Capítulo 52

          Danielle

      Como perdoar um cara que abandonou uma criança recém curada de um câncer numa estrada perigosa, no alto de uma serra, intentando matá-la de fome e frio? Tinham se passado cinco anos, tanta coisa tinha acontecido na minha vida, e no entanto, uma parte de mim estava presa no passado, sem poder se libertar.

      Eu só tinha esquecido, não perdoado. Tudo o que a gente esquece, um dia volta a lembrar. E a lembrança daquela tarde doía demais em mim.

      Engraçado se falar tanto em perdão, um dom tão divino que somente os deuses tem. Por que eu tinha que perdoar, se não me sentia capaz disso? Não era justo que meu odiado ex-padrasto não sofresse do mesmo jeito que sofri.

      Flashback on:

      As primeiras horas depois de eu ser jogada à minha própria sorte foram muito difíceis. Andei até meus pés ficarem com bolhas, sem destino, pedindo comida nas casas. Eu estava em choque, muito assustada e com bloqueio de contar em detalhes o que tinha acontecido de verdade comigo. Nada mais tinha importância pra mim. Os colonos das casas me davam um prato de comida, porém não me convidavam pra entrar em suas casas. Achavam que eu era uma criança doente da cabeça, ou uma pequena delinquente. É triste, mas até hoje os corações de muitas pessoas é um solo árido. Elas se envolvem com você, porém não se comprometem.

      Em algumas casas, assim que eu batia a porta, me mandavam ir embora. A única mulher pra quem contei ser filha da bailarina Françoise riu e me chamou de mentirosa, e isso me desencorajou de repetir a história.

      Depois de quatro dias, fazendo necessidades em qualquer mato à beira do asfalto, passando frio, arrancando cenouras de plantações pra matar a fome e com o corpo coberto de fumaça e poeira, cheguei à um posto de gasolina. Vi um moço pronto pra entrar num caminhão de cabine azul, e como fazia horas que tinha comido, pedi à ele trocado. Mas ele recusou, como os outros.

      — Tô com fome… — insisti na esperança que ele me abrisse seu coração. O caminhoneiro, que era um rapaz de pouco mais de vinte anos, barba por fazer e boné, fez que não com a cabeça, então saí chateada. Passei em frente a um grupo de caminhoneiros, e então vi aquele moço voltar correndo pra churrascaria.

      — Ixe! O guri esqueceu alguma coisa lá dentro — disse um dos homens.

      — Bom rapaz ele. Vai levar essa carga de soja pra São Paulo, longe.

      Ao ouvir que ele ia subir pra São Paulo, ignorei o aviso da minha consciência pra não fazer bobagem, e me escondi atrás do assento da carreta, aproveitando que ele estava dentro da churrascaria. Eu estava tão desesperada que não pensei em eventuais perigos.

      O caminhoneiro deu a partida. Começou a cantar uma música, que eu achei muito bonita mesmo não curtindo sertanejo. Então eu espirrei, revelando minha presença. Ele guinou para o acostamento, me obrigou a descer e perguntou o que eu estava fazendo escondida no caminhão dele, e ao invés de contar tudo, só respondi que não tinha mãe e que era sozinha no mundo. O que eu podia dizer, depois de tanta gente não acreditar que eu era filha da melhor bailarina do mundo? Que importância isso tinha?

      — Fique aqui e não se pendure no estribo da carroceria — o moço ordenou com dureza.

      Ele era como os outros. Um insensível, sem coração. Entrou na cabine e arrancou, me deixando passando frio no acostamento, e a imagem do Laerte surgiu na minha mente. Vendo a carreta sumir, comecei a pensar que se eu sobrevivesse, nunca seria capaz de confiar nas pessoas de novo e amar alguém, e que meu coração seria duro como o de tanta gente que teve a chance de me ajudar, mas que me virou as costas. Abracei meu próprio corpo, por causa do frio e chorei. De repente, vi um homem vindo correndo em minha direção.

      Era o caminhoneiro!

      Ele se comoveu comigo e aceitou me levar pra São Paulo. Não conversamos nas primeiras horas. Mateus (esse era o nome do meu anjo da guarda) ganhou minha confiança aos poucos. Ele comprou roupas pra eu vestir, me deu de comer e cuidou de mim como um pai. Quando me senti pronta, contei toda minha história. Não foi fácil. Chorei como há muito não fazia, cuspindo todo o ódio que eu sentia do Laerte e da Suki. Mateus me pediu pra não sentir ódio, disse coisas bonitas sobre perdão, sobre amor, coisas tão importantes para a gente guardar e viver e que me trouxeram paz.

      Nunca me esqueci dele. Todas as noites rezo por ele, e pela filha Isadora, que naquela época sofria de um problema no coração e precisava de uma operação cara. Meu pai, em agradecimento, depositou uma grande quantia em dinheiro na conta dele, pra que não precisasse vender o caminhão. Aquele homem que num primeiro momento me virou as costas, ouviu a voz do coração e não desperdiçou a chance de voltar atrás. Ele sempre vai ter um lugar especial no meu coração.

      Não podia ser coincidência que as mesmas palavras que Mateus me disse, Vítor Hugo acabara de repetir. 

      Não é pra esquecer. É pra perdoar.

      Mas por que perdoar é tão difícil?

      O toque do Vítor Hugo na pele do meu rosto, seus dedos deslizando pelo meu cabelo, me tranquilizavam aos poucos, amenizando minha dor. Era tão confortante que eu queria que ele ficasse comigo a noite inteira, só conversando. Dizendo coisas aleatórias.

      Os momentos em que estávamos juntos  eram intensos e despertavam fortes sentimentos em mim, nada inocentes, e no entanto, naquele momento, ele estava se mostrando companheiro. Não esperava por isso. Aquilo era desconcertante pra mim e me deixava mais confusa com relação aos meus sentimentos. Ao despertar e ver seus olhos ternos sobre mim, me velando com carinho, senti como se borboletas voassem dentro do meu estômago.

      O que é isso?

      Nesse momento, os quatro mochileiros voltaram e entraram no hostel sorrindo e acenando para nós dois. Valéria tinha um risinho malicioso brincando nos lábios, com certeza imaginando algo bem nada a ver. Muito engraçado.

      — Eu preciso entrar — me levantei prontamente. Minhas bochechas queimavam, com certeza ruborizadas por causa do gostoso contato com o corpo do Vítor Hugo.

      — Você vai ficar bem? Não quer sair um pouco, pra sei lá… 

      — Só preciso dormir um pouco. Não tive um dia muito bom, mas vai passar. Bailarinas são fortes, esqueceu?

      — Bom. Se quiser um colo ou um ombro pra chorar, sempre vou estar aqui. Sabe que pode contar sempre comigo, não é?

      Estendi a mão, pra ele se levantar, e sustentei olhar de Vítor Hugo no meu tocando seu rosto com meu indicador. Dei um sorriso tímido, reprimindo minha vontade quase incontrolável de dizer que eu gostava dele bem mais que um amigo.

      — Obrigada por me ouvir e pelas palavras de conforto. Ajudou muito.

      Inclinando a cabeça em minha direção, aproximando-a lentamente, Vítor Hugo tocou sua boca na minha e esse beijo fez os pêlos ralos do meu braço se arrepiarem e minhas emoções conflitarem.

      Não, Vítor Hugo.

      — Tchau — ele disse ao se afastar.

      Acenei com os dedos, vendo-o se distanciar e de repente, uma aura de paz se instalava em mim. Por uma vez, pensei que não devia ser tão ruim se prender a alguém.

      Meu pai guardava as roupas na mochila cargueira com uma das mãos, enquanto a outra apoiava o celular num dos ouvidos.

      — Beijo, meu amor. Amanhã de manhã, então.

      — Você vai embora? — perguntei.

      — Vou sim, filha. Tenho que honrar um compromisso de trabalho em São Paulo e saio bem cedo.

      — Ah! 

      — Eu encerrei sua hospedagem nesse quarto. Você vai dormir num quarto duplo a partir de amanhã.

      — Puxa, pai, eu estava gostando da companhia da Valéria e dos outros.

      — Melhor que seja assim.

      Daniel notou minha cara de desapontamento e me puxou pela cintura com seu braço forte de primeiro bailarino da Companhia Paulistana, beijando minha testa.

      — Falta poucos dias. Logo você volta pra São Paulo também.

      — Hoje teve audição para o Ato 2 de Lago dos Cisnes.

      — Que papel você ganhou?

      — O Pas de Quatre. 

      — Uau! É um belo papel. Quem vai ser o Cisne Branco? 

      — A Duda. Ela humilhou a gente hoje.

      Eu seria louca se contasse da minha discussão com a Antonella, conhecia meu pai o suficiente pra saber que ouviria um belo sermão com direito a lições sobre como uma bailarina deve se comportar.

      — Não fique chateada. Balé é assim mesmo, tem o momento certo para a gente ganhar o papel principal.

      — Não tô chateada por isso, pai. Eu sei que a Duda é a top. 

      — Então, o que foi?

      Mordi meu lábio inferior, puxando o máximo de ar que pude. 

      — Eu vi o Laerte.

      Fazer rodeios nunca fez parte do meu estilo. Eu gostava de ir direto ao ponto, nem que minhas palavras tivessem o impacto de um nocaute.

      Meu pai me soltou abruptamente, seus olhos estavam acesos de assombro e raiva.

      — Como é? 

      — É, pai. Meu ex-padrasto está aqui em Ribeirão Preto.

      Contei do meu encontro com o Laerte, descrevendo como ele estava fisicamente. Daniel me ouviu atentamente, com um vinco na testa. A fisionomia dele ficou sombria, a respiração pesada e rápida.

      Andando de um lado para o outro do quarto, pôs as mãos na cabeça, em seguida jogou-as para o alto.

      — Eu não vou pra São Paulo. Não posso te deixar aqui, à mercê daquele monstro.

       — Mas é seu trabalho, pai.

      — Não! Você é mais importante pra mim. Danielle, eu vou ficar. Não vou deixar aquele imbecil chegar a cem metros de distância de você.

      — Pai…

      Daniel abriu os braços e corri de encontro à ele, passando os meus em torno de suas costas.

      — Com licença — a dona do hostel pôs a cabeça dentro do quarto ao dar duas batidas na porta. — Tem alguém lá fora querendo conversar com vocês.

      — Quem? — meu pai me soltou.

      — Um homem. Ele tem barba, tranças, usa colares e pulseiras. Estava lá fora do portão em atitude suspeita, daí me aproximei dele e perguntei o que desejava. Ele disse que se chama Laerte.

      Daniel passou pela mulher feito um furacão pela mulher, quase derrubando-a, e corri atrás dele; ele saltou os degraus da escada de dois em dois, mostrando sua força de impulsão e equilíbrio, e num átimo de segundo, agarrou Laerte pelo colarinho.

      — Pai! — eu gritei.

      — Você deve ser muito idiota pra vir atrás da minha filha depois do que fez com ela há cinco anos, né, seu bosta?

      Daniel derrubou Laerte com um soco no queixo, em seguida o agarrou pelo cabelo, arremessou-o contra o muro.

      — Eu só quero conversar com ela…! — o homem gritou, recebendo um chute. — Dá pra parar de me bater, por favor?

      Mas Daniel parecia surdo. Nunca o vi daquele jeito antes. Os contornos pretos dos olhos azuis mudaram para dourados, emitindo uma fúria capaz de assustar a qualquer um.

      — Pára, pai! — eu puxei o braço dele antes que Laerte fosse atingido por mais um golpe. — Deixe ele falar.

      O bailarino alternou um olhar entre o agredido e eu, a respiração acelerada. A veia jugular sobressaia no pescoço, evidenciando que seu coração batia descontroladamente, mas aos poucos ele se acalmou.

      Laerte deu um passo em nossa direção, trôpego e vacilante, limpando o sangue da boca.

      — Eu só quero conversar — ele repetiu.

      — Como teve coragem de aparecer depois do que fez com a sua enteada? — meu pai rosnou, fazendo menção de investir de novo contra ele. Eu o segurei, implorando com um olhar suplicante para que não fizesse nada.

      — Laerte — adiantei um passo —, por quê? Por que você fez aquilo comigo?

      — Danny… Como você cresceu! Está tão linda como a sua mãe.

      — Responda.

      O homem que se casou com Françoise meneou a cabeça em negação, com dor e mágoa nos olhos. Minha cabeça estava a mil, e por mais que eu tentasse, não conseguia entender o porquê dele estar ali.

      — Danielle… Eu sei que o que eu fiz não tem perdão e que um dia vou prestar contas daquele pecado que eu cometi. Meu Deus…! — ele começou a soluçar. — Como eu pude ter feito aquilo com você? Você era só uma criança indefesa, carente de amor, e eu te joguei no mundo…, eu te abandonei!

      — Faz cinco anos que eu quero saber isso, Laerte. Por quê? O que eu te fiz? Eu tinha perdido minha mãe, eu estava sem chão, precisando de amor e carinho… Eu só queria ficar com meu pai, mas você não deixou… Você mal olhava pra mim em casa. Me tratava com indiferença. E ainda trouxe para a casa da minha mãe… da minha mãe…, uma mulher que me maltratou!

      — Não sabe o quanto me arrependo por isso… Não tem uma noite que eu não pense no que a Suki e eu fizemos.

      — É muito tarde pra se arrepender, seu embuste — meu pai levantou o indicador em riste. — Monstro! Covarde! Sabe quantos dias eu chorei desesperado sem notícias da minha filha? Você sabe como um pai se sente sem saber como a filha está? Claro que não! Você nunca foi pai!

      — Daniel, eu juro por tudo o que é sagrado que tô arrependido. Acredite em mim.

      Os olhos de uma pessoa não escondem o que o coração sente. Meu ex-padrasto caiu num choro convulsivo, suas lágrimas se misturaram ao sangue, e mesmo ressentida pelo nosso passado nebuloso, senti que havia verdade em sua confissão de arrependimento.

      — Nada do que você disser vai mudar o que aconteceu — falei com sinceridade. — Mas eu quero saber por que. Por que você me rejeitou e me abandonou? Eu tenho o direito de saber.

      — Eu amava a Suki, Danny… Eu estava cego por ela. Ela não suportava ver as fotos da Françoise pela casa, e dizia que olhar pra você era a mesma coisa que ver sua mãe… Aí fiquei sabendo que sua mãe deixou tudo para o seu pai administrar, até que você tivesse idade de assumir, me deixando só com a casa…! Eu me senti traido! Nós éramos casados, pô…! Fiquei tão transtornado, com tanto ódio do seu pai, que eu queria que ele sofresse… A Suki sugeriu que vendessemos a casa, e fossemos embora do Brasil pra sempre, foi dela a ideia da viagem para o Rio Grande do Sul. Depois que te largamos no acostamento, devolvemos o carro e caímos no mundo. Graças ao dinheiro da venda da casa e das minhas economias, vivemos bem por meses, viajando pela América do Sul. A Suki — ele pausou para enxugar uma lágrima — despertou dentro de mim um espírito aventureiro, irresponsável. Estava tudo bem. Mas acabamos nos envolvendo com gente estranha, e começamos a usar drogas e a beber, a gastar em festas e um dia… o dinheiro acabou! De um dia pro outro, não tínhamos mais nada…!

      O relato explicava em parte o aspecto do Laerte. Ele havia passado por privações, como consequência de seus gastos desnecessários.

      Sem explicação aparente, meu coração se compadeceu daquele homem e um bolo se formou na minha garganta.

      — O que aconteceu com a Suki? — perguntei.

      Laerte abaixou a cabeça, virando-a para o lado. O choro dele atravessou minha alma, mas eu precisava saber.

      — Diz, Laerte. O que aconteceu com a Suki?

      — Morta…! A Suki está morta, Danny…!

      Meu pai e eu trocamos um olhar incrédulo.

      — A Suki, morta?

      Ele meneou a cabeça em afirmação.

      — Ela se viciou muito mais do que eu em drogas! Cocaína… Passou a ter um comportamento agressivo, com alucinações por causa da dependência química, e a nossa relação virou um pesadelo, até que um dia, durante uma viagem pelo interior do Peru, ela teve uma overdose e morreu. Eu perdi meu chão pela segunda vez em um ano, não sabia pra que lado ir, e não podia voltar ao Brasil, pra não ser preso… A Suki era tudo pra mim, assim como a Françoise foi, eu não conseguia fazer nada sem ela e demorei quase um ano pra sair do luto. Foi então que eu comecei a pensar em você, Danny, e no que eu te fiz. O que será que aconteceu com ela?,Daniel a achou?, alguém a acolheu? Minha consciência doía, eu sonhava com aquele dia fatídico, e o remorso me consumia. Mas eu não podia voltar para o Brasil, porque não queria ser preso.

      O bolo da minha garganta cresceu. Minhas emoções conflitavam no meu peito e eu não sabia o que dizer. Não esperava que a Suki estivesse morta. Eu cheguei a dizer que queria que ela morresse, porém foi naquela época, e eu disse da boca pra fora, por calor da emoção. Jamais desejaria intrínsecamente que alguém morresse.

      Laerte estava mostrando seu sofrimento sem fingir, sem usar máscaras, e por mais que minha ferida doesse, eu me sensibilizei com seu relato de infortúnios.

      Não que eu pudesse pôr uma pedra em cima de tudo, as coisas não se resolvem só com lágrimas.

      — Eu sinto muito pela Suki. Sério. Mas isso não apaga o que ela fez comigo.

      — Me perdôe
, Danny. Pra que eu possa tirar esse peso da minha consciência, esse remorso, essa vergonha, e possa viver em paz… Mesmo que eu não mereça, me perdoe. Me perdoe.

      — Eu não sou Deus pra perdoar ninguém! De repente, eu acabo não acreditando em nada do que você tá falando!

      — Danny…

      — Não me chama de Danny…! — explodi. Num instante, a compaixão que senti se desvaneceu, dando lugar a um instinto furioso. Meu pai me segurou pela cintura para que eu não avançasse em direção ao meu ex-padrasto. Não adiantou. Me soltando, saltei no ar e rodopiando meu corpo, atingi o Laerte com um chute. Assim que ele se levantou, prontamente dei vários murros no peito dele. — Eu te odeio, Laerte! Te odeio! Te odeio! — assim que me cansei, dei um soco na boca dele, que caiu sobre um dos flancos.

      Eu me preparava para dar um chute no estômago dele, insensível ao choro que irrompeu de sua garganta. Meu pai segurou meu braço.

      — Solta! Eu vou acabar com ele!

      — Chega, Danny. Não vale mais a pena.

      — Não! Ainda é pouco pra ele!

      — Filha, ele já foi castigado.

      A fúria dentro de mim se arrefeceu da mesma forma que surgiu. Inspirei. Expirei. Pus uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e olhei aquele homem insensato caído no chão, derramando um pranto.

      — Me dê seu perdão, por favor! — ele suplicou. — Eu não me importo que você me bata e quebre todos os meus ossos. Sei que mereço… Juro que não vou reagir. Mas me perdoe.

      Balancei a cabeça em indecisão, sem palavras. Percebi que não odiava o Laerte. Uma estranho sentimento se apoderou de mim, quando me lembrei das palavras de Mateus.

      — Eu sei que tu está com dor no coração. Não era pra ser diferente, depois do que passou. Eu não sou muito letrado, sou um pobre caminhoneiro bruto, desconfiado, mas sei que seu coração está com dor e raiva, raiva do seu padrasto. O que eu te peço é que não deixe que esse ódio tome conta de ti. Perdôe. Vai te fazer bem.

      — Não sei se consigo.

      — Enquanto tu guardar esse sentimento ruim, não vai conseguir seguir em frente. Já tem muita gente cheia de ódio no coração no mundo. Seja a primeira a fazer a diferença. Faça esse mundo mais alegre. Tu é bailarina, assim como sua mãe, não é? Então! Toque os corações das pessoas com a sua dança. Dê seu sorriso mais bonito quando estiver dançando. E aí eu te juro, tu será a pessoa mais feliz do mundo.

      Não eram só palavras vazias. Estas tinham um significado, que só compreendi em parte.

      Eu não era a mesma pessoa de cinco anos atrás. Minha mãe sempre estaria viva dentro de mim e me olhando do céu. O câncer era só uma nota de rodapé. Ao olhar pra mim e ver por tudo o que passei, concluí que sempre venci, sempre me reinventei. O meu amor pela dança me ajudou a vencer.

      Laerte já estava pagando caro por tudo o que fez, ele perdeu tudo. Estava sozinho. Não há maior castigo para uma pessoa do que o remorso, a solidão e a culpa.

      A vida é muito curta para a gente guardar mágoa de alguém, num instante tudo acaba, e mesmo que os erros que cometi não se comparassem aos do Laerte, perante Deus erros são erros.

      Me aproximei ainda mais do homem que tanto mal me fez, e aos poucos, me lembrei de cenas da minha infância. De quando ele me levou nos braços para o hospital, por causa de uma febre. De quando ele me levava para a aula de balé. Um dia, existiu bondade nele e também carinho.

      — Laerte — ele levantou a cabeça lentamente, me olhando com atenção.

      Estendi minha mão a ele para que se levantasse. Pôs-se em pé após hesitar por alguns segundos e enxugou as lágrimas com o braço tatuado com o leão e as iniciais do nome dele e da minha mãe.

      — Eu te perdôo. — lágrimas brotaram dos meus olhos, começando a me lavar por dentro.

      Nem foi tão difícil como eu imaginava. Às vezes nos julgamos duros de coração, achando que não somos capazes de dizer essas palavras tão confortantes, nem de po-las em prática. Lá no fundo da gente, num cômodo trancado, sempre existe uma criança sorridente que um dia perdeu seu sorriso, e que espera que alguém ou alguma coisa nos devolva esse sorriso. Eu encontrei esse “alguma coisa”; todo esse tempo, eu só precisava perdoar.

      Laerte recomeçou a soluçar e não esbocei reação ao receber dele um abraço desajeitado.

      — Obrigado… Que Deus te abençoe por esse seu gesto tão bonito… Obrigado.

      Fechei os olhos, tirando sutilmente os braços que me envolviam. Dei um meio sorriso, indecisa quanto a retribuir ou não o gesto dele.

      — Vá em paz, Laerte — pedi com um meio sorriso. — Segue tua vida e não te faça mais nenhum mal. Ok?

      Ele assentiu e me deu as costas, mas voltou-se só pra dizer:

      — Vou embora de Ribeirão Preto hoje mesmo com meu grupo… Nunca mais você vai me ver, Danny. Eu prometo que nunca mais vou te procurar. Adeus. E obrigado.

      — Adeus. Se ainda for possível, Laerte...,seja feliz.

      O homem enxugou as lágrimas, começou a andar lentamente, mancando por causa do chute que tomou do meu pai e se fundiu com a escuridão da noite.

      Meus instintos me diziam que eu nunca mais o veria, e era bom que fôsse assim. 

      Eu tinha feito as pazes com o passado, e agora me sentia livre para voar. Era uma garota sem disfarces. Sem uma couraça de autosuficiencia.

      Recebi um abraço do meu pai e um sorriso brincou em seus lábios. Ele não era muito de externar emoções, seu carinho por mim era do tipo distante, porém também uma forma sincera de amor. Sem muitas palavras.

      — Acho que agora posso ir tranquilo pra São Paulo.

      — Pode sim, pai — respondi sorridente. — Mesmo porque já sei me cuidar sozinha.

        Meu pai concordou e deu um beijo na minha testa, me dando outro abraço.

       Entramos no hostel abraçados um ao outro, e como eu esperava, todos os hóspedes me olharam com estranheza. As lágrimas ainda brotavam dos meus olhos, dando margem à todo tipo de suposição.

      — Você tá bem, Danny? — Valéria foi a primeira a se levantar do sofá.

      — Por que você tá chorando? — Marcos perguntou quase ao mesmo tempo que ela.

      Sorri com ternura para eles, pondo uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Respondi com um aceno que sim e me debrucei na cama, dando continuidade a uma nova rodada de lágrimas.

      Mas eram lágrimas de libertação.

















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