Conto 6 - Reencontro de família - Parte 2
Parte II
Reencontro de um Amor
1 - Encontro
Sentada na sacada do meu quarto de frente ao jardim com o caderno do meu falecido Tony em mãos, eu olho para além das montanhas.
O caderno está amarelado, desgastado pelo tempo e meu do manuseio. Tempo, tempo... Ele vai passando e não damos conta disto. Somente quando olhamos no espelho percebemos que ele passou deixando a juventude e nossa beleza para trás.
Eu fui uma jovem bonita. Meus olhos tinham um brilho que encantava os rapazes. Escutava muito galanteio... Ah tempo... Como foram bons...
Antoniel não foi meu primeiro namorado... Meu primeiro amor...
Antes de conhecê-lo eu me apaixonei perdidamente, aos 14 anos, por um lindo rapaz, Augusto. Era meu príncipe encantado, aquele em que dei o primeiro beijo, andei de mãos dadas pela praça... Ah... Aquela praça...
Quantos casais se conheceram passeando por ela depois da missa de domingo? Muitos, inclusive eu e o Augusto.
Mas também foi por ele que eu chorei muitas noites quando me deixou depois de quase cinco anos de namoro...
Balancei a cabeça para espantar essas lembranças, afinal 42 anos havia se passado onde eu fui muito feliz durante 20 anos com o meu marido. Foi com ele que eu constituí essa família maravilhosa que tenho hoje. Meu filho Tomas tão pequeno ainda quando ele partiu.
Agora estava aqui pensando... Relendo... Tony sempre gostou de escrever poemas e palavras bonitas para mim, mas nos meses que sua doença o consumia ele já não me deixava ler seu caderno, pois nele, se despedia de mim. E são suas palavras que me fazem hoje pensar em ter um recomeço com o Augusto, agora viúvo também. O problema são os meus filhos... O Tomas mora comigo, será que ele vai entender a minha decisão?
Augusto estava para chegar, viria tomar um café da tarde...
Abri o caderno e comecei a ler mais uma vez o último texto que Antoniel escreveu.
Sorrir não custa.
Acreditar não mata e amar nem sempre é doloroso.
Viver custa.
Amadurecer nem sempre é tempo vivido.
Sabedoria vale muito caminho que traçamos, pois ajuda a ter erros menos doloridos.
Eu sei que estou partindo.
Deixarei as pessoas que amo, sozinhas e feridas, assim como estou.
Mas te digo, você é a exceção que sempre meu coração esperou;
só que agora estou partindo.
Não sei se céu e inferno existem, mas sei que meu amor por você sim.
Não choro por ter errado, eu mesmo já errei tanto em meu pequeno infinito aqui e fui magoado.
Não existe isso de chorar por quem vale a pena,
ou de se fazer forte e fingir que a dor não existe.
A dor existe para aprendermos a crescer e sermos felizes.
Não digo todas as dores, a minha não é.
Sinto meu corpo fraquejar, meu coração está parando e meus olhos se fechando de vez.
Estou sentindo a morte chegar e puxar minha alma.
Sinto lágrimas em meus olhos que nunca mais abrirão
e verão flores,
seu sorriso e nem seus encantadores olhos verdes como esmeraldas.
Não pare sua vida por mim.
Eu estou morrendo e não você.
Sou apenas uma pequena parte em sua vida,
enquanto você foi a última,
maior e melhor coisa que escolhi e tive.
Adeus minha querida.
Seu Antoniel.
Fechei o caderno respirei fundo e entrei. Estava decidido, iria conversar com o Augusto durante o nosso café.
Entrei no meu quarto, guardei o caderno e fui tomar um banho. Precisava trocar de roupas para receber meu 'amigo', ou melhor, namorado.
Era uma situação não muito confortável a que eu estava. Receber o Augusto nas tardes em minha casa tinha tornado rotineiro depois que nos reencontramos novamente.
Ele estava viúvo a pouco mais de um ano e pelo jeito muitas mulheres o estava cortejando, um bom partido livre, como diziam meus netos, 'na pista'. Mas foi a mim que ele procurou e isso me deixava lisonjeada.
Ele estava com 76 anos, aposentado como eu, mas trabalhava para se distrair como ele dizia, possuía um belo patrimônio, não precisava do meu dinheiro. Eu, a cada dia ia menos aos hotéis onde trabalhei a vida toda, não por me sentir cansada. Pelo contrário, eu queria dedicar a outras atividades. Cuidar mais de mim, corpo e mente. Deixei de fazer muita coisa para garantir o sustento da família e cuidar dos filhos.
Quando fiquei viúva o Tomas era apenas um bebe... Quanto levá-lo para trabalhar comigo... Quando fiquei grávida, meu marido descobriu a doença. Era contraditório ficar feliz naquele momento, mas era nosso filho... Do outro lado, era meu marido... Minha gravidez foi de muita insegurança e medo... Talvez por isso...
- Não quero pensar nisto! Ele é um homem hoje... - falei espantando os pensamentos.
Tomas ainda estava na minha barra da saia... Há uns anos passou por um momento complicado com uma mulher. Precisei apoiá-lo e ajudar naquele momento, pois não gostaria que os acontecimentos atrapalhassem sua carreira. No entanto, foi uma benção... Mesmo assim ele é minha maior preocupação quanto a minha decisão, pois é meu companheiro e melhor amigo. Mas nesta altura da minha vida, eu não posso ficar esperando. Dar-me o luxo de esperar. Eu tenho o direito de decidir, fazer minhas escolhas.
Terminei o banho, escolhi um conjunto de saia e blusa novas. Nada chiques: apenas bonitos. Fiz uma maquiagem leve e meu batom vermelho. Minha marca registrada.
Pronto! Agora era esperar meu namorado chegar. Ele precisava me responder o que decidiu para nós.
Augusto queria 'namorar' com todos os benefícios. Ou seja, gostaria de frenquentar além da minha casa a minha cama. Este homem parece ter um fogo... Sempre em suas visitas ele se mostrava muito carinhoso e um pouco avançadinho. Sei que os tempos são outros, mas eu sou de outra época. E já falei para ele, comigo somente casando. Chega a ser até engraçado essa nossa história.
Estava na biblioteca, escutei o som de um carro chegando, fui até a janela, era ele. Saiu do carro carregando um buque de flores. Fiquei observando-o, seu andar firme, seu corpo ereto e os poucos cabelos brancos. Cheguei a perguntar o que ele usava para manter pouco grisalho apenas. Ele respondeu: "- Segredo da juventude."
O som da campainha ressoa pela casa. Jorgina veio sorridente como sempre. Sabia quem estava à porta.
- Boa tarde senhor Augusto.
- Somente Augusto, boa tarde. - ele tirou uma rosa do arranjo e ofereceu a ela.
Ele me viu na entrada da sala e veio ao meu encontro com aquele sorriso bonito no rosto. Entregou-me as rosas vermelhas e deu-me um beijo no rosto.
- Está linda como sempre.
- E você um galanteador 'como sempre'. - peguei em sua mão - venha sente-se aqui. Jorgina! - chamei - traga para mim um vaso com água gelada, por favor.
- Venha sentar aqui comigo, - bateu no sofá - estou com saudade e quero ficar pertinho da minha 'moça'.
- Moça eu!? Somente você mesmo Augusto...
- Minha eterna mocinha, por que não? - estendeu a mão para mim - não estava com saudade de mim?
- Claro que estava... Na verdade o que mais tenho feito é pensar em nós e na nossa situação.
- Minha querida... Não estamos fazendo nada de errado, somos livres para amar outra vez e refazer nossas vidas.
- Temos filhos e netos, por mais que somos independentes, devemos dar sim satisfação para eles.
- Eu acho que se falar... Nós vamos criar uma baita confusão. Todos vão querer dar palpites. Sem falar, que podem vir a serem contras. Principalmente meus filhos.
- Se você acha que seus filhos vão ser contra, nós nem devíamos está falando sobre esse assunto.
- Meus filhos têm a vida deles, eu entendo que não querem ninguém para substituir a mãe deles... - o interrompi.
- Nem eu quero isto! Ninguém substitui a presença da outra pessoa, muito menos uma mãe ou um pai. Eu não o quero para isso na minha vida.
- Então vamos fazer do meu jeito minha querida, vai ser o melhor, já que você não quer somente namorar...
- Augusto, nós já falamos sobre isso. Eu não sou mulher para ter amante e nem um 'caso' com um viúvo. A casa de Deus estaria fechada para nós se ficarmos assim. Não peço para irmos a um cartório e casarmos. Apenas a benção de Deus.
- Então eu tenho outra sugestão, - falou sorrindo - promete me escutar até o final sem me interromper?
Aquele mesmo sorriso da minha adolescência, dos meus sonhos de muitas noites e também o mesmo que eu procurei em outros homens. Como eu poderia recusar? Eu era capaz de deixar tudo para acordar todos os dias com aquele sorriso, mas ele não poderia saber desse meu ponto fraco.
Depois de uma tarde conversando e parte de uma noite. Acertamos o que iríamos fazer.
*
Minha amiga e comadre Ana Portiê será a pessoa ideal para ajudar-me. Sua neta, minha afilhada Emilly, possui uma empresa de festa, é uma cerimonialista de primeira grandeza muito respeitada aqui na região. Liguei para ela e marcamos um horário. Ela se dispôs a vir na minha casa de campo. Mas achei melhor conversarmos em meu apartamento na cidade. Augusto preferiu não interferir em nada, somente ajudar financeiramente com a metade de todo custo, mesmo eu dizendo que poderia ficar com todas as despesas.
No dia e hora marcada Emilly chegou ao apartamento com todo o seu material, pois já sabia que iria organizar uma grande festa.
- Madrinha, que bom te ver assim tão viçosa... - abraçou e beijou-me - quero ser assim como à senhora.
- Basta ser feliz na sua vida minha querida e ter uma linda família.
Sentamos e a minha secretária Meire veio em seguida oferecer um café, cappuccino ou um chá. Nossa conversa foi muito agradável e ela entendeu tudo o que eu desejava; principalmente o sigilo de tudo. Ela tinha tudo em seu computador para me mostrar, buffet, flores, música, vários modelos de convites, lembranças e estilo de festa. E não deixava de anotar na sua agenda eletrônica nenhum detalhe. Foram mais de três horas em que nós ficamos trocando ideias e acertando tudo. Paramos apenas para um lanche por insistência da Meire. Mas confesso que no final eu estava bem cansada.
Mandaria um convite para meus filhos, netos e suas futuras esposas convidando para uma festa de família. Encontro da família 'Cavalcante'. Aproveitaríamos o feriado prolongado para aqueles que pudessem vir antes. Teríamos acomodações para todos na casa de campo, caso aqueles que não quisessem, poderia ficar no apartamento da cidade ou no hotel.
A Emilly foi embora com a promessa de me enviar uma planilha com todo o orçamento em três dias.
*
Sentei com o Augusto numa tarde para mostrar tudo que havia planejado e a planilha de custo. Algumas coisas eu não incluí nesta planilha, pois eram algumas extravagâncias minhas. Ele concordou com tudo, não deu palpite em nada, disse que queria tudo do meu agrado.
Comprei uma linda camisola para nossa primeira noite. A questão foi a cor, qual eu escolheria... Preta? Vermelha? Ou branca? Eu amo o vermelho, mas neste caso achei que poderia ficar vulgar... Preto, sexual demais... Na verdade, comprei as três que gostei, mas a branca seria a escolhida para 'à noite'.
No dia que Tomas chegou de viagem sentei com ele para falar da minha festa. Ele, como sempre se dispôs a ajudar-me em tudo que eu precisasse. Organizou todos os endereços e até providenciou os que eu não possuía; como a noiva do meu neto. Augusto trouxe os nomes e endereços dos familiares. Estava tudo encaminhando bem.
Na verdade, eu estava temerosa com tudo aquilo, mas já tinha entregado nas mãos de Deus.
2 - O segredo
Na semana do feriado, segunda feira, eu e o Augusto chamamos um taxi e fomos a uma cidade próxima de Campos do Jordão.
Entramos na igreja, o padre já nos esperava junto com a minha querida amiga Ana e sua neta Emilly que seriam nossas testemunhas. Eram somente as duas que sabiam da nossa união.
Entramos de braços dados ao som da 'Ave Maria' tocada por um senhor no violino. O único luxo que me dei de presente. A frente do altar eu respirei profundamente e percebi a qual emocionada eu estava. Olhei para o Augusto e vi aquele rapaz de 42 anos atrás a minha frente, eu deveria ser também aos olhos dele aquela mocinha de cintura bem fina e olhar perdido de paixão. O olhar que ele postava em mim não escondia o seu total deleite.
Era assim que eu me sentia... Uma jovem adolescente casando escondida dos pais com o seu príncipe. Neste caso, nossos filhos e netos.
O padre disse palavras lindíssimas sobre o amor. Não o amor que se banalizou hoje em dia, mas o amor que dura uma vida inteira. Aquele que permanece em nós e que nascemos com ele, pois Deus o colocou dentro de nós. E falou também dos encontros e desencontro, tudo como obra de Deus para aprendermos o sentindo de tudo e a razão pelas voltas da vida.
Concluiu fazendo uma brincadeira sobre as nossas experiências e comparou o casamento com uma dança. Onde os descompassos podem surgir para atrapalhar, mas que se soubermos parar e acertar o passo a melodia, a vida pode ser um constante baile.
Augusto tirou as alianças do bolso de seu casaco e entregou a ele que as abençoou. Segurou as minhas mãos, que além de geladas tremia um pouco, beijou e falou as palavras conduzidas pelo padre. Eu repeti o gesto com o mesmo carinho.
A benção final eu pensava nos meus filhos.
Já, no instante em que ele falou: 'pode beijar a sua esposa, ' eu esqueci tudo e todos. Somente me perdi em seus braços e no seu beijo.
Nossa primeira noite foi em uma pousada perto de Campos. Apesar de tudo, eu me sentia como se fosse a primeira vez. Talvez fosse... Depois de tantos anos... Afinal era nossa primeira vez...
E foi lindo...
Ele um cavalheiro... Tirou minha camisola com maestria de um romântico.
Amou-me, como um rapaz adolescente, revelando uma virilidade surpreendente. Fazendo-me a mulher mais feliz. Depois da minha timidez inicial eu relaxei entregando ao meu amor completamente.
*
Na quinta feira, os primeiros convidados começaram a chegar. O jantar foi um espetáculo a parte e como ponto alto, a apresentação do Augusto. Era para eles irem acostumando. Fui presenteada com um conjunto de lingerie pela minha filha que fez meu rosto ruborizar. Não podia ser outra pessoa mesmo que a sempre romântica Tarcila.
No dia seguinte, a casa ficou em festa com a chegada dos meus outros filhos e alguns netos, eram meus tesouros inquestionáveis. Uma paixão genuína. Olhavam para o Augusto com certo receio, mas respeito.
Assim...
Não sei o porquê, mas tudo resolveu acontecer nestes dois dias. Tárcio e Tomas que há muito vinham se desentendendo teve uma conversa definitiva e por fim se acertaram. Lana com o seu jeitinho providenciou bem esse encontro.
Minhas netas e netos vieram com novidades e por incrível que pareça estavam todos se acertado. Realmente o amor estava no ar das montanhas.
O Domingo amanheceu encantador, um presente aos olhos de quem parava para observar o grande espetáculo da natureza. Sentei na sacada do meu quarto para apreciar o alvorecer com o caderno do Antoniel e uma caneta nas mãos. Algumas horas mais tarde não teriam mais segredo... Balancei a cabeça sorrindo. Abri o caderno e na próxima folha em branco comecei a escrever.
Meu querido Tony,
Resolvi seguir seu conselho. A partir de hoje vou começar uma nova história, mas nunca vou esquecer a nossa. Afinal o que escrevemos nunca poderá ser apagado e nem arrancado de nosso livro. Sou grata a você pela nossa família e tudo que construímos juntos. Outro dia eu li no jornal uma crônica de um novo autor e quero deixar aqui uma parte do texto dele, era assim:
"Não se pode virar a página do que foi vivido.
Não se apaga uma única vírgula.
Não tem como mudar, como recriar.
O que se viveu seja bom ou ruim não se muda.
Pode até escrever novas linhas, um novo contexto.
Mas o que passou ficou marcado.
Compre um livro novo e comece a escrever uma palavra nova, ou uma nova história..."
Hoje, estarei começando um novo livro. Há muito tempo foi interrompido e agora é hora de continuar. Estarei somente virando a página e continuando a minha História que você sempre fará parte.
Sua Querida Cat.
Fechei o caderno.
Voltei no tempo lembrando aquele dia...
Precisava resolver várias pendências na cidade aquele dia. Aproveitaria para cuidar do visual como um retoque no cabelo e as unhas... Saindo do instituto de beleza, decidi caminhar pela praça me lembrando do passado, minha juventude. Aquele local era o nosso ponto de encontro. Sorri sozinha.
Olho a frente, não podia ser verdade... Parecia que estava voltando literalmente no passado. Eu pensava nele... Na verdade, desde quando eu soube que ele tinha ficado viúvo... A cada dia eu pensava num encontro casual... Não era coincidência... Eu sabia... Era a mente trabalhando a nosso favor...
Sincronicidade...
A poucos metros, arrumando alguma coisa na carteira o Augusto. Eu fiquei parada e quando ele levantou os olhos... Sorriu... Ah... Que sorriso...
Veio até mim. Ficou me olhando... Depois de um breve instante que pareceu uma eternidade, falou:
- Vamos tomar um café?
Depois desse café veio outro... Um almoço, jantar... E hoje estamos aqui...
Aos poucos, eu percebi a movimentação começar no jardim. Pessoas circulando e trazendo caixas, flores, toalhas... Os preparativos estavam a todo vapor. Um grande tablado tinha sido colocado no amplo gramado, terminando num palco para a música e luzes. As mesas eram todas identificadas, em cada uma, havia uma pequena caixa com tampa de vidro onde se via amêndoas, no entanto estava fechada por um pequeno cadeado. Escrito: "Não abra! Haverá o momento certo." Os grandes cavaletes com arranjos de flores estavam sendo espalhados por todos os lados.
Impecável.
A Emilly não esqueceu nenhum detalhe. Menina de ouro, bem que poderia ser uma neta. - pensei.
Minha roupa estava pendurada no closet dentro da embalagem com um grande zíper, desta forma nenhum olhos curiosos chegariam nele.
A Minha cabeleireira chegou com sua assistente.
Agora seria meu dia da noiva.
A previsão para a chegada do Augusto era meio dia.
*
Quase todos estavam em seus lugares, chamei meu filho mais novo, e contei tudo a ele. Não poderia esperar dele o contrário. Ele admirou a nossa ousadia e disse palavras lindas que me fez retocar a maquiagem.
Entrou comigo de braços dados e levou-me até a frente onde subimos ao pequeno palco onde me deixou. Pedi silêncio para uma palavra.
Comecei assim...
- Sempre gostei de ler romances, achava audaciosos aqueles casais que fugiam das famílias para casarem escondidos. O amor proibido sempre me fascinou. Todos sabem que vivi uma vida de amor para com todos. A família sempre foi e será meu bem mais precioso. No entanto, eu descobri que posso ser mais feliz do que já sou. E para isso, eu também fugi essa semana...
Começou um burburinho e eu pedi para deixa-me terminar.
- Sim. Eu fugi e me casei. Dei uma risada, nervosa talvez, mas muito sincera e profundamente feliz.
Olhei para o Tomas e ele foi até o Augusto e o trouxe a mim.
- Este é o meu marido.
E ele colocou um joelho no chão, beijou minha mão, levantou e beijou meu rosto. Continuei o olhando... - falei baixinho.
"- O noivo pode beijar a noiva."
Ele sorriu.
- Minha esposa.
Beijou-me na boca digno de cinema. As palmas começaram devagar. Compreensível.
Descemos do palco para a pista, começou tocar a nossa música. Dançamos sorrindo um para o outro. Minha pequena neta veio até mim com um buquê de rosas vermelhas, entregou-me e correu de volta para junto da sua prima. Em seguida, chuvas de arroz nos saudaram.
Tomas foi o primeiro a vir ao nosso encontro nos cumprimentar. Aproveitei para falar algumas palavras ao seu ouvido. Meus outros filhos foram chegando aos poucos e fazendo os comentários que eu já previa. Ninguém foi indelicado com o Augusto, mas também nem muito receptível. Iria levar um tempo, previsível. Sabíamos o que tínhamos feito e estávamos preparados para as reclamações e queixas.
Porém, tudo ficaria para depois. Hoje o dia era nosso!
E foi, apesar de tudo, um dia maravilhoso. Passamos em cada mesa e entregamos uma pequena chave para a caixa ser aberta. Nela tinha uma foto do dia do nosso casamento e um agradecimento.
No final da tarde os sorrisos estavam mais amplos e o som das risadas ecoava pelas montanhas.
Nesta noite dormi nos braços do meu marido.
Meu primeiro amor e último.
Em fins sós...
FIM
* Poema extraído do livro: Mundo de Segredos e sentimentos de Letícia de Oliveira - 'Um simples e último adeus'- (aqui com sua autorização)
*Virando a Página - Autor: Evando Luiz
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