Capítulo Seis
— Vai, me dá uma surra — Naruto falou, me encarando com Sakura em meus braços.
— Como é que é? Ficou maluco?
— Vamos, preciso apanhar ou não vão acreditar na minha história quando eu voltar sozinho para o esconderijo.
— Espero que não esteja querendo me colocar como traidor — respondi, imaginando o que Sarada pensaria de mim se esse fosse o caso.
— Qual é, claro que não! Confie em mim — disse ele, com um sorriso confiante.
Deitei Sakura na grama fria com gentileza. Naruto tinha razão. Se quiséssemos prosseguir com o plano, levantaria muitas suspeitas se ele voltasse para casa ileso.
Quando ele me levou de volta para o moinho abandonado, havíamos pensado em um jeito de acabar com tudo isso de uma vez por todas. Mas, para isso, Sakura precisaria ser levada até o palácio. E nós dois sabíamos que ela nunca iria aceitar entrar naquele ninho de cobras por conta própria, principalmente por causa de Sarada.
Sarada foi um dos motivos pelos quais tive certo receio de aceitar a ideia de Naruto. Eu não queria que algo desse errado e ela acabasse sem nenhum dos pais. No entanto, quando Naruto me contou que avistou patrulhas do Império nos arredores do alojamento, eu percebi que seria mais seguro para Sarada se Sakura não estivesse por perto, ou eles iriam rastreá-la até sua moradia. Isso poderia causar uma tragédia que eu estava disposto a evitar a qualquer custo, mesmo que Sakura passasse a me odiar pelo resto da vida.
Pensei e repensei diversas vezes sobre trazer Sakura para o palácio. Eu não sabia exatamente o que Orochimaru queria com ela, mas sabia que ele não iria matá-la, caso contrário, teria ordenado para que eu a matasse em vez de trazê-la viva. Mesmo assim, precisava garantir ao menos a sua segurança e integridade física. Teria que reivindicar Sakura para mim e convencê-lo a deixá-la em minhas mãos. E era em momentos assim que eu agradecia por ser o preferido do Imperador.
Ser aliado de meu maior inimigo tinha suas vantagens, no final das contas.
Naruto deixou que eu o socasse diversas vezes até que o sangue começasse a sair de seu nariz.
— Já chega, ou vou acabar te arrebentando de verdade — falei, massageando a mão que também doía pelos golpes.
— Eu poderia aguentar muito mais — Naruto disse, em tom de deboche — É só isso que te ensinaram por lá?
Revirei os olhos. Estava sem tempo pra aquilo.
— Quando finalmente estivermos livres, vou te dar uma surra de verdade. — Peguei Sakura no colo, ajeitando-a em meus braços.
Naruto soltou uma risada alta.
— Mal posso esperar. — Ele cuspiu sangue no chão e apontou a cabeça em direção à Sakura. — Cuide dela por mim.
Isso era algo que ele nem precisava pedir.
— Cuide de Sarada por nós.
Ele assentiu e caminhou de volta até sua motocicleta ao mesmo tempo que pressionava o nariz com um pedaço de pano.
Entrei na escuridão da floresta, carregando Sakura até o carro militar que peguei emprestado mais cedo, com a desculpa de que iria checar uma atividade suspeita em um local um pouco distante. De fato, daqui até Crysallium demoraria um pouco mais de duas horas, e eu torcia para que o efeito do anestésico fosse o suficiente para manter Sakura dormindo até lá.
— Sempre soube que não me decepcionaria, Sasuke — Orochimaru disse, com um sorriso satisfeito no rosto. — Você realmente trouxe a Rosa do Deserto. Como a pegou?
— Uma armadilha.
Ele levantou-se do trono e veio em nossa direção. Sakura estava em meus braços, ainda desacordada. Havíamos acabado de chegar no palácio do Imperador, e Orochimaru foi chamado com urgência no meio da noite para nos recepcionar. Por causa do horário, não tinha muitas pessoas andando pelo local. Apenas nós três e alguns guardas de prontidão.
Orochimaru tocou em uma mecha dos longos cabelos róseos de Sakura. Tive que me controlar para não afastá-la dele por impulso, não queria que ninguém a tocasse. Muito menos alguém como ele.
— Sim, é ela mesma — confirmou, quase num sussurro. Parecia fascinado, e isso só me deixava mais aflito ainda. O que ele tanto quer com Sakura?
O que quer que fosse, eu daria um jeito de resolver.
— Majestade, gostaria de fazer um pedido — declarei, e Orochimaru arregalou os orbes dourados em surpresa. Era raro que eu pedisse alguma coisa, muito menos para ele.
— Pois diga, darei o que quiser como recompensa pelo excelente trabalho.
— Até mesmo a mulher que está em meus braços? — Arrisquei a pergunta.
Orochimaru abriu um largo sorriso. Parecia extremamente interessado no assunto.
— Ora, isso é uma novidade. — Ele passou pelo meu lado direito, dando uma volta completa ao redor de nós dois com um olhar de escrutínio. — Você está interessado nela?
— Sim.
— Acha ela bonita?
— Sim. Quero reivindicá-la como minha. — Se Sakura pudesse me ouvir, aposto que ficaria incrédula.
— Todas as vezes que lhe apresentei uma moça, você não mostrou interesse. Mas agora diz que gostou da mulher que cortaria minha cabeça sem pensar duas vezes. Que fascinante!
Merda, tenho que ser mais convincente!
— Não se preocupe, Majestade. Ela ficará no meu quarto como minha serva pessoal. Irei me responsabilizar por ela e ensiná-la boas maneiras que não sejam iguais a daqueles... rebeldes. — Pensei em todos os motivos pelos quais ele poderia aceitar meu pedido. — Com ela sob minha vigilância, não terá mais problemas com a Rosa do Deserto.
Orochimaru alisou o queixo liso, ponderando sobre meu pedido. Não tinha motivos para desconfiar de minha palavra, já que, na cabeça dele, eu era um de seus seguidores fiéis. Mesmo assim, uma parte de mim ainda tinha medo de que ele, no fundo, soubesse da verdade.
Seria o fim para nós dois.
— Você é meu melhor soldado, Sasuke. Vou aceitar seu pedido. Aliás, isso pode até facilitar as coisas. — Ele encarou o rosto de Sakura. — Afinal, eu preciso realmente de alguém para mantê-la sob controle.
Fiquei em silêncio, observando seu olhar de extrema presunção. Não era difícil imaginar que Orochimaru estava se sentindo vitorioso naquele momento. Porém, eu ainda não entendia bem o que ele queria dizer com aquelas palavras.
Ele continuou:
— Mantenha-na saudável, a única coisa de que vou precisar é do sangue desta mulher.
Senti um embrulho no estômago ao mesmo tempo em que várias coisas se passavam pela minha mente. Por que diabos ele precisava justamente do sangue dela? O que ele estava planejando que nem mesmo eu sabia?
— Estou dispensado? — perguntei, vendo-o dar as costas em direção à porta de saída da sala do trono.
O Imperador fez um gesto com a mão para que eu saísse, mas, subitamente, ele parou, virando o pescoço para nós.
— Ah, não precisa levá-la até a reabilitação. Em vez disso, traga-a até mim quando ela acordar. Kabuto cuidará do resto. — E então ele saiu da sala, acompanhado de outros guardas.
Soltei o ar com força, parcialmente aliviado. A parte mais difícil tinha passado, e fiquei contente ao saber que Sakura não iria precisar passar pelo processo cirúrgico de controle mental. Não que eu fosse permitir isso, mas seria muito mais complicado se o Imperador desse tal ordem.
Caminhei com ela em meus braços até o segundo andar, onde ficavam meus aposentos. A parte ruim é que eu dormia próximo ao quarto do Imperador e não conseguia sentir total segurança em deixar Sakura sozinha caso precisasse realizar alguma tarefa. A parte boa é que iríamos ficar juntos boa parte do tempo, e isso por si só causava uma certa ansiedade em meu peito. Relembrei todas as noites em que desejava estar com ela nos últimos anos, e quase não conseguia acreditar que, apesar das circunstâncias não serem as melhores, nós passaríamos todas as noites na companhia um do outro a partir de agora.
Isso é, se ela não me matasse antes.
Coloquei-a com cuidado sobre a cama e tranquei a porta, acendendo a lamparina na mesinha de cabeceira em uma luz amena. Removi suas botas e todas as armas escondidas que pude encontrar pelo seu corpo. Eram três facas no tornozelo, duas adagas na cintura e um canivete enrolado em seu braço ileso. Cobri-a com um de meus lençóis e fiquei admirando a suavidade que ela emanava enquanto dormia. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Como pode uma mulher tão pequena ser tão mortal?
Aproximei um dedo perto de seu nariz, só para garantir que ainda respirava normalmente. Do jeito que Naruto era, seria capaz de acabar errando a dose do anestésico sem querer. Graças aos céus, ela estava bem. Andei vagarosamente até a escrivaninha do lado oposto à cama. Tirei os frascos que estavam em minha bolsa e coloquei-os sobre a escrivaninha, analisando o conteúdo delas. Tinha que dar um jeito de roubar algumas seringas da ala médica e, por mais que eu detestasse a ideia, a melhor opção seria tentar pegar algumas na sala de Kabuto sem que ele desse por falta delas.
Estava planejando meus próximos passos quando ouvi o barulho da maçaneta girando atrás de mim. Olhei rapidamente para a porta no quarto, a ponto de ver Sakura quase abrindo-a por inteiro. Nossos olhos se encontraram, mas os dela queimavam em uma fúria jamais vista.
É, eu teria problemas.
Antes que ela conseguisse sair, corri em sua direção e puxei um de seus braços para trás, jogando-a na cama novamente. Aproveitei os segundos para trancar a porta e jogar a chave em cima da escrivaninha. Sakura viu, e num movimento rápido levantou-se da cama atrás da chave. Segurei seu braço outra vez, mas ela acertou um soco em meu maxilar com a mão livre. Ela se livrou do meu aperto em seu braço e correu até a escrivaninha, procurando com certo desespero a pequena chave num cômodo parcialmente iluminado. Balancei a cabeça, voltando ao normal depois do atordoamento sofrido pelo golpe. Caminhei sem fazer barulho e, enquanto ela estava distraída, prendi seus braços para trás e inclinei seu rosto de encontro à mesa. Sakura pode ser forte, mas em questão de força física, não era mais forte do que eu.
— Me solta! — rosnou ela, sem poder se mover.
— Sakura, vamos conversar!
— Não quero conversar, quero voltar para casa!
Ela lutava para se soltar, em vão.
— Eu posso explicar tudo, ok? Só preciso que você pare de tentar fugir. E de preferência que não me ataque outra vez.
Sakura arquejava devido ao esforço físico. Seus olhos verdes me encaravam de canto ao mesmo tempo que eu pressionava sua cabeça contra a escrivaninha. Prometi a mim mesmo que não usaria minha força contra ela, mas, naquele caso, era impossível. Eu precisava dar um jeito de acalmá-la.
— Vou te soltar, tudo bem? E então a gente conversa.
Ela apenas respirava fundo, sem dizer uma palavra. Aos poucos, parecia se acalmar, e eu lentamente comecei a diminuir minha pressão sobre ela. Soltei sua cabeça primeiro e os braços por último, me afastando logo em seguida. Ela ergueu o corpo devagar, massageando os pulsos onde eu havia apertado. Senti a culpa invadir minha consciência. A última coisa que eu queria era machucá-la.
Ela abaixou os olhos. Não me encarava diretamente.
— Tudo bem — ela respondeu, após um grande silêncio.
Ela deu um passo, e depois outro, passando por mim até o outro lado da cama. Notei que ela estava mirando nas facas que eu havia deixado no chão e pronta para pegar uma delas. Antes que ela fizesse outra coisa pior, agarrei-a pela cintura e a joguei na cama. Prendi seus braços contra o colchão ao mesmo tempo que meu corpo ficava sobre o dela. Sakura esperneava, tentando se soltar de alguma forma. Ela cerrou os dentes, encarando-me como se fosse realmente me matar.
— Sakura, fique calma! — falei, quase num sussurro. Não podia arriscar que nossa conversa pudesse ser ouvida do lado de fora se eu exagerasse no tom de voz.
Ela fechou os olhos e parou de fazer força. Quando os abriu novamente, estavam marejados. Sakura estava se controlando para não chorar.
— Sasuke... por favor, me deixe voltar. — Sua voz estava embargada em um choro entalado em sua garganta. — Não posso largar Sarada sozinha.
— Sarada vai ficar bem, não se preocupe. Logo nós vamos voltar, juntos.
— O que eu estou fazendo aqui, Sasuke? Me diga, por que fizeram isso? — perguntou, em um tom acusatório. Uma lágrima escorreu de um de seus olhos.
— Eu vou te contar tudo, mas preciso que você me prometa que não vai tentar sair, e muito menos me atacar. — Ainda podia sentir a dor latejante em meu maxilar. — Por favor, Sakura.
Nós ficamos um tempo em completa quietude, apenas sustentando o olhar um do outro. Sakura respirou fundo mais uma vez.
— Eu prometo. — Ela cedeu.
Soltei seus braços e saí de cima de seu corpo, sentando-me na cama ao seu lado. Apesar da promessa, permaneci atento a seus movimentos. Sakura quase não se moveu, a única coisa que fez foi limpar as lágrimas de seu rosto. Comecei a contar a ela desde o início, quando o plano era apenas uma mera ideia na minha mente e de Naruto. Contei sobre o perigos dos soldados e que seria questão de tempo até encontrarem o rastro dela e o esconderijo. Demorou um pouco, mas consegui convencê-la de que era mais seguro tanto para ela quanto para Sarada e os outros que ela ficasse aqui por um tempo, pois assim Orochimaru cessaria a busca e as patrulhas de soldados não apareceriam perto do abrigo. Falei sobre o Imperador e o desejo dele por seu sangue, e Sakura ficou tão assustada quanto eu. Ela não tinha a mínima noção do porquê ele se interessaria por isso.
— E o que eu tenho que fazer aqui? Apenas dar meu sangue de bom grado e viver trancada em um quarto?
Suspirei, cansado. Ela não iria gostar nada do meu plano.
— Por enquanto, sim. Provavelmente será Kabuto quem irá tirar seu sangue, mas não se preocupe, não será o suficiente para te matar.
— Como você tem certeza disso?
— Porque se fosse para te ver morta, eles já teriam feito isso. Teria pedido para trazer sua cabeça em vez de trazê-la viva. E eu te reivindiquei como minha, eles não podem te matar, é uma tradição. O Imperador está dando você para mim como um prêmio.
Sakura me encarou, incrédula, exatamente como imaginei. Continuei antes que ela falasse alguma coisa:
— A questão é que, enquanto Kabuto estiver com você, eu irei roubar alguns frascos pra poder utilizar o antídoto de Shizune. Então eu preciso de você aqui dentro para me ajudar.
— Deixa eu ver se eu entendi. Então agora eu sou sua propriedade, e preciso dar meu sangue para o Imperador enquanto minha filha está sozinha sem a mãe?
— Sakura, já disse que Sarada ficará bem. E com você aqui, podemos libertar Hinata e Shion e enganar o Imperador. Por favor — falei, quase que numa súplica.
— Vocês podiam ter me contado — disse ela, encarando o teto.
— E você teria aceitado se soubesse de tudo antes?
Ela ficou em silêncio. E isso apenas confirmava que eu sabia que não aceitaria.
— Por enquanto, só finja que não me conhece e que me odeia mais do que tudo — continuei.
Sakura rolou na cama, ficando deitada de frente para mim.
— E quem disse que não te odeio agora? No fundo, ainda quero matar você e Naruto — disse ela. A tristeza era visível em sua face, e eu não queria vê-la daquele jeito. Deitei-me ao seu lado e fiz uma leve carícia em sua bochecha.
— Me perdoe, por favor. Eu pensei muito sobre isso e, se você corresse algum risco, jamais iria trazê-la até aqui. — Ela levantou o olhar, fitando-me. — Não era o melhor jeito, mas foi o único que conseguimos encontrar. Vai dar tudo certo, e nós vamos sair daqui juntos. Prometo. — Tentei dar-lhe um pouco de esperança, apesar de que, às vezes, eu mesmo duvidava de minhas palavras. Porém, faria de tudo para que dessa vez eu consiga cumprir com a minha promessa.
— Sarada ficará segura se eu ficar aqui? — ela perguntou, com a voz falha.
Percebi seus orbes encherem-se de lágrimas.
— Sim, eles vão parar de procurar por você. Não vão encontrar o esconderijo.
Ela assentiu sutilmente.
— Eu... eu só queria ter me despedido... — Começou a chorar. — Eu quero a minha filha, Sasuke. Sinto falta dela.
Abracei-a contra meu peito, sentindo suas lágrimas umedecerem minha roupa. Eu entendia seus sentimentos. Fazia pouco tempo que descobri a existência de uma filha, e ainda que não tenha acompanhado o crescimento de Sarada como ela, os poucos momentos que passamos juntos foi o suficiente para que eu começasse a nutrir um amor incondicional pela criança. Ser pai ainda era uma novidade para mim e eu tinha muito a aprender quando finalmente saíssemos desse inferno. Sarada também era minha menina, e eu queria protegê-la tanto quanto queria proteger Sakura de qualquer coisa que pudesse machucá-las. Elas eram a razão da minha existência.
Deixei que Sakura chorasse o quanto quisesse enquanto afagava seus cabelos, tentando consolá-la de alguma forma. Ela precisaria de um tempo para assimilar tudo aquilo, e eu precisava que ela tivesse ao menos um pouco melhor no dia seguinte. Mas por hoje, não iria forçá-la a pensar em mais nada. Beijei o topo de sua cabeça, acariciei suas costas e sussurrei o quanto a amava.
Aos poucos, o choro e os soluços diminuíram e Sakura caiu no sono, tomada pela exaustão física e mental daquela noite.
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