@S_serrano: Uma Segunda Chance
É engraçado como certos acontecimentos podem mudar nossas vidas.
Certa vez, a alguns anos atrás, estava a caminho da faculdade e vi uma velhinha tentando atravessar a rua.
Eu passava por essa mesma rua todos os dias e sabia muito bem o quão difícil era atravessá-la, pois havia um grande movimento de carros e para piorar não tinha nenhum farol, ou seja, tínhamos que ficar esperando que uma alma gentil parasse o carro e nos deixasse atravessar ou tínhamos que nos arriscar e correr na primeira brecha entre os carros que aparecia.
E foi exatamente o que aconteceu, na primeira oportunidade que surgiu a velhinha atravessou, mas percebi que ela tinha um pouco de dificuldade para andar e um pouco mais adiante vinha um carro então acelerei meus passos para acompanhá-la e ajudá-la a atravessar.
Já do outro lado da rua ela pergunta:
- Qual é o seu nome, menina?
- Simone - eu respondo.
Ela abre sua bolsa e retira de lá uma caixinha de madeira toda trabalhada com desenhos de rosas incrustadas na madeira.
- Quero lhe dar isto em agradecimento por me ajudar.
- Não é necessário, não fiz nada demais - disse tentando recusar - Um simples obrigada já é o suficiente.
Ela pareceu um pouco triste por eu rejeitar seu presente, então resolvi aceitar.
- Obrigada! É linda.
- Abra apenas quando estiver sozinha e depois a dê para a pessoa certa - ela diz e saí andando.
Fico ali parada olhando para a caixinha sem entender nada.
- Dar para a pessoa certa? Como vou saber quem é a pessoa certa?
- Quando chegar a hora você saberá - ela grita já virando a esquina.
Saiu do transe em que me encontrava e corro para alcançá-la, mas ao virar a esquina ela tinha sumido. Será que morava em alguma daquelas casas? Bom, eu não podia sair batendo de porta em porta perguntando por uma velhinha que eu nem ao menos sabia o nome. Resolvi seguir meu caminho para a faculdade.
Ao fim do dia, assim que cheguei em casa fui para o meu quarto. Havia passado o dia todo pensando naquela caixinha. O que teria dentro dela? Quem seria aquela velhinha misteriosa?
Me sentei na cama e abri a caixa.
No mesmo instante fui engolida por uma forte luz branca, fechei meus olhos e ao sentir que a luz diminuiu sua intensidade os abri e me vi novamente com cinco anos. Imediatamente me arrependi de ter aberto a caixinha, esse foi o pior dia da minha vida.
_Eu estava passando as férias junto com meu irmão na casa da minha avó. Estávamos brincando perto da piscina e eu na minha inocência de criança de cinco anos achei que seria divertido empurrá-lo dentro da piscina. Ele tinha apenas um ano a mais que eu e ainda não sabia nadar, ficou se debatendo e pedindo por socorro, mas ninguém aparecia. Eu entrei em pânico também após vê-lo afundar pela segunda vez e comecei a chorar, juntos conseguimos chamar a atenção dos adultos, mas antes que eles saíssem correndo da casa, meu irmão afunda pela terceira vez e não volta a subir._
_Meus pais ao se aproximarem de mim perguntam o que estava acontecendo, eu aponto para a piscina e digo:_
_- Teti caiu - essa era a forma carinho pela qual eu o chamava._
_Meu pai então percebe meu irmão no fundo da piscina e pula, o retira de lá já quase sem vida. A ambulância foi chamada, mas ele não resiste e acaba morrendo a caminho do hospital._
Esse é o dia ao qual essa caixa me trouxe, estou mais uma vez ao lado do meu irmão brincando na casa da minha avó. Eu o abraço e beijo, ele me olha sem entender, pois essas não são coisas que eu costumava fazer. Passamos o dia todo brincando e dessa vez nada de brincar perto da piscina.
Talvez a razão da caixinha ter me trazido até este momento de novo é me dar a oportunidade de viver esse dia como deveria ter sido.
Após jantarmos abraço meu irmão de novo e vamos dormir. Acordo com alguém pulando em cima de mim, ao abrir os olhos percebo que sou adulta novamente e estou de volta ao meu quarto nos dias atuais. Sinto um peso sobre mim que me afasta dos meus pensamentos, quando olho vejo que é meu irmão, agora adulto também. Fico o olhando sem acreditar no que meus olhos veem.
- O que foi? - ele pergunta - Parece até que está olhando para um fantasma - ele ri e sai de cima de mim.
Começo a chorar, ele se aproxima e me abraça.
- Me perdoe por ter sido uma péssima irmã. Eu não queria ter feito nada do que eu fiz - nem sei porque estava falando isso, simplesmente me vi dizendo - Estou feliz por você estar aqui.
- Você não tem do que pedir perdão, nada daquilo foi sua culpa. Eu estou em paz e você deve ficar também.
Nos abraçamos mais uma vez. Nesse momento sou envolvida por aquela mesma luz e dessa vez, ao voltar, estou em uma cama de hospital com minha mãe ao lado, que me conta tudo o que realmente aconteceu.
Eu ao atravessar aquela rua movimentada fui atropelada e fiquei em coma por três dias.
Me dei conta que a velhinha e a caixa foram tudo frutos do meu estado de coma, infelizmente não existe uma forma de voltar no tempo e desfazer erros que cometemos e nem ter as pessoas que perdemos de volta, mas de alguma forma tive minha segunda chance com meu irmão e hoje vivo em paz com meu coração tranquilo e sei que onde quer que ele esteja ele olha por mim e por todos que ele um dia em vida amou.
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