Capítulo 16 - Viagem inusitada



Viagem inusitada


Trabalhar como vendedora de produtos de Sex Shop não era fácil. Isso porque, mais que efetuar diretamente a entrega dos produtos - o que já era muito bizarro para uma estudante tímida como eu, que apenas desejava pagar as suas contas -, conviver com uma clientela esquisita se tornava cada vez mais complicado.

Hoje, por exemplo, recebi a ligação de um cliente misterioso. Ele fez um grande pedido, mas a maioria dos produtos eu não tinha pronta entrega. A princípio, fiquei receosa com o valor da venda, no entanto, no mesmo dia o dinheiro foi depositado na minha conta e ele enviou o endereço de entrega.

Apenas quando os produtos chegaram que fui observar o endereço: Condomínio Lagoa Azul, casa 42, Ilha Estrela do Sul.

O que significava aquilo?

Perguntei para o porteiro do meu prédio e ele me informou que era um condomínio de mansões numa ilha particular pertencente à Florianópolis.

- O quê? É uma ilha mesmo? E como faço para chegar até lá?

- Olha, menina Fernanda, pelo que sei tem uma balsa que sai todos os dias às sete e meia da manhã e volta ao meio dia, e outra que sai à uma da tarde e volta cinco e meia. Eles fazem essa travessia para levar os vários funcionários das mansões das ilhas próximas. Já os ricaços têm os seus próprios meios de transportes: lanchas e helicópteros.

- Sério, seu Júlio? Não consigo imaginar o tanto de dinheiro que essa gente tem.

- Imaginar eu até consigo - disse ele sorrindo -, mas ver e colocar as mãos é que não.

- E como o senhor sabe de tudo isso?

- Minha sobrinha trabalha numa dessas "casinhas" como cozinheira.

Voltei para meu apartamento sem saber o que fazer. Passei uma mensagem ao dono do pedido e perguntei se tinha outro endereço em que eu pudesse entregar a encomenda, porque quando informei que fazia entrega em domicílio, seria por terra e na cidade.

Em resposta, ele me informou que pagaria as despesas para eu ir de lancha pessoalmente. Mais estranho achei a situação, afinal, se a pessoa era tão endinheirada assim, porque não comprou direto da internet?

Logo após o meu contato, uma mensagem me informou que uma quantidade enorme foi depositada na minha conta. Sem poder recusar aquela quantia, não pensei duas vezes: no outro dia embarquei à uma da tarde para fazer minha entrega. E para economizar usei a balsa.

A balsa que imaginei não condizia com a realidade do barco muito confortável em que embarquei. Todo fechado, com poltronas confortáveis e ar condicionado. Sentei do lado da janela a fim de apreciar a vista, ainda temerosa com essa entrega.

O mar estava lindo e tranquilo, refletia o céu azul.

De repente, uma lancha passou por nós causando uma onda. Colei meu rosto no vidro e tentei enxergar o que foi aquilo. As pessoas ao meu redor também notaram que algo diferente acontecia.

A lancha voltou e contornou nossa embarcação. Desta vez eu enxerguei as passageiras. Coloquei a mão na boca para não dar uma risada alta. Mulheres seminuas balançavam os peitos e ofereciam alguma bebida. Alguns homens levantaram de seus lugares, com certeza querendo ver melhor o que elas ofereciam.

Outra lancha apareceu, e nesta eu me interessei. Homens de tangas fio dental e gravatas borboletas dançavam e mandavam beijos para a nossa direção, então perguntei:

- É sempre assim, tão animada essa pequena viagem?

Ninguém me respondeu. Acho que imaginaram ser retórica minha pergunta.

As lanchas continuaram contornando nossa embarcação. E a cada volta, tanto as mulheres quanto os homens ficavam com menos roupas. Várias pessoas levantaram de seus lugares e saíram até a parte externa. Já eu permaneci no meu lugar, apenas apreciando o espetáculo e por dentro rezando para que essa turma não tivesse o mesmo destino que eu: encontrar com o meu cliente.

Aos poucos, as pessoas voltaram e se acomodaram em seus devidos lugares, rindo da bagunça do lado de fora.

Minutos depois, alguém falou mais alto:

- Cadê a caixa que deixei aqui?

Olhei na direção da voz e pude ver o desespero nos olhos da senhora de cabelos grisalhos.

- Deixei-a bem aqui - apontava ela para a bolsa sobre a poltrona. - Parem de brincadeira e a devolvam!

O murmurinho começou e foi aumentando progressivamente. E, pior, olhavam em minha direção. Então falei:

- Eu não vi nada!

- Você foi a única que permaneceu aqui dentro - falou alguém.

- Mas eu sequer me levantei - respondi, segurando com firmeza a minha mala, um pouco maior que de costume. - E não é verdade, outras pessoas também permaneceram. Ele e aquele, por exemplo. - Apontei os dois rapazes.

A senhora já tinha o celular na mão conversando com alguém enquanto me olhava atravessado. Saiu e permaneceu do lado de fora. Juro, eu fiquei com medo.

O barco foi diminuindo a velocidade e eu não via a hora de sair daquele lugar. Mas, para meu desespero, a porta abriu e um homem de quase dois metros de altura informou:

- Todos aqui serão revistados para poderem desembarcar. Sumiu algo de muito valor da senhora Judite.

- O quê? - gritou uma moça e apontou para mim - A única desconhecia aqui hoje é essa garota.

- É verdade - afirmou alguém. - Nós viajamos juntos todos os dias e nunca aconteceu isso.

Todos me acusavam e eu me encolhia cada vez mais, agarrada à minha mala.

- Não fiz nada! Apenas vim fazer uma entrega - consegui dizer.

- Então mostre sua bolsa e abra essa mala - mandou o cara alto.

Pronto! E agora?

- Pode pegar minha bolsa, mas essa mala não. É do meu cliente.

- Está vendo? Ela está escondendo. Foi ela! - afirmou a senhora.

- Pegue a mala dela - gritou alguém lá do fundo.

Levantei, segurei firme a mala e falei:

- Conheço os meus direitos. Sou estudante do terceiro ano de Direito da universidade federal e ninguém toca na minha mala.

Duas mãos a puxaram de mim, mas eu segurei a alça com mais firmeza. Foi uma briga ferrenha, até que ela escapuliu e eu caí sentada no colo de um rapaz, que me segurou pela cintura, adorando tudo aquilo.

Eu vi o girafão apertar a trava e abrir a minha mala. Tirou uma caixa de dentro e arregalou os olhos. Abriu-a, e ao levantar a tampa, um pênis deu um salto dela e foi parar no corredor, quicando. Pulava como uma mola, e os olhos das pessoas acompanharam o pinto saltitante.

- Pode me soltar, por favor - pedi ao rapaz.

- Não! - respondeu.

- Quero pegar meu pênis - falei mais alto e todos desviaram sua atenção para mim.

Nesta altura, eu estava roxa de vergonha. E o cara que examinava a mala continuava exibindo as minhas mercadorias: calcinhas coloridas, algemas, chicotes, vendas, prendedores e até os ursinhos penianos.

- Achei! - a velha rabugenta gritou com minha bolsa nas mãos. - Estava aqui debaixo da bolsa dela.

Ela exibia uma caixa preta e dourada. E quando a abriu, um lindo e luxuoso relógio apareceu.

- Ela está armando tudo isso - exclamei.

- Prove que não foi você! Todos aqui viram os seus pertences, aluna de direito - debochou de mim.

- Pois é isso mesmo. Tenho pênis, óleo estimulante e até boneca inflável. O que iria fazer com um relógio?

- É caríssimo! Venderia para colecionador.

- E como eu saberia disto? E ainda mais que a senhora o tinha aqui? Sou advinha, por acaso? Para mim no camelô tem vários parecidos com este.

As pessoas concordavam, ora comigo, ora com ela. Aproveitei a deixa e recolhi o pênis que, nesta hora, já tinha ficado quieto. Coloquei-o dentro da mala com o restante das coisas e me pronunciei novamente:

- Meu cliente não vai gostar nada de saber que suas mercadorias foram exibidas aqui. E vou processar vocês - apontei o dedo para o grandão e em seguida para a velha - por violação de pertences sem mandado. Tenho os melhores professores criminalistas. A acusação sem provas é crime e invasão de privacidade também. Posso pedir indenização por direitos morais.

Juntei tudo que me pertencia e, percebendo que já estávamos ancorados, fui embora o quanto antes.

- Como diz, o barato sai caro. Deveria ter vindo de lancha!

Parei em frente à mansão 42 e respirei fundo. Uma jovem me atendeu e pediu que eu entrasse, pois sua patroa já viria me atender.

- Desculpe fazê-la esperar - uma senhora de quase 80 anos veio ao meu encontro.

Pensei: - Será que estou na casa certa?

- Estou confusa, senhora. Vim entregar uma mercadoria... Mas estou na dúvida... Não tenho o nome...

- Fique tranquila... É aqui mesmo, querida. Farei minha despedida de solteira e preparei uma festinha. Até contratei umas moças e rapazes - ela se aproximou mais com um sorrisinho -, sabe aqueles que fazem de tudo um pouco? Eles devem chegar daqui a pouco.

Lembrei das lanchas, e ela continuou:

- Até pensei em lhe dizer para vir com eles, afinal já tinha alugado as lanchas.

Nisto, a porta voltou a abrir. E eu vi aquela senhora que me acusou de roubo entrando pela porta.

- Venha conhecer minha futura esposa, querida. E você pode lhe entregar o meu presente a ela.

E foi nesta hora que eu não soube se atendia ao pedido da minha cliente ou se corria dali. Afinal a velha poderia me acusar de outra coisa agora.


FIM

Lena Rossi

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