Capítulo 7 - O Dybbuk Divisio

LEIAH

O vento sibilava em meio os galhos das arvores da floresta. A lua cheia já estava no seu ápice quando chegamos à clareira, aquele exato local era conhecido por toda as bruxas. Um ponto de intercessão mágico poderoso que era ligado a toda as outras realidades. O poder mágico acumulado ali é de milênios e dos primórdios da humanidade. O mesmo local usado para realizar uma das práticas mágicas mais tenebrosas e proibidas da face da terra.

Atravessamos a barreira que protege o lugar e nos posicionamos. O corpo de Diego levitava no ar enquanto as demais bruxas do meu clã se organizavam no espaço, o olho de Hórus já dava sinais de que seu efeito começava a se deteriorar. Abaixei o corpo de Diego em uma enorme pedra lisa no centro da clareira enquanto dava o sinal para as demais bruxas se posicionaram em enormes círculos no chão que se incendiaram.

Ao contrário dos rituais feitos aqui anteriormente, minhas bruxas não seriam usadas para tal pecado. Posicionando os dedos em forma de uma pirâmide invertida começamos a entoar:

Reuerti animas semel male solveretur victima. De harenae et sint vobis in escam et dimidium, novum vitae.¹

Dentro dos círculos a areia começou a erguer e tomar forma humana, assim que os corpos de areia formaram uma boca, gritos e choros de lamentação inundaram o ambiente. A dor daquelas almas mortas em sacrifícios seria eterno, vivendo em agonia no verdadeiro nada.

A terra se solidificou e ganhou formas humanas como se elas estivessem vivas e presentes ali. O choro e o grito cessaram. Elas pareciam estar confusas, mas uma delas que tinha a aparência de uma senhora ao olhar para o corpo de Diego começou a chorar desesperadamente e a chamar por seu nome.

Todas as bruxas ficaram em silencio e com um estalo eu tiro o som de suas bocas. A dor daquelas almas nunca teriam fim e nem mesmo tem a noção de que não existem mais.

STEPAN

Quantas vezes eu já estive no ponto de intercessão? Há quantos milênios eu existo. E no final das contas sempre acabo voltando a este maldito lugar. Nem mesmo as bruxas deveriam saber de sua existência. Esse lugar é um enorme farol de poder magico, mas também de dor e desespero. Todos os que um dia eu amei foram sacrificados aqui.

As bruxas estavam alinhadas em um circulo ao redor da pedra em que Diego estava deitado, o olho de Hórus flutuava sob o corpo de Diego e a energia negra que emanava de seu interior entrava novamente no corpo dele com um fio de fumaça, enquanto o olho voltava a se tornar dourado aos poucos.

As bruxas haviam pensando ate mesmo na questão dos sacrifícios que são necessários para um ritual que deixa marcas tão pesadas na alma, as Reencarnações de Areia trazem de volta a vida alguém já morto, desde que sua alma esteja presa dentro de um local como esse protegido por barreiras magicas juntamente com o que sobrou do seu corpo físico.

Uma das reencarnações chorava e tentava se mover sem sucesso. Não havia pés, apenas um amontoado de areia fixa ao chão, eu podia ler seus lábios em desespero chamando pelo sobrinho. As lagrimas em forma de areia caiam pelo seu rosto. A pior parte deste feitiço é que eles estão presos em um momento de dor. Nem mesmo sabem se existem ou não. Apenas sentem a dor e apenas isso.

– Está tudo pronto – diz Leiah.

– Ótimo. Porque a alma dele não será dividida em duas novamente.

– O que você descobriu? – Eric se aproxima.

– Pra ser bem sincero nem tinha notado que ainda está aqui e como você passou pela barreira?

– Eu o ajudei – disse Leiah com um leve sorriso no rosto.

A olhei vagamente.

– Temos dois Diegos aqui – digo por fim.

– Como assim? – Eric indaga.

– O Diego que pertence a minha realidade mais o que pertence a esta estão no mesmo corpo.

– Como descobriu isso? – Leiah olha para Diego e para mim.

– A casa tem um feitiço do livro de Delfos. Que a proposito eu não sabia que haviam sido furtados. – olhei para Leiah em desaprovação – Mas esse não é um assunto que vamos discutir agora.

– E o que vamos fazer?

– Separar os Diegos é o primeiro passo. Vamos começar o ritual Leiah. E você – disse olhando para Eric – não fique perto do circulo se não quiser virar sacrifício.

Ele arregalou os olhos e se afastou devagar de onde as bruxas e eu estamos. Me posiciono e começamos a entoar o rito em uníssono.

Surge malum dormiens. Sed exsurge. Ad hoc in omni virtute et gloria.

Então o triangulo começou a se formar, o fogo forma linhas que se interligam a cada círculo que se liga ao círculo central onde está o corpo de Diego que se conectava as Reencarnações de Areia. Então as chamas viram labaredas altas até que uma fumaça negra emanasse do corpo de Diego.

Leiah me olhou e eu confirmei, mesmo com o Hórus descarregando devagar a energia que ainda estava no corpo dele era maior do que eu imaginava, nem mesmo um artefato tão antigo foi capaz de sugar todo o poder que Diego tem.

Ad hoc in omni virtute et gloria. - repetimos com mais vigor.

Até que as chamas antes alaranjadas começaram a ficar negras e se espalhavam pelas linhas que formam os triângulos. A reencarnação de areia de uma garota foi a primeira a ser atingida. Seus olhos ficaram negros e ela sorriu, o mesmo aconteceu com a senhora que até poucos instantes chorava em direção ao corpo de Diego, se não estou enganado era a alma de Eliza – sua tia – logo em seguida chegou à reencarnação de areia de Lucius ele apenas deixou que seus olhos verdadeiros aparecessem. E eles eram tão sombrios quanto a fumaça que emanava de Diego. Então as trevas chegaram ao nosso círculo, mas nada aconteceu.

– Que surpresa Stepan – disse a reencarnação de areia de Lucius.

– Eu sabia que você iria despertar, mais cedo ou mais tarde.

Ele olha ao redor.

– Interessante, mas eu acho que vou acabar com seus planos e me beneficiar disso.

Começo a rir.

– Você sempre foi um garoto tolo, sempre um passo atrás. – apontei para a base de sua reencarnação de areia, onde havia uma marca de sangue de uma bruxa. – Já eu estou sempre um passo à frente.

Estalando os dedos sua boca para de obedecer às suas tentativas de pronunciar qualquer palavra. Então os três pegaram as adagas que carregavam por debaixo da roupa e repetiram ao mesmo tempo em que eu e Leiah entoávamos o feitiço de forma espectral.

Ad hoc in omni virtute et gloria.

Logo em seguida as reencarnações cortam seus pescoços e seus corpos foram de encontro imediato com o chão, às chamas regressaram e se apagaram e a fumaça negra retornou ao corpo de Diego, instantaneamente o Hórus libertou toda a magia presa que regressou ao corpo.

Olhamos para os sacrifícios mortos que se esfarelavam voltando a ser apenas punhados de areia e caminhamos até onde jazia o corpo de Diego que começou a tremer, enquanto uma esfera de energia se formava ao redor de Diego e o fazia levitar.

Peguei o Olho de Horus e o guardei, esperando pelo gran finale que se aproximava. Esse seria a solução de meus problemas, mas então uma grande explosão de energia me jogou a metros de distancia de Diego, aos poucos a fumaça se dissipava, meus olhos tentaram focar na visão a frente.

– Mas que merda.

Havia três Diegos, um aparentemente morto e sem vida, o segundo estava de pé com um brilho roxo nos olhos em meio a escuridão que os habitava e o terceiro era uma visão deturpada e monstruosa de Diego como se seu corpo tivesse sido queimado, mas os olhos eram amarelados.

– O que foi que eu fiz?

No instante seguinte a versão monstruosa de Diego some como fumaça e a que ficou apenas despenca em direção ao chão.

¹Que as almas desafortunadas retornem e prestem o sacrifício mais uma vez. A areia será sua nova carne e uma semivida terá.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top