♡ 14 ♡

No carro, enquanto eu tentava com todas as forças parar de chorar, Han dirigia sem rumo, apenas fazendo o que eu havia pedido antes: me tirar daquele lugar.

Abri o vidro, na esperança que o vento secasse as lágrimas que caíam em meu rosto. Pensei que fosse aguentar seguir com essa mentira, que fingir o noivado como Henry propôs me daria tempo para encontrar uma solução para isso tudo, mas a verdade é que eu sou muito fraca para isso. Eu não aguento nem mesmo fingir que estamos juntos. E definitivamente não aguento escolher um vestido de noiva para um casamento que eu não quero que aconteça nem no meu pior pesadelo.

— Por favor, me deixa nesse endereço — minha voz saiu tremida pelo choro. Coloquei a localização no GPS do carro.

— Sei que não é da minha conta, mas se a senhorita quiser desabafar, sabe que pode contar comigo. 

Olhei para o lado, o encarando enquanto ele dirigia. Se qualquer outra pessoa me dissesse isso nesse momento, eu daria uma resposta atravessada, porque meu humor não estava nada bom e, realmente, o que aconteceu não era da conta de ninguém; mas era Han Jisung. E eu não conseguia ser assim com ele.

— Eu tô fugindo — claro que isso era óbvio, mesmo assim ele me olhou com uma expressão que misturava um pouco surpresa e reflexão — Você já deve ter percebido.

— Fugindo do que? — perguntou. Eu fechei o vidro de volta, o vento estava me deixando com frio. 

— De quem —  o corrigi — Mas acho que nem preciso dizer muita coisa, sair correndo por aí com um vestido de noiva é bem autoexplicativo.

Conversar com Han sempre me ajudava. Percebi que não estava mais chorando. 

— É, a senhorita tem razão —  um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca — Sempre quis saber, como uma noiva fugitiva se sente? 

— Com medo, eu acho. Muito medo.

Nós ficamos em silêncio por um tempo. Até mesmo o clima lá fora mostrava que não era um bom dia, as nuvens cobriam todo o céu e tudo ao redor estava cinza. 

— Desculpe, Srta. Kim, mas o que está acontecendo de verdade? — sua pergunta me pegou desprevenida — Quer dizer, eu sei que tem problemas com seu pai, mas pensei que estivesse feliz com o restante. Depois daquele dia que a senhorita passou mal na faculdade, teve aquele jantar de noivado e… você está usando o anel que ele te deu...

Eu podia sentir um certo desconforto na voz de Han falando aquilo. Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas, desde que nos conhecemos, Jisung e eu tivemos alguns momentos juntos que nos fizeram parecer mais do que a filha de um empresário e o seu guarda-costas. Se fui a única a sentir isso, eu nunca vou saber. Sou covarde demais para perguntar.

— Não tem noivado nenhum — ele me olhou por um segundo, encarando o anel em meu dedo e todo o resto. O vestido de noiva depunha contra mim — Tirando Henry e eu, você é o único que sabe disso. 

— A senhorita quer dizer que…? 

— É tudo mentira, Han. Não tem noivado. É só algo que Henry e eu contamos pro meu pai pensar que tô obedecendo ele. É por isso que tô andando por aí com esse anel estúpido.

— É sério? — Jisung pareceu incrédulo — É que pela forma como ele te trata, eu realmente pensei que a senhorita pudesse ter desenvolvido sentimentos por ele. 

— Não! — exclamei, mais alto do que pretendia. Abaixei o tom em seguida — Quer dizer, Henry é um garoto legal, mas eu não gosto dele. Nunca nem cheguei perto disso.

Dessa vez, o silêncio que tomou o carro era diferente. Me senti bem depois de deixar claro para Han que não gosto do Green e, eu podia estar errada sobre isso, mas parecia que Jisung também tinha apreciado a informação. Ou talvez o sorriso tímido que o vi dar tivesse sido coisa da minha cabeça. 

Alguns minutos mais tarde, percebi a expressão de Han se tornar confusa quando estávamos nos aproximando do lugar indicado pelo GPS. Não me surpreendi, já sabia que isso aconteceria.

— Hum… por que estamos no aeroporto mesmo? 

— Porque estou fugindo, esqueceu? — respondi em tom de brincadeira.

— Pra outro país?! A senhorita não pode fazer isso! Ainda mais vestida assim!

— Aigoo! Eu nem estou com meu passaporte aqui — seu jeito de falar me fez rir — Só vou dar um pulinho em Jeju, não se preocupe. 

— Jeju? De repente? — ele ergueu as sobrancelhas enquanto manobrava para entrar no estacionamento do aeroporto.

— É, eu gosto de praia.

Analisei a expressão confusa dele por alguns segundos, parecia um esquilinho fofo. 

— Brincadeira — sorri, tirando o cinto depois que ele estacionou — Vou visitar meus avós. 

Han assentiu, puxando o freio de mão e destravando as portas do carro em seguida. Antes de sairmos ele me olhou atentamente.

— Que bom, porque esse visual não tá nada praiano. 

Não consegui segurar a risada ao ouvir aquilo. Nem parecia que minutos atrás eu estava me acabando em lágrimas. É assim quando estou com Jisung, ele transforma até mesmo os piores momentos em boas lembranças. 

— Vem cá, eu te ajudo — ele deu a volta no carro, abrindo a porta para que eu saísse. Não entendi o motivo, mas obedeci — Sabe que todo mundo vai te encarar lá dentro, né?

Eu assenti, sabia que ele tinha razão, minha roupa não era nada discreta. Jisung se aproximou de mim, tirando com delicadeza a grinalda e o véu que estavam presos atrás da minha cabeça. Ele ajeitou meu cabelo em seguida, seu toque me fez estremecer. 

— Obrigada — o rapaz guardou o véu no banco de trás do carro. Continuei observando seus movimentos — Obrigada mesmo, Han. 

— Não se preocupe, Srta. Kim — mais uma vez, ele sorriu, tirando o paletó preto de si mesmo e vindo em minha direção — Posso?

Jisung cobriu a parte de cima do meu vestido colocando seu paletó ao redor de meus ombros depois que eu assenti. Eu tropecei na barra do vestido ao descer de uma das escadas rolantes que pegamos para chegar no local dos embarques e Jisung me segurou instantaneamente, ele manteve seu braço ao redor de mim até chegarmos no balcão de informações. 

— Olá, com licenç-

— Olá, belo casal! — a mulher atrás do balcão me interrompeu, quase me engasguei ao ouvir a palavra casal — Vocês devem ter tido um casamento lindo! Pra onde estão indo na lua de mel? Posso ajudar com as passagens.

Eu não sabia como reagir. Ela estava tão animada e eu só consegui encarar Han com os olhos arregalados por ela ter suposto aquilo. Ao contrário de mim, o guarda-costas não pareceu nada assustado, seu rosto continuou o mesmo, exceto pelo sorriso luminoso que ele abriu me olhando. Só então me dei conta que seu braço ainda estava ao redor de meus ombros, qualquer um que visse de fora, pensaria a mesma coisa que a mulher, então apenas desisti de negar e fui direto ao assunto.

— Desculpe, mas eu preciso chegar ao hangar do meu pai.

— Seu pai tem um avião?! — Jisung estava muito surpreso, mas fez a pergunta em tom de sussussurro. 

— É um jato executivo — sussurrei de volta, rindo de sua reação.

A mulher pediu meu documento e entreguei a ela a versão digital. A única coisa que consegui trazer foi o celular, até mesmo minha bolsa havia ficado na loja de vestidos quando saí correndo. Em seguida, ela pegou o documento de Jisung e pediu a outro funcionário para nos acompanhar até o hangar. 

Nós descemos de elevador e caminhamos até o lugar onde o jato estava guardado. O piloto e copiloto estavam por perto, sempre há tripulação e funcionários disponíveis aqui caso meu pai precise voar às pressas. 

— Pode ir pra casa Han, a partir daqui posso me virar.

— Não mesmo, não vou deixar a senhorita ir sozinha. 

— Han, você tem que ficar com Hyeongjun. Ele é pequeno, precisa de você muito mais do que eu — tentei colocar algum juízo em sua cabeça — Sou adulta, posso me cuidar sozinha.

— Só me deixe fazer uma ligação antes. Não saia do chão ainda! 

Jisung disse em tom de aviso, caminhando de costas enquanto me encarava. Aproveitei para falar com o piloto, já nos conhecíamos há anos, mas eu nunca havia vindo sem a presença de meu pai.

— Desculpe vir sem avisar, mas preciso que me leve pra Jeju agora mesmo.

— Não me diga que a Srta. acabou de se casar?! — seu rosto era uma mistura de surpresa e confusão.

— Eu não me casei! Isso é- 

Não consegui explicar a minha vestimenta, então continuei:

— O senhor pode me levar lá ou não? 

— Preciso falar com seu pai primeiro, ele precisa autorizar o uso da aeronave. 

— Meu pai tá numa reunião com um cliente muito importante agora, se o senhor ligar e atrapalhar, vai ser demitido e nunca mais conseguir outro trabalho — menti — Ele me autorizou a usar o jato, não se preocupe.

O homem pareceu desconfiado, mas chamou o copiloto para preparar o voo. Apesar do tempo nublado, não havia chuva nem vento que pudesse atrapalhar a decolagem, agradeci mentalmente por isso. 

Não demorou muito para Han voltar e tudo estar pronto para irmos. Nós entramos e sentamos nas poltronas cor de creme paralelas, separadas apenas pelo espaço do corredor. Afivelei o cinto e virei a cabeça para o lado, encarando Jisung enquanto ele fazia o mesmo. 

— Tem certeza que Hyeongjun vai ficar bem?  — perguntei, apreensiva.

— Não se preocupe, ele adora ficar na casa do amigo. Na verdade, ele até me agradeceu no telefone por ter saído porque eles poderiam jogar videogame até tarde juntos.

Soltei um riso nasal, crianças são mesmo muito engraçadas.

— Mesmo assim, não precisava ter vindo — reiterei, tentando não parecer mal-agradecida, estava mesmo preocupada com seu irmão.

— Tá brincando? Acha mesmo que eu perderia a oportunidade de voar de jatinho particular? Isso aqui é a elite! 

E com o sorriso exibido de Han, nós decolamos com destino à Jeju. 

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