32 - Caráter duvidoso
Tudo parece se abrir em minha cabeça. Lembranças dançam soltas a cada canto que olho. A cortina nublada que cobria meus olhos, rasgou-se trazendo-me lembranças que estavam presas junto ao meu consciente. Tudo é muito claro agora, mas ao mesmo tempo, confuso.
_ Desculpa. Se eu soubesse que tu ficarias nesse estado, jamais teria aceito essa viagem! - Diz Leandro enquanto me olha preocupado.
_ Não... - Limpo as lágrimas que humidecem as laterais do meu rosto. _ Não é isso! Claro que tu fará falta pra mim. Tu és um grande amigo...
_ Amigo! Claro... - Ele baixa a cabeça meio sentido com minhas palavras.
_ Desculpa Leandro! Eu tentei, Juro que tentei te ver de outra forma, mas...
_ Mas eu não sou o bastante pra ti! - Completa com um suspiro pesado enquanto me encara fixamente.
_ Desculpa! - Sussurro meio sem jeito, saindo logo após a procura do meu avô.
Em passos rápidos, chego até a mesa na parte de trás da casa. Lorena conversa intimamente com Ramon. Estão apenas eles sentados lado a lado com as mãos sobre a toalha azul da mesa.
_ Vocês viram meu avô por aqui? - Pergunto de uma certa distância.
_ Ele entrou agora a pouco! - Responde Lorena ao pousar o queixo sobre a palma da mão.
Caminho em direção a porta dos fundos e logo estou adentrando o grande cômodo o qual me trás lembranças da primeira vez que estive aqui. As paredes claras, as janelas estreitas próximas à cabeceira da enorme cama de casal com lençóis de seda, o criando-mudo o qual há uma travessa prateada com uma pequena tigela de cristal, o guarda-roupa bem esculpido em um estilo um tanto rústico. Tudo me leva ao mesmo pensamento: o homem ruivo de olhos intensos que da primeira vez adentrou por essa porta com seu ar misterioso preenchendo o ambiente. Dheyzom, meu consciente me trás seu nome através de um melodioso som que atravessa a porta entreaberta.
_ Samantha? - Uma voz arranhada e rouca adentra o cômodo.
_ Oi, vô! - Respondo meio perdida enquanto ainda aprecio à melodia presente no ar.
_ Lorena disse que estavas me procurando. Está tudo bem?
_ Sim, eu só... - Elevo meu olhar até ele. _ Vô!
_ Sim? - Seus olhos atentos esperam que eu continue.
_ O senhor não sente falta de algo ou de alguém... - Minhas próprias palavras se enrolam em uma confusão só.
_ Do que estás falando? Queres saber se sinto falta de Eliza? É isso?
_ Não. Não é isso! Estou me referindo à uma outra pessoa. Quero dizer... Dheyzom! Esse nome não lhe diz nada?
Ele parece pensativo. Sua mão esfrega o queixo enquanto seu olhar se estreita a procura de lembranças vivas, o que parece não chegar mesmo com todo o esforço.
_ Desculpa Samatha! Sinto que conheço esse nome. Parece muito familiar, mas minha memória já não é mais como antes! - Ele balança a cabeça enquanto encara o piso de madeira.
_ Tudo bem! - Selo os lábios após um breve suspiro.
Ele me estende a mão e eu estendo a minha sobre a dele. Caminhamos pelos corredores e a melodia exposta no ar, vai aumentando a cada passo.
_ De onde vem essa música? - Pergunto curiosa.
_ Achei uma fita no armário do quarto! É antiga, mas está bem conservada. - Seu olhar cansado e afetuoso recai sobre mim assim que adentramos a sala onde a melodia sai suave do velho rádio prateado sobre uma pequena cômoda no canto. _ Vamos dançar? - Ele se põe a minha frente com suas mãos enrugadas estendidas em minha direção.
_ Claro! - Assinto com um sorriso simpático.
Ele põe uma mão na minha cintura e a outra em meu ombro, então começamos a traçar movimentos lentos conforme a melodia da música. Em meio a voltas e rodopios, sua feição vai se transformando, até que frente a mim esteja o homem mais lindo que eu já vi em toda a minha vida. Seu olhar é tão profundo que chega a entrar em contraste com tom pálido de sua pele. Ele sorri pra mim; não qualquer sorriso, é um sorriso largo, mostrando seus dentes perfeitos. Então ele começa a sussurrar : " I gotta tell you what I'm feelin' inside I could lie to myself, but it's true, there's no denying when I look in your eyes, girl I'm out of my head over you..."
O rouco som de sua voz me traz tranquilidade, me deixa nas nuvens, mas então ele para e vira o rosto em outra direção e quando volta já não é mais o mesmo. Seus olhos negros voltaram a ser azuis e seus cabelos de fogo estão acinzentados. Estou alucinando com esse ruivo que hà pouco eu não fazia ideia que existia e agora parece ter se tornado o centro dos meus pensamentos.
_ Vamos? - A voz suave da minha avó se aproxima e logo ela está a minha frente segurando na mão do meu avô que sorri sutilmente assentindo com um leve balançar de cabeça.
_ Onde vocês vão? - Pergunto ao ver o entusiasmo estampado no rosto de ambos. Mas a resposta que saira de sua boca me deixa completamente surpresa.
_ Vou levar sua avó para buscar as malas. A partir de hoje ela irá morar comigo aqui na chácara! - Responde meu avô sem tirar o sorriso do rosto.
_ Como assim? Já? - Confesso que preferia cada um na sua casa. Não é ciúmes, é cuidado.
_ O que foi querida? Não gostou da novidade? - Pergunta minha avó em baixo tom enquanto se aproxima de leve.
_ Não é isso. Só acho que é muito cedo! - Tento argumentar, mas é quase uma contradição falar sobre tempo para dois anciãos.
_ Querida, eu sei o quanto tu és próxima da tua avó, mas não estás perdendo-a. Ainda poderás visitá-la aqui na chácara! - Argumenta meu avô. Eu realmente queria que fosse tudo simples assim, e quem sabe seja, talvez eu esteja apenas aflita pelo que Danilo disse, talvez eu esteja paranóica demais para ficar feliz pelos dois.
_ Eu sei vô! - Selo os lábios em um suspiro profundo. _ Talvez eu esteja com um pouco de ciúmes de ter que dividir minha avó, mas estou feliz que finalmente tenha encontrado outra mulher para amar! - Lhe dou um abraço apertado sentindo um pesar terrível dilacerar meu peito.
Da varanda vejo a tarde se esvair aos poucos, dando início ao clima frio da noite e o cantarolar dos grilos. Megue e Toddy atravessam a porta despedindo-se de meus avós e Leandro já nos espera dentro do carro com o aparelho celular em mãos.
A viagem de volta pra casa é tranquila. Toddy vai o tempo todo a conversar com Megue e Leandro permanece com o olhar fixo no aparelho. Enquanto isso, encosto a cabeça no vidro do carro e me deixo levar novamente até o sujeito ruivo o qual faz meu coração bater mais forte, mas logo preciso voltar a realidade, pois chegamos ao nosso destino.
Despeço-me de Tobby e Leandro e entro subindo as escadas direto ao meu quarto. Abro a porta devagar e entro já tirando os sapatos e caminhando rumo ao banheiro.
_ Então, tu e o Leandro estão... - É a voz de Lorena logo atrás de mim. Entrei tão distraída que não reparei que ela estava sentada em minha cama.
_ Não Lori! Não estamos nada. Somos apenas amigos! - Respondo com desdém fechando a porta logo após.
Depois de um banho relaxante e uma roupa confortável, decido contar a Lorena o que anda acontecendo comigo, afinal de contas, ela é minha melhor amiga, e única.
_ Sinceramente amiga, eu nunca fui de acreditar muito nessas coisas de amuleto, mas se tu achas que esse tal colar pode te levar até esse tal ruivo aí, eu te dou a maior força! - Ela sorri carismática ao segurar minhas mãos sobre as suas. _ E se ele for o tipo galã de filme, melhor ainda! - Completa ao direcionar um olhar perverso até mim.
_ Cala a boca garota! - Jogo o travesseiro em seu rosto e me inclino sobre a cama, para alcançar a gaveta do criado-mudo. _ Seja o que tem ser! - Pego minha mochila e coloco algumas coisas essenciais para uma viagem curta, incluindo o amuleto que peguei da gaveta.
_ Eu vou contigo! - Diz Lorena toda decidida ao por sua mala sobre a cama.
_ Claro que não! Eu não sei o que podemos encontrar pela frente, mas não tô com bom precentimento! - Digo ao cruzar os braços sobre o peito.
_ Por isso mesmo! Eu sou sua amiga, não sou? - Pergunta ao arquear as sobrancelhas.
_ Claro que é! - Reviro os olhos pra ela.
_ Então, na alegria ou na dor e principalmente nas loucuras, estarei contigo em todos os momentos, mesmo que isso ponha minha vida em risco, por ti eu faço qualquer loucura! - Ela me olha como se esperasse eu falar algo, mas o único som que sai da minha boca, é o de um breve suspiro. _ Então vou arrumar minha mala! - Diz toda eufórica.
_ Nada de mala! - Jogo sobre a cama, uma outra mochila que peguei do fundo do meu armário. _ esta vai servir!
_ Mas aqui não cabe nem os meus sapatos! - Questiona.
_ Qual é Lori, tu nunca foi à um acampamento? Só o essencial!
_ Mas os meus sapatos são essenciais!
A olho com seriedade e soletro calmamente: Nada. De. Sapatos.
_ Tá... - Resmunga ao revirar os olhos. _ Só o essencial, prometo! - Dito isso, ela pega a mochila rosa sobre a cama e vai escolhendo algumas roupas da mala.
Mal posso esperar para encontrar Dheyzon e algo me diz que assim como eu, ele espera ansioso para que estejamos juntos outra vez. Seja lá onde esse colar há de me levar, se eu tiver a oportunidade de vê-lo e tocá-lo, pra mim já vai ter valido a pena. Tudo que eu mais quero nesse mundo, é tê-lo comigo outra vez.
_ Quando iremos? - Pergunta Lorena ao quebrar minha linha de raciocinio, e quando estou pronta para desponder, minha mãe aparece encostada no batente da porta.
_ Onde as mocinhas pensam que estão indo? - Pergunta pausadamente ao analisar Lorena a terminar de arrumar suas coisas na mochila.
Queria ser uma maquina de respostas prontas, mas o pior é que nem sempre estamos prontos para ser pegos de surpresa, principalmente quando a cena é tão óbvia que qualquer pensamento voa distante e o nervosismo passa a tomar conta de sua voz.
_ Mãe, eu... Digo, nós não... Não estamos indo a lugar nenhum! - Tento sorri de forma natural, mas tudo que consigo é denunciar o quão nervosa eu estou.
_ Como não estão? E essas mochilas? - Diz rígida ao apontar para nossas mochilas.
_ Não tia, não é o que estás prensando... - Agora é a vez de Lorena pôr um argumento em prática, e seja lá o que ela vá dizer, espero que convença minha mãe que já está atônita com seus braços cruzados acima do peito e o pé batendo de forma constante no assoalho. _ A Sami estava apenas me ensinado como arrumar a mochila para acampar!
Minha mãe solta os braços e se aproxima de Lorena com um ar mais leve.
_ E onde pretendem fazer esse tal acampamento que eu ainda não fui informada? - Ela semecerra os olhos analisando as coisas que Lorena pois na mochila.
_ Aí é que tá! Não vamos acampar, ainda! - Ela levanta da beirada da cama. _ É que antes de eu ter que voltar, Samantha propôs que acampassemos. Não é mesmo, Sami? - Ela me olha seriamente, fazendo-me assentir prontamente.
_ Claro, é isso mesmo!
Minha mãe só observa calada.
_ E é por isso que estávamos arrumando as mochilas! - Conclui por fim.
Por incrível que pareça, minha mãe aceitou a resposta elaborada por Lorena. Apenas caminhou até a porta, deu uma última olhada para nós duas e saiu do quarto.
_Ufa! Essa foi por pouco! - Digo aliviada ao dá uma última olhada no corredor e fechar a porta. _ Por um momento achei que ela duvidaria!
_ Confessa que sou a melhor! - Diz Lorena toda convencida ao se debruçar na cama.
_ Tá! Por enquanto sim! - Sorrio largamente e ela devolve o sorriso.
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