♡ 16 ♡
O dia seguinte chegou mais rápido do que pensei. Até a minha dificuldade para dormir e as noites virando de um lado para o outro da cama me deixaram em paz só de estar nesse lugar. Passei a noite no quarto que meus avós montaram especialmente para mim desde que se mudaram para a ilha de Jeju. A maior parte dos objetos ali lembravam a minha infância e adolescência, tudo estava da mesma forma que deixei. Eu levantei e me espreguicei, vendo os raios solares passarem pelas frestas da porta que dava para a sacada do quarto. Quando a abri, o cheiro do mar me inebriou instantaneamente, respirei o máximo que consegui daquele ar enquanto apreciava a vista da praia no horizonte.
Escutei alguns barulhos vindos da cozinha, pelo visto meu avô já tinha se levantado. Fui até o banheiro do quarto para escovar os dentes e lavar o rosto antes de descer para tomar café, enquanto divagava sobre tudo que aconteceu ontem na frente do espelho, um pouco de espuma escorreu pelo meu queixo; me apressei a lavá-la e balancei a cabeça tentando tirar aqueles pensamentos dela. O vestido de noiva pendurado na cadeira no canto do quarto não me ajudava a esquecer, embora.
Eu não queria admitir, mas, agora, enquanto escovava os dentes e via meu reflexo no espelho, o que estava preso em minha mente não era a angústia de estar prometida em casamento a Henry Green nem o horror que foi vê-lo naquela loja ontem. Também não é no péssimo relacionamento com meu pai que tenho pensado. O que tem ocupado a minha mente nos últimos dias é algo que não consigo controlar, por mais que eu tente.
Deixei a escova de lado na pia e suspirei. Abri a torneira no máximo e joguei água fria em meu rosto repetidas vezes. Isso tinha que sair da minha cabeça de algum jeito, mas a verdade é que...
Eu simplesmente não consigo parar de pensar em Han Jisung.
— Jiwoo? — três batidas leves na porta seguiram a voz — Está acordada, né, querida? Escutei o barulho da água.
— Sim, vó! Só um minuto! — respondi, secando o rosto com a toalha antes de abrir a porta do quarto. A mais velha sorriu ao me ver.
— Vim te chamar pra tomar café, está quase pronto — concordei com a cabeça, dando um passo para fora do cômodo.
— Eu devia chamar o Han pra comer com a gente, certo? — mordi os lábios, receosa, esperando alguma aprovação da mulher.
— Não vai ser necessário, querida. Ele foi o primeiro a acordar. Vamos.
Assim que terminei de descer as escadas, a cena de Jisung cozinhando junto com meu avô me pegou desprevenida. Era estranho como ele ficava bonito apenas virando uma panqueca de legumes na frigideira. Os dois homens me deram bom dia, mas eu sequer respondi, estava enfeitiçada olhando para Han. Seu cabelo não estava dividido e arrumado com gel como de costume, a franja solta em sua testa se balançava conforme ele se movia na cozinha.
— Bom dia, Jiwoo — meu avô repetiu, analisando minha expressão — Ainda está dormindo?
— Desculpe, ainda não despertei direito. Bom dia, vô — arrastei os pés pelo chão até o balcão onde os dois cozinhavam e puxei a cadeira alta para me sentar — Bom dia, Han.
— Srta. Kim — ele chamou meu nome, como se quisesse confirmar que eu estava o ouvindo — Veja se a sopa está boa.
Eu me assustei quando ele ergueu a colher com o caldo em direção à minha boca. De repente, ele parou, voltando a colher para perto de si para assoprar a sopa. Percebi o olhar do meu avô completamente atento a nós, mas mesmo assim aceitei quando Han esticou o braço com a sopa já morna na colher e a provei. Estava deliciosa.
— E então…? — ele parecia ansioso pelo meu veredito.
— Hum… isso tá uma delícia, Han! — seu sorriso largo tomou conta do cômodo. Ou será que tinha tomado conta apenas de mim? — Você é um ótimo cozinheiro.
— Imagina, a senhorita que é muito gentil.
— Minha neta é realmente muito gentil, Han, mas devo te dizer que ela também é sincera. Se elogiou a sua sopa, com certeza está ótima — o mais velho riu, dando dois tapinhas no ombro do rapaz — Ah, e que história é essa de Srta. Kim? Jiwoo detesta ser chamada assim, não é?
Jisung me olhou meio assustado, eu apenas balancei a cabeça e soltei um riso nasal, indicando que ele não se preocupasse.
— Tudo bem, vô. Han pode me chamar como se sentir confortável.
Eu comecei a comer assim que o café da manhã ficou pronto. O que meu avô tinha dito ficou na minha cabeça por um tempo e eu fiquei em silêncio enquanto pensava naquilo. Pra ser sincera, ainda não entendo porque Jisung não consegue me chamar pelo meu nome. Quer dizer, nós temos a mesma idade e eu já pedi isso a ele, mas parece que não é fácil para Han deixar a barreira da formalidade de lado e apenas conversar comigo como se fôssemos amigos. Ou talvez ele só não queira se aproximar de mim a esse ponto. Eu sou apenas a filha do cara para quem ele trabalha.
— Obrigada pelo café — agradeci enquanto levava meu prato para a pia — Vou passar o dia fora, mas prometo que faço o jantar quando chegar.
— Pra onde vai, querida? — minha avó finalmente surgiu na cozinha. Os dois homens me encararam esperando minha resposta.
— Vou à praia.
Eu já estava de costas para subir as escadas e me trocar quando escutei Jisung me chamar. Minhas pernas pararam no lugar imediatamente.
— Eu posso ir junto?
Ponderei por alguns segundos. Não que eu estivesse pensando em qual resposta dar, só não queria que parecesse que eu estava desesperada para ter a sua companhia, então respirei fundo e, sem nem me virar para olhá-lo respondi baixo:
— Uhum.
[...]
Apesar das nuvens brancas no céu, os raios fracos de Sol batiam em meu rosto de vez em quando; o dia estava particularmente bonito hoje. Eu caminhava na orla da praia junto de Jisung. Em minha mochila, levava um tapete para estender na areia e meus materiais de desenho. Há muito tempo não fazia isso. Sentar na praia e desenhar as coisas ao meu redor costumava ser um dos meus passatempos favoritos quando era mais nova.
— Acho que consigo entender porque a senhorita gosta tanto daqui — falou, enquanto olhava para o mar. Eu soltei uma risada incrédula pelo nariz.
— Não consegue nem mesmo me chamar de "você"? Sério? — apesar de ter dito em um tom de brincadeira, eu realmente gostaria de saber a resposta — Eu me sinto uma velha quando estou com você.
— Bom, então eu também sou, já que temos a mesma idade.
— Exatamente. Então o que custa me chamar pelo meu nome? — reclamei, cruzando os braços.
Han me olhou por um segundo, em seguida, soltou uma risada fofa pelo nariz.
— Acho que ali tá ótimo pra gente se sentar. Vamos! — apontou, já pisando na areia e correndo para mais perto do mar. É claro que ele ia mudar de assunto.
— Ya! — gritei enquanto corria para alcançá-lo — Volta aqui!
Eu corri tão rápido que não consegui parar a tempo quando o guarda-costas brecou de repente virando em minha direção. O esbarrão me fez desequilibrar e eu podia jurar que no segundo seguinte estaria no chão. Só que eu não estava. Quando abri os olhos, que havia fechado no impacto da batida, eu estava nos braços de Jisung. E eu não consegui conter a velocidade que meu coração começou a bater.
Não faço a menor ideia de quanto tempo passei segura nos braços de Han, de alguma forma o tempo parecia ter parado para mim enquanto olhava em seus olhos. Céus, e que olhos profundos ele tinha. Eu me mantive concentrada em cada detalhe de seu rosto até me assustar com uma folha que passou voando, quase rente ao chão e tocou minha perna. Me soltei rapidamente de seus braços. Estava cada vez mais assustada com o que sentia toda vez que ficava perto dele. Alguma coisa não deve estar certa.
— E-eu... vou estender o tapete pra gente sentar! — virei de costas, desviando os olhos dele. Levei a mão ao peito sentindo meus batimentos completamente fora de compasso. Eu só podia estar ficando maluca.
— Eu ajudo — ele se inclinou para pegar a ponta oposta do tapete, eu não consegui nem dizer nada, apenas me concentrei em olhar o máximo que podia para o chão.
Nos sentamos ali em silêncio, não sabia o que estava passando pela cabeça de Jisung. Não queria que ele percebesse o que estava sentindo porque não consigo imaginar qual seria sua reação se soubesse. Tenho medo que, se souber, ele se afaste de mim e deixe de ser meu guarda-costas. Para quem não queria um, eu estou muito preocupada em perdê-lo.
Tentei não pensar muito nisso, tinha ido à praia porque queria me lembrar dos momentos incríveis que passei ali com minha mãe e relaxar um pouco antes de ter que voltar para Seul. Tirei meus materiais de desenho da bolsa e comecei a esboçar a torre do farol que estava à direita de minha visão. Han cantarolava uma música doce que eu sequer podia imaginar que ele conhecia até ouvi-lo cantar. Já havia passado algum tempo quando sua pergunta pegou minha atenção:
— Então… você desenha outras coisas ou só prédios?
Fechei o caderno de desenho rapidamente depois de ver o resultado no papel. Jisung estranhou meu gesto, mas continuou imóvel, esperando minha resposta.
— Eu… — era difícil falar sobre isso sem me sentir reflexiva — Só desenho prédios pra falar a verdade — fiquei em silêncio algum tempo antes de continuar — Minha mãe fazia os retratos mais lindos do mundo, de alguma forma, parecia que ela conseguia capturar os detalhes da personalidade da pessoa quando desenhava e tudo tinha tanta vida apesar de estar em um pedaço de papel e… eu ainda não consegui desenhar nada vivo depois que ela se foi.
Tudo em minha fala era verdadeiro, exceto um pequeno — ou nem tão pequeno assim — detalhe na última parte. Eu havia acabado de desenhar Jisung. No caderno que fechei para que ele não visse. Seu rosto em meio perfil estava em primeiro plano, o farol que ele observava na imagem era só um rabisco se comparado à beleza do garoto que preenchia o papel.
Foi a primeira vez que desenhei uma pessoa desde que minha mãe partiu.
Eu estava esperando que Han dissesse algo, mas, ao invés disso, ele apenas segurou minhas mãos e as acariciou. Ele realmente não precisava dizer nada. Sabia que ele entendia a minha dor, Jisung também perdeu os pais, se tinha alguém que podia me entender era ele. Seu toque me confortou de uma forma tão simples que chegava a parecer que todos os problemas da minha vida tinham desaparecido.
Mas, infelizmente, isso não aconteceu de verdade. Meu problema estava bem ali. Eu ainda segurava as mãos de Han quando, atrás de mim, a voz de um dos meus problemas alcançou meus ouvidos.
— Jiwoo?! O que está acontecendo?
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