aquilo, se levantou, passou a mão na roupa, ajeitou o cabelo, e o som ainda ecoava tão alto quanto no último segundo antes do relógio a jogar ali: Tic-tac Tic-tac Tic-tac. Pensou que era da engrenagem, mas percebeu que se assemelhava a uma voz ecoando.

    Aquele lugar a lembrava uma catedral, porém toda de madeira, mesmo que o espaço não estivesse organizado como. Conseguiu perceber algumas estreitas e longas janelas espalhadas pelas paredes de madeira. Estava escuro lá fora, a chuva batia fortemente nas janelas, e entre elas, uma tocha acesa, trazendo a única iluminação ao lugar, deixando-o mais sinistro.

    — Pra onde esse livro me trouxe, pelo amor de Deus?! — conseguia ouvir os gritos dos corvos pelo lugar, enquanto esses a encaravam.

    Nos dois cantos ao lado da grande engrenagem, conseguia ver o que se parecia com instrumentos musicais. Dois órgãos, com seus tubos se estendendo pela parede quase tocando o teto. Ela estava sozinha naquele lugar. Os corvos, os trovões que conseguia ouvir do lado de fora, as tochas deixando uma iluminação precária, e aqueles órgãos a fez pensar que tudo propiciava para uma boa cena de terror. Sentiu um arrepio subir pela espinha, e suas mãos suavam.

    Ela pode ouvir quase simultaneamente um coro de vozes se encontrar com um toque do órgão; olhava para os dois lados e não havia ninguém. Sua mente gritava implorando para correr dali, porém ela estava presa naquele lugar.

(Aperte play na música no link acima antes de continuar a leitura)

     O coro pode sustentar alguns segundos quando uma voz, não muito estranha, começou a cantar a introdução de uma música em inglês:

A vida é um mistério
Todos devem permanecer sozinhos
Ouço você chamar meu nome
E me sinto em casa

    — Madonna? — disse para si, olhando para todos os lados.

    Ester viu um corvo gigante sobrevoar o espaço, e antes de pousar, ele se transformou na Madonna. Seus olhos arregalados e sua boca entreaberta, não escondeu a emoção — e a confusão — que ela sentiu naquele momento ouvindo-a cantar, somente para ela. Madonna cantava, podia ouvir o coro, mas não o via, porém tudo que parecia ser sombrio e assustador, se tornara alegre e excitante. A cantora estendeu sua mão para Ester, a garota ainda meio cética, tocou-a devagar e se surpreendeu ao segurar sua mão. Madonna a convidou para dançar enquanto cantava, e, pela primeira vez, Ester se sentiu como se estivesse em seu quarto, nas vezes que aproveitava para ficar cantando e dançando suas músicas. Estava totalmente à vontade naquele momento.

    Depois de um longo repertório, Madonna acabou de cantar, olhou para Ester e deu um sorriso que contagiou as duas. A garota tentou esconder uma lágrima que escorreu de seu olho direito limpando-a, porém a cantora se aproximou e limpando mais uma lágrima que caía, abraçou-a.

    — Você gostou, Ester? — Madonna disse enquanto a abraçava.

    — O que? Eu não tenho nem palavras, sério! Eu estou muito feliz! — seus olhos estavam vermelhos ainda.

    — Foi especialmente para você! — os olhos da cantora brilhavam enquanto falava com ela.

    — Só pra mim? Eu espero que eu não esteja sonhando — soltou uma risada.

    — E você não está! — sorriu. Ester a retribuiu sem saber o que dizer.

    Um tremor tomou conta das longas paredes de madeira, do chão também, fazendo as madeiras ranger, e os corvos voarem desordenados por todo espaço.

    — O que é isso? — Ester indagou.

    — Isso quer dizer que está na hora de você ir! — a cantora olhava para as paredes segurando os ombros da menina.

    — Ir? Mas.. eu realmente preciso? — a intensidade aumentava cada vez mais ao redor delas.

    — Não sou eu que escolho, é o livro! — Ester conseguiu avistar onde o livro estava — Pegue-o, rápido! — Ester pulou até ele, e o fechando, segurou firme em seus braços — Ah, e antes que eu esqueça — ela estendeu o braço, e um corvo pousou no mesmo — Fique com isso daqui! — pegou um objeto de seu bico.

    — O que é isso? — observava o objeto esférico.

    — É um presente! Você vai saber o que fazer com ele, guarde-o!

    — Mas..

    E antes que Ester pudesse terminar a frase, ela viu tudo girar para o lado anti horário, no centro da engrenagem. Dessa vez o tremor e a força que a puxava era muito maior. Os vidros da janela já haviam se quebrados, e as tochas apagadas. Ester foi lançada em movimentos circulares para o centro do redemoinho que havia formado naquele lugar. Madonna havia sumido já. O mal-estar veio mais rápido dessa vez, assim como a força que a puxava. E como num piscar de olhos, Ester teve a visão da biblioteca, seu corpo estava indo rapidamente em direção ao chão, mas não deu tempo, sentiu sua cabeça bater no chão, e desmaiou.

Notas do Autor

Se gostou, não esqueça de votar! ♡

Gostaria que eu postasse o 14° capítulo para continuarmos a leitura?

Add esse livro a sua biblioteca para receber as notificações e não perder os próximos capítulos!

Comente o que achou, sua opinião é muito importante!

Obrigado!

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top