Capítulo 18

          Danielle

      Tentei ficar o mais distante que pude de Micaela e de suas amigas antes do início da aula de pontas. Por ser uma aula feminina, os garotos ficaram fora da sala, mas estávamos sendo observadas por eles através do vidro transparente. 

      Não só a Duda ou a Nicole, outras garotas também perguntaram se eu estava legal. Tirando o fato de eu estar me sentindo suja e vulgar, tudo ótimo. Só faltava mesmo eu ir fazer necessidades e achar escrito na porta do banheiro elogios, tipo: “Danny, sua vaca!” 

      Me esforcei para a professora Teodora não perceber qualquer indício de choro no meu rosto. Duda, que já a conhecia de muitas aulas de pontas que havia feito com ela, me preveniu que ela era um amorzinho, apesar de ela ter uma cara de séria, e olhava suas alunas diretamente nos olhos. Ela era muito jovem. Uma moça de estatura média, magra, de olhos verdes e traços indígenas. Vestia meia calça preta por cima do collant azul escuro e calçava sapatilhas de ponta.

      Se as meninas pensavam que eu ficaria de cabeça baixa, que eu iria chorar feito criança na aula de pontas, só pra que sentissem pena de mim, é porque não me conheciam. Eu podia ser tudo. Calada, mas não uma fraca. Uma das minhas qualidades era me reinventar, e nada tiraria minha alegria de uma aula que eu adorava.

      Me sentei no chão de linóleo, tirei minha ponta por um momento, só pra enrolar os dois primeiros dedos com esparadrapos novos. Apertei a raiz da unha de levinho, com o indicador, e doeu.

      — Droga! — gemi.

      Minhas unhas estavam muito castigadas. Encravadas, partidas ao meio e pretas. Uma delas estava quase se desgrudando.

      Muita gente me perguntava, pessoas de fora do balé: “Danny, você não sente dor nos pés quando dança?” Eu respondia: “Claro que eu sinto, afinal, tô viva”. É um pouco complicado explicar para as pessoas que as dores são amigas das bailarinas. Quando a gente dança no palco, acaba esquecendo a dor; a gente se transporta. Eu podia estar sentindo meus dedos latejarem apertados contra o chão, mas meu amor pela dança era tão grande, que eu me entregava à ela e passava por cima de tudo, sorrindo e vivendo esse amor. Que pra mim, era o único que existia.

      Fiz os retoques necessários nos dedos em estado mais crítico, botei a ponteira de silicone, calcei a sapatilha, e por fim, amarrei os laços de cetim, arrematando com um laço bonitinho. 

      Só para não perder o hábito, fiz um detiré, primeiro com a perna direita, depois com a esquerda, e caminhei até a barra na ponta dos pés, ficando atrás da Duda.

      Micaela e Miyuki cochichavam alguma coisa, enquanto olhavam pra mim. Ainda bem que eu não era de guardar raiva de alguém.

     — Já se aqueceram? Vamos começar a aula — disse Teodora, depois acoplar o pen drive no som. Ela trocou as pilhas no controle remoto, veio para o centro da sala.

      — Elevés!

      Nos viramos ao mesmo tempo de frente para a barra, com os pés em paralelo.

      — Braços em bra bas. Sete! Oito!

      A música começa a tocar. Teodora passa caminhando em paralelo às várias barras da sala, passando orientações às meninas, dando palmadas nos bumbuns das que estavam mal alinhadas, enquanto alternavámos subidas e descidas. 

      Os elevés săo movimentos parecidos com os de subir uma escada. O objetivo é forçar o colo de pé.

      Ao fim do exercício, Teodora nos deixou de castigo no balance por longas duas contagens de oito tempos, nas pontas, que é uma verdadeira tortura e um teste de resistência. Meus tornozelos tremiam sob o peso do meu corpo, meus músculos pegavam fogo. Duas ou três garotas não aguentaram até o final da contagem.

      — Você não contou nada pra gente— disse Duda, com cara fechada. Teodora corrigia a Rafa, numa das barras no centro da sala.

      É mesmo, eu não tinha contado da minha transa com o Vítor Hugo. Tinha sido tão bom, e um momento tão nosso, que não vi porque mais gente deveria saber.

      — Eu juro que ia contar, desculpe.

      — Mas quem contou foi a Micaela.

      — Não precisa lembrar.

      — E foi bom?

      — Foi ótimo.

      Dei um sorriso, e ao olhar para o vidro, vi os meninos, com latas de refrigerante nas mãos, obviamente comentando entre si sobre as caretas de dor que fazíamos. Vítor Hugo estava entre Angel e Ítalo, o partner da Duda nas apresentações de duo. O aluno da Agatha estava de braços cruzados, atento. Sério.

      Queria que ele entendesse que eu estava bem, por isso, não tinha porque me olhar com uma cara de culpa pelo que havia acontecido na cantina. Antes que Teodora se voltasse para nós, pisquei para ele, sorrindo. Acenei com os dedos.

      — Vamos lá, meninas? Rotação en dehor e en dedan!

      Meu intervalo para o almoço seria curtíssimo, por causa dos primeiros ensaios supervisionados pelo Amaral. Será que ficaria bom?

      Françoise nem sempre foi a primeira bailarina do Ballet da Cidade de Nova York. Como a bailarina que interpretaria a Odette se machucou há dois dias de um espetáculo em Chicago, ela foi escolhida para dançar no lugar da colega. A ruiva de sangue quente teve de ensaiar todos os passos, do Cisne Branco e também do Cisne Negro, e foi arrasadora. Nunca mais perdeu o papel principal.

      Se mamãe soube aproveitar a chance surgida graças à saída de uma colega, eu também podia.

      — Relaxe os ombros, Danielle — Teodora tocou minha clavícula direita com o indicador; agora não eram só minhas panturrilhas que doíam, meus pés também, à medida que eles giravam nas pontas, ora pra dentro, ora pra fora. 

      E pra ficar melhor, mais duas contagens de oito tempos no balance. Aff!

      Vi os meninos sorrindo com sadismo, até o Vítor Hugo, e senti ódio por eles não terem que calçar pontas.

      Nos exercícios de centro, com as barras móveis já recolhidas no canto da sala, dancei com mais desenvoltura.

      Na coda de Lago dos Cisnes, giramos piquės em volta da sala. A música parou bem no momento em que fiquei de frente para os meninos.

      Meus olhos se detiveram nos de Vítor Hugo, me aproximei, toquei o vidro com as palmas das mãos. Ele fez o mesmo. Nossas palmas se tocaram, descreveram círculos. O sorriso dele me deu uma estranha sensação de paz, que eu não sabia descrever, mas que fazia meu fascínio por ele só aumentar.

      Fomos inclinando nossas cabeças, bem devagarinho, até tocarmos o vidro com a cabeça.

      Então, fechei os olhos.

      Ao abri-los, eu estava junto com ele, seu corpo colado ao meu.

      Mas queríamos estapear um ao outro.

      Nunca imaginei que alguém pudesse dizer tantos palavrões quanto Carlos Amaral teve capacidade de dizer em apenas vinte minutos de ensaio. Já era a terceira tentativa que Vítor Hugo e eu fazíamos da cadeirinha. Na primeira, por muito pouco ele não me derrubou no chão. Eu reclamei que ele não me segurou com firmeza, mas o garoto se defendeu, dizendo que eu é que havia amolecido no ombro dele, provocando o desequilíbrio. Na segunda, a perna dele dobrou e caímos nós dois. E a terceira foi uma repetição grosseira da primeira tentativa.

      — Onde vocês dois estão com a cabeça? — Carlos explodiu. — Acha que temos tempo abundando pra desperdiçá-lo assim? O espetáculo é domingo, caralho! Porra!

      Levantei o indicador pra me defender, e prontamente o abaixei ao receber uma carga de fúria em forma de olhar cortante. 

      — Não diga nada. Só eu falo —  como se ele fechasse um zíper na minha boca.

      — Danielle, o seu parceiro é forte, mas você não espera que ele faça tudo sozinho, não é? Não desmonte quando ele te erguer. E esses braços acima da cabeça, são uma terceira ou um coraçãozinho? — para ilustrar, ele fez a posição de braços com as mãos exageradamente desmunhecadas. Isso me irritou e muito.

      Claro, eu era a culpada. A bailarina é sempre a culpada.

      Olhei de canto para um Vítor Hugo irritante, rindo baixinho. Muito engraçado. Que vontade de dar um soco no queixo dele.

      — Outra coisa. Ponham mais sentimento. Se entreguem. Vocês são um casal, não são? Não estão apaixonados um pelo outro?

      Meus olhos quase saltaram das órbitas; Vítor Hugo e eu olhamos um para o outro, confusos.

      — Não estão apaixonados? Odette e Siegfried não se amam?

      Ah, sim. Claro.

      — Vamos esclarecer. Esse pas de deux conta uma história de amor entre um príncipe e uma princesa transformada em cisne por um bruxo. Ela precisa de um amor verdadeiro para quebrar o encanto e voltar a ser humana, e se entrega de corpo e alma à esse amor que ele também sente. Além de amor, existe esperança. Eu quero que vocês passem isso para o público, mas sem sorrirem. Lago dos Cisnes não tem sorrisos.

      Olhei para o chão, depois para Carlos, por último para meu parceiro.

      — Tenta fazer direito agora — este exigiu, e a audácia dele fez meu sangue evaporar.

      — Essa frase é minha — sibilei.

      Retomamos o ensaio. Estávamos nitidamente sem inspiração alguma, bravos um com o outro, culpando-nos mutuamente pelo ensaio ruim. Não tem um chavão que diz que não se deve misturar amizade com negócios? Devia ter um para amizade e dança. Vítor Hugo era arrogante, presunçoso, metido, tudo nessa ordem.

      No giro de pirouettes, a mão dele subiu mais do que o necessário e os dedos dele cutucaram minhas costelas de propósito, me machucando. Em pensamento, soltei um palavrão.

      No pescado, a mão boba dele deslizou pela minha coxa e tocou  minha intimidade. Será que o Amaral não estava vendo que Vítor Hugo estava fazendo de propósito?

      — Pra ficar ruim, precisa melhorar muito ainda — sentenciou o atento coreógrafo, balançando a cabeça negativamente, o desânimo nítido no rosto.

      Pus minhas mãos na cintura, olhei para o teto suspirando aborrecida. Vítor Hugo nos deu as costas, foi ao canto, e se deixou cair sentado. Ele também não ficou contente com nosso desempenho.

      Brincamos de ter cinco anos de idade, mostrando a língua um para o outro. Por sorte, Carlos não viu. Esse tipo de malcriação é inaceitável em qualquer ambiente de estudo.

      — Variação de Cisne Branco.

      Assenti positivamente, fiz a pose inicial. Mesmo nunca tendo dançado esse balé de repertório antes, eu o ensaiava sempre na Letícia Ballet, por isso ficou legal. Carlos não parou tanto os ensaios.

      Vítor Hugo e eu selamos as pazes com um high five, tão logo o coreógrafo deu por encerrados os trabalhos do dia.

      — Quer sair um pouco, antes de voltarmos para as marcações de palco? — Vítor Hugo propôs.

      — Quero, sim.

       Tomei um banho, vesti o conjunto da Promoarte (calça de moletom, camiseta), calcei meu tênis Nike. Fiz um rabo de cavalo, passei um gloss labial sabor chocolate e sai. Vítor Hugo me esperava no corredor, e seu visual era bem despojado. Camisa polo azul, bermuda jeans e um par de tênis brancos. E um par de óculos de sol no alto da cabeça.

      — Virou turista agora? — brinquei.

      — Cansei de usar esse uniforme sem graça — ele deu de ombros.

      Saímos da escola caminhando lado a lado. Nossa raiva mútua tinha passado. Amanhã ensaiaríamos de novo, e (vamos pensar positivo, vai) faríamos melhor.

      Passeamos pelo Jardim Botânico, tiramos fotos e selfies em frente ao chafariz da praça, e jogamos pipoca para os pombos. Estes eram ariscos, levantavam vôo quando tentávamos pegá-los. Devia ser tão fofo carregar um pombinho.

      O tempo estava mudando em Ribeirão Preto. O sol continuava abrasivo, mas uma coroa embranquiçada o envolvia. O céu se revestia de um cinza claro aos poucos, reforçando a previsão de que iria chover. Falavam até de tempestade ou ciclone extratropical.

      Vítor Hugo já tinha terminado seu sorvete de morango enquanto eu ainda tomava o meu.

      Entramos numa viela estreita, pavimentada de pedras retangulares. Tínhamos conversado sobre tudo um pouco, até futebol e escola. Vitor Hugo odiava Matemática e Física, e era ótimo em Educação Física. Física, Biologia, Química e Sociologia eram matérias que eu ainda iria conhecer, já que tinha saído do nono ano do Fundamental.

      Então, do nada, Vítor Hugo segurou minha mão, me fez parar. Olhei pra ele intrigada, e de imediato minhas bochechas esquentaram. As palpitações do meu coração aumentaram.

      Ele entreabriu a boca, ofegante.

      — Danny, eu…

      Incitei-o a continuar, levantando um pouco meu queixo.

      — Esquece. 

      Ele abraçou minha cintura, pressionando meu corpo contra uma parede. Me entreguei ao seu ataque, sem resistir. Passei meus braços por sobre seus ombros.

      Meus olhos se fechavam aos poucos ante a aproximação dos lábios dele dos meus.

      A língua dele percorrendo cada canto da minha boca, se arriscando a se cortar nas pedrinhas do meu aparelho, brigava com a minha língua.

      Era errado, indecente, sim, porém bom. Os braços dele me apertaram com mais força. Puxei sua cabeça com uma das minhas mãos.

      — Vítor Hugo… — balbuciei, sentindo minha xoxota já lubrificada.

      Nesse instante, nosso fogo foi apagado por uma torrente de água gelada, que caiu do alto. Nos afastamos prontamente. Minha roupa ficou  encharcada, a de Vítor Hugo também; uma lagoa se formou aos nossos pés.

      Olhamos juntos para o alto e fiquei impactada com o que vi.









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