› 02

A gata caminhava à frente com seus quadris gingando na parte traseira do corpo, quase o bastante para que Louis não conseguisse desviar o olhar da curvatura da cauda, para ser justo, era como se estivesse hipnotizado pelo fato de finalmente conseguir compreender um animal. Pela primeira vez desde que havia entendido o que era, ele finalmente podia sentir-se quase feliz com o pequeno detalhe que o tornava mais próximo de seus semelhantes do jamais antes em toda sua existência. Ele sempre quis ser igual aos demais, sempre desejou ser capaz de voar pelo bosque e colher mel com as senhoras abelhas enquanto a magia escapulia de seus dedos em tons de azul oceânico como suas asas. Nunca aconteceu. Quer dizer, uma vez ele havia conseguido entrar em uma colméia e ter um pouco do mel sem ser realmente pego porque... pelos deuses da lua, as abelhas não costumavam ser tão gentis com invasores, fossem eles fadas ou não. De qualquer forma, enquanto seguia a gata pelos corredores de pedra do grande castelo no pântano, Louis estava deliberadamente ignorando toda a veracidade do cenário, sabe, a coisa de estar perambulando no lar de um demônio com cifres espetacularmente grandes e escuros e todos aqueles espinhos espalhados pelo seu ombro nu, supostamente tão afiados quanto deveriam realmente ser. E os cascos... oh, aqueles sim eram belos e lustrosos, os detalhes parecendo ter sido desenhado à mão e as pernas cobertas de pelos escuros meio curvadas nas bases como as de cabra. Definitivamente, Louis sabia reconhecer uma bela criatura quando via uma. E o senhor demônio do pântano era, com toda a certeza que a fada tinha, uma criatura digna das lendas que o cercava. Isso, claro, se fossem realmente lendas toda a coisa de sacrifícios e devoração de pobres seres mágicos de Calia.

Sendo honesto consigo mesmo, Louis ainda não tinha muita certeza sobre o que achar. Quer dizer, ele ainda estava vivo e tinha um pesado cobertor de peles ao redor do corpo enquanto arrastava metade da coisa pelo caminho de pedra enquanto a gata, Kendall, miava sobre alguma coisa que ele realmente não prestava atenção, especialmente quando sua cabeça girava cheia de engrenagens e os olhos buscavam absorver tudo o redor, inclusive o gingado nos quadris do animal. Fosse como fosse, Louis não sentia-se tão seguro assim, de fato. Havia ainda uma leve suspeita batendo dentro de sua consciência, algo como um aviso petulante que sussurrava em seu ouvido entre os becos e vielas de qualquer lugar que fosse. "Não confie em demônios, eles apenas maquinam ardilosamente toda a realidade em seu próprio benefício, seres ardilosos até os cascos podres em seus pés" aparentemente era o senso comum. Mas o senhor demônio do pântano em questão não tinha cascos podres e, na verdade, parecia realmente elegante em seus modos apesar de todos os chifres e espinhos lhe cobrindo os ombros. Louis gostava, também, da ideia de não tirar conclusões precipitadas sobre quaisquer coisa em sua vida, por exemplo, na primeira vez que se encontrou com Niall, o leprechaun estava tentando lhe roubar as poucas sementes de girassol que ele tinha conseguido juntar para passar por mais um inverno. Um ato terrível, considerando que ele não tinha nada mais para se alimentar e, caso não mantivesse suas sementes, apenas teria que enfrentar toda a neve com seus pés sem sapatos apropriados e partir em busca de alimento uma vez que a alternativa era a morte fria, lenta e faminta. Em todo o caso, bastou uma curta conversa para que ambos se resolvessem e a amizade pudesse florescer nos mais improváveis dos cenários. Então, com uma quantidade quase efervescente de entusiasmo, Louis decidiu que não iria julgar o senhor demônio do pântano até que sentisse alguma ameaça contra sua vida.

O quarto que se abriu depois de uma pesada porta dupla na parte leste do grande castelo de pedra era muito mais do que Louis pensou que já tinha visto em toda a sua vida. Havia uma cama de dossel no centro com colchões bem costurados e cetim por todo lugar, cores fortes e vermelhas como sangue banhando os tecidos e, da janela, não se podia ver mais do que os campos alagados, mas ele não pôde deixar de pensar que deveria ser realmente uma bela olhada durante as manhãs de sol. A lareira no canto estava sendo alimentada com apenas alguns pedaços grossos de madeira que não pareciam realmente estar sendo queimados pelas chamas verdes quase esmeralda então, ele supôs rapidamente, que era magia. Sentiu-se imediatamente atraído pelo fogo. A ideia de usar mágica de uma maneira tão inconsciente como manter acessa uma lareira dentro de um castelo absurdamente grande como aquele... wow, era fascinante. Nem mesmo a mais poderosa fada sarcedotisa como sua mãe, seria capaz de algo assim. "Demônios são incríveis" declarou em pensamento enquanto tentava encontrar o momento na sua vida em que decidiu o contrário. Não havia, pelo que Louis conseguia se recordar. Ele nunca antes tinha conhecido uma demônio e como realmente não costumava tirar conclusões adiantas sobre nada, nunca pensou apropriadamente sobre as criaturas vindas do inferno. Sabia que eram poderosos o suficiente para amaldiçoar vilas inteira e fazer ruir grandes plantações, mas isso era tudo. Poder. E grande poder não significava necessariamente algo ruim.

— Então... — a gata miou ao se empoleirar na cama, as garras afofando o colchão. — Você tem um nome ou teremos que te dar um?

— Oh, não acho que será necessário, já fizeram isso — respondeu imediatamente, colocando-se diante da familiar. — Já me deram um nome.

— Sua mãe, suponho.

— Minha mãe?

— O nome que sua mãe lhe deu — Louis realmente não sabia que gatos giravam os olhos daquela forma, mas então lembrou-se que aquela não era apenas uma gata e aquietou-se. — Qual é?

— Louis — falou prontamente. — Mas não foi minha mãe que me deu. Pelo que sei, ela me chamava de 'coisinha deformada'.

A expressão no rosto da familiar se contorcer em movimentos quase humanóides, Louis não conseguiu desviar o olhar até fosse claramente desconfortável continuar tão fixamente encarando. Ele era um abordo da natureza, mas ainda lhe restava alguns modos. Terríveis, claro. Mas alguns não eram tão ruins assim.

— Então quem foi que te deu esse nome?

— Meu amigo, Niall, ele disse que 'coisinha deformada' não era legal — Louis deu de ombros como se realmente não conseguisse entender onde estava o problema com seu primeiro nome. Em contrapartida, a familiar apenas mostrou suas garras e começou a lambê-las suavemente. — Não adiantou muita coisa, tenho que dizer, todos continuaram me chamando assim. Mesmo eu dizendo que meu nome não era mais aquele.

— Uh — a gata torceu o pescoço e piscou os olhos algumas vezes antes de voltar às suas unhas. — Não consigo decidir se você é um idiota tremendo ou apenas ingênuo demais.

— Eles me chamavam de idiota também, mas acho que é algo como um apelido já que chamam muitas pessoas assim.

Por um minuto inteiro, Louis apenas sentiu suas bochechas aquecerem enquanto os olhos castanhos escuros da gata o varria de cima abaixo, analisando cada centímetro de seu corpo. Era desconfortável, descobriu. Nunca antes alguém tinha realmente olhado para ele, nunca ninguém além do leprechaun. Louis sempre pensou que era por conta de sua aparência de modo geral. Fadas costumam ser incrivelmente bonitas com traços delicados e modos elegantes, asas longas e magia forte. Louis era apenas o oposto disso tudo. Terrivelmente largo nos ombros e com todas as coisas que faziam dele um aborto natural.

— Oh, certo — ele procurou alguma coisa para com a qual cobrir-se e nada encontrou, então apenas virou de costas garantindo que suas asas estivessem devidamente cobertas pelo cobertor de peles. — Melhor assim?

— Não sei se entendi — a familiar miou.

— As pessoas em Calia não gostavam de olhar para mim, acho que por causa das minhas asas e ombros muito largos. Posso cobrir meu rosto, se preferir.

— Não seja tolo, garoto — Kendall rebateu. — E vire-se, agora, não me faça virar você.

Se havia algo que Louis aprendeu em todos os seus anos de subsistência, era a sempre obedecer a voz com maior respeito no recinto. E, tendo em consideração que a familiar vivia no castelo do senhor demônio do pântano, ele girou o corpo rapidamente e voltou a encará-la. Tentou engolir a surpresa quando deparou-se novamente com sua forma de mulher, as pernas longas cruzadas e unhas vermelhas longas demais sendo calmamente lixadas com uma pedra escura e cumprida demais, quase brilhante.

— Sente-se ao meu lado — ela disse, as unhas arranhando o colchão sobre o lugar onde ele deveria, supostamente, se acomodar.

— Na cama?

Kendall, a familiar, acenou em concordância e então Louis sentiu suas bochechas ainda mais quentes. Ele nunca havia dormido em uma cama, nem mesmo sentado em uma. Mordeu o lábio com força quando a maciez do colchão encontrou sua bunda pela primeira vez em mais de duas décadas de idade. Tentou conter sua emoção a todo custo, ainda que sabendo estar falhando malditamente porque quase podia ver algo de confusão brilhando nos olhos da familiar. Sentindo-se compelido a justificar, Louis disse:

— Me desculpe — murmurou. — É a minha primeira vez.

— Com uma familiar?

— Oh não — disse rapidamente para evitar qualquer tipo de transtorno, ele não era assim. Bem, Louis sabia como as coisas do corpo funcionavam, mas ele ainda era uma fada apesar de todos os defeitos. Fadas não precisam se relacionar fisicamente com outras criaturas para reprodução. Na verdade, elas meio que repudiam esse tipo de contato. — Não. Em uma cama. Nunca estive em uma.

— Você nunca esteve em uma cama antes?

— Não em uma de verdade — justificou. — Eu fiz alguns arranjos com palha seca na minha caverna, mas nada tão macio quanto isso aqui.

— Caverna?

Louis estreitou seus olhos em direção à mulher que era gata que na verdade não era exatamente uma gata. Ela parecia descrente e, então em sua qualidade de sempre colocar em palavras o que havia na sua cabeça porque essa era a única maneira de se fazer ouvir, ele decidiu explicar.

— Eu tinha uma caverna — disse. — Tenho. Eu acho. Bem, não importa. Ela é confortável, Niall me conseguiu um feitiço de aquecimento para o inverno e também um cobertor velho que remendamos com algumas tiras de cipó. Eu tinha um colchão de palha de trancei verão, mas não é nada comparado ao seu.

— Certo — a familiar ergueu-se e quando Louis foi imitar o movimento, ela apenas o impediu com um acenar de dedos. Seu caminhar era claramente elegante enquanto andava pelo quarto sobre as pernas longas. — Deixe-me ver se eu consegui compreender. Você, Louis, vivia em uma caverna. Era chamado de 'coisinha deformada' e foi entregue a nós para morrer. Por quê?

— Eu sou uma aborto da natureza — respondeu tão rápido quanto possível. — Não tenho magia e minhas asas são inacabadas, além disso, sou homem. Tenho sorte de estar vivo. Ainda, no caso.

— Você tem magia.

A familiar pousou ambas as mãos sobre os ombros de Louis que se encolheu imediatamente, as outras criaturas em Calia não costumavam tocá-lo. Nem mesmo o leprechaun. A sensação era estranha mesmo que por cima do pesado cobertor de pele ao qual se enrolava. Quando Kendall se curvou para frente e olhou profundamente nos olhos de Louis, ele podia jurar que o reflexo na íris da familiar não era tão horrendo quanto as pessoas costumavam dizer que era. Para ser honesto, ele nunca havia visto seu próprio reflexo mais do que durante alguns segundos. Ouvira pelos cantos e becos de Calia que sua aparência era terrível, quase grotescas e as crianças sempre jogavam pedras em sua direção quando passava, algumas até mesmo choravam e clamavam para que as mães se livrasse do monstro horroroso. Então, ele nunca precisou ter certeza da veracidade do que eles diziam, não quando era de senso comum entre os calianos que Louis, o aborto de fada, era tão feio quanto nenhuma outra criatura que já viveu sobre a terra.

— Está sentindo? — Ken miou enquanto tamborilava os dedos longos nos ombros de Louis. Ele negou. — Feche os olhos, garoto, sinta a corrente de poder fluindo sob sua pele. Ela está aí, a magia. Dormindo como uma criança no ventre de sua mãe.

Louis fechou os olhos com força e procurou por algo dentro de si apenas para encontrar a fonte de poder escassa ainda recarregando no centro de seu umbigo. Ele era capaz de usar sua magia a cada três luas cheias, em média. Tinha desperdiçado a última rodada para caçar um esquilo que devorou rapidamente depois que quase três dias sobrevivendo a base de folhas e amoras silvestres. Ele, então, decidiu procurar mais fundo. Vasculhou tudo o que tinha para vasculhar dentro de si e... nada. Não havia nada além de um mínimo pode que ainda precisaria de mais duas luas para poder ser utilizado. A única coisa minimamente pulsante que conseguia sentir era os dedos longos da familiar em seus ombros até que ela, inevitavelmente, se afastou.

— Bem, você pode ficar aqui essa noite — ela acenou pelo quarto. — Alguém virá trazer alguma comida ou, possivelmente, ela apenas surja diante de você. Eles não são bons com convidados.

— Eles?

— Os criados — Ken piscou parecendo ainda mais uma gata. — Gárgulas. Muito tímidos.

Louis já tinha ouvido falar desse tipo de criatura, apenas não entendia o que estavam fazendo em um pântano próximo às vilas mágicas. Até onde ele poderia saber – o que, para ser justo, não era muito –, gárgulas vivian em cidades humanas. Ainda assim, concordou como deveria ser feito até que... ele apenas não podia ignorar mais a sensação crescente em seu estômago e todas as vozes de perigo gritando dentro de sua cabeça.

— Você... — começou sem ter certeza do que dizer em seguida. Louis não era bom com as palavras uma vez que nunca teve alguém para treinar uma conversa apropriada até ser tarde demais e todos os modos terríveis de seus tons estarem enraizados dentro de si. — A senhorita... uh, acha que o senhor demônio do pântano vai realmente me devorar?

— Oh, querido, o nome dele é Harry — ela disse enquanto curvava-se no chão e se transformava novamente numa gata, chacoalhando dos pelos os resquícios da fumaça púrpura brilhante. Quando falou, saiu como um forte miado, os dentes totalmente a mostra. — E, sim, ele vai destruir você completamente. Apenas precisa engordá-lo um pouco antes. Portanto, coma a sua comida e durma em uma cama que, amanhã, o banquete será você.

×××

Ele não conseguia acreditar no que seus ouvidos tinham escutado, era apenas demais para se compreender ainda que todos os sinais estivessem claramente expostos diante de seus olhos. Do outro lado da longa mesa na sala de jantar, Kendall o observava com olhos ariscos enquanto cortava duas batatas em pedaços pequenos e não se preocupava em disfarçar o desagrado em se alimentar de vegetais todos os malditos dias. Bem, ela que fosse para o pântano caçar pássaros de assim o desejasse porque, sob hipótese alguma, carne entraria em seu castelo.

— Talvez esse seja apenas o jogo dele — ponderou depois de um tempo, girando a taça de vinho entre os dedos. — Uma maneira de comoção, entende? Para escapar da morte certa que, tenho certeza, você lhe garantiu.

— Obrigado por sempre me manter em alta estima, doce, mas não. Ele realmente estava sendo sério sobre tudo o que disse, tão tolo quanto uma criancinha.

Harry, o demônio, tinha se despido de seus cascos e espinhos uma vez que todo o espetáculo havia acabado. Ele sentia-se mais confortável sob a pele humana exceto, claro, pelos grandes e maravilhosos chifres sobre sua cabeça. Os cabelos escuros batiam nos ombros em grandes ondas e o prato vazio diante de si lhe ofereceu um estômago satisfeito. Infelizmente, o relato de sua familiar tinha sido terrível demais para que o jantar seguisse sem nenhuma turbulência. Para ser honesto, ele não sabia o que Ken pretendia ao contar-lhe tudo aquilo. Quer dizer, era quase óbvio que ela queria mantê-lo com eles. Estava explícito em seus olhos enquanto narrava as tragédias da vida da fada com lágrimas prestes a pular de sua íris. Lágrimas falsas, obviamente. Em todos os quase mil anos em que estavam juntos, Harry havia a tinha visto chorar a não ser para conseguir arrancar alguns benefícios dele. Um belo artifício, de fato, uma vez que o demônio jamais conseguiria negar nada a única criatura que se aproximava da noção que ele tinha de família. Em todo caso, ele não se sentia especialmente confortável com a situação. Já havia feito todo o teatro por anos demais para perder-se agora. Era o script. Eles vinham e então Harry lhes concedia alguns rasos pedidos antes de mandá-los para o mais longe possível. Uma noite era tudo o que estava em seu alcance de oferecer. Agora, ficar com eles? Não. Era um risco muito grande para sua paz.

— Eu senti novamente, a magia — ela continuou. — Pulsante como um coração quente, ansiosa para ser liberada e o coitado nem ao menos se dá conta. Acredito que ele nem sequer saiba de suas origens.

O demônio torceu o nariz novamente. Primeiro, havia ficado intrigado com toda a coisa ondulando ao redor da fada masculino que era, obviamente, um completo alheio de si mesmo. Contudo... depois de alguns minutos pensando, ele decidiu que não queria realmente mexer naquele vespeiro. Um garoto tão jovem com algo como aquilo não era uma conta que Harry estava disposto a fechar. Não. Claro que não.

— Isso não é problema nosso, Ken, apenas o deixe seguir seu caminho como o que é.

— Um aborto da natureza, você quer dizer?

— Você sabe que não — engoliu uma grande quantidade de vinho tentando não ceder àqueles olhos incisivos. — E não, novamente. Nós não vamos começar com isso.

— Ajude-o, Harry, você pode.

— A questão não é exatamente essa — sim, ele podia. Harry havia vivido tempo o bastante para conhecer casos como o da fada. Nunca, entretanto, esteve tão próximo assim de um deles. — Estamos finalmente em paz, Kendall. Não quero perder isso.

— Você não vai.

— E você não tem como saber.

Em movimentos graciosamente rápidos, Ken pulou na mesa em sua forma felina, gingando até estar diante do prato vazio do demônio, arrastando-o com a pata para longe de seu caminho. Às vezes, Harry se arrependia amargamente de ter dado a ela esse dom, especialmente quando o feitiço havia lhe sugado uma quantidade relativamente significante de sua alma. "Pelo menos as refeições nunca mais foram tão solitárias" pensou em contraponto, derramando um pouco de vinho num pires e escorregando-o sobre a mesa, para a familiar.

— Ele está irradiando magia demoníaca — a familiar miou depois de duas lambidas no no vinho. — O que você acha que vai acontecer quando mandá-lo para longe?

— Kendall...

— Dou-lhe dois dias antes de ter a garganta cortada — continuou ignorando a advertência claramente explícita na voz do demônio. — Aqueles idiotas de Calia não vêem algo assim a tempo demais para perceber, mas nós sim. E qualquer outro demônios que ele vir a encontrar. Acha que aquela criatura minúscula têm poder para se defender de coisas como você? Não seja mesquinho, Harry, ajude-o.

Ele sabia que sua familiar tinha razão. Obviamente. Mas... sua paz era tudo o que lhe restava de mais precioso. Convidados como a fada ou quaisquer outros não estavam em sua lista de prioridades, especialmente não quando a idade vinha lhe cobrindo os ombros. Ele estava envelhecendo pela primeira vez em mil anos, o que poderia ensinar para alguém com apenas alguns décadas de vida, provavelmente menos. Bebeu mais uma quantidade quase exorbitante de vinho.

— Você sabe que quer — Kendall continuou e, caso não fosse ele o demônio ali, Harry poderia chamá-la de a própria voz do diabo. — Está entediado. Posso sentir.

Ela estava certa, no entanto. Harry sentia-se velho depois de mil e treze anos de existência. E não era nem ao menos verdade, quer dizer, demônios viviam três ou quatro vezes mais antes de começarem a sentir o peso do tempo em seus ossos. Talvez e muito provavelmente, ele apenas estava ficando enferrujado. Voluntariamente preso dentro de seu castelo de pedra, Harry não poderia negar que sentia sua magia se acumular sob a pele, implorando por algo além de manter lareiras acessas. Talvez lhe fizessem bem algum tipo de desafio e, caso algo desse errado, ele sempre poderia vestir-se de seus espinhos e cascos e então afugentar os idiotas com um pouco de terror pré ensaiado. Maldição. Sentindo-se apenas minimamente manipulado, terminou seu vinho em um único gole antes de levantar-se da mesa sem dar uma resposta adequada à Kendall. Não que fosse preciso, claro, ela sabia de sua verdade mais do que ele mesmo, por muitas vezes. Para ser justo, ela o havia vendido desde que começou a contar sobre a vida miserável do garoto com asas incompletas que claramente era apenas a consequência de suas origens, algo facilmente reparável por si mesmo se ele soubesse como. E, enquanto caminhava pelos corredores de pedra de seu grande castelo, Harry tentava não pensar no quão sua escolha seria mais um motivo para seu pai desgostar da prole mais humana do que qualquer outra coisa. "Bem, ele está morto o bastante para não me julgar com seus olhos terríveis e vermelhos de satã" declarou sem muito interesse ao jogar-se na cama e não sonhar como nada, como de costume.

Porque, no final, ele ainda era um demônio. Um terrível demônio e cruel vegetariano com seu espetáculo centenário de farsa. Mas, ainda assim, um demônio.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top