nova história
Juno não se lembrava de quando riu tanto como naquele dia.
João realmente não fazia ideia de como funcionava e quando viu a proximidade dos casais quase desistiu. Não fez isso porque ela disse que não era necessário.
Pediu para o sanfonista um xote mais lentinho para que ela conseguisse ensiná-lo. Nem assim deu pé. Ele era muito duro.
O pessoal ao redor se comoveu com a cena e decidiram fazer uma quadrilha.
O ritmo animado começou a tocar e eles giraram com os cotovelos entrelaçados. Depois de uma volta trocavam de braço, de novo e de novo e de novo.
Até que alguém começou a fazer um túnel e eles passaram rindo. Juno se lembrava de quando sua maior preocupação era não pintar fora da linha. João ficava feliz por ela estar feliz.
Suados e cansados decidiram se juntar aos que estavam sentados. Tomaram vários goles nas suas garrafas.
- Eu tinha... Me esquecido... Como... - ela falou ofegante esfregando as costas da mão na testa - era ser criança...
- É ótimo. Brincadeiras. Inocência. Coragem. Mas o que eu acho mais bonito é a dependência - João sorriu fitando o céu estrelado.
Dependência. Essa palavra Juno conhecia. O seu pai ser dependente do álcool não era bonito. Sua mãe ser econômica e emocionalmente dependente do seu pai não era bonito. Ela ser dependente dos seus pais a privava de várias coisas.
Como felicidade e dependência estavam relacionados ela não sabia.
- Deus nos cuida como os pais cuidam dos filhos pequenos. Eles são tão fracos e sabem de pouca coisa, por isso, dependem muito dos pais.
- Como alguém que é tão dependente pode ser livre como o vento? - Juno perguntou com amargura na voz e João viu que o sorriso dela não estava mais presente em seu rosto.
A jovem já desanimava, estava até acreditando nessa possibilidade de liberdade, porém, encontrou uma falha naquela ideia.
No final tudo era uma fantasia.
Seu olhar expressava desapontamento. Toda a esperança que tinha juntado se esvaiu rapidamente.
João, porém, enxergava algo além. Devia ter uma lente arco íris para conseguir ver o lado bom em todas as coisas, era a única explicação. Sorriu.
- Na natação você não pode usar roupas pesadas porque isso prejudica sua velocidade. Para caminhar nessa vida temos que tirar todo o peso, entende? O vento não carrega nada, por isso, é livre.
Juno desviou o olhar. Como ele conseguia ser assim? Sempre com uma resposta, uma palavra, uma ajuda.
- Ele levou as nossas doenças e carregou as nossas enfermidades - João segurou a mão dela - não temos mais as roupas pesadas, Deus nos dá outras próprias para a caminhada. Dependemos dele porque é Ele quem cuida de nós, que nos deixou livres.
Juno decidiu libertar a suas lágrimas que mofavam dentro dela. O abraço de João intensificava o choro.
- Eu só... Queria que tudo acabasse, sabe... É... É... Muito difícil - a jovem falava entre soluços com o rosto afundado no ombro do rapaz - sou a mais velha, a mais forte, a mais tudo... Mas, eu me canso sabe?
- Venham a mim todos os que estão cansados - ele tirou o cabelo na frente do rosto dela e limpou as lágrimas - e eu darei descanso. Me dê sua mão.
Ela colocou a mão na dele e o imitou fechando os olhos.
- Painho. Sou tão dependente de ti, a vida parece mais arriscada e desconfortável, porém, nunca vi algo melhor... Só que tem uma dor aqui dentro da gente, tão forte que às vezes eu me esqueço do seu amor e de tudo o que fez por mim. Levante minha cabeça, limpe minhas lágrimas, me dê um abraço apertado porque eu acho que não vou aguentar...
João segura no ombro de Juno e ela abre os olhos de mansinho.
- Juno você quer deixar todos os seus problemas nas mãos de quem já levou as suas enfermidades? - o carinho nos olhos dele era tão forte que parecia abraçá-la - Confie nele... Ele nunca decepcionou ninguém, você não será a primeira.
Perder a pouca autonomia que tinha não era uma ideia muito agradável, porém, o que ela tinha conseguido sozinha, machucados? Tristeza? Solidão? Sua mãe continuava apanhando.
Talvez, era melhor ser cuidada agora, ter alguém que estancasse o sangue ou ela acabaria perdendo todas as forças.
Depois da resposta afirmativa João não poderia ficar mais radiante e deu um abraço.
- Obrigada por nos mostrar o seu amor, nos torne firmes do teu lado, nos mostre o seu poder e transforme as nossas vidas... É o que pedimos. Amém.
Continuaram abraçados por um tempo. Juno não chorava, só apreciava a sensação de paz que tomava seu peito e uma leve esperança de que as coisas dariam certo.
- É melhor nós irmos, o repertório de Paulo deve estar acabando - alertou João.
A lembrança do pula-pula a fez imaginar na possibilidade de seu pai ter encontrado o menino e a surra que estaria esperando a garota.
Não precisa se preocupar. Eu que estou cuidando disso.
Respirou fundo e continuou andando até chegarem de volta à praça.
Vamos lá minha moça
Deixe de usura
Dê a criança uma felicidade
Que essa fase não dura
E quando crescer
Só vai se arrepender
De não ter ido ao pula-pula
Ouviu ao se aproximar do brinquedo e se surpreenderam com o tamanho da fila que se estendia.
Juno riu da cena. Inacreditável. João também ria admirado com o modo que Deus agia e sempre o surpreendia.
- João... Tu tá vendo o mesmo que eu, ou eu tô louca? Não responde é melhor que seja loucura - gargalhou.
- Vão ficar aí rindo ou vão me ajudar aqui? - Paulo gritou e eles foram prontamente ao chamado.
Não souberam quanto tempo passaram ali, tinha da criança menorzinha até um idoso que queria relembrar a sua infância.
A alegria de Juno murchou quando o último cliente chegou.
Seu pai.
Ele observou o tanto de dinheiro que tinha na pochete da filha depois olhou para ela. Repetiu isso umas cinco vezes.
- Vai para casa, tá tarde - o pai disse, mas foram as próximas palavras que fizeram o coração de Juno parar - entrega o dinheiro para sua mãe e... E... Pega uns dez conto para você.
Para muitos aquela cena não tinha nada de demais, porém para Juno aquilo foi a prova de que as coisas poderiam dar certo.
Por isso se despediu rápido dos novos amigos e foi para sua casa antes que o pai mudasse de ideia e antes que esse sentimento bom saísse dela.
O sentimento não saiu. Era calor. Era esperança.
é isso
último capítulo
eu avisei que não seria uma longa viagem, somente um passeio, poreeeeeeem, ainda teremos um epílogo e depois sim, o grand finale.
por favor, nunca pedi nada, votem e comentem, quero muito saber tudo o que vocês sentiram
o que gostaram ou não
até mais ver, em francês, au revoir
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