› 03
Não havia nada de mais agradável naquele lugar do que os amanheceres quando o sol ainda dorminhoco começava sua escalada pelo céu ainda cinzento, as neblinas espessas do pântano iam sendo sopradas par alone e a vida alagada efervescia em um ritmo quase caótico que, para o demônio cruel que era Harry, soava como a mais bela canção que seus ouvidos poderiam captar. E, naquela manhã em específico, ele deixou-se aproveitar os coachar dos sapos por mais tempo, assim como silvo agudo das cobras e o ruído quase imperceptível da água lamacenta sendo cortada por grandes crocodilos indo em busca do café da manhã. Há muito tempo atrás, mais tempo do que qualquer outra criatura poderia conseguir contar em seus anos de existência, Harry havia escolhido aquele lugar para erguer seu grande castelo demoníaco. Na época, ele encontrava-se desolado depois de passado um curto período de algumas centenas de anos com os de sua raça, parentes de pactos distantes de seu pai morto. Seres cruéis e horrendos, alimentando-se do desalatento, medo e sonhos vis, vivendo em grandes casas repletas de feitiços para deixá-las genuinamente belas para os olhos curiosos daqueles corajosos o bastante para se aproximarem e então terem suas entranhas devoradas e a alma engolida por bocanhas cheias de dentes, olhos muito negros e cascos velhos. Uma experiência terrível, de fato, e nada compatível com sua própria essência meio humano. Foi quando partiu para o lugar mais longe que conseguiu encontrar. O pântano em questão ficava no centro de quatro vilas mágicas circunda por espessos bosques, longe o bastante da vida humana para que algum dos mortais fossem capazes de alcançá-los em busca de pactos, vendas de alma, forca e invocações. Ele próprio – e Kendall, sua familiar – lançaram os feitiços nas muitas pedras, obrigando-as se moldarem. O trabalho também foi feito com as madeiras, os minerais, a seda conseguida de grandes produtoras simpáticas ao norte, a lã comercializada por ovelhas selvagens. A construção demorou sete meses sem nenhum tipo de pausa, noite e dia e madrugada tendo sua magia exaurida até o fim. Harry dormiu por quase dezoito anos depois do término de um trabalho tão cansativo. Mas, no fim, o concluiu com grande conforto. Um lugar seguro de toda a excentricidade de criaturas medonhas para onde um demônio como ele poderia viver por toda a sua eternidade com um pouco de paz. Isso, obviamente, não foi o que aconteceu.
Em todo caso, Harry realmente sentia-se inspirado pela vista de seu quarto, todas as manhãs, todos os dias há tanto tempo que poderia ter perdido o sabor a algumas boas centenas de ano. Mas não. Harry era um demônio calmo, tranquilo e sem vícios, ambições e desejo de sangue sob seus cascos. Ele era uma aberração, uma vergonha para seus iguais, de fato.
Afastando os pensamentos cheios de lembranças tortuosas de sua cabeça, jogou-se para fora da cama e se colocou dentro de uma calça escura. Sem camisa. Sem calçados. O frio do castelo lhe aquecia a alma estragada de demônio e os sapatos lhe dava uma sensação angustiante apesar dos pés com dedos humanos. Com uma longa olhada no espelho do banheiro de seus aposentos, o demônio encarou as marcas do tempo em seu rosto jovem. Não havia nada. Tão jovem quanto qualquer outra criatura de três décadas ou menos, olhos verdes muito expressivos no mesmo tom que as chamas borbulhando nas pontas de seus dedos. Harry gostava do fogo já que essa era uma especialização elemental. Todos os demônios costumavam ter aproximação a um em específico de acordo com suas árvores genealógicas. Harry era um demônio do fogo por ordem de Belzebu, o primeiro demônio no topo da árvore de seu pai. Ele poderia ter bisneto do próprio, possivelmente. Ouvia boatos de que ele ainda estava vivo e devorando existências humanas inteiras em algum lugar perto da costa europeia. Não que Harry se importasse, obviamente. Quanto mais longe de outros demônios ele estivesse, melhor seria para si próprio e toda a coisa do vegetarianismo, mãe humana, e exclusão de si mesmo.
Suspirou pesado, pegando uma quantidade de água significativa de água e jogando no rosto com força, esfregando todos os resquícios do cochilo anterior e lavando de suas feições o desgosto por ter cedido à Ken, novamente. Não era um mentiroso obsceno a ponto de negar sua própria curiosidade em relação a fada, não quando sentia seu estômago retorcer em êxtase com a ideia de desdrobá-lo e experimentar o despertar de uma magia tão suave quanto a híbrida que pulsava sob a pele da criatura. Entretanto... bem, ele ainda sentia-se receoso por todo o resto. O garoto claramente desconhecia suas origens verdadeiras e, de acordo com a familiar, havia sido renegado pelo povo de Calia e das outras três vilas com tamanha urgência que nunca soube pertencer apenas a um tipo de diferente de normalidade. "Coisinha deformada, quanto mal gosto para uma ofensa" pensou meio ranzinza em imaginar quão terrivelmente criativo o mundo fora do castelo tinha se tornado. Ainda encarando o espelho, Harry sentiu-se diante de um grande impasse. Ele poderia voltar atrás naquela mesma manhã e então mandar o garoto para o mais longe possível de Calia, trazendo a si próprio um pouco mais de paz ainda que perturbada pela consciência de que a fada acabaria destroçada tão rápido quanto um piscar de cílios quando as outras criaturas percebessem o que ele era. Ou... "pelo inferno em chamas, Ken, vou arrancar suas unhas e comê-las na sopa".
Em todo o caminho até o grande salão de jantar, o demônio terrível tentou não se apegar a futuras conclusões. Quer dizer, ele nem ao menos tinha uma ideia certa sobre como a fada se sentia. "Ele, muito provavelmente, apenas irá clamar por libertação. Não posso ajudar alguém que deseja partir, não há remorso para carregar, dessa forma" declarou com um pouco de entusiasmo ao encontrar uma alternativa que satisfazia sua necessidade de manter-se quieto e, ao mesmo tempo, o livrava de toda e qualquer culpa pela morte precoce da pequena criatura uma vez enviada para o mundo três vezes mais cruel do que aquele onde os idiotas o chamava de 'coisinha deformada'.
O café da manhã do dia consistia em pão assado com banho de especiarias, belas frutas recém colhidas da estufa particular nos fundos da propriedade e queijos de búfala. Kendall já estava devidamente acomodada em sua cadeira de costume quando Harry entrou no recinto, ao seu lado, a presença da fada se fazia quase brilhante. Ele parecia bem, de fato. Os olhos muito azuis e penetrantes da noite anterior tinham, agora, sombras relaxadas e descansadas, as asas ainda estavam bem abraçadas às suas costas e... que o inferno continuasse queimando por toda a eternidade porque, droga, ele sentiu-se estranhamente desapontado. Não sem fundamentos, claro, não quando jamais tinha encontrado alguém como ele.
— Oh, querido, você chegou cedo — Kendall miou com seus olhos castanhos piscando exageradamente em direção ao demônio. — Esperava conseguir terminar meu leite antes de sua ilustre presença, para ser honesta. É muito cedo para assistir um banho de sangue, especialmente quando a criatura em questão está divertindo-me tanto.
O demônio conhecia o senso de humor de sua familiar bem o bastante para apenas torcer o nariz em falso desagrado enquanto sentava-se em seu devido lugar e puxava um grande e gordo pedaço de pão, enfiando-o na grande boca antes de finalmente perceber o quão grande os olhos da pobre criatura estavam.
— A porta é logo ali — disse. — Apenas saia, então, querida.
— E deixar esse doce jovem sozinho contra suas garras cruéis? Oh não, sou melhor do que isso
Harry não pôde deixar de notar o quão fortemente a fada tremeu ao lado de sua familiar que, maldição, sorria aparentemente mais do que satisfeita em se divertir com o garoto. Ele, contudo, não seria aquele a interferir. Especialmente quando sua pretensão escondida sob toda a expressão impassível era de que a fada apenas batesse suas asas para longe dali, deixando-o livre de qualquer responsabilidade que pudesse vir a tomar em um momento de fraqueza e curiosidade quase insana. Harry serviu-se de um pouco de vinho, inconscientemente maldizendo suas gárgulas pela timidez extrema diante de um convidado.
— Tire esse horror do rosto, garoto — disse por fim. — Sou vegetariano. Não pretendo devorar você hoje. Nem nunca. Ken apenas é uma megera que adora tripudiar sobre a desgraça alheia, eu não teria tanta confiança assim para com ela, se fosse você. Mas o que sei? Provavelmente nada, claro.
Do outro lado da mesa, a familiar miou com duas presas à mostra e garras muito vermelhas em mãos meio humanas e ligeiramente felinas, apenas o bastante para que a fada se erguesse em um salto assutado e a sala explodisse com o riso excessivamente agudo de Kendall que, agora, tinha o rosto tão vermelho quanto as rosas do campo que enfeitavam os vasos precisamente posicionados ao redor da sala. Em contrapartida, a criatura respirava com tanta força e corpo completamente trêmulo que, por um momento, Harry pensou que ele apenas cairia morto pelo susto sobre as pedras cheias de magia do seu castelo.
— Sente-se — ordenou com a voz que não deixava abertura para recusas, um presente herdado de sua mãe humana. Quando a fada obedeceu ainda com as mãos apertadas sobre o colo e prato vazio, Harry voltou a dizer: — Coma. Está magro demais, dói meus olhos.
— E-eu... — as bochechas dele estavam completamente cheias de cor e os olhos fixos nas próprias mãos, sua voz tremia tanto quanto os ombros. — Eu não quero engordar para que possa me devorar, senhor demônio do pântano. Estou apenas preservando o pouco tempo de vida que me resta.
— Tolice — rugiu, o olhar fixo em como Ken dava de ombros como se dissesse algo do tipo "você não pode me culpar por tentar um pouco de diversão, estou presa nesse buraco, doce, sinto falta dos gingados da cidade". — Não vou comer você. E meu nome, tampouco, é demônio do pântano. Chame-me apropriadamente, Louis.
— Oh — ele finalmente levantou o olhar e o colocou na direção de Harry que sentiu-se congelar até a raiz dos ossos. Se essa fada fosse realmente o que o demônio achava que era, provavelmente era um elemental da água. Droga. Harry sempre sentiu-se atraído pelos seus opostos. "Mais um motivo para mantê-lo longe" pensou com os dedos apertados uns nos outros. — Você me chamou pelo meu nome — a criatura continuou, bochechas róseas e olhos cheios de um universo inteiro. — Soa bem na sua voz, senhor demônio do pântano. Então... uh, realmente não vai me devorar?
— Não. Não vou.
— Ele é o demônio mais sem graça do mundo todo — disse Ken. — Você não tem ideia do quanto tenho sofrido todos esses anos presas aqui, com ele. Estou tão feliz por ter companhia nova.
A maneira como Louis, a fada, pareceu concordar timidamente com um sorriso pequeno lhe rasgando o rosto fez algo com o estômago de Harry, algo meio intenso o suficiente para que ele precisasse encher sua taça de vinho uma segunda vez depois de secar a anterior. Por algum motivo estranho, sentiu grande parte do sangue negro de seu corpo ir parar no rosto e então como que para preservar-se ainda que minimamente, viu-se escondendo o rosto atrás de seu desejum conforme a conversa entre os outros dois seguia amena, tranquila e já sem nenhuma ameaça de ser eminentemente devorado. Harry observou com certa atenção como a magia pulsava sob a pele da fada, azul como seus olhos e asas, quente e espalhando-se por cada centímetro da pele, tão completamente visível aos seus olhos que tornava as veias da criatura um rio prestes a transbordar. O demônio não conseguia compreender como ninguém nunca notou antes, aparentemente, como toda a coisa queimava dentro da fada. "Talvez alguém estivesse encobrindo todo esse pulsar" declarou como a alternativa mais viável uma vez que, para ele, até mesmo um troll idiota seria perfeitamente capaz de sentir aquela coisa rastejando por Louis, quente e ansiosa por um pouco de espaço para agir. Em algum momento entre os longos minutos do café, Harry perguntou-se como teria sido todos os aspectos da vida dessa criatura em sua mesa para que ele nem mesmo se desse conta de sua própria magia. Pensou que uma conversa franca sobre o assunto seria, provavelmente, o caminho mais viável e rápido para que o problema em questão fosse resolvido e ele, então, pudesse voltar a mergulhar em seus dias infinitos de tranquila paz dentro do castelo no pântano. Portanto e sem todas as delongas que claramente não lhe fora herdado de seu pai uma vez que demônios comumente gostam de todo o espetáculo de longas palestras – ele bem sabia, de acordo com a temporada em que esteve com seus semelhantes –, Harry apenas decidiu convidar a criatura para um passeio nos campos lamacentos ao redor de sua grande fortaleza majestosa.
— Louis — chamou quando todos os três levantaram de suas cadeiras quase que no mesmo exato momento.
— Sim?
Aqueles olhos muito azuis tinham algo de hipnóticos, Harry percebeu. Era a única justificativa para a maneira como suas entranhas milenares se torceram. "Magia forte o suficiente para causar-me tal desconforto, interessante" pensou afastando de si todos os mal agoros que eram seus antigos amigos de existência, não queria correr o risco de Louis absolver nenhum tipo de mágica extra.
— Eu gostaria de ter uma conversa com você — justificou, uma de suas mãos estendidas em direção à porta oeste. Os dedos longos com as pontas completamente tingidas de um negro quase tão escuro quanto os lustrosos chifres dos quais ele tanto se orgulhava. — Há um belo campo do lado de fora dos muros, a vista é excepcional. E, acredito eu, uma caminhada matinal sempre é irrecusável.
— Acho que essa é minha deixa para a caçada, então — Ken falou com um sorriso em seus dentes brancos de felino. Dois segundos depois e a costumeira onda púrpura de magia abraçou seu corpo, brilhante e tempestuosa, cuspindo uma grande pantera negra de pelos escuros como um céu sem estrelas. Ao seu lado, Louis não conseguiu disfarçar a surpresa ao dar três passos para trás diantes das presas do tamanho de seu próprio punho. — Oh, querido, desculpe-me — ela rugiu meio manhosa. — Sou uma dama cheia de truques nas mangas, inofensiva, no entanto. Agora, se me permitem, pão e frutas não me é o suficiente. Rapazes, até logo.
A grande pantera negra saltou graciosamente, as patas grandes e felpudas silenciosas em contato com o chão de pedra, balançando os quadris juntamente com a longa cauda, ela se foi.
×××
Não havia realmente nada de extraordinário no pântano, se Louis fosse sincero. Ele realmente detestava ser o tipo de pessoa a tirar conclusões sobre quaisquer coisa, mas apenas não podia acreditar que alguém achasse a triste paisagem cheia de alagamentos e tons sombrios de fato algo bonito de se ver. "Talvez ele não tenha conhecido os campos floridos de Cordélia" pensou sem desejar recriminar o senhor demônio do pântano que vinha se mostrando surpreendentemente gentil para alguém com cascos nos pés apesar que, claramente, ser capaz de se despir deles a qualquer momento que desejasse como nada que a fada já tivesse visto anteriormente. Louis se lembrava de ter conhecido um velho fauno, certa vez, apenas de vista nas muitas estradas que levava Calia em direção às outras três vilas do condado. Era uma criatura velha e enrrugada com cascos cheios de marcas do tempo, nem um pouco semelhantes com os belos e poderosos nós pés do demônio enquanto caminhavam pela borda de um lago escuro repleto de jacarés, cobras e alguns outros lagartos menores. O senhor demônio do pântano, Harry, não havia dito uma única palavra desde que saíram pela ponte levadiça em direção ao que antes soara como um verdadeiro paraíso. Não era. Louis não desejava ser tão mesquinho com os prazeres de alguém tão elegante e cheio de classe, mas apenas não conseguia frear seus próprios pensamentos a cerca do fato de que aquele lugar não seria sua primeira escolha para se viver. Escuro apesar do sol sempre aparente no céu, o pântano emanava uma energia que fazia seus ossos arderem de alguma maneira estranha, como se houvesse dezenas de pequenas criaturas invisíveis rastejando dentro de suas veias. Muito rapidamente, ele decidiu que não gostava do lugar. Mas não disse nada, no entanto, apenas continuou seus passos lentos ao lado do senhor demônio do pântano com os ruídos do lugar crescendo em seus ouvidos a cada segundo que se passava.
— Fale-me de sua mãe — disse o demônio de repente.
Louis não conseguiu pensar em um motivo razoável para falar de Johannah, a fada sarcedotisa que lhe deu a vida e o deixou permanecer com ela apesar de ter todos os motivos para apenas matá-lo por ser um incrível afronte à Gaia. Ainda assim... sentiu-se sorrir antes mesmo que pudesse dar-se conta. Ele gostava da ideia de sua mãe ser tão incrivelmente poderosa, suas irmãs tão belas e a magia da família tão vibrante que qualquer outra criatura do mundo inteiro ficaria petrificado apenas de presenciar algo como os fogos de artifício brilhantes que faíscavam das asas de sua mãe enquanto ela voava lindamente sobre Calia.
— O que o senhor demônio do pântano deseja saber? — perguntou.
— Primeiro, chame-me de Harry. É o nome ao qual fui batizado, use-o. Por favor.
— Oh — Louis não sabia que demônios tinham tanto coisa com seus próprios nomes, mas... bem, o que ele realmente sabia sobre qualquer coisa? — Sim. Tudo bem, senhor demônio Harry.
— Apenas Harry.
Ele não sabia muito sobre chamar as pessoas apenas por seus nomes, sentia-se ligeiramente incômodo em pensar fazê-lo. Nunca ninguém lhe deu algum tipo de abertura para tal tratamento, exceto Niall. Ainda assim, chamava o amigo de 'doce leprechaun arruaceiro' como de costume. Ambos gostavam mais do que nomes já que o próprio preferia ser tratado como Louis desde que recebera esse nome por parte do leprechaun. Se fosse sincero o bastante, diria que 'coisinha deformada' soava estranhamente ofensivo.
— Sim, claro, Harry — o nome soou estranho em sua língua, quase pesado nas vogais ainda que ele não pudesse deixar de admitir que gostou da sensação. Quase tanto quanto os sentimentos quentes que tingiu sua bochecha quando o senhor demônio pântano o chamou pelo seu nome recebido do leprechaun. Louis. Ele havia sido sincero antes, pareceu muito bem colocado na voz grave do demônio, quase como se lhe pertencesse e não ao próprio Louis. — É um belo nome, senhor, o seu.
— É o que recebi.
— Oh, sim, entendo. Mas nem sempre nomes são apenas naturalmente bons — justificou enquanto passavam por uma árvore retorcida e cinzenta, completamente seca. — Veja bem, senhor, às vezes o nome que recebemos é somente um reflexo de quem somos. Como o meu, por exemplo. Mamãe me batizou com base na minha aparência, pelo que sei. É uma consequência.
— Realmente?
Por algum motivo que Louis não compreendia, o demônio parecia realmente descrente. Então, ele viu-se na obrigação educada de justificar.
— Claro, senhor — disse. — Se eu fosse uma fada certa e tivesse uma prole, não seria tolo para decidir seu nome antes que pudesse lhe dar uma bela olhada. Apesar de, na verdade, estar sempre pendendo para Flora. Conheci uma druida chamada assim, certa vez. Bem, conhecer é um termo muito forte, ela apenas me atirou uma pedra nas asas quando era pequena. Mas, juro por Gaia, jamais vi criatura mais doce antes.
— Uh, interessante. E o que seria uma 'fada certa' para você?
Havia todo um ar de mistério flutuando ao redor do senhor demônio do pântano com o qual Louis permitiu-se ficar confortável. Ele era apenas uma criatura necessitada de amizades e, uma vez que o demônio não pretendia devorá-lo num futuro próximo além de, claro, estar lhe oferecendo refeições generosas, a fada apenas não podia encontrar motivos para não responder suas perguntas tão educadamente lançadas.
— Oh, alguém como mamãe e minhas irmãs, eu diria — um largo sorriso ocupou seu rosto ao lembrar-se delas, todo o dom que lhes pertencia, a beleza e poder. Elas eram tão incríveis que Louis poderia chorar de prazer por apenas ter tido o privilégio de observá-las ainda que de somente de longe. — O senhor deveria vê-las, senhor, para entender. Asas incrivelmente fortes, grandes, suaves como seda. Pele tão alva quanto a neve no início do inverno e a magia... wow, tão poderosa. O dom as transborda.
— Vocês são próximos, suponho.
— Certa vez minha irmã mais nova, Phoebe, lançou um feitiço de verrugas em minhas asas — Louis odiava a maneira como seu nariz torcia quando se lembrava do ocorrido porque, claramente, havia sido apenas um acidente terrível. Definitivamente não intencional. — Todas elas explodiram de uma só vez, alguns dias depois. Sangrou como o inferno e, sem remédios apropriados, levou algumas longas semanas até que eu pudesse me livrar do cheiro terrível de pus. Mas, apenas para esclarecer, eu não deveria perambular próximo à casa com tanta frequência. E, também, ela tinha apenas três pares de anos. Provavelmente se confundiu com os feitiços, entende, coisas de crianças mágicas.
A fada não percebeu que o demônio tinha parado de caminhar ao seu lado até estar a alguns passos adiantado e ter que voltar, colocando-se novamente ao lado do senhor demônio do pântano que, para surpresa de Louis, o encarava com as feições torcidas em uma expressão que ele conhecia mais do que qualquer outra em sua vida. Horror. Louis estava acostumado a ser encarado daquela forma, especialmente quando as outras criaturas os viam pela primeira vez. Não era uma grande novidade. Ainda assim, apenas não pôde controlar as lágrimas que subiram aos seus olhos. Ele estava a algumas horas junto àquela estranha gente no castelo grandioso escondido dentro do pântano, não lhe teria ardido como um soco no estômago se o olhar tivesse perpetuado no rosto do demônio desde a primeira vez. Mas agora? Depois de tanto tempo claramente sob luz suficiente para que ele pudesse enxergar todos os defeitos torcidos em Louis? Doía, para ser justo. Quase como se fosse o próprio Niall cuspindo-lhe no rosto depois de partilhar uma refeição.
— Uh... — gemeu com a garganta ardida enquanto tentava procurar algo para dizer. Algo apropriado e que não soasse ofensivo porque ele ainda era apenas uma fada cheia de defeitos que não tinha chances nem mesmo de fugir do poderoso e gentil senhor demônio do pântano. — Eu sinto muito, senhor, posso usar um véu e capas longas se for mais confortável de se olhar assim.
— O que...?
— O senhor também pode lançar alguma maldição para ofuscar toda a coisa — continuou, os olhos cheios de lágrimas meio frias demais para perceber a confusão clara no rosto de Harry, o demônio. — Eu não me importo, entende? Apenas agradeceria.
— Do que você está falando, Louis?
— Oh — Louis ergueu o rosto para encarar aqueles olhos muito verdes de cenho franzido que já não ostentava o horror de antes, mas sim uma grande quantidade de indignação. Louis era bom com feições, às vezes, decifrá-la nos rostos dos outros era a única maneira de passar o tempo. — Meu rosto, senhor, e asas. Sei que é difícil de olhar. Posso cobrí-los da maneira que preferir, apenas... por favor, não me atire aos jacarés. Seria doloroso demais. Muito mais do que as pedras.
— Me surpreende que pensa dessa forma, quase como se fosse normal.
Louis sabia perfeitamente bem que não era normal, mas dada a maneira como o demônio esfregou o próprio rosto cheio de desgosto, ele não se viu em posição de dizer mais nada. Não queria morrer apesar de não ter nada pelo quê viver. Ser devorado por demônios, jacarés ou qualquer outro tipo de criatura tampouco lhe parecia um fim justo para alguém tão terrível quanto ele próprio. Talvez, um dia, Gaia finalmente cortasse sua vida pela raiz e o cuspisse como erva daninha pelo mundo.
— Vamos voltar agora, Louis — o demônio voltou a dizer. — Acho que preciso de uma bebida. E você, também.
Ele não precisava de uma bebida, mas tampouco o disse. Somente continuou sua caminha em silêncio dois passos atrás do demônio. Seus olhos fixos na maneira como os cascos brilhantes batiam contra a relva úmida com força demais. Ele estava irritado, o senhor demônio do pântano, e Louis apenas continuava se condenando por nem ao menos poder ser útil o suficiente para compensar todo o caos de sua aparência, asas defeituosas, magia quase que inexistente e... droga, ser uma fada masculino. Enquanto descia os ombros ainda mais caídos, ele apenas viu-se pensando em algo para compensar todo o transtorno. "Eu posso limpar, lustrar, lavar e assar, plantar, cozinhar. Posso ser o escravo ideal" listou conforme preparava um grande discurso com todos os motivos para os quais o senhor demônio do pântano, Harry, não deveria colocá-lo para fora.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top