♡ 35 ♡
A movimentação excessiva de pessoas ao meu redor estava me sufocando. Olhei para o relógio na parede, era por volta das dez da manhã. Estava sentada em um banco na delegacia; ao meu lado estava Jin Dojun. Fomos trazidos para cá depois que a polícia finalmente chegou ao galpão e prendeu os bandidos que nos sequestraram. Pelo menos alguns deles.
Gyuri estava dando seu depoimento, ela foi a última de nós a ser chamada para falar com o delegado, estavam esperando a chegada dos pais da garota, eles precisavam acompanhá-la, já que é menor de idade. Suspirei, me remexendo de um jeito inquieto no banco. Muitos pensamentos atravessavam a minha mente ao mesmo tempo.
Com certeza nesse momento Kim Taesoo já está sabendo sobre o que aconteceu na noite anterior. Mesmo não sendo o melhor pai do mundo, quando algo nesse nível acontece com a filha dele, ele deveria aparecer. Seria o mínimo. Então por que ele não veio?
Passei dias o vigiando, sabia que ele provavelmente não tinha envolvimento algum nisso tudo, por isso não conseguia entender o motivo dele não estar aqui, cuidando disso pra mim. Com duas palavras ele seria capaz de fazer a polícia encontrar o mandante desse sequestro, mas eu não sabia se poderia contar com ele.
Vi quando Gyuri saiu da sala junto de seus pais, me levantei prontamente, fazendo uma reverência profunda para os três. Eu tinha envolvido uma adolescente em uma situação muito perigosa e ela se machucou por minha culpa, me senti miserável por isso.
— Eu nunca vou ser capaz de me desculpar o suficiente por tudo que aconteceu — os adultos apenas ficaram em silêncio me escutando — Vou pagar pelos cuidados médicos da Gyuri e tudo que ela precisar a partir de agora.
— Unnie, a culpa não é sua — a garota sorriu — Só não esquece do meu álbum autografado do Stray Kids!
Sorri para ela, assentindo com a cabeça. Me virei para sua mãe, entregando a ela um papel onde havia escrito o meu número de telefone.
— Por favor, vamos manter contato. Quero ajudar com tudo que puder, não vou deixar Gyuri desamparada.
A mulher concordou, agradecendo pelo meu gesto. Os três foram embora depois que me despedi da garota com um abraço. Me joguei de volta no banco da delegacia. Não podia ir embora antes de fazer o reconhecimento dos bandidos.
— Muita coisa na cabeça? — a pergunta de Dojun me surpreendeu. Não tínhamos trocado nenhuma palavra depois de chegarmos aqui.
— É… tipo isso.
Era um pouco difícil me abrir com o cara que tentou me esfaquear meses antes. Não podia fingir que não, mesmo que eu não carregasse mais mágoas sobre isso.
— Não foi o seu pai — o encarei, esperando que continuasse — O secretário dele foi atrás de mim pra oferecer uma indenização pra minha família pela morte do meu pai…
— Em troca de você ficar calado e não expor que a culpa foi da empresa dele — afirmei, era óbvio que isso tinha acontecido.
— Eu aceitei os termos — ergui as sobrancelhas com a informação — Você sabe que tudo que eu mais queria era justiça, queria ver Kim Taesoo atrás das grades, mas você sabe tão bem quanto eu que isso é praticamente impossível, então eu tentei me vingar, machucando você pra atingi-lo, e eu me arrependo profundamente disso…
— Nunca consegui sentir raiva de você pelo que aconteceu. Sei como é a dor de perder alguém importante. Pra sua família deve ter sido ainda pior, vocês o perderam por negligência de outras pessoas. E o principal culpado foi o meu pai.
— Mesmo assim, eu estava cego de ódio, com sede de vingança. Podia ter matado você se Han não tivesse aparecido — a voz de Dojun já estava embargada, eu podia sentir claramente que ele se arrependia de verdade — Quando o secretário do seu pai veio atrás de mim, ele me ofereceu uma casa longe do centro, uma pequena fazenda onde minha mãe e irmãos poderiam se manter. Ele também me deu uma boa quantia em dinheiro pra nos reerguermos… quando contei à minha mãe, ela se emocionou. Sempre foi o sonho dela e do meu pai se mudar pra uma casa no interior e viverem tranquilos, então eu tive que aceitar... faria tudo por ela.
Respirei fundo depois de ouvir tudo aquilo. Dojun era realmente um ótimo filho e uma boa pessoa.
— Eu admiro muito a força e a união de vocês. Acho que todos nós precisamos de um novo começo.
O Jin ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para frente.
— Sabe, eu não espero que me perdoe pelo que fiz, mas espero, de coração, que você seja feliz e não se culpe mais por coisas que não fez.
Balancei a cabeça assentindo. Mesmo não verbalizando isso, meu coração não guardava ressentimentos de Dojun, muito pelo contrário, eu sentia pena e queria ajudá-lo de alguma forma. Nós ficamos sentados mais algum tempo sem falar nada, com certeza ele tinha muita coisa em mente, assim como eu.
Meu olhar mudou de lugar quando Jisung entrou pela porta da delegacia, vindo em minha direção.
— Trouxe o que me pediu — ele estendeu o envelope pardo para mim — Vou deixar os dois conversarem, te espero lá fora, tá?
— Obrigada, Sung — segurei o papel nas mãos — Eu vou assim que me liberarem aqui.
O guarda-costas saiu do prédio, nos dando privacidade para conversar. Podia chamá-lo para um lugar mais calmo, mas, de qualquer forma, ninguém ali prestava atenção em nós dois. Estavam todos muito ocupados com seus próprios afazeres.
Estava na hora. Esperei tanto por esse momento, que não sabia direito o que dizer primeiro. Engoli seco antes de começar.
— Sei que tá buscando uma nova vida e aceitou o acordo com meu pai, mas eu estive te procurando esse tempo todo porque queria te dar isso — estendi o envelope para o rapaz, ele ficou me observando com o semblante confuso — É um documento que encontrei, isso pode ajudar todas as famílias que passaram pelo que você passou a conseguirem a justiça que sempre quiseram. Não vou dizer que vai ser fácil, você sabe o quanto Kim Taesoo é poderoso, mas eu não podia manter isso para mim depois que encontrei. Bom, agora é seu, espero que siga o seu coração e faça o que for melhor pra você e sua família.
Dojun olhou o documento por cima, apenas a primeira página, e guardou o papel de volta no envelope. Ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— A primeira vez que te vi foi naquele dia que eu estava protestando na chuva. Ninguém que passou por lá sequer olhou pra mim, era como se eu fosse invisível pra todo mundo… mas não foi assim com você. Você chegou, perguntou sobre minha história, disse que me ajudaria e me deu seu guarda-chuva — enquanto ele falava, me lembrei daquele dia, ficou difícil não me emocionar — Naquela época eu não acreditei em você, mas hoje reconheço que você fez muito mais do que me ajudar. Você me devolveu a esperança nas pessoas. Obrigado.
[...]
Depois de mais algumas horas, eu saí da delegacia na companhia de Han. Ele me levou até a mansão e me seguiu até o quarto para se certificar de que eu estaria bem. Me estirei na cama sem pensar duas vezes, estava exausta. O dia havia sido muito longo e a noite já tinha chegado.
— Vou te deixar à vontade pra tomar um banho e volto daqui a pouco, tudo bem? — Jisung falou, enquanto me ajudava a tirar os sapatos — Também preciso trocar essa roupa suja.
— Você pode usar o banheiro do quarto de hóspedes. Também tem roupas no closet, eu pedi pra colocarem peças do seu tamanho, caso você precisasse um dia tipo… hoje.
— Mesmo? — ele sorriu timidamente quando eu assenti — Então acho que seria rude da minha parte não aceitar. Obrigado.
Jisung saiu do quarto e me vi sozinha ali. Depois de tudo que aconteceu, era impossível não sentir medo quando o sentimento de estar presa naquele galpão voltava à minha mente. Toda vez que fechava os olhos, conseguia ver claramente a imagem daquele homem cortando o meu rosto. Conseguia sentir a dor e o desespero voltando. Entrei debaixo do chuveiro e me lavei o melhor que pude, como se aquilo fosse ajudar a tirar de mim toda a angústia que estava sentindo por dentro. Minhas pernas tremiam de vez em quando.
Depois de terminar, vesti um pijama confortável e voltei para minha cama. Mesmo depois de chegar em casa, meu pai sequer me procurou, era como se não se importasse nem um pouco com o que tinha acontecido comigo. O sentimento de abandono me fez companhia, até Han surgir no quarto novamente, mostrando orgulhoso o conjunto vinho de moletom que tinha escolhido para vestir. Caiu perfeitamente bem nele.
Ele ia comentar alguma coisa sobre a roupa quando seu celular vibrou. Jisung olhou a mensagem e riu pelo nariz, balançando a cabeça negativamente em seguida.
— O que foi? — perguntei.
— Hyeongjun não para de me mandar mensagens preocupado, ele quer vir te ver de qualquer jeito. Já falei pra ele te deixar descansar hoje, mas você conhece a peça.
— Sério? — ri da informação — Traz ele amanhã, vou adorar a visita.
— Vou avisar ele, então. Talvez Hyeongjun nem durma de ansiedade.
— Por falar nisso… você… já está indo pra casa pra ficar com ele?
Jisung me encarou, como se analisasse a minha expressão. Fiz meu máximo para fingir indiferença, mas não parece ter funcionado.
— Ainda não — ele se aproximou, sentando na ponta da cama sem tirar os olhos de mim por nenhum segundo — Por que a pergunta?
O seu olhar em minha direção me fez perder a fala. Eu queria que ele ficasse aqui comigo e não fosse embora hoje, mas não consegui dizer isso. Apenas gaguejei igual uma idiota e falei:
— Ah… p-por nada! Só curiosidade mesmo!
Mais uma vez, senti que estava sendo analisada. Jisung deu uma pausa em silêncio e, eu, que antes tentava evitar uma troca de olhares, senti a explosão de borboletas no meu estômago quando, sem querer, deixei nossos olhos se encontarem.
— Hyeongjun não está em casa. Não tem ninguém lá que precise de mim agora.
Eu apenas murmurei um “hum” demorado em resposta. Seria estranho se eu pedisse para Han dormir aqui comigo? Ainda estava com medo, e a única pessoa capaz de me fazer sentir segura era ele.
Relutei contra minha vontade, a pele ao redor das minhas unhas já nem existia mais, de tanto que as cutuquei com ansiedade.
— Eu posso ficar aqui, se quiser — ele pareceu ler os meus pensamentos — Quer dizer, se for tudo bem pra você, posso dormir no chão e estarei aqui se precisar de algo.
Balancei a cabeça assentindo e me movi na cama, sentando na ponta ao lado dele. Deixei minha cabeça encostar em seu ombro e ele segurou a minha mão na mesma hora.
— Obrigada.
Nós ficamos naquela posição por um tempo, apenas conversando e aproveitando a companhia um do outro, quando me dei conta, já era quase meia-noite.
— Já tá tarde — falou — acha que alguém pode descobrir que estou aqui? Não quero criar nenhum tipo de problema pra você.
Eu sabia que ele tinha certa razão em se preocupar com isso. Os empregados da mansão estão de olho em mim, qualquer um poderia perceber que Jisung não foi embora. Mesmo assim, eu não me importava. Pelo menos não mais.
— Vamos dividir a cama, não vou te deixar dormir no chão.
Enquanto Han negava veementemente, eu fui para o meu lado do colchão e deitei. Jisung começou a olhar ao redor, pedindo por um edredom e travesseiro, ele estava extremamente envergonhado. Levantei meu tronco apenas o suficiente para que minha mão alcançasse o seu braço e o puxei, o fazendo cair no colchão. Virei o rosto para o lado, minha bochecha encostou no lençol; o que vi em seguida foi como ver o céu mais lindo e estrelado do universo. Os olhos de Jisung encontraram os meus, e senti o meu coração explodir dentro do peito. Seu olhar em minha direção me dizia que eu não era a única sentindo aquilo.
— Fica — sussurrei. Ele sorriu fechado, segurando a minha mão.
— Pra sempre.
♡ - ♡
Oiee, gente! Sei que não costumo vir muito aqui deixar recados, mas precisava avisar pra vocês que faltam apenas cinco capítulos para o fim de Dear Bodyguard 🤧
Espero que aproveitem os próximos capítulos e o final dessa história que eu amei tanto escrever ❤️
Beijos e até mais! 🥰
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