♡ 33 ♡
Depois de ouvir o telefonema desesperado de Gyuri, a única coisa que fiz foi pedir a Hyeongjun para esperar Jisung ali, na porta do banheiro do parque de diversões. Ele ainda não havia saído, e eu não podia ficar esperando. A angústia que ouvi na voz da garota em sua última frase me dizia que ela precisava de ajuda, e eu não podia deixá-la desamparada.
Saí o mais rápido que pude, dirigindo no limite da velocidade para o galpão. No meio de tudo aquilo, a única coisa que me fazia sentir uma pontinha de esperança era que, de alguma forma, eu tinha certeza de que não demoraria para Jisung vir atrás de mim.
Só que ele não sabia onde eu estava indo.
Deixei meu celular o mais perto que consegui no painel do carro, esperava que Han me ligasse nos próximos minutos, assim eu poderia dizer onde eu estava e ele viria me resgatar. Mas isso não aconteceu.
Conforme eu me aproximava do galpão, meu medo crescia. Liguei para Jisung, colocando a chamada no viva-voz para continuar com as duas mãos no volante, a ligação chamou até cair na caixa postal e eu me perguntava onde é que ele tinha se metido. Ou será que a pergunta melhor era onde é que eu estava me metendo? Depois de tentar mais três vezes, desisti. Eu já estava na rua vazia que dava no galpão, não tinha mais tempo de tentar contato com o rapaz. Saí do carro, levando o celular escondido no bolso da jaqueta e caminhei devagar até a construção.
A noite já estava chegando e o vento frio me fez sentir arrepios. Eu olhava para os lados a cada passo que dava, tentando ver se algum dos homens estava ali fora. Só então me dei conta de que não tinha um plano. Eu precisava encontrar Gyuri, mas como eu posso fazer isso se esse lugar certamente está sendo vigiado 24 horas por dia? Ainda mais sozinha?
Me senti extremamente burra por ter agido no calor da emoção. Eu não podia fazer nada sozinha aqui, só seria mais uma sequestrada por eles. Hesitei, recuando quando cheguei perto da porta do galpão. Meu plano agora era voltar para o carro e ligar para a polícia, bancar a super-heroína não adiantaria nada.
Mas é claro que as coisas não aconteceriam da forma que eu queria. Nunca acontecem.
Tentei gritar, em vão, quando fui agarrada por um homem que surgiu por trás de mim. Me debati, tentando me livrar do pano com cheiro forte que ele colocou por cima do meu rosto. O odor era tão intenso que me entorpeceu em segundos. Depois disso, não vi mais nada diante dos meus olhos. Tudo escureceu.
Quando finalmente recuperei a consciência, senti foi uma dor leve em algumas partes do corpo, como se eu tivesse caído. Minha cabeça estava girando e, aos poucos, minha visão foi clareando, me fazendo me dar conta de onde estava.
Deitada no chão, observei ao meu redor, sem me permitir mover nenhum músculo, tinha medo que vissem que acordei. No canto oposto ao meu, vi Gyuri. Me desesperei vendo que ela estava amarrada. Alguns ferimentos sangravam em seu rosto. Ver aquilo me fez sentir mais medo do que jamais senti na vida. Só então percebi que minhas mãos também estavam amarradas, uma a outra, atrás do meu corpo.
A garota estava com os olhos fechados, não sei se desacordada ou apenas tentando não ver o filme de terror que acontecia consigo mesma naquele momento.
Continuei olhando ao meu redor, procurando por Jin Dojun ou algum dos bandidos que com certeza estariam por perto. Escutei conversas baixas não muito longe, as vozes masculinas falavam algo sobre o chefe não estar nada contente com os últimos acontecimentos. Provavelmente, a minha presença ali não estava nos planos deles. Ou será que estava?
Não conseguia parar de me perguntar o motivo que levou Gyuri a ser trazida para cá. Eles devem ter ficado sabendo que eu fui até a loja de conveniência procurar por pistas.
— Psiu! — um sussurro chamou a minha atenção — Você tá bem?
Atrás de um tonel de metal, no fundo do galpão, consegui reconhecer Jin Dojun. Suas pernas estavam escondidas pelo objeto, mas consegui enxergar bem o seu rosto, pela primeira vez completamente descoberto. Estava repleto de escoriações e machucados roxos. Ele também estava deitado, mas se ergueu com um pouco de dificuldade para se sentar ao me ver acordada.
Me sentei também para vê-lo melhor. A alguns metros dele, à direita, havia uma escada de concreto, sem acabamento, que levava à parte superior do galpão, então era de lá que as vozes estavam vindo antes.
— Sabe quem tá por trás disso? — movimentei a boca o máximo que pude para não emitir nenhum som e não chamar a atenção dos agressores.
Ele balançou a cabeça negativamente, me deixando perplexa.
— Eu me encontrei com o secretário do seu pai — Dojun sussurrou mais uma vez. Olhei para o topo da escada, me certificando de que nenhum dos bandidos nos escutasse — Vou te contar tudo que sei quando tiver a chance.
— Também tenho algo pra te contar. Algo que pode ajudar a sua família a ter justiça pelo seu pai.
Nós dois ficamos em silêncio quando um dos homens surgiu no topo da escada, olhando para baixo de um jeito ameaçador. Meu coração disparou vendo-o descer os degraus e se aproximar de mim.
— Olha só quem acordou — ele tinha um sorriso debochado no rosto — A vadia que tem dificultado a nossa vida…
Engoli em seco ao ouvir aquelas palavras. No topo da escada, outro homem apareceu, ele era ainda mais alto e forte do que o que estava agachado em minha frente.
— Quem mandou vocês fazerem isso? — eu mesma me surpreendi com minha coragem de perguntar. O homem à minha frente soltou uma gargalhada, olhando na direção do comparsa.
— Que fofa, ela acha que vamos contar algo!
Acompanhei com os olhos o outro bandido terminar de descer as escadas. Ele não riu da “piada”, apenas continuou com a mesma expressão carrancuda de antes. Tudo que emanava dele era uma aura muito perigosa.
Eu via Gyuri desacordada em um canto do galpão, e Jin Dojun acorrentado e cheio de ferimentos no outro, e não pude deixar de sentir pavor. O terror era tanto que me embrulhou o estômago.
— Fique quietinha aí — o homem tocou o meu queixo, analisando minha face — Não quero ter que ser rude com uma garota tão bonita.
— Tira a mão de mim! — tirei meu rosto de seu toque com raiva. Ele apenas sorriu de lado, levantando-se e indo na direção da saída do galpão.
— Vamos, o chefe quer ver a gente — fez um sinal para o capanga mais alto — E você sabe que ele não gosta de esperar.
Quando os dois estavam quase na porta para sair, meu desespero falou mais alto. Sem nem me dar conta, gritei:
— É melhor me soltarem! Meu pai vai vir atrás de vocês!
Por algum motivo, pensei que mencionar meu pai poderia ameaçá-los de alguma forma, mas me arrependi no mesmo segundo.
— Não falei pra ficar quieta?! — o grito ecoou estridente pelo prédio — Espremedor, quer se divertir um pouco?
Ainda tentei segurar a risada, mas um riso abafado saiu de minha boca ao ouvir o apelido do bandido maior.
Espremedor.
E não preciso nem dizer que me arrependi disso também.
— Engraçado, ninguém nunca ri do meu nome depois que espremo suas cabeças…
Tentei me afastar, me arrastando no chão quando vi o brutamontes vir em minha direção. Jin Dojun ainda tentou xingá-lo para tomar sua atenção, mas ele continuou caminhando até mim, sem nem vacilar.
— Acho que vou ter que deixar uma cicatriz nesse rostinho lindo, Alfa… é uma pena.
Arregalei os olhos, aterrorizada, quando Espremedor tirou do bolso um canivete, abrindo-o enquanto aproveitava o terror que eu sentia. Apertei os olhos com força e gritei, sentindo a dor da faca passando em minha bochecha em uma linha horizontal que pareceu infinita, tamanha dor que sentia. Escutei os gritos de Dojun para que ele parasse, mas Alfa o bateu com uma barra de ferro que tinha perto das mãos, jogando o objeto no chão em seguida.
— Vamos ver se aprende a ficar calada agora.
Eu já gemia de dor mas, mesmo assim, antes de sair, Espremedor me deu um chute na barriga, me fazendo cair para o lado. Um zumbido atingiu os meus ouvidos e eu já não sabia nem se estava acordada no meio daquela tortura.
Naquele momento, antes de desmaiar novamente, eu podia jurar que estava vendo o meu anjo da guarda vindo através de um flash de luz. Eu não sabia se era uma ilusão da minha cabeça, mesmo assim, o chamei:
— Jisung?
[...]
Eu não pude deixar de me sentir frustrada quando abri os olhos. Havia alucinado de dor, Han não estava ali de verdade, o que tinha visto antes foi puro fruto da minha imaginação.
— Unnie?! Você acordou! — me virei com dificuldade na direção de Gyuri, estava com tanta dor que não conseguia sequer me sentar.
— Gyuri… você tá bem? — minha voz quase não saiu, qualquer pequeno movimento me fazia sentir ainda mais dor.
No outro canto, Dojun permanecia apagado depois da pancada que levou.
— Eles me bateram quando me pegaram ligando pra você — me senti péssima ouvindo aquilo, afinal, eu quem meti a garota nisso. Ela provavelmente percebeu, pois acrescentou: — Mas eu tô bem, não se preocupa.
— Me desculpa, Gyuri… eu não devia ter te envolvido em nada disso.
— Não é culpa sua — nesse momento, senti como se ela fosse a mais velha ali, mas eu sabia que ela era quase uma criança. O que foi confirmado em sua frase seguinte: — Vamos sair daqui e acabar com esses babacas! Eu juro, quando eu conseguir desamarrar minhas mãos…
Gyuri parou de falar, usando sua energia para passar a corda que envolvia suas mãos no piso irregular de concreto, tentando rasgá-la. Eu não tinha mais muita força sobrando, então me concentrei em tentar sentir se meu celular ainda estava no bolso da minha jaqueta. Com as mãos amarradas para trás, essa foi uma missão quase impossível, mas depois de um tempo consegui descobrir pelo peso no bolso. Não estava mais ali.
Sem o celular e completamente amarrada, eu podia desistir. Pra ser sincera, isso começou a passar muito pela minha mente. Senti as lágrimas rolarem em meu rosto novamente. Gyuri parou de tentar se soltar, me dizendo palavras de apoio o tempo inteiro, mas aquele sentimento de impotência era mais forte do que eu.
Em determinado momento, meu choro era tão intenso que eu soluçava sem parar. E agora já não era mais sobre a dor física, tinha uma angústia tão grande dentro do peito que eu não conseguia explicar e nem por pra fora se não fosse através daquelas lágrimas.
Comecei a pensar em minha mãe.
Não levaria nem quinze minutos após qualquer atraso meu sem que ela me ligasse dezenas de vezes para me encontrar. Mesmo se ela tivesse centenas ou milhares de pessoas ao seu redor, se eu saísse de perto por um minuto, ela sentiria a minha falta e iria me buscar, seja lá onde fosse.
Pensei em meu pai.
Ele viria mesmo atrás desses caras como eu os ameacei antes? Ou no máximo mandaria algum empregado vir me procurar quando finalmente desse falta de mim após seu jogo de golfe no próximo final de semana? Eu não me sentia muito diferente das crianças que são abandonadas pelo pai ainda pequenas, muitas vezes, antes mesmo de nascer. Talvez, seja ainda pior se sentir abandonada por alguém que vive debaixo do mesmo teto que você. É como ser renegada todos os dias.
Então pensei em Jisung.
Se tinha alguém que faria o impossível por mim, essa pessoa seria ele. No fundo, eu sabia que sairia a salvo dali, porque Han seria capaz de ir até o inferno para me resgatar de qualquer situação. Eu podia sentir isso com a maior certeza possível.
E dessa vez era real. Juntei minhas forças para me erguer sobre os cotovelos e olhar diretamente para a grande porta de ferro do galpão, que agora estava escancarada.
Han Jisung estava ali.
Meu protetor veio me salvar.
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