Capítulo 5 - O Déjà vu da Batalha Interna

Eu estava deitado.

O céu escuro emanava raios e trovões constantemente que incendiava o céu turvo. Apoiei-me no chão seco e sem vida e olhei para o lugar extremamente conhecido, eu já havia estado aqui a muito tempo atrás, quando eu não entendia o que eu era e os poderes que eu tinha.

Levantei com dificuldade, o vento açoitava minha face e trazia a areia constantemente como uma tempestade de areia sem fim. O déjà vu daquela cena, eu sabia o que iria acontecer, mas não estava sendo como da primeira vez. Agora que estou parando para analisar a situação, nada foi realmente como deveria ter sido.

As sombras continuavam dominando até onde a vista não poderia alcançar, arvores secas e sem vida se espalhavam pela vasta planície. Então uma sombra surgiu dentro do meu campo de visão, caminhava em minha direção, em sua mão direita havia algo arredondado que era difícil de identificar em meio a nevoa e a tempestade de areia que sempre estavam presentes naquele lugar, então ele se aproximou o suficiente para que eu pudesse vislumbrar seu rosto, parando a centímetros de mim. Sua face trazia um sorriso no rosto, mas o meu carregava espanto.

Era eu. Uma cópia idêntica a mim, parada na minha frente, onde deveria estar Lúcios. A única forma de nos diferenciar era os olhos, os seus estavam em uma eterna escuridão, a mesma imensidão de vazio quando eu usava meus poderes.

- Olá Diego. – disse em meio a um sorriso enquanto estalava o dedo.

O vento subitamente parou e a poeira começou a baixar deixando a visão daquele lugar mais clara. Só então pude ver o que ele carregava na mão, era a cabeça de Lucius. Ela havia sido decepada e estava em um estado de mumificação que parecia que estava morto a anos.

- Como? – apontei para a cabeça de Lucius.

Ele gargalhou.

- Realidades diferentes, Diegos diferentes. – ele me olhou e sorriu de forma irônica.

- Mas eu não...

- É... – ele completou – Você não, mas podemos dizer que não, eu não sou uma cópia. Eu sou tão original, quanto você é. O que nos difere é que você está na minha realidade.

- Eu...

Ele riu novamente.

- Pelo que estou vendo você não achou os livros proibidos de Delfos.

Ele estalou os dedos e da areia do chão se formou um enorme trono de ouro liquido que se consolidou, em seus braços haviam esmeraldas e pedras preciosas incrustadas. Ele se sentou e me indicou um trono idêntico que também havia aparecido atrás de mim.

- Pois é, depois dos livros proibidos de Delfos, que encontrei graças a Stepan. Quando ele matou Caius. Eu quero vingança e é claro a redução da vida dele a nada. Mas o universo é cheio de realidades e seria difícil rastreá-lo, mas do nada você apareceu.

- Do nada?

- É... – diz ele desinteressado – Não é difícil ignorar uma massiva energia demoníaca que entra dentro do seu corpo, que por acaso você se apossou. Não é mesmo? – diz ele arqueando uma das sobrancelhas – Mas porque falar quando eu posso te mostrar.

Ele se levanta e caminha na minha direção. Sua face se aproxima da minha e seus lábios tocam os meus, no mesmo instante sinto meu corpo despencar no vazio da mente e do nada estabilizo.

***

Estou dentro do meu quarto, mas apesar de estar ali eu não controlava as minhas próprias ações eu era um mero expectador. Há vários livros abertos e estou fazendo um ritual com sangue, quando sinto a presença de uma magia poderosa mais sombria.

Um vento forte invade o quarto, as sombras surgem e caminham em minha direção e começam a me engolir. O desespero toma conta de mim, as sombras avançam e eu tento me libertar, mas inútil. Quando me dou conta as sombras estrão entrando dentro de mim como uma gosma negra pela minha boca, eu queria fechar a minha boca, mas nada que eu pensasse iria impedir que aquilo acontecesse.

Quando finalmente a ultima gota desce pela minha garganta meu corpo começa a reagir de forma estranha. Bolhas se formavam em minha pele e vozes, muitas vozes dominavam meus pensamentos. Eram sussurros. Desejos talvez. Eles eram fortes. Meus olhos ficaram negros e meu corpo se estabilizou por um momento.

A porta do quarto se abre e tia Eliza entra, chama pelo meu nome. Mas eu não a respondi, apenas me virei e a olhei com um sorriso tenebroso que eu podia ver refletido em sua face. Ela chama meus primos e no momento que eles aparecem na porta, há apenas um estalo dos meus dedos. Nesse exato momento parecia estar em câmera lenta, meus dedos se aproximaram um do outro, a textura da minha pele era fina, mas áspera. Os dedos se roçaram levemente enquanto o som audível era produzido e em uma fração de segundo seus pescoços se quebram e seus corpos caem no chão.

***

Meu corpo foi puxado de volta ao Incertum, meus olhos estavam cheios de lagrimas.

- O que você fez? – gritei.

- Nós... – dissemos em uníssono.

Fechei minha boca rapidamente com as mãos. Olhei perplexo. A junção das vozes se tornara tão monstruosa que ecoava e fazia com que meus pelos se eriçassem. Era como se eu fosse um... demônio.

- Para tudo a uma explicação Diego. E naquela fração de segundo quando nossas almas se juntaram, quebramos a primeira premissa de Delfos.

- Do que você está falando? Você... Eu matei...

- É... é... é... – disse ele desinteressado – Você matou sim e não foi sozinho. Eu estava lá também, mas foi o preço que pagamos pelos nossos desejos. E como você morreu ante de achar os livros de Delfos na sua realidade vou te dar uma visão resumida.

Ele se sentou novamente e continuou.

- Tanto você como eu somos frutos de um Dybbuk Divisio, ou seja, quando Lucius dividiu sua alma em duas ele fez um pacto com o próprio diabo. Metade da alma dele deveria ser dada para que ele tivesse o poder e a imortalidade que ele tanto desejava. Mas em vez de oferecer metade da alma dele, ele ofereceu metade da nossa...

Ele se levantou e com um movimento de mão fez surgir uma enorme mesa cheia de comida.

- Pode se servir... – disse ele, enquanto pegava algumas uvas e comia – Continuando... Metade do poder que ele iria ganhar foi dado a nós. Mas Lucius sempre foi muito seguro de si e guloso e para ter a outra metade inseriu esta ilusão – do nada apareceu a cabeça decepada dele sobre a mesa – Para ter o resto do poder sem ter pago o preço. Quando ele faz todo esse showzinho aqui...

Ele olha ao redor e começa a rir, chega a se engasgar, mas logo se recupera da piada que contou na própria cabeça.

- Ele nos faz dar o poder a ele de bom grado e a gente se fode no final das contas, já que o que sobra é uma casca vazia e com poder. Ele no final das contas apenas rouba o nosso corpo e sai ganhando. Mas pelo que vejo, nós somos mais espertos que ele e mais fortes também.

- Lucius estava me manipulando o tempo todo...

- Nos – corrige ele – O papo de bom moço é só uma fachada. Mas para finalizar, a mesma pessoa não pode existir na mesma realidade e quando se encontram elas causam um paradoxo. No nosso caso a junção do poder puro e de nossos desejos nos tornou um Dämonenduo. Um demônio perfeito e com poderes, mas que está fora de controle e que mata qualquer um que se atreva a entrar em seu caminho. É isso o que acontece quando há uma grande massa de poder em um único corpo incompatível com a energia que se tem.

- Mas isso não faz sentido, olha o que está me dizendo. Não somos nós, é um demônio descontrolado que está matando todos.

Ele riu.

- Não. Lembra daquele breve momento que ficamos parados antes de tia Eliza entrar dentro do quarto?

- Sim... Não... Está tudo muito confuso em minha mente.

- Nós fizemos um acordo, quem fosse o mais forte teria seus desejos realizados primeiro. Eu ganhei, e a minha vontade era de matar qualquer um que se intrometesse no meu caminho para que eu conseguisse a minha vingança. Mas seu amor por Eric atrapalhou meus planos, me tomando o controle do corpo. E desde então estamos disputando o controle do corpo que me pertence. Eu matei minha tia e meus primos porque só com eles mortos eu poderia conseguir fazer o feitiço que traria Caius de volta. Eu não amo o Eric como você, eu amo Caius.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top