CAPÍTULO 1

  Há 15 anos atrás uma menina, da maneira que sua mãe sempre sonhou, estava nascendo. Numa cidade do subúrbio, o quartinho dela já estava preparado para recebê-la. Sua vinda ao mundo não foi das mais agradáveis. Não a sua mãe pelo menos, que havia passado horas e horas em trabalho de parto normal. Desde então, sua vida começou e se estabeleceu naquela mesma casa.

    Aos 3 anos de idade, ela sempre cantarolava músicas que sua mãe cantava para ela antes de dormir, e como toda mãe, achava tudo aquilo uma dádiva. Sua mãe era uma mulher muito amorosa, honesta, protetora e trabalhava como dona de casa, sempre cuidando e zelando pela sua casa e sua família.  Seu pai era um homem muito esforçado, exigente e muito talentoso em seu trabalho. Ser pedreiro para ele era uma arte, e fazia seu trabalho da melhor maneira possível.

    Faça um trabalho bem feito, e as pessoas sempre vão querer mais. Seu pai sempre dizia.

    Quando Ester estava com 6 anos, a melhor hora do dia era ligar a TV velha que ficava no quarto de seus pais, enquanto seu pai estava trabalhando e sua mãe fazendo os deveres de casa. Ela ligava aquela televisão e não havia ninguém que a tirasse de lá.

    Porém, ela não era como as outras crianças que ama sentar e ficar assistindo, hipnotizadas, sua TV, mastigando algo e tomando um belo copo de leite. Seus dedos já estavam habituados e assim que a ligava, o primeiro canal que ela colocava era o de música, e lá ficava o dia todo se deixasse. O que ela mais amava era pegar a escova de cabelo de sua mãe para fingir que era seu microfone, e começava a cantar, bem enrolado, mas em uma intensidade em que ela não conseguia se segurar, e seu corpo o acompanhava, até tropeçando e caindo, como já havia acontecido algumas vezes.

    Já na escola, Ester sempre foi muito inteligente, se destacava em sua sala, principalmente em matemática e línguas. Ela amava inglês, e começou pouco tempo depois a aprender sozinha ouvindo músicas. Porém, foi na escola que ela começou a sentir como é a vida de verdade. Mesmo que ela quisesse ficar o dia todo na frente da TV vendo clipes de música, cantando e dançando, não era bem assim.

Todas as manhãs ela ia para escola, e desde cedo já sentia como era a indiferença das pessoas interesseiras, e como as mesmas agiam como se a amasse, só para ter algo dela.

    — Mari, eu já te disse que eu não conheço ninguém! Você acha que eu sou o que? Cupido?

    — Você também não presta pra nada, né, Esterzinha? Eu só perguntei se conhecia o Julian.

    — Eu já disse que não o conheço! — enfatizou.

    — É claro que não! Fica se afogando nesse celular, ouvindo música o dia inteiro, se isolando do mundo, se achando A cantora..

    Enquanto falava, Ester cerrou o pulso e sua sobrancelha direita levantou. Um sinal nítido que ela já estava estressada.

    — ..Sem amigos, sem namorado, e se continuar assim vai ficar velha, sem ninguém. Só você e sua lã de tricô! — riu olhando para suas amigas.

    Ester se segurou, deu pause na música que estava ouvindo e respirou fundo.

    — Mari, eu tenho muita pena de você.

    — Pena de mim?? Pelo menos não vou ficar igual você, querida!

    — Antes sozinha, do que com alguém como você do meu lado! — olhou-a fixamente.

    — Dane-se! — virou o rosto.

    — Nem parece que entramos juntas nessa escola!

    — Você que se isolou, Ester!

    — Eu não me isolei, Mari. Você sabe disso.. — disse calma.

    Ester passou os dedos enquanto falava sobre uma pulseira que todas tinham iguais desde o ano que entraram.

    — .. Eu apenas reconheci quem se importa verdadeiramente comigo. — tirou a pulseira, colocou o fone, deu Play, e saiu.

***

    Ainda no começo do ano, certa vez, um novato na sala, além de se interessar por sua beleza, ficava com muita preguiça de ficar fazendo os trabalhos e lições de casa que a professora passava. Ester, por ser tímida, muito observadora e por ter sua intuição feminina como bônus, captava rápido as coisas que estavam acontecendo, e lógico que ela já sabia o que César estava querendo com ela. Inocente era a última coisa que ela seria.

    — Oi Ester! — disse ele apoiando seu braço sobre a mesa dela. — Você faria minha lição de casa se eu te desse.. uma coisa?

    — Uma coisa? — ela riu — O que você quer César? Fala logo!

    — Que tal.. um beijo meu?

    — Dá licença, César! — respondeu empurrando o braço dele para fora de sua mesa. — Sai daqui!

    Além de interesseiro, fica se jogando pra cima de mim? Ele está se achando muito mesmo, né? Ela pensou.

    O que César não entendia era que ela sempre foi muito decidida e não gostava de pessoas como ele. Mari, por sua vez, começou a mudar, e não Ester. Ela apenas percebeu que sua amiga não era mais a mesma de quando a conheceu quando entrou na escola.

    Realmente, o mundo está em constante mudança!

Notas do Autor

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