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A sala de jantar nunca antes pareceu tão vazia, não desde que Louis havia chegado ao castelo no meio do pântano. Três semanas tinham se passado desde a coisa completamente imoral naquele quarto na torre que emanava energia sexual em todos os quatro cantos, o desejo gotejando pelos adornos da cama, lençóis de seda e estreitando através de cada mínimo pequeno espaço a se ocupar. Louis não tinha magia em si, nenhum grama sequer, no entanto, era mais do que capaz de reconhecer alguns feitiços básicos quando via um. E, naquele quarto, estavam todos juntos de uma só vez. "Provavelmente um aposento destinado aos prazeres físicos" foi o que pensou antes de dormir naquela mesma noite, suas bochechas queimando e o cobertor lhe cobrindo até o queixo, tamanha era a vergonha que sentia de si mesmo por apenas ceder aos anseios sombrios que corroíam sua alma desde então. Naquela noite, ele sonhou com o senhor demônio do pântano, sonhou com aquelas mãos de dedos longos arrastando-se por sobre sua pele, os lábios ardentes beliscando a área sensível em seu pescoço, descendo por todo o contorno de suas asas inacabadas. Sonhou por horas com o que poderia ser descrito como os atos mais indecentes que sua mente de fada poderia sequer imaginar e, quando a manhã chegou, percebeu que parte do sonho tinha sido jateado para a realidade de modo que seus lençóis e cobertores estivessem quase que totalmente arruinados, pegajosos em restos de ejaculação noturna. Litros, aparentemente. Na manhã seguinte, Louis treinou diante do espelho sua melhor expressão de desinteresse, gastou as poucas horas antes do café da manhã em ações para mascarar seus verdadeiros e nebulosos sentimentos, esconder a maneira como o estômago dentro de si vibrava e ardia com as lembranças de seu sonho tão malditamente vívido que lhe era uma surpresa que as marcas dele não estivesse espalhadas por todo o corpo. Não estava. E somente isso foi capaz de mantê-lo de cabeça erguida durante todo o curto trajeto de seu quarto usual até a sala de refeições onde, com o coração na mão, empurrou as pesadas portas de maneira apenas para... não encontrar ninguém.
Harry, o demônio do pântano, não estava lá naquela manhã em específico.
Nem para o almoço, logo depois.
E jantar, tampouco.
E assim foi pelas três semanas desde então.
Às vezes, Kendall passava algum tempo ao seu lado, empurrando livros e mais livros de magia antiga, fazendo-o vasculhar a enorme biblioteca do castelo atrás de qualquer coisa que lhes dê alguma pista sobre o que diabos havia de errado com ele, mas... nunca era o bastante. A familiar sempre se esquivava de suas questões acerca do demônio e o ocorrido naquele quarto no topo da torre, aos poucos, esqueceu-se como se nem sequer houvesse acontecido um dia. Agora, Louis passava mais tempo com as gárgulas do que em qualquer outro lugar. Ele ajudava a polir, limpar, esfregar, plantar e cozinhar. As pontas de seus dedos tinham pequenos cortes da colheita de romã, algumas fendas causadas pelas facas muito afiadas da cozinha e em sua roupa de trabalha já não havia mais sombra alguma de cor. Com a ajuda sempre bem vinda de Zayn, a fada tinha arrancado as mangas de uma das primeiras camisas que o demônio do pântano fez aparecer em seu quarto, deixando seus braços livres para melhor trabalho em arar as terras da horta, cortar a lenha, trepar no topo das árvores e moer castanhas para o leite vegetal. Quando havia chegado ali, Louis pensou que grande parte do trabalho era feito sob feitiços e o manufatureiro não fosse algo comum, mas viu-se completamente enganado em pouco tempo. "A magia das gárgulas é muito mais para defesa do que qualquer outra coisa, nossos braços são fortes, em contrapartida" disse Zayn em um tarde especialmente quente enquanto ambos pisavam em grandes tonéis de uvas para fazer vinho, afundados até os joelhos na mistura, os torsos nus enquanto o sol parecia fielmente disposto a ultrapassar o topo das árvores grossas e chicotear suas costas cansadas. Aquela foi a primeira vez que Louis abriu suas asas na frente de alguém que não fosse Niall – seu velho amigo leprechaun de quem agora sentia muita saudade, de fato. Mais tarde, naquele mesmo dia, Zayn retribuiu sua confiança ao colocar-se em sua verdadeira forma, a pele tornando-se pedra e grandes asas crescendo a partir das sombras. Quando a gárgula levantou vôo no céu noturno, Louis aplaudiu com todo o seu peito moendo de felicidade, admiração e encantamento ainda que, apenas em seu próprio quarto, ele tenha se permitido derramar algumas lágrimas frustradas sobre si mesmo.
A amizade de ambos crescia a cada dia, fortificando-se como as grandes videiras entremeadas aos carvalhos nos fundos do castelo. Eles tinham muito em comum, Louis notou logo. Dois jovens sem família alguma para zelar por suas vidas que haviam encontrado naquele lugar uma maneira de sobreviver, um teto sobre a cabeça e a paz de ter uma refeição para desfrutar a cada dia. Às vezes, Louis até mesmo se esquecia de onde deveria dormir e acabava apagando junto com Zayn em sua estreita cama na área destinada às gárgulas, porões escuros como todas comumente apreciavam e livres de unidades que pudesse corroer suas peles de pedra estranhamente frágil. O quarto do gárgula era pequeno demais para algo alguém de sua cama quase duas vezes menor do que a de Louis no quarto de hóspedes, um pequeno baú e alguns montes de velhos livros com páginas amareladas que Zayn havia conseguido em suas viagens para o mundo humano. Ele era um grande aventureiro sempre que tinha tempo livre, quase insano. E, em noites como essa, enquanto ambos ficavam deitados lado a lado na cama, seus olhos fixos no teto e ombros muito juntos, Louis perguntava-se se um dia teria uma mínima fração da coragem de seu amigo.
— Eles tem grandes e altas construções — a voz de Zayn batia nas paredes de pedra fria, ricocheteando pelos cantos. Era melodiosa e agia como um estranho calmante sobre Louis. Ele adorava passar as noites ali, apenas ouvindo-o falar sobre o mundo além do pântano e das vilas mágicas de onde ele próprio veio. — Algumas tão antigas quanto o próprio tempo e, veja só, sequer acreditam nos deuses. Ou em nós. Somos como lendas, para os humanos. E acho que seja melhor assim, de certa forma. Você já ouviu falar sobre as grandes caçadas?
Louis entendia muito pouco sobre a história de seu povo, vivendo toda sua existência nas ruas, muito pouco lhe sobrou de algum teor realmente fiel em relação às antigas tradições. Quer dizer, ele sabia um pouco sobre as funções das fadas e rumores de humanos destruidores de Gaia avançando cada vez mais pelos campos do Cordélia, próximo o bastante para ser preciso muitos feitiços repelentes para mantê-los longe. Mas isso era tudo, de fato. Não havia muito mais para saber quando ele era chutado de perto das rodas de conversa, apedrejado em grandes vezes e alvo de incômodas maldições. Portanto, tudo o que fez depois de alguns momentos encarando os rejuntes entre as pedras no teto, foi dar de ombro.
— Dizem que foi uma época sombria — Zayn continuou. — Os humanos costumavam chamá-la, em seus livros, de Idade das Trevas. Eles nos colocavam como os grandes vilões e nos queimavam em fogueiras, em praça pública. Era um grande evento, na época. Foi o estopim para escondermos, ao que parece, depois disso eles apenas esqueceram de nossa existência. São tolos com seus pertencer e há muitas representações exageradas de gárgulas nas grandes bibliotecas, não entendo o motivo, para ser honesto.
— Você já falou com um deles?
A pergunta escorrega pela língua de Louis como se tivesse vida própria. Ele, na qualidade de um aborto natural para sua própria espécie, não poderia deixar de imaginar se não seria mais bem vindo ao mundo humano. "Claro que não, seu tolo sonhador" declarou somente alguns segundos depois, pensando em como suas asas jamais poderia ser escondidas dos olhos deles, não sem magia apropriada. A verdade era que... céus, Louis sentia seu coração pesar dentro do peito ao ter que admitir a verdade horrenda de sua existência. Não havia lugar para ele em nenhuma parte da vasta terra de Gaia. O mundo mágico o repudiava por suas deficiências, falta de magia, feiúra extrema para uma fada, o sexo que tinha entre as pernas e a asa defeituosa. E, com toda a certeza que há sobre o mundo, os humanos tampouco o receberiam de braços abertos, não enquanto a coisa latente que fazia parte de si continuasse a existir. Suas asas. Seu pulsar parco de magia. Louis não pertencia a lugar algum, ele logo percebeu depois de tanto negar a si mesmo. Possivelmente, nem àquele castelo poderia vir a chamar de lar. Não depois que seu dono simplesmente tivesse desaparecido por quase um mês. De acordo com os rumores comentados baixos pelos corredores, era a primeira vez que isso acontecia desde que Harry tinha celado os portões. Ele nunca saía. Jamais. E, agora, aparentemente sequer tinha chances de voltar. "Tudo porque eu..." piscando os olhos com força, Louis tentou concentrar-se nas palavras de Zayn, mais uma vez empurrando para longe a sensação perturbadora de culpa que tinha ameaçando brotar em seus poros desde a manhã em que Kendall lhe informou sobre a partida inesperada – e urgente – do senhor demônio do pântano.
— Eles não são muito receptivos — o gárgula disse. — Sempre ocupados demais, sempre indo para algum lugar e sempre com pressa. Mas, certa vez, alguém esbarrou em mim e disse algo como "vai à merda, moleque", foi legal.
Os olhos de Louis caíram em Zayn no mesmo instantes e o riso foi alto, tão profundo quanto vinha sendo desde que a fada masculino encontrou naquele lugar algo pelo quê gostar. Sim. Ele gostava de sua vida ali, gostava de trabalhar nas hortas, polir, varrer e lavar. Também gostava dos processos na cozinha e de pisar a uva para o vinho, gostava de colher frutas e passar os fins de tarde com Zayn nos campos alagados do pântano onde podiam conseguir alguma carne para ser consumida pelas gárgulas já que esse era o único alimento que não era oferecido pelo senhor demônio do pântano porque, sim, ele realmente era vegetariano. Às vezes, Louis permitia-se deixar fascinar pela ideia que tinha de Harry, seus olhos escuros e verdes também, os chifres brilhantes, os cascos. E, mais do que gostaria de admitir, a fada ansiava por sua volta. Em noites estreladas, Louis apenas encontrava o caminho para os jardins, se acomodava sobre a grama e encarava o céu até o amanhecer, deixava seus olhos enxergarem coisas que não estavam lá e as sensações crescentes no seu estômago tomar formas reais, quase palpáveis. Nessa noite em questão, depois de se despedir de Zayn com doces palavras de boa noite e um rápida oração à Gaia, Louis não foi para seu quarto como disse que iria. Tampouco foi para o local já de costume no jardim. Ou, ainda, para a grande biblioteca na ala noroeste onde Kendall supunha que ele passava grande parte de seus horários livres, seguindo sua orientação para a leitura de todos aqueles manuais das mãos diversas especialidades mágicas existentes. Não. Enquanto caminhava silenciosamente pelos largos corredores de pedra, seus pés o guiou para o único lugar que vinha evitando desde que havia sido deixado lá, sujo, bochechas queimando e olhos tão escuros de um desejo quase ordinário que ele mal conseguia recordar adequadamente sem sentir a coisa pulsar em suas calças.
Quando empurrou a porta com nada além de um castiçal de prata entre os dedos, o quarto lhe pareceu o mesmo. Exatamente como havia sido deixado. Os lençóis bagunçados onde ele próprio tinha sentado poucas semanas antes, a lua refletindo larga na janela. Era lua cheia, novamente. Louis sentia dua magia na borda outra vez, pulsando, tão fraca quanto um filhote de ave que nasceu cedo demais, aquele em que as pessoas tentam ajudar mesmo sabendo que não vai sobreviver por muito mais tempo. Louis sabia que logo teria que usá-la, não havia como apenas manter o suave e insistente fragmento de magia armazenado por muito tempo. Era dolorido, quase. Fechando a porta às suas costas, ele suspirou. Arrastou os dedos pelo contorno da cama, os cochichos vibrantes e irreais dos feitiços aplicados ali ardendo sob suas digitais. Ele fechou os olhos quando se colocou na ponta da cama, inspirando fundo, o coração dilacerando seu peito a cada batimento. Louis sabia que grande parte de suas sensações formigantes, descendo até o membro ereto entre suas pernas, era devido aos encantamentos do quarto, mas... por Gaia, ele também estava ciente de sua própria imoralidade.
Com a lua refletindo em suas costas, ele se desfez de sua camisa gasta, as asas abrindo-se totalmente. Estranhas em suas formas, ainda que finalmente livres. Um par de instantes depois e suas calças estavam nos tornozelos, passando pelos pés descalços e largadas em um monte junto com a camisa. Louis sentia-se vibrar. Droga. Alguma parte de si sabia que não poderia fazer algo como aquilo em um lugar como o quarto em questão, ainda assim, bem, não lhe haviam muitas escolhas agora. Com os olhos bem apertados, desceu o castiçal até o pequeno aparador na parede oposta e arrastou o corpo por sobre os lençóis encantados, guiando-se apenas pelo sussurro de suas próprias lembranças. E o desejo vibrante no cômodo. Suas asas ainda estavam devidamente abertas quando se posicionou junto à cabeceira da cama, pernas afastadas e ereção batendo contra a barriga, vazando, pulsando tanto quanto sua magia idiota. Ele nunca havia feito algo assim, nunca havia se liberado daquela forma. Sempre, em toda sua vida, a questão era sobre o que comer a seguir, onde dormir, como se aquecer. A insegurança do próprio futuro nunca lhe permitindo ter ideias tolas como aquela. Mas agora...? Louis tinha tudo o que poderia precisar e desejar, tudo. "Quase tudo" corrigiu-se quando seus dedos desceram a glande, apenas o suficiente para que suspirasse, os dentes mordendo o lábio inferior com força. Com os olhos fechados, Louis imaginou que não era sua mão ali. Era a dele. Harry. Com seus olhos muito precisamente fechados, Louis permitiu que a magia tomasse conta de seus membros, lambendo sua pele como fogo brilhante em um tom específico de azul. Ele inteiro queimava conforme bombeava o próprio pau. Para cima e para baixo. Uma vez e então outra e outra e infinitas delas. Os quadris subindo, dedos dos pés retorcidos e lábios afetados, gemidos ecoando pelo cômodo todo, obscenos, e sua magia imunda fluindo de si como fogo, queimando-o nos lugares cestos. Suas asas eram pura tensão e, quando escorregou um dedo para o espaço entre as nádegas sem que sequer tivesse pensado nisso, ele soube que estava perto. Não apenas do ápice de seu prazer, como também da explosão contida que sempre acontecia quando sua magia era sugada de uma vez só, esvaziada. E... oh, pelos deuses naturais, ele finalmente a sentia como deveria ser. Grande. Poderosa. Em todos os lugares. Consumindo sua alma, ocupando seu corpo e sentidos. Fazendo-o completo.
A fada meio gemeu e gritou enquanto enterrava o dedo médio dentro de si e explodia no próprio punho, a onda quente de magia varrendo o quarto com uma ferocidade nunca antes vista, nem mesmo por Louis. Com a respiração ofegante, ele permitiu-se aproveitar o momento. Respirou goles longos de ar antes de ousar abrir os olhos e... merda! O quarto estava quase que completamente destruído, os antigos móveis de madeiras despedaçados, paredes marcadas, a própria cama retorcida, agora não mais do que um colchão no centro de vigas de madeira partidas. Espelhos quebrados. Lascas profundas nas pedras. E os encantamentos centenários que ali haviam sido colocados... bem, não havia mais nada. O silêncio do vazio. Dentro e fora de si. Demorou um par de longos minutos para que Louis se colocasse dentro das roupas novamente e, então, descesse correndo as escadas para longe da torre leste onde o quarto de prazeres do senhor demônio do pântano havia se transformado em escombros, apenas isso. "Oh, poderosa Gaia, apenas não deixe que saibam que fui eu" rezou rapidamente conforme se colocava dentro da tina de água sempre quente para apagar de seu corpo as evidências da própria magia que, depois da explosão de pouco antes, era sequer existente.
Em suas veias aparente, o tom de azul parecia mais brilhante. Luminosos.
E... Louis ignorou.
×××
O bar mergulhado em penumbra representava tudo o que o subúrbio de Chicago poderia oferecer, mesas redondas espalhadas pelo salão e um balcão empilhado de sujeitos a procura de todas as coisas obscenas que um pouco de álcool e algumas notas de cem poderiam oferecer, no palco às suas costas, mulheres humanas dançavam nuas com saltos altos demais e olhos fundos de alguém já levado pelas drogas há muito. Bebendo mais um gole longo de seu uísque, o demônio tentou não torcer o nariz novamente, ainda que o cheiro de carne podre fosse mais do que pungente no ar. "Humanos fedem" chegou ao consenso antes de pedir por uma segunda dose ao barman atrás do balcão. A música alta atirava ondas estranhas pelo seu corpo e os sapatos queimavam seus dedos acostumados ao livre andar, a roupa tampouco ajudava no quesito conforto e esconder seus chifres depois de tantos anos não era algo que poderia chamar de agradável, ainda assim, Harry sorriu para o sujeito e girou o copo na mão antes de encarar o homem que o levou a ir a um lugar tão desprezível quanto o Night Pills. Ele parecia bem mesmo depois de todos os anos difíceis que, de acordo com os rumores, teve que suportar. Não era incomum que um demônio escolhesse viver com humanos tendo em conta que as pragas mortais eram basicamente sua fonte primária de consumo. Almas tão podres quanto a carne, era esse o principal alimento de um demônio de verdade. Grandes cidades como Chicago, mergulhadas em desordem e cheia de corpos pedindo por terem suas almas vendidas a preço de nada... bem, era a droga do lugar perfeito.
Batendo com o copo vazio sobre o balcão, Harry jogou algumas notas dentro do vidro e então passou pelas pessoas até o espaço VIP, um pouco mais acima. A luz era ainda mais baixa ali, um tom estranhamente caramelado de púrpura enquanto o sofá em meio círculo estava cheio de homens e mulheres mergulhados na mesa de centro, copos sempre cheios na mão, narizes entupidos de pó, almas sendo vendidas. Se havia algo que Harry tinha certeza era de que, para o desgraçado, aquela seria uma ótima noite. Seus olhos se encontraram quase imediatamente, havia uma mulher humana de longas pernas em seu colo, seios à mostra e nada além de uma fina calcinha cobrindo suas vergonhas mais abaixo. O reconhecimento brilhou nas íris escuras por alguns instantes antes dele puxar o pescoço esguio da dançarina e cravar os dentes por segundos suaves antes de empurrá-la para o colo seguinte.
— Oh — sua voz entrou dentro da cabeça de Harry como era comum em conversas particulares partilhadas por demônios da mesma classe. Ou não. — O que diabos poderia ter acontecido para arrancar sua bunda mesquinha daquele buraco alagado que chama de castelo?
Harry bufou em concordância e deixou ser abraçado, era uma sensação estranha estar ali depois de tanto tempo, no mundo humano, com outro demônio. Coisas demais acontecendo muito rápido. Payne o guiou até uma das mesas mais afastadas na área VIP e, sem muitas delongas, dois copos cheios foram empurrados para suas mãos.
— Então... — Payne voltou a dizer, braços abertos sobre o encosto do sofá e o sorriso sempre lascivo queimando em seus lábios. — O que deseja de mim?
— Não seja presunçoso.
— Não sou — ele deu de ombros e engoliu metade de sua bebida antes de conrinuar.— Mas aqui está você, Harry grande e fodido Styles, demônio da ordem do fogo. Filho de Desmond, o avassalador. Herdeiro de Belzebu. A coisa deve ser grande.
E era. Bem, não deveria ser. Para ser honesto consigo mesmo, ele sabia que poderia resolver as questões de Louis com facilidade se os meios não envolvessem coisas que jurou a si mesmo jamais fazer. Ele era um demônio, mas também tinha o sangue de Anne Selley correndo em suas veias. Alguns limites não eram apenas fáceis de se passar sobre, ou possíveis.
— Você é o melhor rastreador que conheço — disse.
— Oh, não, cara — mais um gole e toda a bebida havia secado, segundos depois e uma humana de pede dourada beijada pelo sol, mergulhou mais uísque dentro do copo.— Essa vida está no passado — Payne continuou. — Agora sou apenas um demônio de encruzilhada tentando ganhar a vida honestamente, nada mais de serviços sujos para porcos imundos.
— Nossas noções de honestidade continuam completamente opostas, pelo que vejo, amigo.
— Algumas coisas apenas não mudam — Payne riu alto, um som que parecia vibrar através das paredes de concreto. — Fale-me sobre o caso, gosto da ideia de qualquer coisa que seja capaz de perturbar alguém como você. Não é uma promessa de nada, no entanto.
Harry girou a bebida dentro de seu copo antes de dizer qualquer coisa, as palavras se amontoando perigosamente na ponta da língua enquanto decidia o que era seguro dizer. "Nada" foi a resposta mais sensata, mas... por satã, ele apenas não tinha mais alternativas. Não depois do que fez naquela noite. Invadir os sonhos de alguém como um maldito Incubus era demais até mesmo para ele, limites haviam sido impostos há tempo suficiente para lhe dar algum sentido se moral que foi estilhaçado como vidro no instante em que permitiu-se chegar tão longe. O demônio sabia que suas chances eram baixas contra a coisa latente dentro de si e, também, que a única chance de manter-se dentro dos limites seguros era mandar Louis para longe, o mais rápido possível. Para isso, ele precisava ajudá-lo. Não haviam meio termos mais.
— Me enviaram uma fada...
— Então você continua com seu teatrinho centenário? — Liam o interrompeu, o sarcasmo ardendo em sua voz. — Sua pateticidade nunca deixa de me surpreender, amigo.
— Uma fada masculino — voltou a dizer, deliberadamente ignorando o comentário ácido comum entre a maioria dos demônios. — Ele crê que não possui magia, suas asas são inacabadas. Mas ela está lá. Pulsando ansiosa pela hora da libertação. Magia demoníaca. Forte e quente.
— Um mestiço?
— Sim — finalmente permitiu-se beber um gole do uísque, o ardor queimando em sua garganta era uma boa lembrança de onde estava. — E está sob uma maldição de sangue, para piorar.
— Podre coitado — não havia sinceridade em sua voz, como era esperado. — O que você fez para resolver?
— Tudo o que podia ser feito.
O demônio de olhos caramelados encarou Harry por dez segundos antes de voltar a rir, tão grave quanto antes. Seu copo sendo esvaziado novamente, em seguida.
— Não, não fez — Payne estava certo, claro, mas não seria Harry que daria o braço a torcer. Então, apenas deu de ombros como se a verdade não importasse enquanto o outro continuou: — Você é bom demais para isso, cara. E, sim, essa foi a merda de um insulto, caso não tenha ficado claro.
— Ficou.
— Ótimo — pela terceira vez, seu copo foi rapidamente enchido. — Deixe-me adivinhar, você quer que eu encontre o pai do garoto, uh? Ou seus desejos são mais sombrios que isso? Você sabe, Harry, eu não me importaria de fazer o que realmente pode ser feito. Na verdade, a ideia apenas incita meus mais sombrios instintos. Faz tempo desde a última vez, entende? A vida em metrópoles humanas pode parecer luxuosa, mas... droga, às vezes suas almas são tão sem graça.
— Tocar nele não é uma possibilidade.
O demônio do pântano sabia que a processão em sua voz não era correta, tampouco os sentimentos egoístas de propriedade que queimavam sob sua pele. Ele sabia que Louis não pertencia a si e sabia também que teria que ser honesto consigo mesmo e admitir – em algum momento próximo – que nada poderia ser feito sobre isso, não enquanto ele era o que era e Louis estivesse tão completamente partido, perdido e sozinho no mundo.
— Está supondo que eu aceite, pelo que vejo — mais um longo gole, dessa vez único. O som do copo contra a superfície lisa da mesa ecoou por todo o ambiente, quase ultrapassando o som Irritantemente alto da música. — Bem, diga-me quais serão os meus ganhos. Você sabe, cara, coisas como nós somos basicamente movidos a uma boa barganha. Se não é a alma da fada que terei, então o quê será?
Ele tinha previsto algo assim, claro. Se havia algo que Harry conhecia melhor do que quase qualquer outra coisa na terra era a porcaria dos anseios demoníacos, suas necessidades de sempre ganhar. Fosse o que fosse. Com movimentos precisos, ele viu-se arrastando o objeto por cima da mesa, empurrando a pequena garrafa entre os dedos de Liam Payne, demônio da ordem da encruzilhada, descendente fracionado de Alastair.
— Sangue de virgem? — desdenhou conforme girava o líquido dentro da garrafa, vermelho cheios de subtons mais escuros.
— Essa é uma das três esferas que meu pai me deu quando completei a maioridade humana — Harry disse, o gosto ácido da bebida queimando em sua língua. — Ele roubou do próprio pai que roubou de seu pai que, por sua vez, tirou das próprias veias de Belzebu. É isso o que tenho a oferecer.
Os olhos de Payne brilharam para o objeto porque... pelo inferno em chamas, possuir o sangue de um demônio primário era, possivelmente, uma das vertentes mais poderosas da magia de um demônio. Era o que tinha de melhor.
— Você pode estar mentindo — ele sibilou exatamente como um bom demônio faria.
— Sabe que não estou.
Com um dar de ombro, Liam resolveu testar por si próprio. O cheiro que preencheu o ar quando a tampa da pequena garrafa foi aberta era do mais podre enxofre que Harry já havia sentido e, dois segundos depois de Payne experimentar uma gota do sangue na ponta da sua língua, ele apenas enfiou o objeto no próprio bolso, rosto tranquilo e satisfeito.
— Quando partimos?
Foi tudo o que disse antes de voltar a ter seu corpo enchido pela quarta vez.
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