6 - Aula com a Morte
QUANDO TODOS OS ALUNOS SE SENTARAM, o professor chegou fechando a porta e cumprimentando a turma. Samael se sentou numa cadeira vazia ao meu lado completamente largado. Carly ficou um pouco mais próxima do que de costume mas, ainda atrás de mim.
O professor começou a dar a aula explicativa, enquanto entediava Samael, que não parava quieto na cadeira. Uma criança.
— Não entendo o motivo disso todos os dias, vocês não se importam, e causa muito sofrimento para alguns — disse indignado como se o outro homem o escutasse.
Eu não pretendia respondê-lo, pelo menos não em voz alta. Já pensavam muitas coisas sobre mim, não precisava falar sozinha também. Então escrevi em um papel:
Não vou falar em voz alta com você. Quero escutar.
Ele leu a mensagem e não se importou, continuando o seu monólogo:
— Como pode ser tão chato? Ele não vê que praticamente ninguém o escuta?
Deus, apenas deixe o coitado do cara fazer o que é pago para fazer!
Abaixei a cabeça suspirando, era como se tivesse ido para o inferno antes da hora. Algo foi arremessado contra mim, uma bolinha de papel amassada, jogada por Carly. Dizia:
Também está achando chato? ("-_-)
Essa matéria é antiga e ele insiste em repetir, acho que vou dormir pra ver se ele percebe que ninguém está o escutando.
Não pude evitar o riso nos meus lábios.
Virei para trás para vê-la. O seu rosto era de diversão. A chamei para que se sentasse na cadeira desocupada do meu outro lado; Samael prestou atenção enquanto Carly se sentava na cadeira. Me senti um pouco incomodada.
— Se ele ao menos soubesse como consegue deixar a matéria chata — Carly sussurrou, Samael fez uma cara de eu te disse para mim. — Ele deve estar louco para sair correndo, e gritar: ADEUS SUAS PRAGAS! Dúvido que ele realmente quis ser professor — quase não conseguiu segurar o riso.
— Não tenho dúvidas disso — ri baixinho. —, mas como você sabe que ele não queria ser professor? — sussurrei.
— Eu sei de quase tudo, bebê. — Havia um sorriso em sua boca que fez Samael rir.
— Quase tudo? — zombei — Modéstia sua.
— Eu sei, eu sei. — revirou os olhos rindo, depois, se encolheu na minha direção. — Passei pela sala dos professores uma vez, precisava resolver um assunto sobre um trabalho e... — Ele tentou controlar a risada. — Ele estava sozinho, fazendo dança contemporânea. Ele me viu antes que eu caísse fora, o cara simplesmente me detesta.
O professor olhou para nós duas chamando a nossa atenção para que fizéssemos silêncio, pude notar uma dureza a mais para cima da Carly. Ele era quase um senhor, levemente acima do peso, com uma barba um pouco rala e pele um pouco escura.
Ninguém disse nada até o fim das aulas. Na saída, avistei Katherine conversando com algumas pessoas da sua turma, incluindo um menino bonito que estava claramente afim dela. Só faltava ele começar a babar. Eu teria que ir para casa sozinha.
Carly notou e se virou para mim.
— Aquela sorridente é a amiga que vai com você, não né? — Confirmei com a cabeça. — Onde você mora?
Respondi e descobrimos que ela mora no quarteirão vizinho ao meu. Decidimos voltar juntas.
Andávamos conversando baixo sobre coisas aleatórias, apresentando nossos gostos de música, tv e temas no geral. Carly parecia ser uma ótima pessoa, até me fez esquecer de Samael; que ficou o tempo todo conosco, porém um pouco afastado nos dando alguma privacidade. Até que o cara tem bom senso.
— Então aquela sua amiga bonita sempre fica em cima dos garotos, é? — Carly perguntou com as mãos dentro do casaco.
— Mais ou menos. — Katherine sabia ser estonteante. Gostava de flertar por esporte, quando os meninos começavam a babar por ela, ela caia fora. — Os meninos é que ficam em cima, ela nem dá bola.
Carly assentiu.
Fomos interrompidas por uma alta buzina de carro, que passou correndo desengonçado por nós. Estávamos andando no canto da rua e nos assustamos com o barulho, praticamente saltamos para longe. Samael que antes estava olhando para o chão, direcionou toda a sua atenção para nós. E foi quando eu percebi que aquele carro podia ter me matado.
Ou ele devia ter me matado.
Carly tinha começado a ofender o motorista mas eu estava meio em choque. Olhei para Samael e trocamos olhares como uma conversa, ele inexpressivo...
Ele também havia percebido, era pra ter sido morta pelo carro mas não aconteceu. Rompi o olhar quando enxerguei um carro vindo descontrolado, muito pior do que o primeiro, de longe. Samael viu o carro também e me olhou com uma expressão pesada e até triste.
Seria agora, então?
Meu coração entalou-me a garganta.
O carro já estava extremamente próximo, e eu sem qualquer reação, apenas aceitei. Sempre iria aparecer outra coisa em seguida. Porém, quando o carro estava atravessando a última esquina na nossa direção, o carro descontrolado acabou batendo em um outro veículo que fazia a travessia da esquina.
A batida foi muito forte, ocasionando um estrondo enorme, o que quase fez Carly pular para trás do susto. Eu fiquei completamente paralisada vendo o acidente. Não estava entendendo o que tinha acontecido, achei que fosse morrer. Eu deveria morrer.
Samael estava muito confuso. A expressão de confusão e surpresa era legível em seu rosto enquanto olhava do acidente para mim fixamente
Pelo menos não era apenas eu perdida. Ele parecia estar tentando encontrar uma resposta no meu rosto, e em vão. Se ele não sabia o que estava acontecendo, eu deveria?
Finalmente acordei do meu transe quando Carly veio me perguntar se estava bem, ela parecia preocupada comigo; talvez porque eu tenha ficado muito quieta.
— Vem, vamos para casa, deixe que eles se entendam — Carly disse em uma voz tranquilizadora fazendo sinal para os dois homens que já estavam discutindo sobre a batida. — Vamos por um caminho que não tenha tantos carros. — Ela puxou-me pelo braço, eu a segui em silêncio.
Acabamos fazendo um caminho um pouco mais longo do que eu faria normalmente. Samael andava apressado, logo ao meu lado e eu estava aterrorizada, com medo do que podia acontecer agora.
Talvez um avião acabe caindo na minha cabeça.
Carly não disse nada, andava calma mas rápido. Eu tive de me esforçar para me manter perto; enquanto Samael falava sozinho com o tom desregular subindo e descendo:
— Como isso pode ter acontecido? Eu nunca vi algo desse tipo acontecer, não tem sentido! E contando com o fato de que, provavelmente, teria morrido com aquele homem — Soube pelo seu tom, que se referia ao meu pai. — Então era para aquele carro ter definitivamente te matado. Oh, o que Você pretende com isso? — Samael passou a falar em direção ao céu. — Você quer que eu mesmo mate? Pois não vai ser isso que eu vou fazer! Terá que mandar um demônio! — passou a resmungar. — E que ele seja bom ...
— Para! — eu quase gritei.
Era muita coisa junta, eu só queria que parasse. Espantei tanto o anjo raivoso quanto a corredora olímpica. Todos pararam.
— Amélia? — Carly falou calmamente.
— Desculpa — minha voz saiu torta. — Só vai mais devagar...
Quando finalmente cheguei em casa, fui direto para o meu quarto e bati brutalmente a porta. Não me importei com o que teria que fazer em casa, muito menos me preocupei se meu pai estaria lá ou não.
O anjo, como esperado, me acompanhou e entrou — eu devo me acostumar com o fato de que ele não se importa com convites — para dentro do quarto. Ficou em pé, tenso, de braços cruzados me encarando. Ele estava na minha frente e a cama ao nosso lado. Céus, eu não aguento mais. Enquanto ele suspirava, como se finalmente pudesse respirar, eu me acalmava.
Me deixei desfazer, como em camadas; deixando a mochila cair, despindo o casaquinho que usava, tirando o cabelo do meu rosto. Senti que Samael estava desestabilizando junto comigo naquele momento. Não aguentava mais ficar em pé, não podia mais. Sentei-me na cama, meus olhos ainda mais cansados. A noite em claro cobrando seu preço.
Ele aproximou-se.
A luz que entrava pela janela atingia sua pele, tornando-a algo delicada; os meus dedos queriam ir direto à pele. Será que o toque é diferente? Seus olhos pareciam mais claros, seus ombros tensos e seu cabelo estupidamente negro.
Eu coloquei as mãos cobrindo o rosto.
— E então, Anjo...? — falei num suspiro. — Estou convivendo com a Morte, e não morro. E você falava com alguém... Quer dizer, Deus? Ele está por trás disso?
Sinceramente, não faço ideia do que estou falando. Posso ter descoberto a existência de anjos e demônios, mas Deus? Parecia estúpido eu falar aquilo.
— Não tenho muita certeza, mas não tem como saber o que Ele pode fazer e porquê. — Claro, sem respostas. Até minha morte é complicada.
Gemi de tristeza involuntariamente, me jogando pra trás e deitando na cama. Minhas costas doeram, eu estava cansada. Fiquei de olhos fechados, queria dormir. Senti Samael dando um leve avanço na minha direção e por instinto, reflexo, não sei, me contraí de leve.
Logo depois senti a cama afundar ao meu lado. Abri meus olhos. Ele estava se sentando, com a mão atrás servindo de apoio no colchão, meio inclinado na cama. Samael ainda me olhava, outra vez enrijeci.
— Sabe, é engraçado como fica preocupada em não ter morrido ainda — sua voz era tranquilizadora, suave como se me fizesse carinho. Ele devia estar querendo me tranquilizar. — Não deveria ficar feliz?
Me ergui, ajeitando o cabelo para trás. E por que você se importa?, passou pela minha cabeça por um instante.
— Eu não sei.
Por um instante, achei que sua mão voaria para meu próprio ombro, mas percebi que ele não havia se mexido realmente. Porém quando desviei o olhar ele foi na minha direção completamente calmo, erguendo seus braços.
Aquilo me assustou no primeiro momento. Sempre dizem para negar o abraço da morte. E eu ia negar mas, ali parecia ser tão confortável, quente e... quem diria, mas o abraço da Morte parecia-me indiscutivelmente seguro. Ele me abraçou carinhosamente, eu quase me derreti ao toque. Sentindo meu rosto quente de vergonha, tentei me manter firme e só correspondi com um braço. Devem ter se passado poucos segundos, centésimos deles, mas pareceu interminável. Ele cheirava muito bem, um aroma agradável e forte. Já perdendo a firmeza, falei pra me trazer de volta:
— Por que isso? Achei que Morte não conseguisse ser carinhoso. — O maior riu baixinho e me soltou.
Um suspiro escapou da minha boca.
— Não é o que vocês humanos fazem quando alguém está mal? — disse perplexo. — Estava errado?
— É, mas...
Eu me interrompi ao ver a expressão dele mudar bruscamente. Algo que parecia ser raiva, tensão e uma seriedade sombria. Ele se levantou rapidamente me assustando, o anjo soltou algo como desgraçado.
— O quê? Samael, o que está acontecendo? — Estava completamente perdida.
Um cheiro sufocante de podridão e morte impregnava o local. Conseguia ouvir sons de alguma criatura. Um ser destruindo a parte de frente da casa. Eu me assustei. O que é agora?
— Tem alguém no quintal, estão tentando invadir a casa? — desespero dançou em minha voz.
— É bem pior. — Deu-me olhar tempestuoso, frio. — Fique aqui.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top