♡ 27 ♡

Como eu já havia imaginado, a ressaca depois de minha bebedeira com Seeun me atingiu em cheio no dia seguinte. Me revirei na cama, sentindo uma dificuldade enorme em abrir os olhos. Faltar na aula não estava nos meus planos, ainda mais agora que preciso fazer cinco anos de curso em apenas dois. Abri apenas um olho, verificando o horário no celular. A sensação de alívio me atingiu; era sábado. Fico me perguntando como pude esquecer disso. Bom, é fato que minha mente não está em seu normal nos últimos tempos.

Muitos dos meus pensamentos sadios estão sendo empurrados com toda força para fora da cabeça para dar lugar a uma só coisa. Ou melhor, uma só pessoa.

Toc toc. Minhas têmporas latejaram com o barulho vindo da porta.

— Srta. Kim? Está acordada?

A voz dele era baixa, talvez estivesse com medo de me despertar caso eu ainda estivesse dormindo. Meu coração acelerou, sem entender porque Jisung estava ali.

— Pode entrar — respondi, mesmo com a resistência das cordas vocais recém-acordadas.

Me escondi melhor debaixo do edredom, deixando apenas o rosto para fora. Meu pijama era um pouco vergonhoso, apesar de Han ter me visto usando ele na primeira vez que nos vimos. Lembrar disso ainda era embaraçoso. 

— Pode acender a luz — falei, mas me arrependi no segundo seguinte. Fiz uma careta feia quando o clarão chegou em meus olhos.

— Acho que não foi uma boa ideia — ele sorriu, se aproximando da cama.

— Tudo bem — sorri de volta — Por que tá aqui? Não devia estar no hospital com seu irmão?

— Não tá feliz em me ver? Vim te contar uma coisa — disse em um tom zombeteiro, escondi um pouco mais do rosto debaixo do edredom, deixando apenas o nariz e os olhos de fora — Minha vó chegou do interior ontem a noite, vai me ajudar com o Hyeongjun pra eu poder trabalhar.

Eu não fazia ideia que Jisung tinha uma avó, mas resolvi não me aprofundar nesse assunto, pelo menos por agora. Me arrastei um pouco mais para o lado da cama, dando tapinhas no colchão para que ele se sentasse.

— Te disse que não precisava se preocupar com isso. Pode ficar fora quantos dias precisar.

Ele se sentou ao meu lado, esperei que dissesse algo, mas ele ficou em silêncio por algum tempo. Foi quando eu notei sua careta, ele estava com um biquinho, fungando ao meu redor. DROGA!

Eu não tomei banho ontem depois de chegar, só vesti o pijama correndo e me joguei aqui.

— A senhorita bebeu? — tentei me afastar, mas o guarda-costas me segurou no lugar — Bebeu ou não?

— Um pouco — o calor subiu até meu rosto; mal-humorada, arranquei o edredom de cima de mim até a cintura — Agora, será que dá pra você falar mais baixo?

— Certo, espera aqui. 

Han não me deu nem tempo para responder, saiu do quarto e sumiu escadas abaixo. No entanto, não demorou muito para que voltasse, talvez dez minutos tivessem passado, eu não sei ao certo, pois estava ocupada demais me martirizando por ter recebido no meu quarto o homem por quem estou apaixonada enquanto estava fedendo. 

Me sentei na cama assim que o vi voltando. Trazia em sua mão um copo com o que parecia ser um suco verde bem esquisito.

— Aqui, beba tudo — ele estendeu o objeto para mim, balancei a cabeça negando.

— O que é isso? 

— Ora, esse é o Elixir Cura Porre do Han Jisung! — respondeu com orgulho. Contra minha vontade, segurei o copo.

— E o que tem dentro desse treco? 

— Só algumas coisas que vão curar a sua ressaca — ele fez um gesto com a mão, me incentivando a tomar — Beba agora e me agradeça depois. 

Tampei o nariz, o cheiro daquela bebida era tão horrível quanto sua aparência. Levei o copo à boca e virei todo o líquido, bebendo em goles grandes para terminar mais rápido. Finalizei com uma careta, quando abri os olhos, Jisung estava segurando um bombom na mão. 

— Boa menina — me deu o doce, eu tratei de comer na hora — Você vai melhorar rapidinho. 

Me ajeitei melhor na cama, depois de terminar de comer o chocolate, minha cabeça ainda estava pesada e meu corpo meio mole como uma gelatina, mas eu não quis voltar a dormir. Estava curiosa sobre o que Jisung tinha falado assim que chegou. 

— O que veio me contar? — perguntei, juntando as pernas em borboleta debaixo do edredom. 

— Descobri o nome do homem que me pediu pra procurar.

— É sério?! — arregalei os olhos — Quem é ele?

 — Jin Dojun — estranhei o fato dele não ter ficado nem um pouco animado junto comigo — Só tem um problema…

Franzi as sobrancelhas, sem entender.

— Que problema?

— Ele tá desaparecido, não consegui nenhuma pista que nos levasse até ele. 

— Você tá dizendo…? — vários pensamentos começaram a rondar a minha mente. Meu pai me disse que não o matou, ele mentiu para mim? — E a polícia? Ninguém sabe nada sobre isso?

— Não tem nenhum registro de desaparecimento na polícia. Isso é estranho, porque pelo que você me disse, ele tinha família, alguém teria dado falta dele.

— Tem razão — suspirei, isso tudo era muito frustrante — Se ninguém comunicou o desaparecimento dele, isso quer dizer…

— Que de alguma forma a família dele acha que ele está bem, em algum lugar. 

— Acha que ele se despediu de todos e foi embora pra tentar um recomeço?

— Seria bom se isso tivesse acontecido, mas duvido que tenha sido o caso.

A última fala de Han me fez voltar a me preocupar quanto à segurança de Dojun. E se meu pai estiver envolvido no sumiço dele? Sinceramente, não sei mais onde seria o limite das coisas que Kim Taesoo é capaz de fazer. Era como se uma nuvem escura e tempestuosa estivesse em cima de mim. Pelo visto, Jisung percebeu o meu estado, pois mudou seu tom de voz para um mais otimista e disse:

— Não se preocupe, vou continuar investigando, vai dar tudo certo.

— Obrigada — apenas balancei a cabeça, concordando.

— Agora vai tomar um banho, a senhorita está cheirando a bebida.

[...]


Eu passei o resto do dia dentro do meu quarto fazendo mil trabalhos da faculdade que eu tinha deixado acumular na última semana. Por incrível que pareça, o Elixir Cura Porre do Han Jisung realmente melhorou a minha ressaca, minha cabeça já não doía tanto e a dor no estômago havia passado completamente. 

Depois que ele praticamente me chamou de fedida me mandando ir tomar banho, eu o expulsei do quarto. Ele saiu achando que fiquei brava por ele ter dito aquilo, mas eu apenas entrei em pânico porque, afinal, o garoto de quem gosto me viu naquele estado deplorável. 

— Aish! — resmunguei comigo mesma, me lembrando da cena — Eu devia ter tomado banho antes de dormir! Jiwoo idiota! Idiota!

Passei as mãos pelo cabelo, soltando um suspiro longo, agora não conseguia mais sequer me concentrar nos trabalhos do curso. Parei um minuto para tomar um pouco de água e me recompor quando fui surpreendida por uma ligação. Me perguntei o que poderia ter acontecido para ter a honra de receber seu contato.

Jiwoo? O que está fazendo? 

Eu deveria me surpreender por ele não ter nem mesmo dito um oi ou perguntado se estava bem? Acho que não. Então, apenas ignorei e respondi:

— Estou fazendo trabalhos atrasados da faculdade. 

Trabalhos atrasados? Você não caiu no ranking do curso, né? Quero um desempenho perfeito, esqueceu? 

— Por acaso eu ainda sou criança? — minha pergunta foi retórica — Não se preocupe com minhas notas, eu sei o que tô fazendo. 

Kim Taesoo tinha a capacidade de me irritar com pouquíssimas palavras, minha raiva tinha acabado de ser despertada dentro de mim. Esperei que ele dissesse algo, como não o fez, continuei:

— Se não se importa, vou voltar pras minhas coisas. 

Sei que você é uma boa aluna — ele pigarreou do outro lado da linha — De qualquer forma, hoje é sábado, se arrume e saia com o seu noivo, os trabalhos podem esperar.

Tirei o celular do ouvido por um instante, suspirando. Obviamente, meu pai ainda queria me forçar a ter encontros com Henry mesmo depois que assinamos aquele contrato. Segundo ele, se o Green e eu vamos nos casar daqui dois anos, significa que estamos noivos. Teoricamente, ele está certo. Mas na prática não é assim, pelo menos não no nosso caso.

— Não tenho tempo para encontros, pai. 

Sim, você tem — sua voz nem soou ríspida, era como se estivesse falando com algum de seus empregados casualmente — Ele está te esperando no jardim, disse que quer te dar algo. Vá agora. 

— Tchauzinho, pai — falei, pressionando o botão de encerrar chamada em seguida. Ele não tinha sido educado quando atendi, eu também não seria ao desligar.

Coloquei o aparelho no silencioso prontamente, não queria mais ser importunada por meu pai. Não podia acreditar na cara de pau dele, mesmo depois de assinar aquele contrato ridículo prometendo que vou me casar, ele continua me incomodando com esse tipo de coisa. “Saia com seu noivo” uma ova.

Pra ser sincera, o que eu queria mesmo era falar poucas e boas na cara do Henry depois daquele dia no café, mas tinha medo que ele fizesse o que ameaçou, contar ao meu pai sobre meus sentimentos por Jisung. Mesmo que não existisse prova nenhuma disso, apenas saber de algo assim faria meu pai demiti-lo. E eu não podia deixar isso acontecer. Não posso mais viver nessa casa sem ele. 

Fui até a janela do quarto, de lá eu tinha a visão de grande parte do jardim de entrada. Henry estava mesmo parado lá, me esperando encostado em seu carro. Ele deu uma olhada no relógio em seu pulso, parecendo impaciente, só a sua linguagem corporal me fez arrepiar. O medo dentro de mim me fez pensar que seria melhor se eu fosse até lá dizer a ele que não podia sair porque estava ocupada. Pode soar como uma desculpa, mas o deixar esperando podia fazê-lo sentir ainda mais raiva. 

Meu corpo estava um pouco trêmulo, mas troquei o pijama por uma roupa casual e saí do quarto, descendo as escadas apressada. Han me seguiu, correndo logo atrás de mim. 

— Tá indo pra onde? Aconteceu alguma coisa? — perguntou ofegante, tentando me alcançar. Parei abruptamente no final das escadas.

— Tem algo que preciso falar com o Henry — pausei, Jisung continuou me encarando, como se esperasse que eu o chamasse para ir junto  — A sós. 

— E-eu… — sua voz travou, parecia arrependido do que quer que havia pensado em falar — A senhorita vai ficar bem?

— Só vou ao quintal, não se preocupe — tentei tranquilizá-lo, de desesperada já bastava eu — Pode ficar aqui. 

Jisung apenas concordou com a cabeça, mas algo em seus olhos me dizia que ele não obedeceria a esse pedido. De qualquer forma, continuei meu caminho correndo até chegar do lado de fora da casa, onde o Green me esperava.

— Henry, eu… — comecei, parando um pouco para respirar depois da corrida, estava ofegante — Sinto muito, mas não posso sair hoje. 

— Jiwoo, oi! — acenou com uma expressão animada, achei estranho, mas esperei que continuasse — Vem aqui, vai ser rapidinho. 

Nós estávamos a alguns metros de distância, pensei que nada de bom viria daquele pedido, mas fiz mesmo assim. Caminhei até lá, parando a dois passos dele. 

— Por que você parece tão tensa? — perguntou, se aproximando mais de mim. Dei um passo para trás — Estou com saudade, Jiwoo. Quero sair com você. 

— Eu… — minha voz saiu fraca, não consegui controlar o medo estando perto dele — Não posso hoje, Henry, tenho muita coisa acumulada da faculdade.

— Mesmo? — sua mão foi até o meu rosto, tentando acariciá-lo, mas me virei — Então vou ter que mandar isso pro Sr. Kim? 

Meu corpo inteiro gelou ao ver a foto no celular em sua mão. Era Jisung colocando o colar em mim naquele dia. Não consegui emitir qualquer som que fosse com minhas cordas vocais, era como se uma mão estivesse apertando minha garganta. Estava tão desesperada que não fui capaz de fazer nada a não ser entrar no carro, como Henry tanto queria. 

Com um sorriso presunçoso de quem sabia que tinha conseguido o que queria, ele sentou no banco do motorista e buzinou forte antes de sair cantando pneus. Até isso ele tinha planejado. O barulho repentino fez Han correr até a porta para olhar o que tinha acontecido. 

E pelo retrovisor eu vi o rosto preocupado de Jisung, me olhando enquanto eu ia embora com o Green.

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