Vida no Inferno e Inferno na Vida


Nahemah

Inferno


A aula de tortura de almas estava um tédio e Nahemah não via a hora de poder estar em seu quarto no palácio infernal. Nem mesmo a aula de atormentar mentes estava lhe agradando mais e, de uns tempos para cá, a princesinha, como os outros alunos da escola a chamavam, só queria saber de ficar em seu quarto observando o mundo humano, que ela tanto queria visitar, mas, por ordens superiores, demônios só podiam ir para a terra através de portais abertos por rituais de pacto e como, há muito tempo, as pessoas deixaram de acreditar em céu e em inferno e pararam de procurar os rituais, tudo o que ela tinha era o seu tablet que, graças à Zellmalich, seu único amigo, que era um demônio da tecnologia, conseguia pegar tanto a internet do inferno, quanto a dos humanos. O seu passatempo favorito era ficar assistindo a vida dos humanos, invejando a liberdade deles de escolherem o que fazer de suas vidas.

Ela era um súcubo e por ser filha do rei e da rainha do inferno, tinha o destino de ser a rainha dos súcubos e era treinada para isso desde que entrou para a adolescência que é quando um demônio completa cento e doze anos e durante setenta e sete anos, vinha estudando as técnicas e desenvolvendo a sua magia de sedução. O tempo no inferno passava de modo diferente do que passava na terra e, enquanto para os humanos se passava um dia, para os demônios e as almas condenadas ao sofrimento eterno, se passavam sete dias, com essa porção de sete para um, Nahemah com seus cento e oitenta e dois anos de idade, tinha aparência de uma humana de vinte e seis anos. Nunca teve sequer um namorado, afinal o fato de ela ser filha de Lúcifer, espantava qualquer possível pretendente e o único que aguentava as doideiras e dramas dela, era Zell, que sempre se metia em confusões por causa dela.

Enquanto ela e Zell caminhavam pelos corredores da escola, na hora de ir embora, eles ouviram a voz de sua mãe na sala da diretora Lâmia e, se aproximando da porta, eles começaram a escutar a conversa, que se dava através de uma projeção. Lilith, a rainha do inferno, convidava a diretora para ser a oradora da cerimônia de coroação de Nahemah, dizendo que ela ocorreria dali a sete dias. A diretora aceitou de bom grado, até porque nenhum demônio em sã consciência recusaria qualquer convite da rainha. Nahemah saiu correndo de lá, com Zell em seu encalço, pedindo que ela se acalmasse. Ela não queria se acalmar, queria fugir daquilo tudo, mas não havia lugar no inferno onde o seu pai não pudesse encontrá-la, afinal ele era o soberano do local.

Chegando em sua casa viu a movimentação dos demônios organizando o palácio infernal, enquanto a sua mãe os orientava. Sem vê-la, Lilith deixou o salão principal, seguindo rumo a sala do trono e Nahemah a seguiu, pensando em falar para ela como se sentia com tudo aquilo, mas, por uma fresta na porta, viu a sua mãe e o seu pai conversando e estavam bem empolgados com a sua coroação.

Ao ver o quanto a sua coroação era importante para eles, ela não teve coragem de dizer que não queria nada daquilo e que queria apenas ser normal e ter liberdade, como os humanos tinham. Então apenas seguiu para o seu quarto, que era o único lugar onde ela podia ser ela mesma e chorou, enquanto assistia a um vídeo do mundo humano. No vídeo, as garotas saíam juntas e faziam coisas de garotas, rindo e se divertindo, enquanto flertavam livremente com os garotos.

Ela sabia que, no mundo humano, não seria considerada mais uma garota. Teria o equivalente a vinte e seis anos humanos e, com essa idade, eles já são adultos. Para os humanos aos dezoito anos é alcançada a maioridade, mas para os demônios no inferno, essa maioridade chegava aos duzentos e dez anos, que equivalem aos trinta anos humanos. Agora, ela seria coroada Rainha dos súcubos e depois de vinte e oito anos, quando alcançasse a maioridade, já poderia se casar e ser coroada Rainha do inferno, deixando a sua mãe e o seu pai descansarem de suas obrigações.

Enquanto chorava, Nahemah sentiu todo o seu quarto tremer e, instintivamente, saiu para ver o que estava acontecendo. Charon, o responsável pelos portais do inferno, adentrou o palácio, dizendo que um humano estava fazendo um ritual e solicitava um pacto. Como aquilo não ocorria a mais de trezentos e cinquenta anos, uma assembleia extraordinária foi solicitada e todos os demônios do círculo maior foram participar. Vendo que todos os demônios voltaram as suas atenções para a assembleia, Nahemah teve uma ideia louca e, após voltar ao seu quarto para buscar algumas coisas, saiu escondida e correu até a torre de Charon.

No centro da sala principal da torre, uma chave enegrecida flutuava sobre um altar. Tanto a chave quanto a plataforma brilhavam como se estivessem ligadas a alguma fonte de energia. Sem pensar mais, ela levou a mão até a chave e a conduziu até o orifício que era feito sob medida para o objeto. No espaço atrás do altar, uma fenda começou a se abrir, revelando uma luz branca cegante, que não a deixava ver absolutamente nada do outro lado. Mesmo sem imaginar o que a esperava do outro lado daquele portal, Nahemah o atravessou levando consigo a chave, para que ninguém do inferno pudesse ir atrás dela.

 

Edward Castaway

Crossroad Valley 

Seu despertador tinha falhado mais uma vez e ele precisava se apressar, o parto estava marcado para às nove da manhã e ele estava esperando aquele momento durante toda a gestação, que acompanhou de perto como se fosse um filho seu que estivesse para nascer.

Como não era algo exato, ele precisava chegar o quanto antes, ou perderia a chance de tirar as melhores fotos e, consequentemente, perderia a comissão também. Desde que o seu pai faleceu, a sua única fonte de renda estava sendo as comissões que ganhava pelas colunas de variedades no jornal da cidade e, como morava em Crossroad Valley, as variedades eram apenas nascimentos de bezerros premiados, legumes gigantes, competições de comidas típicas, festas tradicionais, cerimônias religiosas e casamentos.

O trabalho da vez era o primeiro filhote da vaca Hope, que era uma celebridade da cidade, após ganhar campeonatos pelo país. O senhor Milton, dono da maior fazenda de leite da região, tinha muita esperança no bezerro que estava por vir e a fama da vaca iria render a Edward uma boa comissão, então precisava das melhores fotos. Vestiu a primeira roupa que viu pela frente, pegou a chave do seu carro velho, engoliu um pão seco com café e saiu apressado, carregando o seu equipamento.

Ele não era religioso, mas pediu a Deus que o carro funcionasse e, quando girou a chave, viu que Deus não o atendeu em nenhuma das cinco vezes que ele tentou, então desceu do carro. Não tinha tempo para procurar o defeito e consertá-lo, então se lembrou da bicicleta que o seu pai tinha na garagem e, munido de seu equipamento, correu até lá para pegá-la. Não era um atleta, muito pelo contrário, era ocioso e preguiçoso quando o assunto era exercícios físicos, mas teria que pedalar o mais rápido que conseguisse para não se atrasar para o evento.

Mesmo com a topografia predominantemente plana da cidade, na quarta quadra ele já pensou que iria morrer, mas precisava respirar fundo e seguir, pois ainda faltavam mais de dez e chegando na penúltima, passou em um buraco e viu os dois pneus da bicicleta furarem ao mesmo tempo, o que o obrigou a correr, com a bicicleta nos ombros, pelo resto do trajeto.

Felizmente, ele chegou vivo e à tempo de ver o nascimento, que foi um sucesso e gerou ótimas fotos. Tinha gastado uma fortuna com a sua câmera e as fotos dela estavam aos poucos fazendo valer o investimento. Em breve seriam só lucros que ele teria com aquele equipamento de última geração então tinha valido a pena gastar todas as suas economias se equipando.

Enquanto caminhava pela fazenda, após ter terminado a entrevista, esperando o caseiro dos Milton colar os furos dos pneus de sua bicicleta, Edward foi surpreendido por um touro, que se chocou violentamente contra a madeira do cercado, no momento em que ele passava, dando-lhe um baita susto. Segundo os cuidadores, aquele touro sempre ficava agitado quando algum bezerro ia nascer e se tornava inclusive agressivo.

Agradecendo por estar protegido pelas cercas, Eddie continuou caminhando, até que ouviu o barulho da madeira se partindo e o grito do cuidador, lhe mandando correr. Olhando para trás, ele viu o grande animal, do lado de fora do cercado, se preparando para atacá-lo e, antes que ele o fizesse, começou a correr desesperadamente e, por puro reflexo, instantes antes de ser atingido, saltou por cima de uma cerca de madeira, para dentro de outro curral, aterrissando dentro de uma imensa poça de lama. Pela sua imensa sorte, era de se esperar que pularia exatamente no curral dos porcos e, que por ser a época de calor, aquela poça estaria tão cheia. Para completar a maré, ele viu que a sua câmera, que estava pendurada em seu pescoço quando pulou, foi parar no fundo da bacia de água dos porcos.

Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ele não iria chorar, não daria aquele gostinho ao destino, que queria acabar com ele, então se levantou sujo de lama da cabeça aos pés e pegou a sua câmera, que, como esperado, não estava funcionando. Não esperou mais pela bicicleta, apenas caminhou para fora da fazenda e foi para casa a pé, para ver se tinha a sorte de ao menos o cartão de memória ter se salvado.

As pessoas olhavam para ele, curiosas, enquanto ele caminhava lentamente e de cabeça baixa sem a comissão e sem a sua câmera nova, que ele nem tinha terminado de pagar ainda. Entrando na sua casa, jogou as roupas na lixeira e tomou um banho demorado, tentando não pensar em todo o seu azar. Parecia que aquelas coisas só aconteciam com ele e, enquanto as outras pessoas conseguiam ter sucesso em suas vidas pessoais e profissionais, para ele só tinha sobrado o fracasso em tudo.

Saindo do banheiro, ele foi até o seu notebook, velho e um pouco quebrado após o seu gato, Charmie, jogá-lo algumas vezes no chão. Lembrar-se de Charmie o fazia sentir saudades, já que o bichano tinha ficado com Siobhan, sua ex-mulher, após o divórcio. Retirando o cartão de memória do que restou da máquina fotográfica, ele o colocou no notebook e, como já era de se esperar, estava apresentando erros. Todas as fotos estavam perdidas e com isso, metade da sua comissão seria perdida, pois as fotos da matéria não levariam o seu nome, já que ele deveria improvisar com outras imagens.

Ele teve vontade de jogar o notebook pela janela, mas pensou bem e concluiu que se fizesse aquilo, só teria mais despesas. Depois de tudo o que tinha acontecido naquele dia, ele olhou para o alto, como se procurasse a pessoa que estava manipulando o seu destino para que nada desse certo, e soltou a famigerada frase, que sempre vem acompanhada de mais má sorte — O que mais pode dar errado, hein? Vamos lá, eu sei que você pode fazer melhor do que isso!

Enquanto questionava o vazio, ouviu a sua campainha tocar e, indo até a porta, viu que era Siobhan, sua ex-mulher, mas não era uma visita social, já que ela estava com o seu uniforme de xerife e trazia um envelope em suas mãos. Ela lhe entregou a carta que, pela expressão que fez, ele imaginou que não era boa notícia e, assim que a abriu, viu que realmente não era.

Se tratava de uma notificação judicial de despejo, que explicava que o banco estava tomando a casa e que ele tinha quarenta e oito horas para deixar o local. Pelo visto, o seu pai tinha hipotecado a casa, mas nunca tinha pagado nenhuma prestação, então ele tinha duas opções, pagar a dívida acumulada e continuar pagando as prestações, ou deixar a casa para o banco como garantia de quitação da hipoteca. Se lembrando do desafio que fez instantes antes, ele olhou para o alto novamente e voltou a conversar com o manipulador do destino — Agora você exagerou um pouco!

— É uma merda o que está acontecendo Eddie — Siobhan disse, com um olhar de pena —, o seu pai fodeu com tudo, mas você pode recomeçar. Só precisa planejar e executar melhor as coisas.

— Siobhan — ele falou, ignorando o que ela estava dizendo —, se importa de me levar até a sede do jornal?

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