Capítulo Um
Crysallium. Esse era o nome da única cidade que ainda funcionava como uma em nosso continente. Todo o resto havia virado ruínas ou refúgio para aqueles que não eram controlados pelo cristal. A diversidade das paisagens que existia em nossas terras agora dava lugar apenas a um extenso deserto e a pequenas áreas florestais que sobreviveram à Grande Guerra.
E já fazia cem anos que nosso povo vivia nesse inferno.
Não sabíamos de fato como tudo aconteceu, mas dizem as histórias que Orochimaru, o Grande Imperador, conquistou o continente inteiro após travar uma batalha intensa contra forças que se opuseram à sua liderança. Um dia, Orochimaru encontrou um cristal poderoso no fundo de uma antiga caverna, ao qual ele deu o nome de crysallium. Mas o objeto não era somente uma pedra preciosa, era uma pedra com poderes mágicos, capaz de influenciar mentalmente quem quer que seja e dar vida eterna ao seu portador. Orochimaru se aproveitou da descoberta para, enfim, tomar o controle de tudo e de todos e viver para sempre, tornando-se o Imperador incapaz de ser questionado. Quem possuía resistência ao poder do cristal tinha três caminhos para seguir: morrer, submeter-se ao controle mental forçado ou fugir.
E é claro que eu escolhi a terceira opção.
Fugi da minha pequena vila de sobreviventes aos quinze anos, quando ela foi descoberta, invadida e meus pais, mortos. Sobrevivi quase um ano sozinha, e fiz o que pude para não morrer nesse mundo hostil onde o cenário da guerra se espalhava por todos os cantos. Minha vida tomou um rumo diferente quando fui encontrada à beira da morte por desidratação e fome no meio do deserto por dois garotos que vieram a ser meus melhores amigos e companheiros: Sasuke Uchiha e Naruto Uzumaki.
Eles me levaram até o seu esconderijo, atravessando o deserto comigo em suas costas e pedindo para que eu não me entregasse à morte, não ainda. Naquele dia, minha consciência sobre o que ocorria ao meu redor estava tão ínfima que nem me dei conta de onde estava assim que chegamos sãos e salvos no acampamento.
Me deram água, me deram comida. Hinata e Ino, duas das garotas que conheci, foram as responsáveis por cuidarem de mim. Elas me deram um belo banho de água aquecida e me emprestaram roupas limpas para que eu vestisse. Descobri que eles eram um grupo de resistência, formado por pessoas que também não sucumbiram ao poder do cristal. Eram em torno de vinte pessoas, a maioria sem nenhum membro da família sobrevivente, como eu. Naruto, o líder, me convidou para se juntar a eles sem nenhuma hesitação.
Naquele dia, eu chorei. Nunca havia agradecido tanto aos céus pela sorte que tive de ainda estar viva.
E isso foi há quatro anos atrás.
Depois do dia em que ganhei uma nova vida, aprendi diversas coisas com eles. Aprendi a caçar, lutar, aprendi a saquear fábricas tomadas pelos soldados do Império sem que eles sequer me vissem entrando e saindo. E o que eu julgava mais importante: aprendi o que era amar de verdade.
Sasuke e eu havíamos engatado um romance há pouco mais de um ano. Convivíamos bastante tempo juntos e sempre ficávamos na mesma equipe. Ele se declarou para mim após sobrevivermos a uma missão arriscada, em que quase perdemos a vida. Aquilo me corroeu por dentro, e foi aí que descobri que eu também o amava e não queria perdê-lo por nada nesse mundo. Sempre que íamos em uma nova missão, meu coração ficava apertado, com medo de que algo pudesse acontecer com qualquer um de nós.
— Tem certeza que a missão é segura? — perguntei a ele pela milésima vez. Iríamos partir em um novo trabalho cedo pela manhã. Nossos estoques de comida estavam acabando e iríamos saquear um grande depósito de alimentos que havíamos descoberto recentemente.
Senti os dedos de Sasuke afundarem em minha cintura, puxando-me mais para si enquanto eu me aninhava no calor de seu peito. Ele encarava o teto do pequeno alojamento com seriedade.
— Vai dar tudo certo, prometo — ele respondeu um tempo depois, mas eu não sabia se estava tentando me convencer ou convencer a si mesmo do que acabara de dizer. — Sempre dá certo.
Ergui meu corpo e inclinei-me para cima dele, encarando seu rosto bem de perto.
— E se essa for nossa última noite juntos?
— Não exagere, minha linda. — Ele afastou meus cabelos para o lado com gentileza. — Ainda teremos muitas noites juntos.
Eu realmente queria acreditar em suas palavras. Toda véspera de uma missão era uma tortura para mim. Os piores cenários ficaram passando pela minha cabeça, e eu tentava bolar algum plano milagroso para que nenhum deles venha a se tornar realidade caso algum imprevisto surgisse. Sasuke sabia o quanto eu ficava ansiosa antes de um trabalho e sempre tentava aliviar minha tensão de alguma maneira.
Mas, naquela noite, a minha preocupação parecia mais forte do que o normal.
— Estou com um mal pressentimento sobre isso, Sasuke... — sussurrei, receosa.
Sasuke inverteu nossas posições no fino colchão. Se antes eu estava por cima, agora era seu corpo robusto que estava sobre o meu. Deu-me um breve selinho ao mesmo tempo em que acariciava minha bochecha.
— Vai ficar tudo bem, Sakura. Você só está nervosa. — Beijou-me outra vez. — Não deixarei que nada aconteça... Agora, preciso aliviar sua tensão.
Ele deu um sorriso carregado de malícia, e eu não consegui conter o meu. Nossos lábios se encontraram novamente, dessa vez, com uma intensidade tão grande que era fácil nos perdermos na imensidão um do outro.
Sasuke sabia muito bem como fazer com que eu me esquecesse das minhas preocupações pelo resto da noite. E não demorou muito para que não houvesse mais sequer um pedaço de tecido impedindo o contato de nossa pele.
Fechei os olhos e um ribombo tomou conta do ambiente.
Estávamos cercados. A tentativa de invadir o depósito próximo de Crysallium havia dado terrivelmente errado. Os soldados imperiais estavam mais preparados do que imaginávamos, e apesar do nosso ataque gerar uma imensa confusão, não éramos páreos para o grande número que havia ali.
— Hora de recuar, pessoal! — Naruto deu a ordem. O time um, composto por Hinata, Ino, Shikamaru, Gaara, Chouji, Shino e Neji estava sob o comando de Naruto, O time dois estava sob as ordens de Sasuke, e nele estava eu, Tenten, Sasori, Kiba, Rock Lee, Sai e Shion.
— Sakura, vá com eles, eu vou atrasá-los. — Vi Sasuke pegando sua arma e uma granada de fumaça.
— Ficou maluco? Não vou deixá-lo sozinho! — Segurei firmemente as duas pistolas em minhas mãos. Estávamos olhando fixamente para a porta de aço do depósito, encarando os soldados que seguravam escudos em frente a seus corpos ao mesmo tempo que demandavam que nos entregassémos para o Império. Nossa única saída era pelo mesmo lugar que entramos – uma pequena janela que dava para uma extensa floresta onde podíamos desaparecer deixando pistas falsas.
O tempo parecia ter parado. Não tinha certeza do que deveria fazer e provavelmente acabaria morta, mas nunca sequer passou pela minha cabeça a possibilidade de abandonar Sasuke no meio de um confronto. Ficaria com ele até o fim.
Sasuke jogou a granada de fumaça em direção aos soldados que recuaram alguns passos para trás. Em poucos segundos, o depósito havia sido tomado por uma névoa densa e cinza, sendo difícil até mesmo de respirar. Graças a nossa preparação de meses, eu tinha o mapa mental daquele lugar inteiro em minha mente.
Senti seu braço puxando-me pela cintura e, num movimento rápido, Sasuke me beijou. Havia algo estranho e diferente naquele beijo. Era carregado de medo, insegurança e preocupação. Era um beijo de despedida.
Eu mal tinha percebido quando a maioria da nossa equipe já estava fazendo a evacuação, aproveitando a cortina de fumaça.
— Vá, é uma ordem — Sasuke disse assim que nossos lábios se separaram.
Senti um nó se formar em meu peito, mas não podia deixar que aquela sensação horrível me atrapalhasse naquele momento. Ainda assim, não consegui simplesmente aceitar aquela ordem.
— Sasuke...
— É uma ordem! — ele rosnou, voltando sua atenção para o portão. Os soldados imperiais aproveitaram a distração criada para tentar nos render por trás. — Saia daqui, agora!
Ouvi um disparo e um grito feminino. Shion havia sido baleada na perna não muito longe de nós. Hinata correu para tentar socorrê-la, mas um dos soldados surgiu e jogou-a no chão com violência.
— Hinata! — Naruto gritou, chamando pela namorada. Ele fez menção de correr até a morena, mas eu o impedi. Se Naruto fosse pego, seria o fim para o nosso grupo.
— Naruto, temos que ir! — eu disse, apesar da minha própria voz soar hesitante. Eu não queria ir, mas não podíamos perder mais ninguém.
Naruto se desvencilhou de mim, jogando-me no chão. Seu rosto era de puro ódio. Ele estava prestes a dar mais um passo em direção à Hinata quando Sasuke se pôs na frente dele. Os dois conversaram algo incompreensível. A gritaria e o pânico haviam aumentado e eu já não sabia mais o que estava acontecendo. Quando me dei conta, já estava de pé, com Naruto me empurrando até a janela do depósito junto com outras pessoas que conseguiram escapar das garras dos soldados.
Eu olhava para trás a todo momento, na esperança de ver Sasuke nos seguindo. Mas a única coisa que vi foi a cena do homem que eu amava sendo derrubado e preso com um par de algemas em seus pulsos.
O clima era o pior de todos. Ninguém ousava dizer uma palavra sobre o que havia acontecido. Havíamos perdido cinco de nossos companheiros: Hinata, Neji, Shion, Sasuke e Chouji. Depois de mal conseguirmos escapar, corremos pela floresta e atravessamos o único rio da região. Shikamaru ficou encarregado de apagar nossos rastros e demorou um pouco mais de tempo até se juntar a nós no ponto de encontro, um moinho antigo e abandonado. Seguimos para nosso acampamento, que foi mais algumas horas de caminhada em completo silêncio. Naruto estava visivelmente devastado, e eu também. A diferença é que eu conseguia esconder melhor do que ele.
Quando chegamos no acampamento, Temari, Kakashi e Tsunade nos receberam com lágrimas nos olhos e um abraço apertado. Não precisou dizer muito para que eles soubessem que algo havia dado errado. Não fui eu e nem Naruto que os informaram sobre o que havia acontecido. Ino e Shikamaru explicaram tudo em detalhes aos mais velhos.
— Nós vamos trazê-los de volta — Kakashi afirmou com uma convicção genuína. De que maneira iríamos trazê-los de volta? Era impossível!
— Isso se já não estiverem mortos à essa altura — Sasori comentou, e eu senti meu sangue ferver de raiva. Jamais havia imaginado a possibilidade de estarem mortos, como ele pôde supor isso com tanta facilidade?
Sem conseguir me segurar, minha mão foi de encontro ao rosto de Sasori, deixando-lhe uma bela marca avermelhada em sua bochecha. Ele me olhou com espanto, como se não soubesse o motivo do tapa.
— Você nunca mais diga isso! Eles não estão mortos! — Pela primeira vez, senti o calor das lágrimas rolando pela minha face. Havia segurando meu choro por tanto tempo que acabei atingindo meu limite.
Dei meia-volta, sem tempo ou qualquer interesse em ouvir algo saindo da boca de Sasori novamente. Queria ficar sozinha, apenas eu e meus pensamentos. Segui até um pequeno lago próximo e ajoelhei-me na beirada, enfiando minhas mãos na água gelada e molhando meu rosto em seguida.
Encarei o céu estrelado, deixando as lágrimas caírem uma atrás da outra.
Sasuke era a pessoa mais importante que eu tinha, e agora ele não estava mais aqui.
Idiota, idiota! Por quê?
Não conseguia me conformar com aquilo. Se ele achava que eu iria ficar bem sem ele, estava muito enganado. E depois de sentir meus olhos inchados pelo choro, decidi que iria atrás dele sozinha. Jamais iria parar de procurá-lo.
Coloquei-me de pé, sentindo minhas pernas dormentes. Queria trazer Sasuke de volta, mas, por onde começaria? Não tinha noção de onde ele estaria ou para onde foi levado. E se eles me matassem antes mesmo de encontrá-lo? E se... E se...
Senti algo travando meu corpo. Não conseguia andar, não conseguia dar um passo adiante. A única coisa que conseguia fazer era chorar. Eu estava travada pelo medo de nunca mais ver Sasuke outra vez.
— Sakura? — Levei um pequeno susto ao ouvir Naruto me chamar. Esfreguei as mãos em meu rosto, limpando as lágrimas restantes.
— Sim?
— Você... está bem? — perguntou, mesmo sabendo a resposta. Permaneci de costas para ele, não queria encará-lo naquele momento tão complicado.
— Vou sobreviver. — Funguei e cessei o choro, tentando convencê-lo de que aquilo era verdade. — E você?
— Como se minha vida tivesse perdido o sentido.
Sim, eu entendia perfeitamente o que ele queria dizer, porque era assim que eu me sentia também.
— Parece que estamos no mesmo barco então — comentei.
Ficamos em silêncio. Conhecendo Naruto, tinha a certeza de que ele iria começar a se culpar tanto por Hinata quanto pelo Sasuke e os outros membros perdidos. Eu não queria que ele carregasse um peso maior do que poderia suportar.
— Não se preocupe, Naruto. Não tenho nenhum tipo de rancor contra você. — Olhei para o loiro, finalmente conseguindo encará-lo. Ele suspirou pesadamente.
— Me perdoe, Sakura. Não queria que nada disso tivesse acontecido.
— Eu sei, eu sei. Não foi culpa sua, eles estavam preparados demais, era quase como se...
Parei de falar. De repente, um choque de realidade atingiu-me naquele mesmo instante. Realmente, os soldados pareciam mais atentos, mais preparados, e estavam em um número maior do que o esperado. A missão que era para ser fácil acabou se tornando um completo caos em questão de segundos.
Isso só pode significar que...
— Sakura? — Naruto chamou minha atenção. — O que houve?
— Um espião, Naruto. Temos um espião entre nós. — Os olhos do loiro arregalaram-se de surpresa. — É a única explicação. Havia soldados demais naquele depósito, isso não é normal.
— Está dizendo que alguém nos traiu?
— É muito provável. Eles já estavam esperando para nos emboscar no depósito, por isso levaram Sasuke e os outros! Alguém deve ter vazado nossos planos.
Eu andava de um lado para o outro enquanto minha mente aos poucos encaixava as peças. Será que era mesmo possível ter um traidor entre nós? Não queria acreditar, mas era o que mais fazia sentido no momento.
Naruto ficou quieto, analisando minhas palavras.
— É apenas uma teoria — continuei. — Devemos tomar mais cuidado daqui para frente, ok?
Sabia o quanto abalado Naruto estava, e fazê-lo se preocupar com a hipótese de um espião entre nós em um frágil momento como esse poderia desencadear uma onda de fúria incontrolável.
— Vamos ficar atentos — disse ele por fim. — Irei trazê-los de volta, Sakura. E eu lhe garanto que matarei esse traidor com minhas próprias mãos assim que o encontrar.
Abracei-o com força, numa tentativa de acalmá-lo nem que fosse por um momento. Nós não podíamos perder a cabeça, não agora.
— Nós vamos, Naruto. Nós vamos trazê-los de volta.
A manga de minha camiseta umedeceu com o pranto de Naruto em meu ombro. Naquela noite, eu havia perdido tudo, mas acabei ganhando algo que seria muito especial: uma nova esperança.
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