Conto 20 - Conto de natal
Conto de natal
Eu cresci num abrigo para crianças.
Fui abandonado na rua por volta dos três anos de idade. Uma pessoa me encontrou andando sem rumo com uma pequena mochila nas costas, chupeta na boca e chorando. Depois de passar por algumas instituições, fui morar no lar do Menino Jesus.
Não tenho muitas lembranças dessa época. Elas se tornaram mais nítidas depois dos meus cinco anos, quando comecei a passar alguns finais de semanas com famílias acolhedoras. Algumas crianças acabaram sendo adotado neste período, o que não foi o meu caso.
Comecei a estudar em uma escola regular fora da instituição aos seis anos. Foi meu primeiro contato com o mundo real. Lembro-me perfeitamente o medo que senti daquele dia, isto porque escutava muitas coisas e via nos filmes o que os meninos mais velhos faziam com os alunos mais novos.
Sempre fui uma criança maior que os outros da minha idade. E essa foi a minha vantagem ao encarar os meus novos colegas. Eu os olhava de cima e de cara fechada e bravo. Essa era minha defesa.
E um único pensamento, no primeiro dia de aula: ninguém vai me maltratar.
Em poucas semanas já liderava um grupo e era o queridinho das professoras, pois cheguei sabendo ler, escrever e fazia as contas básicas.
Era bonito, esperto, mas continuava na instituição. Muitas vezes, ao dormir eu chorava sozinho e escondido. Queria muito um lar, uma família e ter uma vida igual aos amigos da escola. Sabia que a cada ano se tornava mais difícil uma adoção.
Até que chegou o natal.
Todos os anos a instituição fazia uma campanha que abrangia toda região: "Faça uma criança feliz. Dê a elas um natal diferente."
Muitas famílias abraçavam a campanha e buscavam uma criança para passar o natal com eles. E naquele ano eu fui ficando para trás e não sendo escolhido. A tristeza chegava a doer em meu coração a cada um que saia feliz e se aproximava o natal.
Dia 24 de dezembro pela manhã, um senhor bem vestido, alto e sorridente abriu a porta principal. Eu me encontrava sentado na escada todo arrumado com um fio de esperança ainda. Pensei: é ele.
Este senhor trazia consigo, comidas e brinquedos para aqueles que ficariam e passariam o natal na instituição. Mas eu não queria ficar.
Levantei e abracei as pernas daquele senhor e pedi:
— Por favor, me leve com o senhor. Não quero ficar aqui. Quero fingir que tenho família e pensar que todos me amam.
Ele tentou se soltar, mas eu permanecia firme segurando suas pernas. Ele abaixou na minha altura e encontrou meu olhar. Não sei dizer o que ele sentiu, mas o seu sorriso deu-me esperança. E ele não conseguiu negar meu pedido.
Olhou para a diretora e anunciou:
— Arrume as coisas dele, vou levá-lo comigo neste natal.
— Não precisa, já está tudo pronto. — Mostrei minha mochila no canto da escada.
E foi assim que minha vida mudou completamente.
Àquelas horas com a família Almeida, não tinha como descrever, foram as melhores. Os presentes e a comida boa não se comparavam a atenção que eu recebia deles. Todos queriam me agradar, como se eu fosse membro da família.
Eu desejava que o tempo passasse bem devagar e o natal durasse para sempre.
Não foi o que aconteceu.
Poderia dizer que foi o melhor natal da minha vida, mas não foi.
Nos anos seguintes, eles se tornando melhores. Isto porque, no dia seguinte ao natal, o filho único do casal, de apenas 18 anos se acidentou com o carro novo e faleceu.
Foram dias muito tristes.
Com todos os acontecimentos eles se esqueceram de me levar de volta para a instituição. A empregada da casa tomava conta de mim, em troca eu a ajudava em várias tarefas que já era acostumado. Tudo era melhor que voltar.
Numa tarde, passando pela sala eu vi a senhora Vanda sentada sozinha a uma poltrona, chorava com a foto do filho em mãos. Num impulso, sentei-me no chão aos seus pés, encostei a minha cabeça em seu colo e fiquei. Ela começou a me fazer um carinho e em poucos segundos me colocou em seu colo. Nunca mais deixou que eu saísse de perto deles.
Anos mais tarde, ela me contou que naquele instante, conversava em pensamentos, com o seu filho. Pedia a ele direção para seguir a vida sem sua presença. Que ele desse um sinal para ela como agir. E foi naquele instante que eu sentei aos seus pés.
Foi tudo que ela precisava.
Fui adotado por eles. Estudei nas melhores escolas. Fiz faculdade, mestrado e hoje me tornei um empresário sucedendo meu pai na empresa que ele fundou.
Feliz Natal
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