27 - O colar◇
Leandro logo se põe sentado frente a mim com seu ar de preocupação sendo transmitido através de um simples olhar.
_ Sami? Estás bem? - Pergunta segurando minhas mãos, mas o único som que sai de minha boca é um gemido fraco. Aperto meus olhos ao sentir a dor se intensificar ainda mais. Levando as mãos serradas sobre o peito, solto um leve suspiro tentando de algum modo controlar as batidas aceleradas do meu coração e aos poucos a dor vai aliviando até que eu possa recuperar o ar que faltava em meus pulmões. Abro meus olhos e meu olhar se cruza ao de Leandro que continua com uma expressão preocupada e confusa.
_ O-O quê... - Ele parece mais confuso ainda ao analizar criteriosamente a região do meu colo. _ Sami... - Ele leva a mão de encontro ao meu pescoço, mas antes que o possa tocar, me esquivo para trás com um certo receio.
_ O que estás fazendo? - Pergunto com as sobrancelhas franzidas.
_ Eu... O... - Ele aponta para o colar em meu pescoço. - Nossa... Isso é assustador e... fascinante! - Posso ver um sorriso brotar em seus lábios e através de seus olhos uma luz vermelha é refletida, é o colar, ele brilha intensamente, então, resolvo pôr a mão sobre ele, mas quando o toco, sinto uma chama arder em meu peito e no impulso, o arranco com força lançando-o
ao chão.
Leandro observa curioso o colar ir perdendo o brilho aos poucos e eu mantenho uma certa distância com medo dessa coisa explodir ou sei lá.
Quando percebo que o perigo já havia passado, resolvo me aproximar para observar melhor.
_ Leandro, agora me explica, onde conseguiu essa coisa? - Pergunto um pouco nervosa.
Ele se faz de desentendido, até tenta mudar de assunto, mas no fim das contas, acabo por convencê-lo a me contar toda a verdade.
_ Tá! - Ele solta um suspiro pesado. _ Naquela noite, quando tu estavas comemorando tua festa juntamente com a tua família, eu fui a uma boate com uns amigos. Acabamos por beber demais e ao sair de lá, fomos nos divertir um pouco com algumas rap...
_ Tá, Tá! - O interrompo. _ Dá pra ir direto ao ponto? - Reviro os olhos e ele acente com um sorriso de canto.
_ Por fim, passamos na frente do museu que nesse horário já havia fechado. Como eu estava muito apertado devido ao excesso de bebida, resolvi parar por lá para me aliviar, então os caras que estavam comigo me chamaram para entrar e como eu já não me importava com o que era certo ou errado, me deixei influenciar por eles e acabei invadindo o lugar. A janela maior do lado de trás estava aberta e isso facilitou nossa entrada, então começamos a andar com cuidado por cada sala sinistra e escura do lugar. Haviam quatro vigias noturnos, dois dormiam, um estava com fones assistindo alguma porcaria no smartphone e o último fazia ronda do lado de fora. Meu único plano era explorar o lugar, mas para o meu azar, os caras me trancaram na sala onde estava uma estatueta com um colar bem parecido com esse, na verdade, idêntico. Fiz de tudo para abrir a porcaria da porta, mas não é nada fácil abrir uma porta de ferro maciço sem fazer um enorme barulho. Vendo que não conseguiria abri-la, resolvi esperar até que clareasse o dia e alguém a abrisse. Tudo já estava bem planejado e pela manhã eu sairia dali sem que ninguém percebesse, mas, quando já estava próximo da meia noite, ouvi um barulho de chave na fechadura, então me escondi atrás de algumas esculturas e esperei para ver quem seria. Era um sujeito alto, forte e com uma tatuagem enorme no pescoço. Supus ser algum outro vigia, então sai com cuidado e quando já estava próximo a janela, resolvi parar na lojinha de bijouterias e pegar alguma coisa para lhe dar de presente, foi aí que pude apreciar quão magnífico eram aquelas cópias do verdadeiro colar que estava na estatueta da sala que eu havia acabado de deixar. Não entendo muito de acessórios, mas vi que era uma peça linda e como haviam várias outras como ela, conclui que uma apenas não faria falta, e sem pensar muito, peguei um dos colares e quando já ia pôr no bolso da jaqueta, ouvi o som alto e repetido do alarme de segurança, no mesmo instante percebi que havia feito merda e quanto já estava pronto para correr, o cara tatuado vem andando rápido e esbarra em mim. Ele também estava com um colar igual ao que eu tinha em mãos e com o embalo que nos esbarramos, ambos os colares caíram ao chão. O sujeito mal-encarado me xingou e logo que focos de lanternas foram percebidos, ele pegou qualquer um já que eram idênticos, então eu fiz o mesmo e me pus a sair o mais rápido possível do local. Já do lado de fora, procurei pelos caras que haviam me convencido a entrar nessa roubada, mas não havia nem sinal deles, então peguei a moto e no caminho para a festa, parei em uma papelaria para comprar um embrulho descente para pôr o colar!
_ Então tu me destes um presente... roubado? - Pergunto incrédula observanso sua expressão de culpa.
_ Digamos que sim! - Ele sela os lábios meio sem jeito. _ Me desculpa Sami! A verdade é que eu estava muito bêbado, não sabia o que estava fazendo! - Ele tenta se explicar, mas para mim não é o bastante. Não consigo acreditar que ele tenha tido a audácia de invadir um museu e muito menos que tenha tido a coragem de me dar algo roubado.
_ Precisamos devolvê-lo! - Informo com os braços cruzados e a expressão mais seria possível.
_ E o que achas que farão após saber que eu roubei uma peça de lá, mesmo que seja apenas uma bejouteria boba?
Fico calada tentando pensar em algo que possa fazer para deixar essa situação agradável para ambos os lados, até que tenho uma idéia.
_ Deixa comigo! Vamos! - Seguro em seu braço e já vou puxando-o, quando o mesmo questiona ao puxá-lo contra o peito.
_ Mesmo que o museu estivesse aberto a essa hora, pois tenho certeza de que já fechou, porquê devolver uma peça sem valor como essa? - Ele segura o colar em suas mãos.
Reviro os olhos perante tanta ingenuidade.
_ Como porquê? Por acaso achas que uma simples "bejouteria", como disses. Achas mesmo que teria tanto brilho e magnitude como essa peça em tua mão? - Dou um sorriso irônico.
_ Estás insinuando que...
_ Sim Leandro! É óbvio que o tal cara roubou o colar do museu e com a confusão na hora da fuga, ele acabou por levar o colar errado! - Afirmo com toda certeza.
_ Nossa, cara... - Ele guarda o colar no bolso da calça e põe as mãos atrás da cabeça em sinal de desespero. _ Eu estou muito ferrado, muito, muito ferrado! - Agora ele anda agoniado de um lado para o outro.
_ Ei, calma! - Tento segurar em suas mãos para acalmá-lo, mas ele está muito inquieto. _ Leandro, olha pra mim! - Ordeno e ele assim o faz, pousando seu olhar diretamente no meu. _ Tudo ficará bem! ok? - Meu olhar continua firme ao seu.
_ Ok! - Responde com um sorriso fraco em face.
_ Então tá! Agora tu vás me deixar em casa, vai para a tua casa descansar e amanhã, com calma, resolvemos isso! - Informo já calçando meus tênis e pondo minha bolsa preta em mãos. _ Vamos? - Lhe dou um sorriso e ele faz o mesmo.
_ Vamos! - Responde passando na minha frente.
Ele liga a moto e após tirá-la do beco escuro, seguimos para a minha casa. Me despeço dele com um simples abraço e logo ele parte rumo ao centro novamente.
Bom, a noite pode não ter sido das melhores, mas pelo menos vou ter algo interessante para fazer amanhã e preciso começar a ensaiar minha atuação para que não haja dúvidas sobre o assunto do tal colar.
Como de costume, Megue e Lorena não estão em casa e meu pai e minha mãe assistem ao noticiário que passa na TV.
_ Oi pai, oi mãe! - Cumprimento-os ao passar pela sala e logo subo as escadas indo direto para o meu quarto.
Fecho a porta, visto o pijama após um banho rápido, e resolvo ligar para a minha avó que a essa hora deve está em sua casa com aquele monstro que é esse tal sobrinho. O telefone toca algumas vezes até que finalmente ouço o doce som de sua voz.
_Alô? Sami?
_ Oi vó, sou eu sim! Estás em casa?
_ Sim, e estou um tanto ocupada agora! O que queres? - O som de sua voz é carregado de preocupação.
_ Só liguei para saber como estás! - Informo.
_ Estou bem! - Responde seca. _ Era só isso mesmo? Agora preciso deligar, amanhã te ligo de volta! - Antes que eu possa responder, ela desliga o telefone na minha cara e eu fico sem reação e totalmente confusa.
Fico com um certo receio do que Johan possa fazer com minha avó, então, sem pensar duas vezes, desço as escadas e vou até a sala tentando convencer meu pai a me levar na casa dela.
_ Como assim filha? Vistes tua avó hoje cedo! - Meu pai questiona. _ E além do mais, já está tarde! - Ele olha para o relógio prateado em seu pulso.
_ Mas eu preciso! - Imploro.
_ Samantha filha, ouve seu pai! Não é porquê queres uma coisa que serviremos teus caprichos! - Minha mãe intervém.
_ Aff... - Bufo e dou meia volta subindo as escadas em passos pesados. Por mais que eu não queira admitir, meus pais estão certos. Já são aproximadas onze da noite e não seria nada bom ir perturbar minha avó a esse horário, mas por outro lado, ela está abrigando um assassino em sua casa e eu como sua neta, preciso protegê-la, afinal de contas, ela é apenas uma senhora indefesa e ingênua abrigando um psicopata safado que eu desconfio nem ser realmente seu sobrinho.
Debruçada na janela do meu quarto, vejo o farol de um carro fazendo menção de estacionar e logo posso ver a frente do carro vermelho de Megue. Já que não sei dirigir, o jeito será pedir sua ajuda. Ela é chata as vezes, e como duas irmãs normais, temos nossas discussões, mas quando trata-se dos meus problemas envolvendo qualquer pessoa da família, ela está sempre disposta a ajudar no que quer que seja. Sempre posso confiar nela.
Logo que ouço passos caminhando no corredor, corro para abrir a porta e dou de cara com Megue.
_ Preciso conversar contigo! - Digo com uma expressão séria.
_ Espera, preciso de um banho antes! - Responde meio tensa.
_ Não Megue! agora! - Exclamo deixando-a assustada.
_ Nossa Sami, o que houve? - Pergunta confusa.
_ Vem comigo! - Digo já entrando no quarto.
Sento na cama e espero até que ela sente na poltrona próxima à janela, para que eu possa começar a falar.
_ Tá! Agora desembucha! - Ela pede "educadamente" ao se acomodar em seu lugar.
_ Preciso que me leve até a casa da vó Diana! - Começo.
_ E porquê disso agora? - Pergunta com um sorriso sarcástico.
_ Como posso te dizer isso... - Dou um suspiro pesado tentando escolher as melhores palavras. _ Johan, ele não é essa pessoa boa que todos pensam! - Afirmo com toda certeza.
_ Do que estás falando? - Sua feição muda completamente. _ Estás querendo dizer que também duvidas de seu caráter?
_ Como assim, 'também'? - Agora sou eu quem estou confusa.
_ Sim! Após nossa avó acompanhá-lo até a porta da rua, achei que ele estivesse ido embora, mas algum tempo depois, quando todos estavam na sala conversando, fui até a cozinha tomar água e tive a leve impressão de vê-lo passando em passos apressados pelo Jardim! Mas o que não entendi, foi o que ele estaria fazendo aqui se disse que tinha compromissos para resolver em seu trabalho! - Ela explica detalhadamente, fazendo-me lembrar dos últimos acontecimentos dessa manhã.
_ Aí é que está! - Digo quase em um sussurro.
_ O quê? - Ela se curva com as mãos a frente do corpo e o olhar fixo em mim.
_ Hoje cedo, quando me retirei da mesa, vim para o meu quarto e fui até o banheiro escovar os dentes e quando estava prestes a sair, ouvi a porta do quarto se abrir e era ele! - Solto um suspiro novamente ao ver a cena se repetir várias e várias vezes em minha mente.
Diante de tal revelação, Megue fica boquiaberta com os olhos arregalados em uma expressão incrédula em sua face.
_ E... o que ele queria?
_ Suponho que fosse abusar de mim se Lorena não tivesse batido na porta a tempo! - Respondo com olhar distante.
_ Como assim? - Exclama assustada.
_ Ele havia trancado a porta na chave e me fez tocar na arma que ele levava na cintura! Disse que mataria todos se eu não me mantesse de boca fechada!
_ Minha nossa... que desgraçado! - Exclama com olhar de ódio. _ E tu contaste a nossos pais? Porquê não constataram à polícia?
_ Megue, calma! - levanto da cama e me abaixo ao chão ficando frente à ela. _ Nossos pais não sabem!
_ Com.... - Interrompo-a antes que ela termine de falar.
_ É melhor assim! Sei o que estou dizendo! - Seguro firme em suas mãos. _ Antes de tudo, precisamos manter todos em segurança. Sabe-se lá o que esse cara é capaz de fazer se souber que o denunciei a polícia, e além do mais, não tenho provas do que estou falando, será a palavra dele contra a minha!
Megue fica calada durante alguns minutos e após um longo suspiro, ela me abraça e começa a chorar.
_ Porquê isso está acontecendo? Logo agora que... - Ela faz uma pausa.
_ Que... o quê? - Pergunto curiosa.
_ Nada! Deixa pra lá!
_ Se não fosse nada, não estarias assim! - Questiono.
_ Só... Estou falando do nosso avô! É isso! - Ela enxuga as lágrimas com as palmas das mãos e levanta indo em direção ao corredor. _ Só vou buscar um casaco! - Avisa ao atravessar a porta e me deixar só em meu quarto.
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