Capítulo 55
Vítor Hugo
— Parabéns, Vítor Hugo — Angel me cumprimentou com um abraço. Era a primeira vez que me dirigia a palavra depois que dei um esbarrão no ombro dele, quando tive um ataque de ciúmes após seu ensaio com a Danielle.
— Obrigado — sorri ao responder.
A quase totalidade do elenco era feminina, Duda dançaria como Odette, o Cisne Branco, e é prazeroso para qualquer bailarino ser partner de uma das melhores bailarinas da atualidade. A interação com ela não seria difícil. Ela era baixa, forte, tinha presença em palco e expressividade, e essas qualidades a faziam ser a artista ideal para o mais importante dos papéis.
Não tinha como sair menos que perfeito.
A bela bailarina negra me abraçou, obviamente feliz por fazer par com um partner que se garantia em palco. De repente, me ocorreu que uma lufada de vento gelado adentrou a sala quando os olhos azuis e impactantes da bailarina de sardas graciosas encontraram os meus.
— Danny, espero que não se importe de eu roubar o Vítor Hugo de você — a nova Odette pôs um tom propositalmente temperado com uma pitada de provocação. — Pra ensaiar o pas de deux, claro.
Alguma coisa entre as duas havia se quebrado, só um idiota para não perceber.
Os olhares tortos da Maria Eduarda, suas soltadas de ar quando ouvia alguém dizer que a Danny estava em ótima fase. Gestos de uma pessoa imatura, que preferia morrer a reconhecer o talento da outra.
Mulheres bailarinas levam à sério disputas dentro do elenco; que melhor exemplo do que Cisne Negro, em que a Nina surta e morre no final?
Nunca ouvi falar de homens que sofressem de bulimia, que brigassem com uma balança ou que trocassem socos, disputando um papel. Os holofotes estavam sempre sobre elas. As bailarinas. As estrelas. Era em torno delas que circulavam as intrigas, os boatos, eram elas que davam beleza à dança, e esta certeza as empurrava à disputa constante pela primazia. Mesmo que tivessem que passar por cima das outras como tratores.
Parei de sorrir ao ser analisado com descrença pela Danny e me surpreendi com as palavras ex abundantia da Duda, provocando a filha do Cisne Branco. Podíamos todos ter passado sem essa.
— Por que eu me importaria? — Danny respondeu.
Ela nos olhou com altivez e seriedade, delineando a seguir um sorriso tímido, sarcástico.
— Parabéns pra vocês dois.
Tive vontade de sair atrás dela e lhe perguntar porque havia reagido daquela forma.
— Precisamos estudar nossos personagens — Duda tinha razão. Faltava poucos dias para o espetáculo, muita coisa para limpar e cada minuto era precioso.
— Você conhece a história? Todos os detalhes, as características do casal? — perguntei.
— Eu tenho o livro na mochila. Se bem que não preciso, porque o li várias vezes.
Alternei minha atenção para ela e para a porta pela qual a Danny acabara de passar, deliberando sobre o que eu devia fazer.
— A Letícia contou a história quando estávamos no grade 1, e nunca mais saiu da minha cabeça — Duda me puxou pelo braço, me fazendo olhar para ela. — Eu sempre sonhei dançar esse papel, sempre me imaginei como a Odette, sabe… É como se eu tivesse nascido pra ser o Cisne Branco.
Os olhos da garota brilhavam, eu estava feliz por ela e me senti feliz por fazer parte de seu sonho. Ao mesmo tempo, me decepcionei com a atitude da Danny, que não me parabenizou, além de mostrar falta de empatia.
— No que depender de mim, vai ser o melhor Ato 2 já dançado — prometi, me permitindo um sorriso.
— Tenho certeza que vai ser.
As produtoras não costumam abrir mão de suas estrelas como protagonistas de suas montagens. Fiquei feliz por ter sido escolhido como Siegfried, já que Angel e Ítalo eram os caras. E foi meu colega quem ficou com o papel do Bufão.
Claro, eu só começaria a temporada dançando. Um dos dois me substituiria quando o curso de verão terminasse e eu viajasse para Londres.
Ao me lembrar da aproximação do dia do embarque, meu coração se afligiu. O tempo passava rápido demais. Pitadas de ansiedade se confrontavam com a saudade antecipada das pessoas para quem eu diria adeus, e que se tornaram uma parte de mim.
Se é verdade que um sonho é o que nos impulsiona a sempre lutar, a sempre dar o nosso melhor para alcançar a tão sonhada felicidade, também é o que nos separa, que nos corta ao meio. Não importa o que digam, sonhos também são egoístas quando querem.
Logo estabeleci uma conexão segura com a Duda, assim que começamos a ensaiar. Ela tinha coxas fortes, impulsão e segurança nos giros. O quadril dela nunca desencaixava, e quando eu imaginava que a garota não daria conta, a mesma me impressionava, e tirava fôlego não sabia de onde para se equilibrar.
Ela tinha muito mais técnica que a Danny.
Carlos Amaral acompanhava a evolução dos nossos passos sem mover um único músculo do rosto, sem deixar transparecer emoção no rosto delgado e de feições duras; provavelmente ele estava satisfeito com o que via.
— Quero mais movimentação desses braços, Duda — ele pediu, agitando os braços como asas de cisne.
— Estava demorando — a garota, sibilou à uma voz quase inaudível.
Meus braços procuraram tocar os dela, que se esquivava fugindo das minhas investidas. Percebendo ser inútil fugir do amor do príncipe apaixonado e se rendendo ao sentimento recíproco, a bela bailarina enfim me olhou.
Os olhos dela expressavam sentimentos de tristeza e também por ser sozinha e não ter para onde correr, a não ser para os braços de quem se abnegasse e aceitasse amá-la. E era o amor que podia libertá-la e ao mesmo tempo dar sentido à vida de um príncipe que conheceu tudo da vida, reinos, mulheres lindas, a riqueza e a opulência. Menos a sensação de ter um coração aquecido.
Ao criar uma conexão, sustentando meu olhar no da princesa negra e deixando que ela penetrasse minha intenção de deixar marcas em sua vida e ficar com ela para sempre, seu medo aos poucos desapareceu e ela aceitou a mão que ofereci.
— Duda, eu vejo paixão em seus olhos, e não é isso o que quero. Quero amor — Carlos orientou.
A bailarina assentiu e repetimos o pas de deux desde o início. O corpo dela já pingava suor por causa do esforço, mas a garota nunca se entregava.
— Tente não apertar minhas costelas, eu tenho um pouco de sensibilidade nessa parte — toquei minhas mãos em sua cintura, e num impulso, a levantei em seguida.
O bailarino que dançaria Rottbart me substituiu. Ele tinha braços muito fortes e o ar sinistro que o mago que enfeitiçou Odette exigía, e muita ousadia, a ponto de suspender a Duda no ar usando só uma das mãos, apoiando-a pela lombar, e andando em semicírculo pela sala.
— O veado ficou chateado por não ganhar o papel principal e agora está se exibindo — Léo riu com deboche.
Danielle entrou na sala acompanhada da Nicole, Micaela e Flávia. Ela tomava um gole de água, segurando a garrafa plástica com a mão esquerda enquanto a direita teclava o celular, com uma toalha no ombro, e os olhos dela irradiavam tédio. Nicole disse algo para ela, que acenou positivamente, e as duas foram para o canto quatro da sala, sentando-se confortavelmente no chão para assistir ao ensaio da Duda com o Ítalo.
A loura movimentava as mãos e reproduzia subidas e descidas de pernas da nova Odette, estudando o tempo dos passos que esta executava, fosse sozinha, fosse suspensa pelo partner.
Mais do que atenta ao desempenho da primeira bailarina, Danny estava encantada com a leveza e a graça da amiga. Nicole pôs a mão ao lado da boca e disse algo ao ouvido da loura num tom de voz que só ela podia escutar, para não chamar a si a atenção do coreógrafo.
— Vocês — Amaral aproveitou o fim do Pas de deux para chamar as meninas em modo de correção —, em pé! Daqui a pouco vocês vão ensaiar, por isso, se aqueçam na barra.
Danielle me lançou um olhar ressentido por eu rir, e cruzei os braços em atitude de desafio, já esperando que ela mandasse eu me ferrar. Ela tirou as inseparáveis polainas, atirou-as no chão, e arrumando o collant, que havia “entrado”, esticou a perna na barra e deitou o tronco sobre a mesma. A Nicole, o cisne de olhos bicolores, se esticou do mesmo modo, olhando para a amiga.
Queria poder ouvir o que elas conversavam, quase num sussurro, dando risinhos. As duas disfarçaram quando Carlos abruptamente olhou para sua direção.
Ele mandou os petite cisnes se prepararem. Danielle e Micaela se deram as mãos, obviamente à contragosto de ambas, sem se olharem. Flávia e Nicole ficaram nas extremidades.
Duda veio em minha direção bebendo de sua garrafa de alumínio e arrumando o collant por trás, e parou ao meu lado, sorrindo.
— Tô cansada — ela esfregou a testa com a toalha, absorvendo o suor.
— Senta um pouco. Só vamos ensaiar daqui a uns vinte minutos, então dá tempo de descansar.
Duda prestou atenção às correções que Carlos Amaral passou para as quatro garotas, mordendo o lábio inferior. Não vi necessidade no emprego de um vocabulário tão rude com elas, ainda mais que nem haviam começado a ensaiar — as orientações eram para o posicionamento das cabeças antes do acorde inicial.
As quatro absorveram a breve explicação do coreógrafo e entraram corretamente no compasso da música. Danny, como era mais alta, se destacava entre as colegas. Nos pas de chats, momento em que elas saltam lateralmente, Nicole se adiantou um pouco, mas logo se recuperou, e o segundo ensaio dos cisnes foi melhor que o primeiro.
— Ela dança muito, né? — Duda disse. — A Danny.
— As quatro dançam muito. Mas a Danielle tem algo mais. Magia, delicadeza, sei lá… Ela toca a alma das pessoas quando dança.
Duda mordeu o lábio inferior, sustentando meu olhar no dela.
— Ela é muito importante pra você, né?
Assenti.
— Nós temos uma conexão. Um sentimento muito forte, uma ligação que eu não sei explicar.
— O que impede vocês de ficarem juntos, de assumirem o que um sente pelo outro?
Eu também gostaria de saber. Inventei uma desculpa qualquer, pra não me alongar.
— O balé é mais importante pra nós dois.
— Que nada a ver! Tudo bem o balé ser importante, mas ele não pode ser mais importante que a pessoa que ama a gente. Ela está sendo egoísta.
— Não tem como a gente namorar à distância.
— Pra que existe o Skype? Whatsapp, um monte de aplicativo? Não é pra manter a gente conectado, até poder se encontrar de novo?
— Duda, eu sei pra que serve o Skype, whatsapp, e-mail, e tal… mas não é a mesma coisa que você abraçar alguém, beijar. Não consigo tirar a razão da Danny. Acreditar num namoro entre nós só alimentaria uma ilusão.
Duda revirou os olhos.
— Se eu estivesse apaixonada por alguém, faria de tudo pra ficar com ele. Prestaria audição para uma escola de balé, faria intercâmbio. Mas eu iria atrás do amor da minha vida.
Semicerrei os lábios, estupefato com as palavras da Duda, que se levantou antes que eu replicasse.
— Você é um cara legal, Vítor Hugo. Não merece sofrer por uma garota que só quer dar. Se dê uma chance de conhecer uma garota que saiba te dar valor e te amar como você merece.
— Como pode falar assim da sua amiga? — levei um choque.
— O fato dela ser minha amiga não é motivo pra eu defendê-la em tudo.
Ela deu dois passos à frente, parou, voltou-se pra mim.
— Pense em qual tem sido seu papel nessa relação de vocês e se não é melhor cair na real. Não vale a pena sofrer por alguém que não gosta da gente como a gente gosta dela.
As palavras da bailarina negra lançaram a semente da dúvida na minha cabeça; quem sabe eu estivesse dependente demais da Danielle? Quem sabe eu estivesse me anulando por causa de uma paixão idiota e me fechando para o que a vida tinha a me oferecer?
Mas era tão difícil me imaginar gostando de outra pessoa. Eu tinha medo de não ser capaz de dar à outra pessoa o que dei à Danielle, e me iludir. Todas as outras pareciam tão… comuns!
Os quatro cisnes executaram a coreografia novamente, enquanto a Duda ensaiava fouettès. Tentei convencer a mim mesmo de que conseguiria, que era preciso esquecer a filha do Cisne Branco, porque não dá para viver de ilusões.
Ninguém merece implorar por migalhas, viver só de momentos, só de sexo casual. Eu tinha amor próprio, e de um jeito ou de outro, iria esquecer a Danielle.
Mesmo que uma parte de mim morresse.
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