junho

A brisa leve balançava as bandeirolas coloridas penduradas sob o céu estrelado. Esse ar gelado em nada atrapalhava a comemoração, a fogueira crepitava animada, parecia dançar no ritmo do xote que saía pelas caixas de som.

Tudo estava em perfeita sincronia. As comidas estavam muito convidativas, mocinhas corriam animadas para o Correio do Amor e o cheiro de milho que pairava davam a harmonia.

Era São João, não podia ser diferente.

- Acabou, galera! Tem mais gente para ir! - uma voz feminina se fez presente, alta o suficiente para que fosse ouvida pelas várias crianças que pulavam e gritavam no pula-pula.

- Ai, tia, só mais um minutinho. - pediu um garotinho se segurando na rede do brinquedo.

- Até dez se você me pagar. Bora logo! Ligeiro, ligeiro! Tem mais gente querendo brincar.

A garotada desceu cabisbaixa dando lugar para uma nova trupe afoita por diversão.

A tristeza dos pequeninos durou pouquíssimos segundos porque encontraram outro divertimento.

A garota amarrou o pula-pula, programou o cronômetro, recostou no brinquedo e tornou a olhar as bandeirolas na sua dança alegre.

A brisa aos poucos se tornou um vento gelado e ela se lembrou dos alertas da sua mãe que tinha ignorado. A noite começou tão quente, como poderia mudar assim?

As maravilhas de junho.

O sininho soou e ela teve que expulsar outra renca de moleques para dar entrada a mais outra e outra...

Não a levem a mal, amava festas juninas, como poderia não amar? Nascida numa região tão símbolo dessa cultura. Porém, com o passar do tempo - e a crise que assolava o país - essa época de festividade se resumia a cuidar do pula-pula para ganhar um dinheiro extra e não poder curtir nada.

Não reclamava também, seus pais e seus quatro irmãos precisavam da sua ajuda. Já bastava não ter sido uma boa aluna e ser obrigada a viver a mesmice da cidade pequena, sem poder se aventurar na universidade. Era a mais velha, portanto, a mais responsável.

Acima de tudo, entretanto, era humana, oras. Queria se divertir com suas amigas, algum moreno que lhe convidasse para dançar um xote e cheirasse seu cangote, receber uma cartinha de amor ou não.

Algumas risadas já trariam felicidade suficiente ao seu coração.

Não que ela ficasse se iludindo, só queria passar o tempo, efêmero, que só durasse segundos ou minutos porque tempo é dinheiro e a condição financeira não estava nas melhores.

Também não vivia trancafiada, não ia para as festas. Nada disso. Mas, a realidade se fazia muito presente nesses últimos tempos e gastar dinheiro com prazeres curtos virava egoísmo.

Nada mais era para ela. Isso era chato às vezes. Tinha dezoito anos, o que esperavam?

No meio daquela explosão de cores e músicas surgem dois rapazes de camisa xadrez, seriam só mais um par de camisas xadrez se algo não tivesse despertado o interesse da jovem: os pandeiros.

Eram feitos de couro já encardidos dando a impressão de que eram usados há um tempo. Com fitinhas brilhantes penduradas, coloridas, uma belezura que só vendo.

Seu coração começou bater forte mesmo quando eles começaram a tocar. O som ritmado, alegre, envolvente, o som do nordeste.

O que aqueles dois jovens estariam buscando ali com dois pandeiros? A banda contratada tocava em alto e bom som, um xote para os casais dançarem agarradinho naquele 12 de junho. Se eles queriam ser ouvidos ou chamar atenção de alguém teriam que fazer mais esforço.

O batuque da dupla parou de repente. Deram as mãos e fecharam os olhos, sussurraram palavras inaudíveis para a jovem. Depois desse ritual riram olhando para o outro, havia um brilho diferente no olhar deles que a pobre menina pobre não soube descrever.

Nem teve tempo já que eles retomaram o batuque com mais fervor e animação que antes.

- Vim falar de coisa boa,

Tô rindo e não é à toa,

É uma novidade que traz felicidade e

Salvação para toda humanidade - cantou o moreno enquanto o loiro tocava.

- O Rei do Universo

Que num cabe num só verso,

Veio para nossa realidade

Com toda humildade.

Nasceu numa pobreza

Nem parecia rei de verdade. - o loiro soltou sua voz deixando o outro tocar.

- Com uma simplicidade

E uma gentileza,

Digno de realeza

Ninguém acreditava,

Mas não é o filho de Maria e José?

- Como que podia

Quem acreditaria

Que o profeta viria

Logo de Nazaré!

- Nazaré era uma cidade

Sem nenhuma novidade

Era qualquer que ninguém dava nada

Só podia ser piada

O rei sair dali.

- Mas Deus não é de brincadeira

Não fala niuma besteira

E fez nascer ali

O descendente de Davi.

Entoaram em uníssono as últimas duas frases enquanto se ajuntavam várias pessoas que gravavam, dançavam e até batiam palma tentando entrar no ritmo.

A jovem perdeu a noção do tempo diante daqueles rapazes sorridentes. Já tinha ido a diversas igrejas. Quando criança uns vizinhos a levavam para um bem pequeninha, evangélica, de alguma denominação de que ela não se lembrava e nem nos importa nessa história. Brincava com outras crianças e pintava Moisés com tinta guache que a professora entregava na escolinha bíblica.

Na adolescência foi na católica por causa da avó, depois da sua morte largou a mão. Era muito doloroso entrar lá.

Aqueles dois meninos contavam uma história conhecida por muitos, – praticamente todos - afinal, quem nunca ouviu falar de Jesus de Nazaré em uma cidadezinha brasileira? Ainda mais naquela em que existia mais igreja do que rua.

Porém, mesmo já conhecendo várias histórias e achando várias delas furadas, aqueles garotos de blusa xadrez pareciam contar algo novo.

Talvez fosse o brilho no olhar, o sorriso cativante ou certeza na fala de que viveu e poderia jurar de pé junto que é verdade.

Tudo soava verdadeiro.

Mas algo soou mais alto: o alarme.

- Vamos descendo crianças, a festa acabou - e a distração dela também.


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