Capítulo 6 - Paradoxo Incertum
Eu olhei a imensidão negra dos seus olhos ao dizer as últimas palavras, seu tom refletia a raiva que havia dentro de si, mas sua face estava tranquila. Não havia o menor sinal de uma mudança em suas feições que estavam presas em um misto de curiosidade e desinteresse, apesar de ser paciente. Mas porque ele estava tão calmo daquela forma. O que ele sabia que eu não?
Ele sorriu novamente e indicou para mim uma enorme mesa que antes não estava ali. Ela estava repleta de comida em abundância. Ele caminhou e se sentou na extremidade e indicou a cadeira que estava próximo a mim na outra extremidade.
- Sente-se. – disse ele cordialmente.
Sentei-me e olhei para aquela mesa e olhei para ele, ele sorriu e antes eu pudesse falar algo ele começou.
- Comece a fazer suas perguntas, escolha a pergunta menos óbvia possível, sei que deve ter alguma ideia mirabolante aí dentro, porque afinal de contas temos um jantar para desfrutar e nem todas as perguntas serão respondidas e eu me conheço o suficiente, pelo menos essa versão mais suscetível a erros. E ainda teremos a grande luta.
- Grande luta?
- Sim, você não acha que vai poder voltar para o plano humano sem antes me matar, ou acha?
- Eu não posso me matar!
Ele riu e pegou uma maçã e a mordeu sem pressa alguma.
- Diego – a mesa instantaneamente ficou reduzida a uma mesa redonda para duas pessoas, a luz era feita por duas velas, uma vermelha e uma negra. A negra parecia estar mais intacta do que a vermelha que deixava a cera escorrer por sua extensão. – Você se esqueceu de onde estamos? E essa é claro não é a primeira vez que você ou eu estamos aqui. Mas como você não parece ser a minha versão mais inteligente, vou explicar de uma forma simples para que sua mente idiota compreenda.
Levanto-me abruptamente e dois guerreiros de olhos negros se postam ao meu lado, não eram os meus, mas me fizeram sentar com suas espadas em meu pescoço.
- Continuando... Você não pertence ao meu mundo, a minha realidade. O meu corpo está se decompondo aos poucos com um demônio cheio de poder caminhando por aí, carregando consigo apenas nossos piores sentimentos e vontades. Imagine que um dia você pensou em matar Diego, é isso o que controla o meu corpo irá fazer se tornar real. O mal apenas quer concretizar nossos piores e mortais desejos enquanto estávamos presos sem consciência dentro do subconsciente do corpo.
Ele deu um breve sorriso.
- Estou com receio de perguntar, mas porque está me dizendo isso exatamente?
- Realmente você não é muito esperto. Um demônio está controlando o nosso poder ao mesmo tempo, o seu e o meu. Mas para termos vindo parar aqui, alguém deve ter subjugado o demônio. Por isso estamos conscientes e no Incertum. Esse lugar foi feito unicamente para prender energias mágicas que coabitam um mesmo corpo. Em resumo, teremos que lutar e o vencedor toma controle do corpo novamente.
- Assim como foi com Lucius.
- Isso mesmo. Vê a vela vermelha? Ela nos mostra quanto tempo ainda temos. Ao apagar a luz, voltaremos a ser absolutamente nada e o Dämonenduo irá usar meu corpo ate que ele não seja nada além de um ser inumano que em algum momento irá ser selado e nós não seremos mais nada. Você perdera Diego para sempre e eu perderei Caius.
Assenti e suspirei, minha mente parecia trabalhar com lentidão, mas ao mesmo tempo processava a informação dada.
- A ironia é que eu tecnicamente estou morto e Caius também. – disse olhando para o conjunto de talheres brilhantes sobre a mesa.
- Se fosse só por isso... – disse ele um pouco infeliz - Nós não podemos morrer Diego a não ser que tiremos a nossa própria existência.
- Então...
Em uma fração de segundo um brilho roxo apareceu nos meus olhos. Era familiar, meu coração se apertou ao pensar que eu havia esquecido minha própria filha. Foi nesse exato momento que meu corpo pareceu sair de um estado de dormência. A outra versão de mim me olhou com puro ódio e só ai notei que eu estava com uma adaga afiada da mesma cor que os talheres sobre a mesa.
- Como isso é possível!? – ele gritou e a mesa foi pelos ares.
O chão começou a rachar e a lava começou a subir pela fenda no chão, uma nuvem negra e pesada de formou sob nós enquanto gostas de água caiam de cima e tocavam o chão que cheirava ferrugem. Meus olhos olharam para o meu braço molhado, mas o que havia sob a minha pele não era água, era sangue.
- Você é como Lucius!
Meus olhos escureceram e meu corpo começou a flutuando ar, a areia se levantou e as arvores mortas usavam todas as suas forças para ficarem presas ao chão.
- Se queria uma luta, você conseguiu! – eu gritei com uma voz monstruosa que parecia ecoar dentro da minha própria boca.
Uma aura rocha envolveu meu corpo, o roxo invadiu meus olhos deixando minha visão purpura e logo em seguida se normalizando, minhas roupas se rasgaram e a aura formou uma armadura ao meu redor. Olhei para as minhas mãos e eu podia ver garras roxas borbulhando.
- Você vai morrer aqui Diego. – ele diz.
Ele veio correndo em minha direção, os olhos perdidos em uma escuridão que fez a chuva se tornar mais pesada. As sombras começaram a tomar seu corpo, quando seu punho acertou minha face. Meu corpo foi empurrado para trás, senti meu corpo sendo arremessado para longe e entrando em choque com um desfiladeiro, senti cada osso do meu corpo sendo quebrado e partido mais de uma vez até que meu corpo se afundasse no chão, ainda vivo de alguma forma.
Ele me olhou com desdém.
- Você não tem ideia do poder que tem e nunca saberá. Porque esse é o seu fim.
Uma foice começou a brotar do chão pedregoso, a lâmina era grande e prateada, brilhava mesmo que não houvesse muita luz naquele lugar sem vida. Ele segurou o cabo nas mãos e o ergueu.
- Está na hora de eu voltar para casa.
Com um movimento de mãos ele ergueu meu corpo que não me obedecia e nem eu mesmo o sentia. Como uma marionete ele me fez segurar a enorme foice, que se transformou em uma adaga de prata a mesma que estava sob a mesma quando ele havia usado uma ilusão para me fazer tirar a própria vida.
Com um único movimento a lâmina rasgou meu pescoço e me fazendo olhar para o chão e deixando que meu corpo despencasse, ele pegou a adaga, a ultima coisa que lembro é que vi meu sangue escorrer. Incapaz de proteger minha filha, o amor a minha vida. Esse não podia ser meu fim. Eu não permitiria que fosse, mesmo que tivesse que matar para sobreviver.
Uma onda de energia roxa inundou o ambiente e meu corpo se levantou, tudo estava retrocedendo em alta velocidade, como seu eu estivesse voltando no tempo. Quando dei por mim estava em pé vendo a cena que a havia acontecido. Com cuidado a outra versão de mim fazia um feitiço para controlar minha mente. Ele o fazia enquanto falava das velas.
- Isso mesmo. Vê a vela vermelha? Ela nos mostra quanto tempo ainda temos. Ao apagar a luz, voltaremos a ser absolutamente nada e o Dämonenduo irá usar meu corpo até que ele não seja nada além de um ser inumano que em algum momento irá ser selado e nós não seremos mais nada. Você perdera Diego para sempre e eu perderei Caius.
Eu não havia notado que meus olhos se fecharam logo após ele falar Caius. Ele se levantou e colocou a adaga perto da minha mão enquanto me fazia ver o que ele queria. Ele parecia satisfeito com o próprio plano e estava me observando devagar.
- A ironia é que eu tecnicamente estou morto e Caius também. – eu disse com os olhos fechados como se estivesse olhando para os objeto sob a mesa.
Houve uma pausa, ele deveria estar dizendo alguma coisa na ilusão para que ele finalmente conseguisse o que queria.
- Então... – eu disse. – Não há outro meio.
Um novo silencio.
- Você tem certeza disso? – eu falo novamente.
Caminho até a outra versão de mim que observa meu eu de alguns instantes atrás sendo ludibriado pela visão dele. Se era esse o jogo dele, eu poderia brincar com ele da mesma maneira. Eu só precisava saber como fazer para voltar, e na fração de segundo que toquei em seu corpo, voltei para meu corpo, com todas as memórias do que haveria no futuro.
- Então eu vou me sacrificar para que você posa ter Caius de volta.
Ele me olhou incrédulo.
- Eu só preciso me matar não é mesmo?
- É. Você vai mesmo fazer isso por mim? – disse ele sem acreditar.
- Você terá tudo o que merece. – digo cortando meu próprio pescoço com a faca que estava na mesa.
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