Conto 12 - Surpresa da vida
Este conto têm como base essa foto acima e o seguinte desafio:
Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras... Será?
Transcreva essa imagem em uma cena de pelo menos mil palavras, invente os personagens, nos apresente essa história e explique o que eles estão fazendo aí.Queremos diálogos, descrições e claro, um motivo perturbador por trás de tudo!
Leia e comente se atingi o objetivo.
Beijos,
Lena Rossi
Surpresas da vida
Vim para este lugar com o coração batendo em minha garganta. Um encontro que eu não esperava que fosse para essa finalidade. Afinal, poderia estar pulando de alegria em retornar neste local sozinha, se o acaso não me tivesse presenteado com tamanha surpresa.
Precisava ser forte e não fraquejar. Minha revelação afetaria não somente minha vida, mas a de muitas pessoas.
A tarde está linda. O mar calmo revelava que a noite seria de lua cheia e brisa suave. Cheguei mais cedo, precisava deste tempo para colocar cada palavra no seu devido lugar dentro das frases. Não queria de forma alguma que ficasse algum mal entendido. Mas como? Como encaixaria as palavras? Que frase eu formularia?
Apoiei as mãos no balaustre e olhei o horizonte, onde o céu encontrava-se com o mar. Perfeito. Tudo tão lindo se fosse um dia comum. Os pássaros brincavam por perto parecendo querer me distrair, mas eles nunca poderiam imaginar o que se passava em meu coração. O conflito em que eu vivia. Balancei a cabeça e disse em voz alta:
- Por que meu Deus? Por quê?
Passei as mãos no rosto como se pudesse assim tirar a angustia que me atormentava. Abaixei o corpo em direção da base do meu apoio e encostei o queixo no dorso de minha mão. Meus olhos continuavam fixos no horizonte. Precisava pensar. Avaliar se minha decisão estava correta, afinal poderia sumir de vez da vida do Luís e nunca precisaria contar a verdade. Pronto! Solução perfeita se eu fosse essa pessoa que conseguisse viver com essa verdade oculta.
- Não, Lucca, você não é essa pessoa. A verdade é a melhor solução para vocês dois, e quem sabe para todos!
Sentei-me na escada empoeirada e as lembranças vieram como chuva passageira no dia quente: rápida e forte. Ela me trouxe o dia exato em que tudo começou. O encontro de barcos, um evento anual da cidade. As pessoas se aglomeravam nas várias sacadas cercada por balaustres que contornavam a beira mar para assistir de camarote o espetáculo. Os barcos vinham de todas as maneiras: enfeitados de muitas cores, com tocadores de violas, crianças e com as bandeiras de várias comunidades e a principal: a bandeira do Divino. Alguns grupos vinham da direita e os outros em sentido contrário, vindo da esquerda. O encontro era a festa maior. Fogos de artifício se viam ao longe e as cantorias ecoavam em uníssono.
Neste dia eu resolvi assisti o espetáculo de perto. Com uma garrafa de água na mão tentava descer e abrir passagem pela escada entre as pessoas que paravam no caminho, eu desejava chegar mais perto. Foi então que me dirigi a um rapaz educadamente e falei:
- Por favor, dei-me licença.
Ele não se mexeu. Então resolvi tentar passar assim mesmo, apertando-o contra a outra pessoa do seu lado.
- Ei! Você não percebe que não tem como passar? - ele me disse um pouco áspero.
- Desculpe, eu pedi licença - falei na tentativa de consegui passar.
- Mas você não percebeu que não tem espaço para... - interrompeu a frase no instante que seus olhos cruzaram com os meus.
- Desculpe-me, eu achei que tivesse um pouco mais de espaço visto lá de cima - falei envergonhada por minha atitude de empurrar o rapaz que era um pouco mais alto que eu. Sim, eu queria passar na frente dele e assistir o espetáculo em frente do balaustre, fosse ou não possível.
Alguém resmungou sobre minha ousadia de querer chegar naquele horário e ser privilegiada com acesso nobre da vista. Tentei voltar alguns passos para trás e percebi que não dava mais para ir a lugar nenhum. Fiquei onde me encontrava. Porém o rapaz virou o corpo devagar e me concedeu passagem e disse:
- Pode ficar aqui bem a minha frente. Eu sou o Luis e eu que peço desculpas pela grosseria.
E foi assim que tudo começou. Trocamos nossos números de telefone e as mensagens diárias foram inevitáveis. Até que um dia ele me convidou para ir ao cinema e nosso primeiro beijo aconteceu.
Dois meses, este foi o tempo que levou para eu receber o convite de ir a sua casa conhecer sua família. Fiquei receosa por dois motivos: vergonha mesmo e ter que retribuir o convite. A minha família resumia-se entre eu e minha mãe. Meu pai nos abandonara quando minha mãe anunciou sua gravidez, e meus avôs a expulsaram de casa. Isso era tudo que eu sabia. E ela teve que ser as duas coisas para mim, e por sinal fez muito bem.
E ele contava com tanto orgulho da família numerosa que possuía, os irmãos, os sobrinhos e os pais.
No dia marcado eu criei coragem e fui. Todos me receberam muito bem. No entanto, eu via o olhar do seu pai sobre mim em vários momentos e com uma expressão que me incomodou. Até que fiquei sozinha e ele me dirigiu a pergunta que tanto estava querendo fazer:
- Você nasceu aqui mesmo, Lucca?
- Não, senhor, eu nasci no interior. Viemos, eu e minha mãe, morar aqui depois que entrei na universidade, por quê?
- Nada. Achei seu rosto familiar. Pensei ser filha de um conhecido. Mas é besteira. Eles sempre moraram aqui no litoral. E qual o nome de sua mãe?
- Susana - respondi, e no mesmo instante percebi sua cor sumir de seu rosto moreno.
- Tudo bem, senhor Salveano?
Ele não respondeu e saiu do meu lado, deixando-me sem entender coisa alguma.
Mostrando as fotos da família do Luís para minha mãe ela teve a mesma reação. Porém, não me deixou sem respostas.
- Filha, quem é este senhor aqui - apontou para o pai do Luís.
- É o senhor Salveano, pai do Luís, por quê?
Ela levantou com o celular em mãos e aproximou bem a foto com o zoom. Olhou para mim com lágrimas nos olhos.
- Este homem chama-se José Salvador Carneiro.
- Como assim? Não pode ser. Este deve ser outra pessoa.
- Tenho certeza, nunca esqueceria este rosto.
- De onde o conhece, mãe?
- Ele é seu pai.
Fiquei em choque.
Não podia ser a mesma pessoa. Não! O Luís não poderia ser meu meio irmão. Essa seria uma ironia muito grande do destino.
Pensei no pecado que estaríamos cometendo. Ainda bem que não chegamos a avançar em nossa intimidade. Tudo não tinha passado de beijos mais ousados e caricias.
Tinha que esclarecer tudo aquilo.
Comecei a fazer perguntas ao Luís sobre a família dele. Olhando a sua identidade percebi o nome do seu pai: José S. Carneiro. Por que o nome de seu pai é abreviado?
- A história que ele conta é que no cartório eles não souberam escrever o nome dele e fizeram assim. Sabe, coisa de antigamente e cidade pequena.
E acabei descobrindo que ele foi caminhoneiro por muito tempo e que vivia nas estradas, dias após dias. Chegava a ficar mais de um mês fora de casa. Abriu o próprio negócio e sossegou depois do nascimento do meu irmão mais novo que era especial. Os cuidados com ele e com os outros filhos, ainda pequenos, demandavam muito. Ficou muito pesado para a mãe cuidar sozinha.
Então foi assim que ele conheceu minha mãe - pensei.
Marquei um encontro com o senhor Salveano num restaurante para um almoço. E ele chegou, já entendendo o que eu queria.
- Sinto muito. Sei que o que tenho para te pedir é algo muito difícil, mas...
- Então o senhor sabe quem eu sou?
- Sim. Desconfiei aquele dia em que você foi à nossa casa. Procurei o seu endereço. Outro dia eu vi você e sua mãe chegando em casa, - falou de cabeça baixa - sinto muito.
- Sente mesmo? - perguntei indignada.
- Sim. Eu era muito jovem e viajava muito naquela época... Não esperava que sua mãe engravidasse... Eu sempre pensei nela e me perguntava o que ela fizera. Eu deixei bastante dinheiro com ela na época...
- Ah sim, o dinheiro está me criando até hoje - falei sarcasticamente.
Ele alisou a barba e com os olhos fixos nos meus pela primeira vez, perguntou:
- O que vai fazer?
- Contar tudo ao Luís.
- Por favor, não faça isso. Eu te imploro - pediu quase num sussurro.
- Por que eu não contaria? Como vou terminar com ele?
- Simples. Diz que não gosta mais dele, que confundiu seus sentimentos e se afasta.
- E por que eu faria isso? Para proteger o senhor? Não! Eu não vou fazer isso.
- O que quer ganhar com essa situação? Um pai? Vai me pedir pensão? Acredito que seja maior de idade...
- Não! - o interrompi. - Não quero nada do senhor. Apenas a minha consciência de não ser falsa com o seu filho. E poder transformar o amor que tenho por ele em algo diferente, amor de irmã.
E antes de sair perguntei:
- Fico pensando... Quantos irmãos será que eu posso a vir encontrar por ai? - Mas não esperei resposta. Levantei e deixei a minha parte em dinheiro na mesa de uma refeição que nem experimentei.
Levantei a cabeça ao escutar um barulho de passos. Olhei para trás e Luís estava parado no alto da escada. Levantei. Ele desceu devagar e abraçou-me.
Ficamos assim por um bom tempo. Então ele encostou-se na pilastra lateral por baixo do poste de iluminação, que agora estava aceso. Colocou a mão em minha cintura e encostou sua testa na minha. Pela primeira vez ao se aproximar de mim ele não me beijou nos lábios. Foi então que seu olhar me disse tudo. Ele sabia. Seu pai havia contado, ou melhor, nosso pai.
Assim ficamos por um bom tempo. Nós dois, debaixo de uma lua cheia e um mar calmo.
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