Capítulo 63
Vítor Hugo
Que incrível. Danielle foi escolhida pra dançar o papel de Cisne Branco. Repetiríamos a parceria do encerramento do Festival de Dança, o que por si era uma promessa de um espetáculo inesquecível. Puxando-a pela cintura, a abracei e lhe dei um sorriso.
— Não tá feliz, Danny?
Ao invés de se emocionar, de dar aquele sorriso lindo que só ela tem, minha namorada emudeceu. Seus lábios estavam semiabertos, e os olhos, parados. Parecia em choque.
— Eu? — ela disse apontando com o indicador para si.
Carlos Amaral meneou levemente a cabeça confirmando.
— Como faltam poucos dias para o espetáculo, não temos tempo a perder — o coreógrafo deu ênfase a cada palavra para que Danny não abrisse precedentes para uma recusa. — Danny, tire essas polainas e vista uma saia tutu. Vamos ensaiar até a noite.
— Mas Carlos — a voz dela saiu aflita —, não é justo comigo. Eu não dou conta. Como você mesmo disse, o espetáculo tá aí. Eu não posso substituir a Duda.
O olhar furioso que a Danny recebeu a fez estremecer. Era melhor que ela tivesse ficado calada.
— Então meus trinta anos como coreógrafo não valem nada? Você quer dizer que eu não sei qual das minhas bailarinas tem capacidade para dançar um papel especial?
— Não, eu não quis dizer isso, eu…
— Danny, se eu estou te oferecendo o papel, é porque tenho certeza que você pode dançá-lo. E ponto final.
Carlos avisou que precisava fazer uma ligação para o marido, e que quando voltasse, queria nos ver aquecidos e prontos para o ensaio.
Danny me pedia socorro com o olhar. Segurando-a pelo queixo, rocei meu nariz no dela, beijando-lhe a testa.
— Não precisa ficar nervosa — passei meu indicador na maçã de seu rosto — Eu vou ficar com você, sempre, do teu lado.
— E se eu fizer merda?
— Tem que confiar mais em você. Como o Carlos Amaral disse, ele tem trinta anos de experiência como coreógrafo. Acha que ele daria esse papel só pra te expôr? É o nome dele que tá em jogo também.
— Desse jeito você não tá ajudando em nada.
Pondo as mãos no meu peito e me repelindo, ela andou para um dos cantos da sala ao me empurrar, cruzando os braços.
— Ei — a abracei por trás. — Por alguma razão, você foi escolhida pra substituir a bailarina fodida da Promoarte. Não foi a Nicole, nem a Antonella. E a Malu não quis. Era pra esse papel ser seu.
— Isso é muito louco.
— Eu não vejo dessa forma. Você nasceu pra dançar esse papel. A oportunidade de ser um estrela tá sorrindo pra você. Se joga, garota.
Danielle sorriu e balançou a cabeça levemente para frente. Toquei com meu indicador numa das pedrinhas azuis do aparelho de dente dela, e uma sensação de paz me invadiu.
— Como gosto de te ver sorrindo assim — confessei.
— Você passa muita confiança pra mim. Não consigo não sorrir quando tô perto de ti.
Meu corpo se projetou em direção ao da bailarina e o tocou. Os braços compridos da Danny se enroscaram em meu pescoço, minhas mãos desceram deslizando por sua cintura graciosa, parando na bunda da garota. Puxei o collant dela para cima, a fim de poder apalpar a bunda dela.
— Você é muito atiradinho, Vítor Hugo — a loura sorriu, me beijando
— E você nem se fala, Danny — respondi com malícia.
Por ter dançado comigo o pas de deux de Lago dos Cisnes, Danny não teve grandes dificuldades em se movimentar no compasso da música. Claro que nós dois tivemos que nos readaptar um ao outro. Acostumado a dançar com a Duda, que tinha uma anatomia diferente da Danny, precisei me acostumar a suspender uma bailarina de pernas mais compridas e cintura mais fina.
Carlos Amaral sabia disso, por isso segurava o queixo limitando-se a murmurar uma ou outra frase de desaprovação. Era melhor do que os gritos histéricos que ele habitualmente dava.
— Linda expressividade, Danny. Só quero um pouco mais de extensão nesses cambrés. Seus braços são longos, e a gente pode explorar muito isso.
A bailarina assentiu e se soltou mais, se entregando como se ao invés de um ensaio, estivesse se apresentando de verdade. Mais leve, desenvolta e à vontade, dançava como se pudesse se equilibrar sozinha nas pontas, sem que eu precisasse fazer muito esforço para mantê-la reta enquanto girava pirouettes.
Meus olhos e os dela se encontraram. Senti toda a paixão presa dentro de seu peito, pedindo pra ser libertada. Ela não conseguia sorrir. Sua expressão era de dor, tristeza, e também de esperança. Só eu podia fazê-la feliz.
E ninguém mais.
— Não se prendam tanto ao tempo da música. Mais espontaneidade — Carlos pediu.
Os olhares dos bailarinos estudavam atentamente nossos movimentos, fazendo comentários. As meninas tinham admiração pela Danny, e claro que queriam estar no lugar dela, não só por eu ser um bom bailarino, mas porque o papel da Odette é o sonho de toda artista.
Se eu tivesse que resumir em poucas palavras como eu estava me sentindo ao dançar com a garota que eu amava, responderia, sem medo de errar: como se eu estivesse naquele quadro de Marc Chagall, Os namorados, em que eles flutuam de mãos dadas (porém em posições contrárias).
Danielle se adiantou a mim.
Dei um passo. Dois.
Segurei sua cintura, e ela, fazendo plié e se impulsionando, ficou leve o suficiente pra que eu a erguesse acima da minha cabeça e a pusesse sentada no meu ombro direito, com sua perna dobrada em atittude.
De súbito, prendi minha respiração.
Por um momento meu cérebro estagnou. A imagem da Duda caindo, seu corpo escapando por entre meus dedos e se chocando contra o chão de madeira, seu grito de dor ao quebrar o pé, tomou minha mente.
— Suspenda a Danny em pescado, Vítor Hugo — Carlos Amaral ordenou.
A ordem fez eco nos meus tímpanos, como que proferida longe.
Achei que não era capaz.
Eu nunca iria me perdoar se a Danny caísse. Aquilo não podia se repetir.
— Vítor Hugo, se prepare para soltá-la.
Meus lábios tremeram.
Eu não posso, disse a mim mesmo.
Que merda, logo agora minha mente resolveu me sabotar.
— Vamos, Vítor! — Carlos ordenou, impaciente.
Olhei para cima.
Minhas mãos tatearam a cintura da minha parceira. Não dava. Achei que conseguiria. Que eu podia. Mas não…
Fechando os olhos e soltando o ar por entre os lábios trêmulos, apertei as costelas da Danny e a pus em pé a minha frente, de costas pra mim.
— Parou! — o pianista abortou a execução ao ver a palma da mão erguida do Carlos, que se levantou de sua cadeira, batendo com as mãos nas coxas.
— Vítor Hugo, o que foi? — Danny perguntou, confusa.
— Eu não posso — respondi. — Fiquei com medo de não conseguir te segurar.
— Medo? — Carlos debochou. — É sério? Ficou com medo de derrubar sua parceira? Ora, faça-me o favor, rapaz.
— É sério. Eu vi a Duda caindo na minha frente, fiquei com medo…
— Ouça bem — o indicador do bailarino mais velho se levantou —, não é porque aconteceu com a Duda, que vai acontecer com a Danielle também. Foi um acidente, caralho! Ou melhor, foi erro dela. Trate de superar isso e se concentre no pas de deux.
— Pra você é fácil falar! — me exasperei — não foi das suas mãos que ela escapou!
— Quem escolhe seguir a carreira da dança tem que conviver com os riscos. É triste, é traumático, mas fraturas fazem parte da nossa rotina, e você não pode deixar que isso te paralise. Se sentir medo e achar que vai acontecer de novo, você não vai mais ter segurança, e aí sim, não só a sua integridade, mas também a da sua parceira estará em risco.
Cocei a nuca, abaixando a cabeça. Danielle segurou minha mão direita por entre as suas, pedindo pra que eu a olhasse, mas não tive coragem.
— Vamos dar uma pausa para tomar água — Carlos acenou para o pianista.
Me segurou pelos ombros.
— Sabe qual o seu problema? Você não tem sangue frio. É muito emotivo. Rudolf Nureyev, uma lenda do balé, era emocionalmente instável, uma bomba relógio, mas no palco se tornava um homem de nervos de aço. À ponto de deixar bailarinas caírem de propósito para se vingar delas, e terminar o espetáculo sem mexer um único músculo do rosto. E mesmo ele sendo assim, todas queriam tê-lo como parceiro.
Danny se virou espantada para o coreógrafo.
— Tirando a parte de você deixar sua parceira cair — Carlos andou em direção à porta de saída sem se virar enquanto falava —, você tem que ser frio como Nureyev.
Danielle segurou de novo minha mão, e seu toque tão macio me lembrou que ela era uma jóia delicada, que eu sentia medo de quebrar.
— Não me sinto capaz — confessei.
— Lembra daquele dia quando o Beto entrou na sala e você se desconcentrou igual agora?
Como eu podia esquecer, se foi um dos piores dias da minha vida?
— Lembro.
— Eu te pedi pra confiar em mim. E disse que tudo ia dar certo. E deu, não é?
— Aquilo que você falou me deu força.
— Então… Agora confie em você mesmo. Não tenha medo de me derrubar, nós vamos conseguir.
— Mas se eu não conseguir te segurar?
— Pára com isso, meu amor. Eu não vou cair.
— Danny…
— O que aconteceu com a Duda foi um acidente. Não foi culpa sua e você sabe muito bem disso. Ela caiu porque se desconcentrou, e porque por um momento a conexão entre vocês se rompeu. Mas isso não vai acontecer entre nós.
Danielle estava certa.
Meus medos eram infundados, não tinha como dar errado. Não com ela.
Existem pessoas que entram nas nossas vidas apenas de passagem. Se envolvem conosco, deixam lições a serem seguidas, nos fazem sorrir, e depois partem, sem deixar falta.
Outras nos deixam marcas profundas. Mexem com nossas emoções, nos dão confiança, nos machucam, sofrem conosco e nunca se afastam, mesmo quando isso é o melhor para elas. Ao optarem por nós de uma forma incondicional, nos tornam pessoas melhores e dão aquele impulso para que nunca desistamos.
Danielle era uma destas pessoas. Doce, enérgica, carinhosa e rude ao mesmo tempo, mas sempre com um encanto que me fazia sair de mim.
Bastava ela dar um sorriso para que meu coração se acalmasse.
Com sua mão acarinhando meu rosto, meu medo se dissipou, e eu disse a mim mesmo que era capaz de executar aquele movimento de descida.
Retomamos os ensaios do início. Minha variação. A da Danny. A coda.
A mágica entre nós fluiu com perfeição, e mesmo com o medo de cometer um erro querendo me sabotar no momento em que suspendi a Danny no alto, consegui descê-la em segurança.
— Está muito bom, gente. Muito mesmo — Carlos se aproximou.
Minha namorada e eu trocamos um sorriso, entrelaçando os dedos. Desfizemos o contato temendo que Carlos não aprovasse.
— Mas ainda falta alguma coisa…
Triste fato é que coreógrafos são obstinados por perfeccionismo e desafios. O balé pode estar pronto, mas eles sempre acham que precisam mudar alguma coisa.
— Nessa descida em pescado — ele se dirigiu à Danny —, você consegue rolar uma volta enquanto cai para a pose final?
Só me lembrava de ter visto uma bailarina conseguir fazer esse movimento: a Maria Luíza Pomini.
Carlos Amaral já estava exigindo demais da Danny.
— Posso tentar — ela respondeu.
Minha espinha congelou. O risco de uma queda agora era maior.
Droga!
— Tentem!
Me adiantei em direção à bailarina, pondo-a sentada em atittude no meu ombro. Suspirei. Busquei o máximo de concentração, deixando a Danny cair e rolar uma volta no ar, para então meus braços a segurarem de novo em pescado.
— Isso! — Carlos disse com energia. — Esse é o pas de deux que eu quero! Com ousadia!
Pus Danielle em pé e vi um brilho de felicidade em seus olhos.
Nós tínhamos conseguido.
Não.
Ela havia conseguido.
Se não fôsse pela coragem dela, por sua ousadia e firme crença de que sempre é possível ir além, eu não teria conseguido.
Todos os riscos eram dela. À mim cabia só fazer com que a estrela brilhasse. E eu a faria brilhar.
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