2 - Está tudo bem
JÁ ESTAVA NA SALA e a aula havia começado. Eu estava meio sem reação. Não prestava atenção em nada. As únicas coisas que chegavam na minha mente eram Ele, e o fato de ter conhecido a Morte. Vamos lá, tirando o fato que eu morreria, seria uma ótima história a se contar. Mas do tipo que ninguém acredita e você fica como doida ou algo assim. O porém era que eu não queria morrer.
Eu ainda queria muito. Tinha muito ainda.
Para viver, experimentar.
Minha mente era um turbilhão, e uma forte enxaqueca se iniciava.
Estava sentada nas cadeiras da parte da frente ao lado da parede, e podia sentir minhas expressões vazarem. Não de propósito. Era idêntico a uma louca escutando vozes e discutindo com elas sobre começar ou não uma revolta. O que chamou a atenção de alguns olhares da sala.
Enquanto isso, a professora dava a aula, explicava como seriam as aulas naquele bimestre, trabalhos... Mas as informações não me pareciam claras, não atingiam a minha atenção. Não me dediquei muito também, confesso. Apenas sei que, pela voz, era uma professora nova.
Ela chega a passar um exercício de texto, que faço porcamente, sem conseguir me concentrar devidamente. No próximo eu recupero.
... Mas haveria um próximo?
Minha enxaqueca se intensificou.
E finalmente o sinal tocou. Saí nervosa da sala, olhando em volta, pensando se Ele estaria lá... Ao invés disso vi Katherine quase saltitando na minha direção, o que acabou me tirando um sorriso.
— Oi Kath, que felicidade é essa? — Eu disse com um sorriso. Resolvi agir naturalmente. Não se chega falando que vai morrer.
— A aula estava chata, não via a hora de esticar as pernas. — Falou esticando e balançando as pernas. Começou a analisar o meu rosto. Fiz uma busca mental para algo de errado. — Houve algo na sua turma? Já desgostou de alguém?
Ela sempre percebe quando tem algo errado. Mas se eu mentisse ela também notaria...
— Não, nem prestei atenção o suficiente para tanto. É coisa de casa.
Meu pai. Nisso ela acreditaria, ela acompanhou essa situação nesses últimos anos em que nos aproximamos.
Ela fez uma cara tristeza e compaixão, deixando o ânimo de lado. Odiava isso.
— Tínhamos de dar um jeito nisso... Você não devia ser responsável por ele...
— Deixa isso. Sério. Vou ficar bem. — Ela se calou, e o assunto morreu. Tentei trazer o ânimo de volta e cutuquei ela com o ombro. — E aí, temos algum garoto bonito na sua turma?
Ela ficou um pouco vermelha, como costumava ficar com facilidade, deu de ombros.
— Alguns... Mas nenhum muito interessante. Um deles perguntou se eu volto sozinha, e se podia me acompanhar.
Dei um sorrisinho discreto, nunca ninguém era interessante para se apaixonar, mas sempre o suficiente para flertar. Como se procurasse o príncipe ideal.
O sinal trouxe caos para o local. Nos despedimos e entramos cada uma em sua sala.
Todas as aulas pareciam as mesmas e a sensação era que todo o dia já havia se passado. Continuei sem dar muita atenção às aulas, porém consegui acompanhar. E finalmente o horário de saída, a única vez do dia que o som estrondoso do sinal não me perturbava.
Fui à saída com a Kath na parte de frente da escola. Nós voltamos juntas até um certo ponto, ela mora perto da escola e por isso não vamos o caminho todo juntas. Começamos a caminhar.
— Já não sabia mais se conseguiria aguentar. — Disse com cara de cansada olhando para baixo.
— Não reclame tanto, é apenas o início da semana.— Fiquei com um pouco de inveja por ser isso que a estava chateado. Principalmente depois do que houve comigo. Meu humor está um tanto alterado.
— Aaah! Que chato— disse como uma criança emburrada. — Então... O seu pai? Voltou pra mesma?
— Sim. Aquela melhora foi passageira, — Encarei o chão. Estava andando relativamente rápido, ansiedade provavelmente. — Já estou acostumada. E você já decidiu onde vai fazer ensino médio?
— Quase, meus pais querem que eu faça um colégio militar, mas acho que não combina comigo. — Tinha uma cara triste.
— Definitivamente não, mas é você que escolhe. — tentei forçar um sorriso.
Apesar disso não ser verdade, e ambas saberem, ela sorriu. Amava isso nela. A esperança, a doçura. Seus pais típicos militares rígidos que só aceitavam a própria forma não a mereciam.
Ficamos em silêncio, Kath virou a esquina e entrou numa rua seguindo para sua casa. O tipo de rua que havia aquelas casas adoráveis, e todo o tipo de loja, que fazia com que a necessidade de sair fosse mínima. Eu continuei o meu caminho.
A rua em que morava não tinha nada de mais, casas simples, algumas melhores do que outras, sem estabelecimentos ou qualquer outra coisa, nem mesmo alguém da minha idade.
Minha casa não é incrível, porém havia dois andares e por fora parecia razoavelmente nova. Entrando em casa, vi roupas e panos jogados no chão. Meu rosto fechou em raiva.
Meu pai estava deitado no sofá com uma garrafa de alguma bebida forte quase no fim, na mesinha de centro. A cozinha é um caos, cacos quebrados dentro da pia equivalente a dois pratos, louça suja e comida e bebida respingadas na bancada. Limpar tudo isso além das tarefas domésticas, era as responsabilidades que o seu vício me forçava a ter. Meu pai era alcoólatra, não tenho problemas em dizer isso. Ele por sua vez passava a maior parte do dia bebendo e dormindo. E quando fica acordado, tem crises. E geralmente quando isso acontece, saio de casa e passo um tempo na casa da Kath. Apesar dos defeitos que acredito que os pais dela tenham, sempre foram bondosos comigo e me ajudaram tanto quanto possível.
Recolhi a garrafa de bebida, lavei a louça e toda aquela sujeira e bagunça. Quando finalmente acabei, já eram quase cinco da tarde, então subi para o meu quarto que fica no segundo andar. Me joguei na cama de braços esticados, cabelos soltos e roupas de ficar em casa; soltas e confortáveis.
Eu me lembrei rapidamente que teria uma visita em breve... E fiquei imaginando como seria. Recordei-me também que minha mãe, Isabel, que gostava da mitologia cristã, mais exclusivamente em anjos e demônios, o que foi extremamente útil, pois tinha alguns livros que antes eram dela em casa — , que já havia lido, então comecei a pensar que não era totalmente ingênua nesse assunto. Mas não era como se eu acreditasse antes.
— Então se anjos existem realmente, demônios também. — Comecei a pensar em voz alta. — Céu e inferno, e toda essa coisa mitológica que li.
Deitada na cama exausta, acabei dormindo, tive uma sequência de sonhos comuns sem sentido. Quando acordei eram mais ou menos oito da noite, e como não fui interrompida por gritos, meu pai devia ter saído de casa para um bar próximo de lá, e provavelmente passaria a noite toda fora.
Quando me dei realmente conta do horário, que era noite, meu coração disparou e tentei me acalmar.
— Ele apenas virá falar, não vou morrer agora — falava bem baixo, um sussurro. — Está tudo bem.
Mas eu nem acreditava nisso.
Logo depois um calafrio percorreu por todo o meu corpo, e a sensação de que alguém a mais estava lá. E eu soube imediatamente quem era. Me virei para o lado da janela do meu quarto e vi o homem em pé na minha frente, se apoiando na parede, iluminado pela luz da noite.
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