Tribunal no Galinheiro

Tribunal no galinheiro

O quintal se encontrava quieto. Cada galinha no seu poleiro esperava a hora de começar o julgamento da galinha Giselda. Ela fora acusada de causar rebelião e tumulto no quintal por diversas vezes.

A defesa concluiu que ela agira em legítima defesa e poderia voltar ao convívio dos demais. No entanto, ela recusava sair do seu balaio, mesmo conseguindo sua condicional. Em sua defesa ela gritou:

— Aceito sair apenas se o senhor Djalma for extraditado.

A tensão estava na cara de todos que circulavam por ali. Não se falava em outra coisa que a revolta das galinhas. Elas exigiam os seus direitos. Que fosse cumprido a lei galinha da pena.

Tudo começou após a denúncia anônima contra o galo Djalma. Ele se achava o último grão de milho do comedouro. Desfilava suas penas brilhantes, marrom, preta e caramelo, como se fosse único. Sua crista vermelha, era enorme, não se podia negar, mas nem por isso lhe dava o direito de violentar todas as galinhas.

As coitadas eram pegas de surpresa por ele, isso quando não trazia os amigos, para assim fazerem a festa. Atacavam as "meninas" com violentas bicadas em suas cabeças e as estupravam.

Sim! Todas eram estupradas. E as vezes, por todos.

Uma vergonha.

Algumas ficavam carecas, tamanha violência, o que as deixavam ainda mais constrangidas.

Em decorrência, deste ato costumeiro, não era novidade o que se seguia, muitas tinham seus ovos fecundados.

Sem contar o sofrimento em cada parto, pois trazer um ovo ao mundo é uma tarefa exigente. Se acaso um galo tivesse essa experiência, garanto que muitos morriam no ato. E aí começa a trajetória da mãe, ela precisava lidar com a criação dos pintinhos indefesos, geralmente, uma dúzia. E o principal, sendo cuidados apenas por elas, fora do convívio paterno, que se recusava a pagar pensão ou ajudar com o milho.

— É revoltante! — gritou, de cima do mais alto poleiro, a galinha Chica.

— Fora o Djalma! — outro cacarejo se ouviu de longe.

— Ordem! — Bateu o martelo no cocho, o marreco, Alceu. — Não quero escutar um pio ou cacarejo!

Visto que, se não atendesse as reivindicações, o quintal entraria numa guerra, Alceu pediu tempo e decretou um recesso.

Dona Giselda permanecia debaixo de seu balaio e os seus pintinhos piavam de um lado a outro. As amigas, ajudavam de todas as formas, traziam grãos de milho, água e o mais importante, apoio a causa. Elas sabiam que seria uma conquista de todas.

Por fim, no final da tarde, o veredito foi anunciado.

O jantar dos humanos, naquele dia, tinha no cardápio: Galo com macarrão.

Lena Rossi


Este conto eu dedico a minha amiga Mirley que me inspirou contando alguns acontecimentos no sítio dela. 

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