♡ 06 ♡

A semana começou novamente e pela manhã eu levantei animada; iria com meu carro pra faculdade pela primeira vez. Tudo bem que a distância até lá é muito curta a ponto de poder ir a pé, mas queria ter a sensação de dirigir até lá pelo menos uma vez. Eu tirei minha habilitação assim que completei 20 anos, mas nunca quis usar nenhum dos carros do meu pai, nem tampouco aceitar que ele me desse um de presente, mas como meus avós me deram um, eu pensei que minha mãe teria ficado orgulhosa em me ver dirigindo sozinha.

Mal havia entrado na garagem da mansão quando escutei passos atrás de mim. Era meu pai, ao seu lado estava o secretário Cho, como sempre. Dei bom dia aos dois e continuei o meu caminho até o carro.

- Jiwoo, volte pra dentro.

- O que? - parei de andar para olhar de volta para o homem.

- Han não virá hoje, então volte para dentro, não quero ver você andando por aí sozinha.

É óbvio que eu tinha notado a ausência de Jisung, mas imaginei que ele pudesse ter tido que resolver assuntos pessoais novamente. De qualquer forma, eu sabia e podia muito bem fazer todas as minhas coisas sozinha, ainda acho um absurdo que ele tenha contratado um guarda-costas para mim como se eu fosse uma criança.

- É a segunda vez que ele não está disponível em uma semana e o senhor ainda não o demitiu? Isso sim é uma novidade - debochei, rindo pelo nariz.

- Não tente mudar de assunto, Jiwoo. Não quero ficar sabendo que você colocou os pés pra fora dessa casa hoje. Agora volte pra dentro - massageou as têmporas, fazendo uma careta de dor - Aish, aqueles velhos tinham mesmo que ter dado um carro a você?

Revirei os olhos, ignorando completamente o que ele falou. Caminhei decidida até o veículo e apertei o botão da chave, abrindo a porta e sentando no banco do motorista. Claro que meu pai não ia me deixar ir tão facilmente, ele me seguiu e bateu no vidro com uma expressão mal-humorada no rosto.

- Quer me enlouquecer, Kim Jiwoo? - a pergunta foi retórica, mas sim, eu queria. Abri o vidro, mesmo sem vontade.

- Pai, o cara que me seguiu nunca mais apareceu, com certeza era só um tarado e já deve ter sido preso faz tempo. Agora deixa eu viver a minha vida em paz!

- Não vai mesmo sair desse carro? - confirmei - Então vou mandar o guarda-costas vir imediatamente, não me interessa se ele está doente, tem que cumprir a obrigação dele ou eu terei que procurar alguém mais qualificado.

Meu coração se apertou ao ouvir aquela informação, mas eu não iria dar o braço a torcer agora. Pisei no acelerador e saí da garagem cantando pneus.

- Faça o que quiser, papai!

[...]

Eu amava todas as aulas de arquitetura e sentia que o tempo passava muito mais rápido quando eu estava desenhando no estúdio, mas, por algum motivo, hoje, cada minuto estava parecendo uma eternidade. Jisung estava mesmo doente ou essa foi só mais uma mentira de meu pai? Suspirei, apoiando a testa nas nas mãos, Kim Taesoo não teria nenhum motivo para mentir sobre isso.

- ... Jiwoo? Tá ouvindo?

Despertei do transe com Seeun batendo um lápis em minha mesa.

- O que? Eu perdi algo?

- Talvez a sanidade? - ela me encarou como se me julgasse silenciosamente - O professor passou a data de entrega do projeto.

- Não tava prestando atenção - murmurei envergonhada -, pra quando é?

- Não diga?! - provocou, rindo de minha expressão - Temos que correr com isso, é pra próxima quarta.

- O meu já tá pronto - provoquei de volta -, se você for boazinha, posso pensar em te ajudar com o seu.

Minha mente viajou de novo enquanto eu ouvia Seeun fazendo gestos fofos ao fundo para me convencer a ajudá-la no trabalho. Não conseguiria me concentrar mesmo, precisava saber se Jisung estava bem ou minha cabeça não me daria descanso. Me despedi da Yoon e saí da sala, indo em direção ao estacionamento do prédio, entrei no carro e peguei o celular, ligando para a Sra. Jeon. Como governanta, ela tem todos os contatos e a ficha de cada um dos funcionários da mansão, então ela saberia me informar onde o guarda-costas mora. Precisei usar algumas artimanhas para convencê-la a me passar o endereço, já que ela concorda com meu pai que não devo andar por aí sozinha pela minha segurança, mas no final eu consegui.

Dei partida no carro e fui o mais rápido que podia até lá. No caminho, parei em um restaurante e comprei uma sopa e alguns acompanhamentos leves para Jisung. Se ele estiver mesmo doente, precisa se alimentar bem.

Cheguei no bairro indicado pelo GPS e segui pela rua estreita que dava no prédio cinza de quatro andares, tanto a construção quanto o bairro eram simples, as casas e prédios ao redor eram todos antigos. Saí do carro e entrei no edifício, subindo os quatro lances de escadas até o corredor do apartamento de Han. De um lado, estavam os apartamentos de portas azuis escuras e gastas, do outro, o pequeno muro de mais ou menos um metro de altura que permitia que a rua fosse vista dali. Fui até o número indicado pela Sra. Jeon e toquei a campainha.

Claro que eu sabia que tinha uma grande chance de Jisung não atender à porta, afinal, poderia estar deitado descansando para se recuperar, mas eu definitivamente não esperava ser atendida por uma criança que aparentava ter no máximo dez anos.

- Ér... essa aqui é a casa do Han Jisung? - perguntei, já que o garotinho apenas me encarou em silêncio. Dei uma olhada na parte de fora da porta novamente, me certificando que estava no apartamento certo.

- Você é amiga do meu irmão? - sua voz fina e amigável atingiu os meus ouvidos. Não sabia que Han tinha um irmão menor.

- Sou sim - me limitei a dizer, ainda não era confortável para mim o fato de ter um guarda-costas e contar isso aos outros -, ele está?

- Está sim, você pode entrar.

Pensei duas vezes antes de adentrar o apartamento, sentia que estava abusando da inocência de uma criança. E se fosse uma pessoa ruim no meu lugar? Ele teria deixado entrar assim tão facilmente?

- Tem certeza? Eu posso voltar uma outra hora e...

Nós já estávamos entrando na sala quando o garoto me interrompeu.

- Tudo bem, eu estou lembrando de você, tem uma foto sua no celular do hyung - minhas sobrancelhas se ergueram com a informação, mas continuei o seguindo - Se fosse um desconhecido eu não deixaria entrar, só pra você saber.

Apesar da pouca idade, o irmão de Jisung parecia ser muito esperto. Eu esperei que ele dissesse mais alguma coisa, e ele disse que iria até o quarto ver se Han estava dormindo e se queria me receber. Se a resposta fosse não, ele me expulsaria sem pensar duas vezes. Apenas concordei com o garotinho. Quando ele saiu de minha vista, eu finalmente olhei ao redor. O apartamento era pequeno, a sala e a cozinha eram no mesmo cômodo e, pela quantidade de portas que conseguia ver, devia ter dois quartos e um banheiro além do cômodo em que eu estava parada.

As fotos mais recentes ao redor eram todos retratos de Jisung com seu irmão, mas havia uma imagem, que eu sabia ser mais antiga porque mostrava Han no início da adolescência posando junto com um casal que eu imaginava ser seus pais e o irmão, ainda pequeno, no colo da mulher. Também havia fotos de Jisung lutando alguma arte marcial que eu não sabia identificar e alguns prêmios escolares.

Parei de olhar os objetos assim que a criança voltou, esperando que ele não tivesse notado o que eu estava fazendo.

- Ele disse que você pode entrar - talvez tenha sido impressão minha, mas senti um pouco de indiferença em sua voz -, mas vê se não vai curiar o quarto do hyung igual fez aqui na sala!

O que?!

Pedi desculpas desajeitadamente ao garoto e fui até o quarto, sentindo minhas bochechas coradas pela vergonha.

- Srta. Kim, aconteceu alguma coisa? O que veio fazer aqui? - ele estava sentado na cama com um cobertor até a cintura e suas palavras saíram falhadas pela rouquidão.

- Vim ver como você tá, meu pai deixou escapar que estava doente. Podia ter me avisado.

- Desculpe, Srta. Kim, mas não tenho seu número - coçou a nuca parecendo envergonhado.

- Ah... é mesmo - caminhei até a mesa de cabeceira, pegando seu celular e anotando meu número nele -, a partir de agora pode me avisar quando algo assim acontecer.

- Eu acabei ficando doente depois que precisei levar Hyeongjun pra fazer exames no hospital uns dias atrás, mas prometo que amanhã estarei de volta ao trabalho.

- Seu irmão? Ele tá bem?

- Ele desmaiou no colégio algumas vezes, então eu arrastei ele pra alguns exames. Melhor prevenir do que remediar, certo?

- Tem toda razão - devolvi o celular em sua mão - Se precisar sair mais cedo ou pegar folga pra levá-lo, pode falar comigo, eu te dou cobertura e meu pai nunca vai ficar sabendo.

- Muito obrigado.

Seu sorriso tímido me pegou desprevenida, eu comecei a reparar em como ele ficava diferente vestindo aquele moletom no lugar do terno preto que o via usar todos os dias. Balancei a cabeça, tentando tirar esse pensamento dela.

- Bom, eu só vim mesmo ver como você estava, então eu já vou indo - comecei a caminhar de costas, ainda olhando para ele -, eu trouxe sopa e alguns acompanhamentos, não deixe de comer com Hyeongjun!

- Srta. Kim! - tirou o cobertor de cima das pernas, se levantando - Espera! Eu te acompanho até lá fora.

- Você tá doente, melhor ficar e descansar. Eu posso ir sozinha, sem problemas.

Ele não pareceu gostar muito da ideia, mas eu saí sem esperar sua resposta. Me despedi de Hyeongjun na sala e deixei o apartamento dos dois. Desci as escadas e caminhei pela rua, indo até onde meu carro estava estacionado. Senti um arrepio na espinha ao passar na frente de um beco estreito, olhei para trás e para os lados, mas não vi ninguém.

- Te achei, vagabunda - meu coração disparou instantaneamente. Estava sendo segurada por trás, com uma faca apertando meu pescoço.

- Por favor, me deix... - tentei falar, mas o homem me mandou ficar calada e começou a me empurrar, me levando para dentro do beco.

- Pensou que eu não ia descobrir que você é filha daquele maldito da Lux Like? Agora vocês vão pagar pelo que fizeram com meu pai!

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