Explicando o Inexplicável

Edward chegou até a se esquecer que tinha uma jovem demônio recém-saída do inferno ali na sua casa, mas agora precisava pensar em uma explicação para aquela cena que sua ex-mulher estava presenciando. Ele queria dizer a verdade e se imaginou dizendo algo do tipo: "Esta é a Nahemah, Siobhan. Ela é um demônio que fugiu do inferno através de um portal que eu abri depois de fazer um ritual para vender a minha alma, mas não se preocupe, porque, como tudo na minha vida, não deu certo e ela só está aqui para passar a noite", mas sabia que não poderia dizer aquilo, então apenas disse o clássico: — Não é o que você está pensando. Eu posso explicar!

— Você não precisa explicar nada, Edward — ela respondeu, pronunciando o nome dele de um modo ácido que nem tentava esconder a pontada de ciúmes que a estava incomodando —, eu é que peço desculpas por ter invadido a casa desta forma, mas já estou de saída.

— Espere, Siobhan — ele gritou, enquanto ela caminhava com passos decididos na direção da porta, fazendo-a parar, se virar para ele e cruzar os braços, indicando que não estava com paciência —, ela é uma prima que veio de Porto Rico. Se lembra que eu contei sobre os parentes que tinha lá? Então, na ilha de onde ela veio todos eram naturistas, por isso ela está acostumada a andar nua, mas eu já expliquei que aqui não podemos andar nus. Acontece que ela teve a bagagem extraviada e chegou aqui só com a a roupa do corpo, então eu disse para ela que podia vestir as roupas que você deixou aqui, porque imaginei que você não ia se importar.

— Debes de ser Siobhan, la ex de Edward, ¡eres tan hermosa como él describía en las cartas! — Para a surpresa dele, a jovem tomou a palavra, falando em espanhol, como se tivesse entrado no personagem da história que ele tinha acabado de inventar, enquanto ia até Siobhan e a cumprimentava com um abraço e beijos no rosto — Me llamo Nahemah, ¡es un placer conocerte!

— O prazer é meu, eu acho — Siobhan respondeu, desconcertada com a atitude da jovem —, eu não me lembrava que você tinha parentes lá. Quanto às roupas, eu realmente não me importo. Na verdade, já estava planejando doá-las há algum tempo.

— Gracias! — Nahemah disse, lançando-lhe um sorriso largo — Você é muito gentil!

— Eu iria perguntar se você só falava espanhol — Siobhan disse, ainda meio desconcertada —, mas vi que domina bem o inglês.

— É o nosso segundo idioma — a jovem respondeu —, mas ainda estou me acostumando a falar só com ele. Nunca tinha saído do inferno antes.

— Inferno? — a mulher perguntou, sem entender.

— É o modo como ela fala da ilha onde mora. — Edward interferiu, vendo que Nahemah tinha escorregado — Mesmo sendo um paraíso tropical para os turistas, parece que os jovens não gostam muito de viver lá.

— Lá faz muito calor o tempo e nós não temos muita escolha do que seremos na vida — Nahemah justificou, mais uma vez surpreendendo ele com a sincronia com que ela agia com os pensamentos dele.

— Ah, eu imagino como deve ser difícil crescer em um lugar assim — Siobhan falou, parecendo mais tranquila.

— A sua prima é muito bonita, Eddie — a mulher continuou, após a jovem subir as escadas para se vestir. O modo como ela falou o nome desta vez, mostrava que tinha comprado a versão que eles lhe deram —, dá até uma ponta de inveja daquele bronzeado no corpo todo. Artificialmente é impossível conseguir sequer um parecido.

— Eu não esperava que ela fosse vir para cá — ele disse, agora mais aliviado. Inventar histórias era uma de suas habilidades e agora teria que continuar aquela, inclusive mantendo Nahemah por perto —, até porque sempre manifestava a vontade de ir para lá, nas cartas que eu enviava.

— Você certamente não contava para eles como anda a sua vida, não é mesmo? — ela perguntou, referindo-se aos fracassos recentes que o aconteceram.

— Realmente não! — Ele pegou o copo em cima da mesa de centro e tomou em um gole só — O pior é que ela simplesmente brotou aqui, como se tivesse atravessado um portal dimensional para fugir de casa, e eu não tenho condições de cuidar nem de mim no momento.

— Olha, Eddie — Siobhan disse, se aproximando dele e colocando a mão no ombro dele em apoio —, o convite está estendido para ela também, então junte as suas coisas, diga a ela que pode ficar com todas aquelas roupas e podem ir os dois lá pra casa enquanto tentam ajustar as suas vidas.

— E quanto ao Charlie? — Edward se referiu ao atual namorado dela — Não acho que ele gostará muito da ideia.

— Você me conhece o suficiente para saber que eu não costumo pedir permissão a ninguém para tomar decisões — ela disse, com seu tom confiante de sempre —, ainda mais quando se trata da minha casa.

Charles Webster era um repórter bem sucedido, recém-promovido a âncora do telejornal local. A sua personalidade arrogante não era compatível com a de Edward, logo, eles não se davam bem. Edward inclusive gostava da ideia de ficar algum tempo na casa de Siobhan, desde que isso fosse incomodar a Charlie de alguma forma.

— Tudo bem então — ele disse, sorrindo —, Nahemah e eu vamos aceitar a sua oferta e agradeço muito por ser essa amiga que sempre foi, mesmo sem eu merecer na maioria das vezes.

— Qual é, Eddie — Siobhan deu um tapa no ombro dele, em sinal de camaradagem —, você sabe que essa parada de não merecer não é verdade. Agora eu preciso ir, porque hoje é dia de plantão. Vou deixar os quartos preparados para recebê-los amanhã à noite depois que você entregar as chaves daqui.

— Está bem, Siobhan —  Eddie assentiu e acompanhou ela até a porta que ela tinha arrombado —, obrigado,  mais uma vez. E não se preocupe com a porta, eu conserto isso em alguns minutos com as ferramentas do meu pai.

Enquanto ela se afastava em seu carro, ele foi até a garagem e pegou ferramentas e materiais necessários para o reparo no marco da porta, retornando a seguir e iniciando o trabalho. Em poucos minutos, o estrago não existia mais e ele agradeceu mentalmente as vezes que viu o pai trabalhando, mesmo a contragosto, porque foi possível aprender alguns macetes que usava vez ou outra. Enquanto finalizava o reparo, um barulho chamou a sua atenção e, olhando na direção das escadas, teve uma visão que o fez congelar.

Nahemah estava vestida, e as roupas de Siobhan se ajustavam perfeitamente a ela. A blusa de seda deslizava suavemente pelos ombros dela, destacando sua pele impecável. A saia curta e rodada se curvava graciosamente em seu corpo, revelando suas curvas de forma elegante. Edward acompanhou cada detalhe, das sandálias rasteiras que davam a ela um look casual e despojado, até o cabelo dela, que caía como um véu escuro e misterioso. A surpresa e o fascínio inundaram seus olhos, enquanto ele a observava em câmera lenta, como se fosse impossível desviar o olhar.

— Acho que as roupas me serviram bem — ela disse, tirando o do transe que tinha entrado assim que a viu.

— Eu tenho certeza que sim! — ele falou, instintivamente, mas quando percebeu que as palavras saíram com um tom galanteador, fez questão de se retratar — Digo, realmente parece que vocês têm o mesmo manequim. Inclusive ela disse que você pode ficar com as roupas que estão lá no guarda roupa.

— Sério? — ela deu um gritinho, como uma jovem humana normal, assim que ouviu o que ele disse — Eu amei todas. Foi até difícil de escolher.

— Me diz uma coisa, Nahemah — Edward falou, meio desconcertado pelo modo como a olhou há pouco —, você consegue ler mentes? O modo como começou a falar em espanhol e corroborou a minha história fez parecer que tinha atendido ao meu pedido mental de ajuda.

— Eu não acho que seja uma habilidade de ler mentes — ela respondeu um pouco incerta —, na verdade eu não sei te explicar, mas desde que saí daquele portal, sinto que sei muitas coisas sobre você e, naquela hora que inventou a história para a sua ex-mulher, foi como se você tivesse me pedido em pensamento para não te desmentir. O resto foi de modo automático, como se as informações sobre a língua falada em Porto Rico e as cartas que você escrevia para os seus parentes brotassem na minha mente.

— Entendo — ele disse, após pensar por uns instantes —, depois eu irei pesquisar sobre isso, mas deve ser alguma ligação mística ou algo do tipo. Eu sempre pensei que essas coisas fossem apenas mitos e fantasia, inclusive já escrevi muitos contos, mas nunca imaginei que algo assim pudesse existir.

— E olha eu aqui falando sobre essas coisas com uma jovem demônio que ajudei a fugir do inferno. — ele riu-se da ironia da situação — Você sabe que agora é a minha prima de Porto Rico e o que isso significa, né?

—  Só sei que, pelo visto, vou ter ajuda para me adaptar por aqui — ela disse e sorriu, fazendo-o rir também. Era certo que depois de ter inventado aquela história para Siobhan, ele teria que mantê-la por perto. O que não deixava de ser algo interessante para ele, que precisava de algo novo para fazê-lo esquecer de suas desventuras.

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