@ZildaMariano: Último-dia-Primeiro-dia
Dia um
Às 6h 30m, o celular despertou. Já estava acordada há uns minutos, esperando que o tema de “Piratas do Caribe” me avisasse que o dia precisava começar.
Fui me arrastando preguiçosa da cama e entrei no chuveiro com os olhos ainda quase fechados. Maquiagem, calça de alfaiataria branca, camisa vinho, scarpin nude, joias pequenas, perfume. Todo o ritual diário de antes de sair de casa. Café, bolachas de água e sal, recados para a diarista.
Voltei ao quarto para pegar a bolsa, escovar os dentes de novo e dar um beijinho no marido, que mal levantou a cabeça. Ele não trabalharia e nem as crianças iriam à escola. Só eu tinha que trabalhar, e isso diminuía consideravelmente a minha vontade de aparecer no escritório.
O trânsito estava bem mais tranquilo que o normal. Muita gente de folga na sexta pós feriado, resultava em menos carros na rua e menos confusão para chegar. Acabei passando pela catraca muito mais cedo que o usual. Antes das 8h, dava bom dia à Amanda, a secretária baixinha e sempre de bom humor que eu desconfiava dormir embaixo da mesa. Não importava a hora que eu chegasse ou saísse, ela sempre estava lá. Gostava de verdade da moça, que sempre lembrava de me trazer mais uma caneca de café no meio da manhã, quando a minha cabeça costumava já estar pendendo sobre o teclado do computador.
Na sala ao lado da minha, Aleida já estava a todo o vapor, mas parou um pouco para contar as fofocas quentinhas. Na noite anterior, confirmaram o que todo mundo já sabia: que a secretária do diretor estava de caso com um dos gerentes. Ambos eram casados. Um escândalo épico e conjecturávamos todos os detalhes quando o chefe passou dando bom dia. Um homem de meia idade, um tanto gorducho e de uma simpatia irresistível, fazia parte de um grupo de motociclistas aos fins de semana, quando trocava o terno bem cortado por uma jaqueta de couro e jeans. Era uma das pessoas mais interessantes que já conheci, e também gastou preciosos minutos de seu tempo, comentando a vida amorosa dos colegas. Depois de risadas um tanto maldosas, nos recolhemos aos nossos computadores e ao trabalho a fazer.
Um dos maiores privilégios do meu trabalho era a vista linda e livre de um bosque de cerrado, nos fundos do aeroporto. Isso, e ter uma sala só para mim. Alguém com déficit de atenção, não devia trabalhar com gestão de projetos e muito menos vai elaborar um cronograma enquanto os colegas falam em volta. Geralmente mantenho a porta fechada, e era exatamente assim que ela estava naquele momento. Frustrada com os dados incompletos que recebera na noite anterior, olhava pela janela, um homem, sozinho, passos trôpegos, esbarrando em cada árvore do caminho.
— Aproveitou bem o feriado – pensei alto.
Voltei ao computador e logo o ar condicionado parou de funcionar. Coloquei a mão na grade só para ter certeza que o sistema realmente havia parado. Pensei em sair para perguntar, mas era um dia fresco, bastaria abrir a janela e continuaria confortável. Ao abri-la, mais duas pessoas esbarravam nas árvores, andando no bosque, onde não costumava ter ninguém. Aquilo começava a parecer estranho, e já me encaminhava à porta, a fim de chamar as colegas para tentar entender o que estava acontecendo, quando um baque surdo, seguido de um grito muito perto da minha sala, me congelou por um momento. Era a voz de Amanda.
Ao abrir a porta, a cena que eu jamais esqueceria: Aleida, a advogada alta, linda e doce, debruçada sobre a menina, arrancando pedaços de sua carne com os dentes, enchendo o piso recém trocado de sangue. Meu instinto foi de atacar a colega e a atingi com um chute forte que a afastou do corpo inanimado da secretária.
Ao olhar para o rosto transfigurado da minha amiga, tive a certeza que ela não estava mais ali. Os olhos injetados de sangue e a fúria se dirigiram a mim, e eu teria o mesmo destino da pequena Amanda se não tivesse pego a grossa régua de metal e empalado a mulher, inserindo o objeto pelo olho dela e sentindo-o bater na parte de cima do crânio. Arranquei a régua, ainda em choque, e ia me aproximar de sua vítima, quando Amanda começou a se mexer e me olhou com os mesmos olhos injetados e cheios de fúria.
Consegui entrar na minha sala e travar a porta, onde ela batia e, pelo barulho, mais criaturas que costumavam ser meus colegas, se juntaram a ela.
Não sei de onde veio a força para arrastar a mesa até a porta, para me proteger mais ainda e conseguir tempo para pensar num plano. Tentei ligar para casa e para a polícia, mas os telefones não funcionavam. Nem o da mesa, nem o celular. Precisava sair dali o quanto antes. Olhando em volta, percebi que pouca coisa poderia me ajudar. Pular a janela estava fora de questão. Três andares seriam o suficiente para me machucar e me impedir de correr até o carro. Péssimo dia para ter estacionado longe. O metal que protegia as bordas da mesa era duro o suficiente e, removendo a proteção de plástico era perigosamente cortante.
Encontrei a sapatilha, esquecida lá nem lembro quando, enrolei revistas nos antebraços, peguei a proteção da mesa, agora transformada em lança, uma faca de serra que Aleida esquecera na minha sala antes do feriado, criei coragem e arrastei a mesa. Tudo o que eu sabia do que estava acontecendo era que eles mordiam, os mordidos ficavam iguais a eles e que morriam acertados na cabeça.
Vamos torcer para que as madrugadas assistindo a filmes de terror ajudem em alguma coisa. Contei mentalmente as cinco salas instaladas no corredor e mais ou menos quantas pessoas que já poderiam ter virado criaturas, eu poderia encontrar até chegar à escada. Acertei a lança improvisada na lateral da cabeça do chefe e ele parou de se mexer. A faca de serra entrou no olho de Amanda que tentou morder o meu braço e só não conseguiu, graças à proteção feita com revistas. O cheiro de carne pútrida invadia minhas narinas.
Passei o mais silenciosa possível pelas três primeiras salas, onde ficava o pessoal do telemarketing, reduzido no feriado, mas ainda com pelo menos 20 pessoas presentes. Eles não me viram. A sala do diretor estava com a porta de vidro fechada, e pude assistir uma secretaria estraçalhando a garganta da outra, que era a amante descoberta ontem.
A porta do andar estava logo depois das máquinas copiadoras, onde Guerra, um dos funcionários mais antigos da empresa, agora com a pele azulada e olhos vermelhos, terminava de atacar uma menor aprendiz. Usei toda a força do meu braço para fincar de uma vez só, a lança na nuca do senhor culto e divertido que sempre trazia chocolate às sextas-feiras. A porta de vidro foi vencida e a fechei pelo lado de fora, torcendo que a tranca magnética desse conta das criaturas até que eu conseguisse sair dali.
A escada de incêndio estava a três metros e antes que a alcançasse, quatro criaturas vinham com os braços estendidos. A tia do café, o garçom das reuniões, uma das atendentes do telemarketing e o zelador, fazendo aquele barulho gutural e nojento. Empurrei a tia do café com a base da lança, finquei a ponta na cabeça da moça do telemarketing e entrei, fechando a porta e torcendo que eles não fossem espertos o suficiente para usar uma maçaneta. Pé ante pé, fui descendo os degraus apenas com a luz fraca do celular para quebrar a escuridão completa.
Já chegava ao térreo quando ouvi mais vozes fazendo aquele barulho. Provavelmente mais que uma dezena. Coloquei a lança na frente, respirei fundo e decidi que era melhor correr que tentar enfrentar um a um. Pulei a catraca com uma agilidade que nunca imaginaria ter, atravessei a cobertura azul da fachada imponente, com criaturas se juntando à perseguição a cada passo dado. Meu carro, ainda a pelo menos 100 metros dali.
Outra meia dúzia de criaturas caminhavam na minha direção, vindas do outro lado. Eu estava cercada. Abaixo de mim, o pequeno jardim do fosso era a única saída, apesar de ser uma armadilha perigosa de onde seria quase impossível escapar. A lança sendo apontada era a minha única proteção e começava a subir a mureta, quando o barulho de tiro atraiu as criaturas.
O garoto oriental do almoxarifado estava do outro lado do estacionamento. Corri até ele e apontei o meu carro sem questionar de onde veio a arma. Entramos juntos, eliminando ainda mais algumas criaturas antes de conseguir dar a partida.
Iria para casa sem a certeza do que encontraria lá. Não havia carro nenhum na pista além do meu e nenhuma viva alma além do garoto nerd e magricela no banco do passageiro. Isso era péssimo sinal, mas precisava manter a esperança.
Quis crer que o mundo não acabaria ali.
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