Carta 1: De Rosa ao Rei
Dia 1 do mês de Ghelach. Ano 119 pelo calendário de Morat.
Majestade,
Se tivesse ousado passear em meio às ruas de Vetrúnia, entenderia o significado da palavra caos em sua forma mais ampla e diversificada. Não que a cidade fosse um exemplo de organização, com suas moradas jogadas de qualquer maneira sobre o solo e ruas que são tão estreitas que mal permitem a passagem de duas pessoas lado a lado. Porém, quando um inusitado cortejo acompanhava uma jaula – cuja prisioneira despertava paixão e ódio em igual intensidade – parecia que cada morador vetrunês decidira estar presente, com suas vozes a se misturar e seus ombros a se chocar em um fluxo intenso.
De certa forma, compreendo o que havia na mente deles. Afinal, não é todo dia que se tem uma execução tão teatral, em magnitude e organização.
Espero ter sido discreta, enquanto acompanhava a multidão; munida com aquela velha capa que sempre encobre meu cabelo — tão chamativo em meio a estes tons opacos de sua espécie. Bem sabes que vermelho assim não existe para os teus, não tão exuberante e vivo como a pétala da flor que me dá nome. Também não é necessário dizer que caso não estivesse com o tecido grosso e escuro, sem adornos e um tanto surrado, eu seria prontamente reconhecida pelo que sou. Tudo o que menos queria, ao menos naquele instante, era esse tipo de atenção.
Meu rei, espero que ainda me conheças o suficiente para saber que não sou a favor desse tipo de deleite, de tratar a morte de outra criatura como algum espetáculo. Sempre acreditei que por mais terrível que seja a criatura – e eu bem sei o quão vil aquela bruxa era – não há bom senso em utilizar-se de sua execução para banhar o povo em sangue e transformar a morte no ápice de uma cena de horror.
Sei que isto não cabe a mim decidir, são teus costumes, teu povo, tua execução e, apesar de não me parecer justa tal depreciação com o perecer de qualquer ser, sei que há algo de estranho na colocação. Soa paradoxal, não é? O pedido de justiça na execução de criatura tão injusta. Uma bruxa, como chamam em tua língua.
Mas antes ela fosse somente uma bruxa! Aquela cujo nome jaz gravado em brasa na minha mente.
A condenada ultrapassou quaisquer limites, imergiu-nos em caos, distorceu a paz frágil que construímos com tenebrosos sacrifícios. Seu nome está associado à sua imagem, deixando uma marca pelo mundo. Uma marca tão profunda quanto aquelas deixadas pelo vulcão Morat em seus tempos de fúria. Um corte que, assim como eu, todos deviam querer esquecer.
Talvez esteja a se perguntar: se eu não aprecio execuções deste porte, por que estou aqui? O risco que tomo ao sair de meus domínios não vale, no primeiro momento, a execução. Mas tenho uma resposta: aquela nossa longa e singular história, para qual poucos tem o tempo de se ater. As aventuras que largamos em um baú no instante em que nos puseram coroas e fingimos esquecer.
Por causa do que passamos, a imagem da criminosa – cujo nome recuso-me a citar – só me daria alguma paz quando sua cabeça estivesse no chão, longe o suficiente de seu corpo para que nenhuma magia tenebrosa fosse feita, para que jamais pudesse ferir a qualquer um como outrora fez.
Foi com intento de ter esta perturbadora visão em minha mente que segui o povo, em um cortejo regido pelo resfolegar de cavalos e os cascos batendo sobre as pedras. Não houve momento em que não comentassem sobre o que ocorria, muitos se perguntavam, entretanto, quais os crimes da prisioneira.
Nenhuma sentença foi dita. Nada além das ordens gritadas para que a levassem ao palanque. Nós dois sabemos o que ela fez, outros tantos também, e é uma lástima que teu povo – ignorante quanto aos outros seres que habitam esta ilha – não possam sabê-lo ou não venham a acreditar em nós.
Assisti a prisioneira subir degrau a degrau, com grilhões em seu pulso e um sorriso mesquinho que gelava minha alma. Posso jurar-te, sobre qualquer livro de teus sacerdotes, que os olhos de tal bruxa se fixaram em mim um segundo antes da foice baixar.
E não tive coragem para olhar o que tinha acontecido a seguir.
Sim, sou uma covarde.
Mas o sangue derramado nas batalhas que vi já foi o suficiente para me banhar durante toda uma vida.
Creio que entendas.
Saudosamente,
Da tua Rosa.
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