Conto 22 - Parceiros

Jardim Literário

Desafio: continuar o texto

Lena Rossi

Número de palavras: 1499

Parceiros

- Apenas dê a minha parte e eu vou embora desse inferno.

- Se você abandonar agora, você não fica com nada.

- O quê? Você está louco? Por que está fazendo isso?

- Eu? Apenas quero que cumpra o nosso acordo.

- Nosso acordo terminou depois que você trouxe aquele gato para eu fazer churrasco.

- É muita frescura. Ninguém iria perceber e nem saber, Bia.

- Eu sei! - gritei - Escutou? Eu saber já basta! Nunca iria enganar as pessoas e muito menos fazer isso com um animalzinho inofensivo.

- Gato? Inofensivo? Corta essa! Esse bicho não é de Deus.

- Percebe o que está falando, Denis? Trate de me devolver o que investi nesta espelunca em 48 horas, senão...

- Senão o quê? Vai fazer o que, posso saber?

- 48 horas, Denis...

Falei e saí. Aquela era minha deixa para fingir segurança que eu não sentia, mas não poderia voltar atrás.

Entrei neste negócio de lanches e churrasquinho em eventos para juntar dinheiro, pois quero no final do ano viajar pela Europa. Colocar uma mochila nas costas e cair na estrada. Fazer uma grande aventura. Mas lógico que com uma boa grana. Porque aventura que se preze é em grande estilo. Nada de ficar sem tomar banho por dias e dormir em qualquer lugar. Quero viagem de alto nível e lençóis cheirosos. Senão, fico pelo Brasil.

Agora eu não esperava que meu amigo fosse tão nojento e imoral.

Dei as minhas economias em dinheiro na mão dele para comprar o carro e ele pagou para reformá-lo. Compramos cadeiras, mesas desmontáveis, chapa e grelha para fazer o tal churrasquinho e todos os descartáveis.

Na primeira compra que fizemos no supermercado, Denis já se mostrou mesquinho, quis usar produtos de qualidade duvidosa. Como não aceitei, tivemos nosso primeiro desentendimento. Naquele momento eu pressenti que teríamos problemas.

Na noite de inauguração, logo após o show do Jota Quest**, nosso carro móvel de lanches foi um sucesso. O cheiro de alho, cebola e ervas exalaram pelo ar, atiçando o paladar daqueles que saiam famintos da festa. A bebida gelada foi o acompanhamento perfeito.

Vendemos todo estoque. E praticamente triplicamos o valor que gastamos. Se soubéssemos organizar em pouco tempo teríamos o valor investido.

Minha intenção era reinvestir o dinheiro, mas Denis quis usar a parte dele em outra coisa, que não me contou, mesmo depois de eu insistir. Então ele me falou:

- Fique na sua. Vamos recuperar o nosso dinheiro mais rápido que imagina e teremos muito lucro.

Mas eu não imaginava que fosse dessa forma. Como eu ia saber? Ele nem sempre foi meu amigo. O conheci na faculdade, sempre fazendo um bico ali e outro aqui. Como se diz por aí, ele se virava. Imaginei que tudo que fazia tivesse honestidade.

- Ai meu Deus... Só de pensar que aqueles espetinhos podem ser de... Não, ele não teria coragem. - Meu estômago revirou. - Nós compramos juntos...

Revirei na cama a noite toda. Fui pegar no sono já era madrugada. Acordei um bagaço no dia seguinte.

Peguei meu celular e havia três mensagens do Denis.

"Ruiva, está mais calma agora? Podemos conversar pacificamente?"

"Você não falava sério, não é mesmo? Vamos negociar os termos."

"Responde, Ruiva!"

Olhei, li e precisei analisar com calma o que poderia estar nas entrelinhas. Não cairia na mesma conversa dele. Afinal posso ser a 'doida', descolada e liberal, mas de uma coisa eu me orgulho. Nunca fiz nada de errado. E quero continuar assim. Entrar em cana por causa de uns trocados eu estava fora.

"Encontre comigo no restaurante da faculdade. Almoçamos juntos."

"Pode ser na biblioteca depois do almoço? Tenho um lance para resolver neste horário."

Concordei. O que eu não queria era encontrá-lo em lugar privado.

"Combinado." - respondi, ele apenas mandou uma carinha feliz.

Tomei banho para acordar e relaxar um pouco. Pronta para encarar mais um dia, vestida com um jeans e uma camiseta branca. O plano anterior seria de ir às compras na parte da tarde, pois faríamos dois eventos nos próximos dias, mas agora...

- Tudo bem, Bia. Escute o que ele vai dizer - falei para mim.

Durante as aulas, minha mente formulou vários discursos em defesa as que eu imaginava que ele faria. Melhor seria se ele trouxesse meu dinheiro e me devolvesse. Tudo desfeito e sem mais brigas,

Mas não foi o que aconteceu.

Esperava por ele na biblioteca e, para meu espanto ele chegou acompanhado.

- Oi Bia, arrumei um novo sócio para nossos negócios.

- Oi, tudo bem? - cumprimentei o cara e puxei o Denis para o lado. - Que história é essa de sócio?

Ele sorriu de canto a canto da boca, mostrou todos os dentes, como se eu fosse dentista e quisesse fazer uma inspeção.

- Relaxa. Já o deixei a par de tudo. Contei toda nossa ideia e como tem sido o nosso faturamento. Ele vai ficar com a parte "suja" - fez aspas com os dedos - do negócio. Assim a mocinha aqui, não precisará colocar as mãos nos bichinhos.

- Você está louco? - falei mais alto e as pessoas pediram silêncio. - Eu nunca concordei com isso e como disse, estou pulando fora. Quero meu dinheiro de volta. Pode ficar com seu sócio neste ramo de comidas exóticas.

Levantei para sair e o tal segurou meu braço.

- Sente-se! - mandou, como se fosse meu chefe ou coisa parecida.

- Em primeiro lugar, não te conheço. Segundo você não manda em mim e terceiro, eu não serei comparsas de vigaristas.

- Eu mandei sentar! - Ele me puxou, desequilibrei e quase esborrachei ao chão, isso se não fosse amparada e indo direto em seu colo.

- Era isso que queria, belezinha?

- Deixa de ser pretensioso! Foi você que me puxou! - falei com ódio do meu ex-amigo, pois era isso que o Denis seria a partir de hoje.

Olhei para ele com esperança de ser salva e levada dali. Mas o que ele disse-me fez arrepiar inteira.

- Muito bem, Ruiva. Agora que está entendendo e aceitando nossa parceria, me diga o que prefere? Gato, cachorro, gambá ou capivara? Aqui na lagoa tem bastantes capivaras. No hospital veterinário tem algumas opções, mas na cidade... Esta tem um vasto estoque de ingredientes para o nosso negócio.

Enquanto ele falava, eu me apavorava, principalmente, em ver seus olhos brilharem pelo maligno. Um lado estranho que eu nunca vi antes.

Tudo passou pela minha cabeça em questões de segundos. Eu me vi presa por sete anos em uma penitenciária feminina com aquelas roupas listradas em preto e branco ou laranja, igual de uma série que via na TV. Sem contar que elas eram horrorosas. Não combinava comigo. Tudo larga no corpo e sem nenhum estilo.

Pensei na cela, eu imaginei aquelas mulheres masculinizada querendo aproveitar de mim. Ou ainda me fazendo lavar privadas imundas e mais um monte de outras coisas que eu me recusei a pensar.

- Não! - gritei.

Levantei num impulso do seu colo e daqueles braços fortes e musculosos. E todos que estavam naquele lugar nos olharam.

- Nunca! Jamais farei tal absurdo.

- Não tem como sair, minha querida. Uma vez que entrou e sabe de nossos planos, não sai mais. Explique a ela, Marcos.

Aquele cafajeste alisou a barba por fazer, sorriu fazendo charme, como se ele tivesse num comercial de pasta de dentes, onde me presenteava com os seus dentes mais brancos, me fazendo morrer de inveja.

- É assim, belezinha, desde o começo do nosso empreendimento escolhemos as pessoas numa seleção muito criteriosa. Nada pode sair fora do nosso plano. Entendeu?

- Não! Nunca fiz parceria com você. Esse negócio é entre eu e o Denis, nunca teve terceiros e muito menos esse tipo de... - abaixei a voz - alimento.

- Mas agora está sabendo que tem e ficará e muito quietinha. Sabe por quê? Veja nossos amiguinhos que poderá te fazer concordar.

Olhei na direção que ele olhou e encontrei três caras, altos e fortes de braços cruzados no peito. Três monstros na verdade.

Pensei que fosse desmaiar. Tentei apertar meu braço com os dedos e acordar, mas o máximo que consegui foi uma marca roxa no local.

- Denis, por favor, vamos fazer o seguinte. Fica com todo meu investimento. Não precisa me devolver nada. Não quero mais minha parte. Podemos fingir que nunca entrei neste ramo. Na verdade odiei aquele inferno de lugar quente. Pior, sair cheirando a fumaça e tempero. Aquilo não é para mim. Certo?

Eles se olharam. Trocaram confidências mudas. Talvez fosse isso que eles quisessem o tempo todo, me causar pânico e assim conseguir tirar de mim cada centavo que coloquei naquela espelunca. Não me importava mais nada. Então falei:

- Concordo com o que disse ontem.

- O que falei, Ruiva?

- O que ele disse, Bia?

- Se você abandonar agora, você não fica com nada. Aceito!

Neste instante, apareceram câmeras por dois lados e todos que estavam no local começam a bater palmas e eu tive outra crise de pânico.

- Você está numa pegadinha, minha querida, acaba de falar a frase que vale o prêmio principal, quinhentos mil reais para cada. Denis sorriu de forma gigantesca e eu? Acho que desmaiei.

Lena Rossi

**é uma banda brasileira de pop rock formada em Belo Horizonte, em 1993.

Beijo, Lena

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