22 - Deixando Tudo Ás Claras

LUTAVA CONTRA A INCONSCIÊNCIA, sentia cada pedaço meu doer, minha cabeça estava tonta... Exagerei. Eu sentia o corpo do Samael contra o meu me segurando firme. Foi quase impossível acompanhar o que acontecia ao meu redor, mas quando senti o sol tocando minha pele compreendi que havíamos conseguido escapar com vida.

Eu me movi no colo do anjo para vê-lo, ele estava ofegante, os olhos arregalados e os cabelos um caos. O chamei; a voz saiu mais baixa do que imaginei, mas ele escutou. O verde vidrada ganhou foco aos poucos e olhou para mim em um reflexo rápido.

— Oi — sussurrou.

— O que houve?

Muitas coisas tentaram sair de uma vez, as palavras se embolaram.

— Amélia...

Gemidos cortaram sua voz, resmungos de dor, e chiados animais, todos atrás de mim. Olhei nessa direção e vi uma cobra muito grande se embolando como uma corda-viva com vãos profundos e sangrentos do tamanho do meu antebraço por toda a sua extensão. Poucos segundos duraram quando aquilo virou a Carly.

Puta merda...

Meus lábios murmuraram antes de eu perceber. Ela estava nua e muito machucada, os mesmos vãos que tinha na cobra existiam na pele dela; um deles bem no rosto que ia até a orelha inexistente esquerda, atravessava a bochecha e acabava um pouco além da mandíbula.

Eu não sabia o que fazer. Talvez eu pudesse curá-la? Não... Não neste meu estado.

— Sou eu quem xinga, garota — Carly reclamou e gemeu de dor sem conseguir levantar-se do chão; mas ela tentava.

Samael me soltou, colocando-me no chão e engatinhou até a Carly e tentou segurá-la e virá-la para ele mas ela o afastou com agressividade usando o braço; foi quando eu notei outro vão bem no seu pescoço, sangrando como uma torneira.

— Não encosta em mim — ela rosnou. — Você cortou fora as mãos e rasgou a garganta do Mammon sem nem hesitar. — Ela tossiu, e ainda mais sangue saiu, pela sua boca e pela ferida exposta. — Você não vai encostar em mim.

Carly segurava com força contra a ferida tentando impedir a hemorragia mas ainda saía muito sangue... Ela caiu de vez e não se levantou.

— Carly! Não é momento para teimosia! — eu gritei.

O anjo avançou de novo nela, dessa vez a segurou e a virou de barriga para cima, e quando ela começou a recusar ele gritou:

— Fica quieta, senão eu nem vou precisar te matar porque você já vai estar morta!

Ele pressionou a ferida quase brutalmente e a hemorragia finalmente diminuiu, ainda escorrendo lentamente aos poucos, mas menos. Samael ficou assim por minutos, concentrado, rígido com as mão na Carly inconsciente pela perda de sangue. Eu já não sabia se ela estava viva ou morta, e a culpa por ter a trago me infligiu tanta dor que não segurei a umidade nos meus olhos.

— Samael? A Carly... Ela...

Ele a soltou e suspirou alto.

— Está viva — murmurou.

Foi tudo o que ele conseguiu dizer antes de tombar para trás e desmaiar sem forças.

Eu olhei para a minha amiga, a ferida não estava fechada mas também não sangrava. E foi quando a adrenalina baixou que eu me rendi à inconsciência. 

Meu estômago estava inquieto. A fome acordou o resto do meu corpo com lentidão. Ainda estava dolorida, e minha pele ferida e frágil; mas muito melhor. Quando abri os olhos, o sol não estava mais tão forte, perto do horário dele se por.

Eu me ergui, sentindo dor em cada centímetro. Carly estava acordada e sem sangrar, usando uma blusa de manga comprida preta a poucos passos de distância, mas... O seu rosto... Aqueles ferimentos...

Mordi o lábio, eu tinha minha parcela de culpa, e minha amiga quase morreu e ficou com marcas horríveis por todo o corpo. Ela quase morreu.

Senti uma mão nas minhas costas apoiando meu peso. Ao meu lado estava Samael, sem sua blusa e deixando o peitoral nu. Senti meu rosto esquentar, não é um bom momento. Mas Deus, porque ele tinha que ser desse jeito?

— Se sente melhor? — ele perguntou.

O mesmo parecia menos pior, ainda estava sujo, e obviamente não estava cem por cento, mas não ao ponto de exaustão como antes.

— Estou... Espero ficar.

— Pois você trate de ficar, eu não arranjei briga com bambambã do inferno e me fodi toda atoa. — Ela deu um sorrisinho. — Você vai ficar bem.

— Carly sobre isso... Me perdoa. Eu nunca quis que você se machucasse assim. Não devia ter trago você.

Ela fez uma cara de confusão e raiva, repuxando as feridas fazendo com que fluidos saíssem.

— Olha, não sei se a parada cardíaca afetou seu cérebro, mas eu me lembro muito bem que eu pedi para vir. Você não tem culpa.

Eu sorri feliz por ela não me culpar. Espera, ataque cardíaco?

— Eu tive um infarto? — Carly concordou, e disse que depois o "anjinho dramático" explicava. — Eu poderia tentar fazer esses machucados sumirem, você vai ficar novinha em folha.

— Não, não vai ficar novinha em folha. — Eu quase pulei quando Samael falou. — Um: você não vai se esforçar desse jeito de novo — ele falou direcionado à mim. — Dois: de qualquer jeito, não vai melhorar. — Virou-se para a Carly. — Eu realmente ajudaria se fosse possível. Ela tem uma espécie de veneno na saliva, as mordidas não podem ser curadas por ninguém que não seja ela.

— Ah, incrível. OK, cicatrizes por todo o corpo, incluindo dois vãos no rosto e menos uma orelha. Legal. Mas não é só isso, não é? Do que mais eu preciso saber?

Ele abaixou a cabeça e pressionou a mandíbula.

— Geralmente, as feridas apodrecem, corroem toda a carne e em questão de horas a pessoa morre. — Ele voltou a olhá-la. — Morre de um jeito não muito agradável.

Carly começou a xingar com raiva. Eu estava em choque, eu não poderia fazer nada, nada para impedir que ela morresse.

— Tem certeza que eu não posso ajudá-la? Eu poderia tentar...

— Não, — ele me interrompeu. — mas talvez isso não aconteça — Samael completou.

Carly se exaltou.

— Você quer que eu também me enfarte? Fala logo.

— É que é um tanto difícil... — Ele suspirou. — Então, digamos que essa sua transformação em cobra é algo particular da Lilith. Nenhum outro demônio tem essa forma. E a única maneira de você tê-la seria sendo filha dela. A primeira e única filha exclusivamente dela.

Como é que é? Eu devo estar alucinando. Estresse pós traumático. Isso.

— O que? — eu disse. — Carly, filha da Lilith?

Ele concordou. Sam seguiu falando com o olhar fixo na Carly, que emudeceu.

— Se isso for verdade, o veneno não vai fazer efeito. Ainda não posso curá-la, mas também não vai morrer.

— Quais... Quais as chances? O quão verdadeiro isso pode ser? — Carly perguntou.

Ela não pode estar levando isso a sério, não é possível...

— As chances são muito altas... — o anjo respondeu.

O lábio da minha amiga tremia.

— Ela... Será que ela sabe também? Que eu sou...

— Provavelmente. Notou que ela não te envolveu até que você mesma o fez? Isso não é do feitio dela.

Carly ficou quieta, olhando para o vazio, processando a informação. A notícia era chocante e aterrorizante? Sim, com certeza, sem dúvidas... Mas ela ainda continuava sendo ela. Carly precisava se lembrar disso.

a última nóticia que envolvia ela e demonios quase a fez se matar... Me preocupo com quais resultados essa noticia poderá fazer.

— Eu quero ir embora — ela pediu. — Vai, me tira daqui logo.

— Não Carly, fica. Não vai embora depois... Depois dessa informação.

Ela apenas me olhou rápido, e eu não consegui entender o que se passava com ela, mas entendi que ela não queria e não ficaria ali.

— Anjo.

— Tudo bem, vou te levar, mas escuta, se passou quase dois dias desde que saímos, sua avó deve estar ocupada.

Ela acenou, e Samael a teletransportou.

Ficamos apenas nós dois.

O clima ficou desconfortável, ele não se virou para mim e continuou em silêncio, parecia que ele não falaria até que eu dissesse algo antes, mas eu não tinha a menor ideia do que falar. Não havia o que eu pudesse falar.

Eu suspirei sonoramente para que ele soubesse que eu estava ciente do clima desconfortável, e me deitei de novo no chão. Nesse momento, mais relaxada e sem pessoas sangrando e desmaiando, reparei que onde estávamos era familiar; era o éden. Saber que eu estava lá me fazia respirar mais profundamente, como se fosse uma segunda casa, um sentimento muito afetuoso enchia meu peito.

Aqui era a casa da minha... mãe. Quando criança eu sentia falta dela e de saber de suas histórias, sua vida, seus gostos. E agora eu sei e me lembro como se eu mesmo tivesse vivido. Sorri. Era quase como um presente. Irônico, mas um presente.

Ainda estava silencioso, precisava encontrar algo para falar.

— Dois dias se passaram? Meu pai deve estar muito preocupado, isso se já não foi na polícia.

— Dei um jeito nisso antes de irmos, ele acha que você está na casa da Katharyne.

— Hum... — Eu me ergui com os cotovelos. Novamente pensei no que podia falar, e me lembrei do Mammon... aquela cena horrível. — O Mammon não morreu definitivamente, não é?

— Não, eu teria que ter destruído todos os corações que ele ainda tem. Ele vai voltar, vai demorar um pouco e ele vai querer acabar comigo, mas vai voltar.

Ele era um demônio? Sim. Ainda sim, a "morte" dele foi bem forte e assustadora, e eu não queria que ele morresse daquele jeito.

Samael finalmente se virou para mim, seus olhos estavam vermelhos segurando as lágrimas.

— Achei que fosse morrer. Você morreu. Nos meus braços. Você não respirava e não tinha batimentos. E eu não pude fazer nada além de te massagear e implorar para que voltasse. E foi por minha causa. Eu não consigo te olhar sem sentir ódio de mim. — Ele passou a olhar o chão entre nós.

A parada cardíaca... É hora da conversa.

— Sam... Eu estou bem, ok? Eu estou bem agora. — Abaixei a cabeça com esperança de que ele olhasse para mim, mas ele não erguia os olhos. — A luz já estava me fazendo mal há um tempo, eu sempre ficava muito cansada, tonta, sem fôlego, e... Nas últimas vezes eu vomitei sangue e tive feridas pela pele. Não foi de agora. E eu sabia que usar aquilo tudo podia me machucar, mas eu quis fazer. Não estraga meu ato heroico caramba. — tentei brincar, mas minha voz falhava. — Não é culpa sua... depois de todo esse tempo eu te dei falsas esperanças... você ficou confuso e surtou, e eu também estou confusa... Quando todas as lembranças vieram eu achei, achei mesmo que fosse ela...

As mãos do anjo seguraram meu rosto e seus lábios capturaram os meus em um beijo. Na minha boca ele sussurrou:

— Eu não quero mais saber dela, por favor. — Samael afastou sua boca, e passou seu braços pela minha cintura e me puxou para perto. — Minha vez de falar, certo? Sobre isso, eu não quero mais saber dela, de verdade. Ela se foi há tanto tempo, seguiu sua vida, e... Realmente se foi. Mas eu me apaixonei por você. Eu não posso, não posso fingir que vocês não tem algumas semelhanças... Mas não são a mesma pessoa. E eu já estava apaixonado antes daquele momento no jardim. Então se você ainda quiser ficar comigo...

Ele riu envergonhado, e eu ri junto porque era muito fofo e ele estava esclarecendo pontos que me incomodavam.

—Eu quero ficar com você. Nunca mais farei algo daquele tipo. — Samael fez carinho suave pelo meu rosto. — Vou te proteger, cuidar de você.

Permiti o carinho e me aproximei, fazendo cara de superior depois.

— E o ódio que você mencionou antes?

Samael ajeitou meu cabelo para trás.

— Eu guardo pra mim até passar. Mas ele vai sumir mais rápido se você ficar comigo e eu não ter dito tudo isso atoa — ele riu.

Eu sorri e o beijei. Eu já havia notado que comunicação sentimental não era tão fácil assim para ele, então ter dito isso era difícil.

— E se dizer que quero? — sussurrei na sua boca.

E se? — ele levantou uma sobrancelha.

— Sim.

— Bem, seria bom se você me contasse logo de cara quando algo está te fazendo mal, como por exemplo, a essência celestial da benção da vida, algo incrivelmente poderoso, que está fundida em você e danificando seu corpo. Isso, para começar, seria ótimo.

Envolvi meus braços ao redor do seu pescoço me acomodando no seu colo enquanto ele enlaçou minha cintura.

— Entendi... Então, acho que devemos falar disso logo. — Ele me olhou mais sério depois que falei isso. — Sam, mesmo que eu não use essa essência intencionalmente, sempre vai ocorrer acidentes, como acontecia lá no início, se lembra? E mesmo assim... Essa coisa sempre vai estar dentro de mim, e agora, ela não tem nenhum bloqueio que a segure. Apenas meu corpo. Eu acho... Eu acho que não vai dar, Sam. É demais para mim.

Ele balançou a cabeça.

— Não fale isso. É claro que vai dar, daremos um jeito, ok?

— Que jeito Samael!? A única que eu saiba que poderia fazer isso é Lilith e se ela ver um de nós dois, ela nos mata.

— Nós vamos encontrar algum! — se exaltou. — Você está falando que vai morrer Amélia, e quer que eu simplesmente aceite? Eu não posso lidar com isso. Porque você não é como eu, e eu não sei como vai ser se você morrer. Eu não sei se você vai poder voltar. Então, é, eu vou achar um jeito.

Não tinha jeito. Mas eu não disse isso a ele, ao invés disso eu o abracei colocando minha cabeça em seu pescoço. Por alguma razão, eu simplesmente sabia que não tinha jeito, eu estava mal, muito mal. Porém não era nem comparável como eu fiquei quando ele apareceu super delicado falando que eu ia morrer, por exemplo. Talvez fosse porque eu tinha feito amizade com alguém tão especial como a Carly, talvez pelas aventuras que eu tive, pelas lembranças, pela minha mãe, meu pai... Por ter tido ele na minha vida. Eu me sentia completa. Ainda queria viver, e muito. Mas morrer não me assustava mais tanto assim.

Eu respirei fundo, ainda agarrada em Samael, uma lágrima escorreu rapidamente pelo meu rosto. Tive a leve impressão que eu nunca parava de chorar... E sabia que ainda teria que chorar um pouco mais.

— Sam, eu quero ir para casa, quero ir ver meu pai. E quero que você vá comigo.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top