Conto 26 - Desconvidado de casamento

Desafio: Penetra

Lena Rossi

Palavras: 1.498

Link:

Criado especialmente para este desafio.

Desconvidado de casamento

Apertei o nó da gravata e olhei no espelho novamente. Eu ia mesmo fazer isso? — perguntei-me.

— Sim — respondi sem qualquer menção de dúvidas.

Maura casaria com o meu melhor amigo Flávio. E eu não poderia ficar de fora, mesmo que eles tenham me traído e não me convidado.

Na época de adolescente, eu e meus amigos, adorávamos entrar de penetras em festas. Podia ser qualquer tipo de comemoração, mas se sabíamos que iria ter comida boa e mulheres bonitas, lá estávamos nós.

Uma tática certeira em casamento era nunca cumprimentar os noivos juntos, pois assim cada uma pensava que eu era amigo do outro. Algumas festas nem precisava de esforço. Era estar bem arrumado para entrar.

Hoje me preparei como se fosse eu o noivo. Poderia ser mesmo, afinal namoramos por dois anos. Anos estes de brigas, término e voltas.

Meus amigos, inclusive o Flávio, diziam que Maura não era uma garota para mim. Diziam que ela era interesseira e fútil. E eu merecia alguém que me amasse de verdade. Agora entendo o porquê de tudo, principalmente o Flávio, ele queria ela para ele. E conseguiu. Justo meu amigo. Ex-amigo agora. Forma seis meses de namoro incluindo o noivado.

Uma festa seria oferecida no haras da família do Flávio, onde o casamento civil seria realizado. Todos meus amigos foram convidados. Tentei persuadi a Denise, mas ela disse que por me amar tanto, não me levaria.

— Nícolas, esqueça aquela vigarista! Ela não vale nada. Sempre foi uma biscate e você devia agradecer por ter se livrado dela.

— Eu preciso ver com meus olhos, Dê! Parece que você não entende!

— Oh, meu amigo... Não se martirize assim. Eu vou neste casamento por você. Preciso ter certeza que o Flávio ficou louco.

— Sim. Aquele traidor ficou louco por ela, e mais, antes dela terminar comigo.

— Não acredito nisto.

— Por isso preciso ver, entende?

— Vocês que precisam me contar que doce essa garota tem, pois não entendo o porquê todos ficavam enrabichados por ela.

Lembrar dessa conversa com Denise me dava um alívio, era bom saber que meus amigos ficaram do meu lado.

Flávio podia ter a garota que quisesse, porque era bonito, rico e bem sucedido. Mas não... Teve que escolher a minha namorada.

Dei partida no carro, ainda sem saber como entraria no haras. Pedi a Otávio que me deixasse ir dentro do porta-malas, mas o cretino foi categórico. Não! A Leila me disse que iria de taxi com Denise. Assim poderiam beber a vontade.

Não me restou ir sozinho.

Parei distante da primeira porteira, alguns seguranças examinavam os carros com lanternas. Pelo que entendi não pedia o convite e foi minha deixa para entrar na fila de carro. Passei tranquilo, mas fui avisado para trocar o convite individual por uma pulseira na outra portaria.

O caminho tinha um corredor de lanternas de fogo. Arranjos de flores ajudavam a indicar a direção da entrada da festa com o estacionamento.

Eu precisava ter sangue frio e manter a calma, pois, meu nervosismo poderia me denunciar. Estacionei no local indicado e fiquei observando. Uma moça falava ao telefone, pedia para falar com alguém da família, pois não tinha trago o convite, e o seu nome não se encontrava na lista.

Outro obstáculo. Nome na lista.

Voltei pelo estacionamento, pulei o cercado e segui em direção as baias. Eu conhecia aquele lugar, pois o frequentei desde pequeno. E não foi difícil chegar atrás da propriedade perto da casa principal. A tenda armada ficava no gramado a frente.

Meu sapato não ficou em bom estado, mas achei um pedaço de pano e os limpei. Tirei uns carrapichos da calça e limpei o suor da testa.

Respirei fundo e entrei.

Sim. Pela entrada dos fundos. Na cozinha para ser mais especifico.

O aroma dos pratos sendo preparados atiçou meu paladar. Roubei um salgadinho de uma bandeja para salvar meu estômago que revirava de tensão. Na saída, no corredor que levava a parte principal encontrei um garçom que me ofereceu uma bebida. Aceitei de bom agrado. Meu anjo bom, da direita, me lembrou a promessa feita: não beber. Mas, o anjo da esquerda, repetiu no meu ouvido, que não faria mal apenas algumas taças.

Prometi a mim mesmo não fazer besteira. Ensaiei bater palmas aos noivos após a cerimônia e me despedir. Esperava ter coragem para isso.

A música tocava alta e as pessoas conversavam e riam em tons ainda mais alto que o normal. Avistei meus amigos, mas procurei ir em direção oposta. Não queria ouvir sermão naquela altura do campeonato, ou melhor, casamento.

Sentei em uma mesa, decoradas com vasos altos, num canto e fiquei na minha. Entre elas havia um corredor que levava a um altar. Conversei com as pessoas da mesa, eles nem imaginava quem eu era.

Horas mais tarde, um som de violino chamou a minha atenção, inerte aos acontecimentos. As pessoas se levantaram e olharam em direção da entrada. Aquela cachorra chegava em uma carruagem com belos cavalos, parecia uma princesa.

Olhei a frente e vi Flávio sério e transpirando bastante, pois passava um lenço na testa. Filho de uma égua traidor. Adoro a mãe dele e não era justo chamá-lo assim, quem não prestava era ele.

— Puto traidor — falei, a senhora do meu lado secou as lágrimas e resmungou.

— É verdade, muito inspirador.

Maura caminhou devagar sempre sorrindo em direção ao altar. Seus olhos brilhavam e exalavam emoção. Flávio suspirava e descansava o peso em um pé e outro, sem tirar os olhos dela.

Neste instante, caí em mim e me recriminei por ter tido essa ideia idiota. Mas era estar ali vendo a felicidades deles ou em casa imaginando. A dor seria a mesma.

A raiva que eu sentia, não era por amor a Maura. Este já tinha se exalado faz tempo, mas pelo ridículo que ela me fez passar. Por ela esfregar em minha cara as suas traições. Por não aceitar casar comigo e fazer isso em público. Perante a todas as pessoas que eu amava e pior, na festa de bodas dos meus pais. Acabou com a festa deles e comigo.

Demorei me recuperar e dar a volta por cima. E quando isso aconteceu, ela renasceu das cinzas dos infernos e se juntou com meu amigo. E como não bastasse, pouco tempo depois, da forma mais traidora eu recebo a notícia que eles ficaram noivos.

Meu corpo não suportava mais ficar naquela cadeira. Minha mente dava voltas pelo passado e me deixava ainda mais revoltado. Flávio não poderia ter feito o que fez e ainda está ali a recebendo em matrimônio.

Levantei.

Sentei quando as pessoas me olharam.

Os votos seriam anunciados e eles falariam as juras de amor um ao outro. Eu não podia mais ficar ali. Levantei de novo.

E as palmas que eu iria bater a eles?

Sentei de novo e me esforcei a prestar atenção nas palavras dela que terminava seu falso discurso e era aplaudida.

Flávio limpou a garganta e virou-se para os convidados. Começou a dizer que sempre considerou muito as amizades. — Falso! — Tive vontade de gritar. E ele continuou:

— Cresci com uma turma de amigos que parecíamos meuás irmãos. E fico feliz que estejam todos aqui hoje, pois vamos reparar uma injustiça.

O que ele estava falando? Por que não olhava e dizia as palavras de amor para sua futura esposa. E essa história de amizade? Hipocrisia.

— Tenho uma surpresa para todos e principalmente a minha querida Maura. — Ela olhou fascinada para ele e derreteu em sorriso. — Quero que vocês retirem debaixo da mesa um envelope que está grudado no tampão. Abram!

O zum zum começou e as pessoas se espantavam com o que viam e repassavam para o outro. Arranquei da senhora a minha frente para ver o que se tratava. Era Maura em um iate apenas de calcinha, abraçada com um velho.

— Troquem seus envelopes com os visinhos de mesas se desejarem — pediu ele —, ou assistam aqui no telão. — Maura sorria sem saber o conteúdo dos envelopes.

Neste instante, no telão começou a rodar as imagens. Maura em várias delas em situação reveladora, como em uma boate fazendo Streep.

Como vocês estão vendo essa moça aqui não vale nada! É uma mentirosa e quer casar-se comigo para gastar o meu dinheiro. Ela vive de fachada a procura de um marido rico para sustentá-la. E achou que poderia se dar bem comigo depois de dispensar meu amigo da forma mais cruel.

Perdi o meu rumo.

Olhei para a Maura que tentava desvencilhar das mãos de Flávio e batia nele com o buquê de rosas. Já nem a reconheci, pois a maquiagem que tampava a sua cara cínica derretia com suas lágrimas.

Como um clique de uma porta que se abre, minha visão abriu. Entendi o que acontecia ali e o que Flávio acabara de fazer por mim.

Levantei e comecei a bater palmas.

Essa era a minha parte naquele casamento que não fui convidado, mas o Flávio sabia que eu saberia penetrar como ninguém.         

Lena Rossi

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top