DEZ

Enquanto Hector arrumava a bolsa de Anelise, guardando todas as coisas que as amigas haviam trazido para ela durante os dias em que ficou hospitalizada, Ane observava o pai em silêncio, sentia que ele queria lhe falar algo, mas que estava hesitante. E sempre que ele estava assim, alguma bomba estava prestes a cair em seu colo.

Apesar de Hector ser um tubarão nos tribunais, quando se tratava da filha as coisas eram completamente diferentes. Ele era sempre calmo e muito dedicado a ela.

— Está pronta para ir? – questionou quando fechou a última bolsa.

— Mais que pronta, não aguento mais esse cheiro de hospital. – reclamou. Pegou suas muletas e fez menção de se levantar, mas foi impedida por Camille e Alex que entraram no quarto empurrando uma cadeira de rodas.

— Nem pense nisso. – disse Alex se aproximando com a cadeira da cama onde Anelise estava.

— Vocês sabem que eu estou bem? Minhas costelas estão praticamente curadas, e eu não estou sentindo tanta dor assim nos joelhos e nem no quadril. Eu posso claramente sair daqui como uma pessoa normal. – disse, mas foi completamente ignorada pelo pai e pelas amigas.

— Você está dizendo isso por que está dopada de remédios para dor. – a voz rouca de Dexter cortou o ambiente e Ane ergueu os olhos, encontrando a figura masculina escorada no batente da porta, os braços cruzados contra o peito, fazendo com que seus músculos ficassem marcados na camiseta.

— Oi – disse em um fio de voz, estava meio inebriada pela visão dele.

Ele soltou um risinho convencido ao notar como a deixava desestabilizada e se desencostou do batente, caminhando até ela e lhe oferecendo a mão.

— Oi Rapunzel – brincou, arrancando uma negação de cabeça dela e um sorriso fraco.

Dexter ajudou Anelise a se sentar na cadeira de rodas e entregou as muletas dela para Camille, em seguida tomou sua posição, guiando a cadeira dela para fora do quarto.

— Isso é completamente ridículo. – disse Ane baixo.

— Sua recuperação não é nada ridículo, querida. – disse Hector.

— Vocês estão todos contra mim. – respondeu de forma emburrada.

Quando saíram do hospital, Dexter guiou a cadeira pelo estacionamento até onde seu carro estava. Um Volkswagen Tiguan Allspace branco, modelo esportivo, que acomoda de cinco a sete pessoas. Dex destravou o carro e abriu a porta do carona para Anelise, que ergueu os olhos não entendendo o porquê de ela ir com ele.

Hector, abriu a porta de trás e enfiou as bolsas de Ane e as muletas no veículo e fechou a porta em seguida.

— Eu não estou entendendo. – disse, após aceitar a ajuda de Dexter e entrar no veículo.

Hector se aproximou dela e pegou em sua mão.

— Você está indo com ele. – disse. — Dexter vai te tirar da cidade e quando aqui for seguro, você volta.

— Vocês estão exagerando. – reclamou.

— Não estamos, Anelise. – disse Alex se aproximando. — Você viu o que aconteceu comigo quando se tem um alvo na cabeça, não queira passar por tudo que eu passei apenas por ser uma garota teimosa. – Os olhos azuis de Alex encontraram os de Dexter. Como se quisesse ter certeza que ele cuidaria bem da amiga. — Dexter vai te proteger.

O ruivo sorriu para ela, um sorriso contido, mas que significava muitas coisas. Desde que abriu o jogo com Alex sobre o que seu irmão fazia e o que era realmente o negócio de sua família, ele vinha aos poucos tentando ganhar a confiança da loira, e ali, naquele momento ele sabia haver conseguido o seu objetivo. Alex confiava nele.

— Eu não preciso ser protegida! – esbravejou.

Dexter fez menção de rebater a afirmação dela, mas foi impedido por Hector.

— Não estou perguntando se você precisa ou quer ser, eu estou mandando você ir com o Dexter. Não estou pedindo sua opinião, você pode ser adulta, uma mulher casada e todo o caralho, mas eu ainda sou seu pai e você me deve obediência, mesmo que não queira. – o tom de voz de Hector era tenor, e Anelise e encolheu no banco, o pai nunca havia falado assim com ela, e mesmo que desejasse abrir a boca e rebater o que ele disse, ela não podia. — Você ainda vai me agradecer pelo que estou fazendo. – curvou o corpo para dentro do veículo e beijou os cabelos da filha antes de se afastar e deixar que as amigas se despedissem dela.

Dexter se aproximou de Hector.

— Vou manter ela em segurança. – disse apertando de leve o ombro direito do sogro.

— Confio em você. Cuide bem da minha menina. – pediu.

— Pode deixar, senhor.

Hector balançou a cabeça e se afastou indo em direção ao seu carro.

Camille e Alex após se despedirem de Ane, se aproximaram se despedindo dele e seguindo seu caminho. Dexter abriu a porta do carro e ocupou o seu lugar atrás do volante.

— Coloca o cinto, por favor. – pediu a Ane antes de dar partida no carro e manobrar ele para as ruas movimentadas de Chicago.

Ela não estava contente com a situação em que se encontrava, mesmo que tivesse deixado que Dexter se aproximasse nessas semanas em que passou no hospital, seu pai e amigas não tinham o direito de lhe jogar nos braços dele sem perguntar como ela se sentia em relação a isso.

Havia muita coisa não dita entre eles, e apesar de sentirem o elefante rosa na sala sempre que ficavam sozinhos, nenhum dos dois tomava a iniciativa para falar sobre.

Ela queria gritar com ele, lhe questionar sobre o porquê de ter partido, mas ao mesmo tempo não queria saber os motivos dele. A raiva e a razão brigavam dentro dela e enquanto não conseguisse controlar suas reações preferia se manter em silêncio.

— Para onde estamos indo? - questionou quando o viu pegar a I-90.

— Eu tenho uma cabana em Palos Hills, vamos ficar lá até as coisas se acalmarem. – respondeu com os olhos na estrada. Não precisava olhar para ela para saber o que Ane estava pensando.

— No meio do mato? - disse. — Não podemos ficar na cidade?

— É para a sua segurança. - respondeu.

— Por favor?!

— Não dá, sinto muito. – disse com a voz calma. — Eu sei que temos muito o que conversar, muitos pontos para pôr os ís, mas eu juro, Ane, vou lhe contar tudo. Sem segredos, sem mentiras, apenas a verdade nua e crua.

Anelise suspirou alto e concordou, encostou a cabeça na janela do carro e deixou seu olhar vagar pela paisagem, enquanto vários questionamentos surgiam em sua mente. 

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