9 - afterglow
[Alerta de Gatilho: Crise de ansiedade/depressão/cicatrizes/menção implícita a automutilação]
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Lutar com um amor verdadeiro é como lutar boxe sem luvas
Química até explodir, até que não haja "nós"
Por que eu tive que quebrar o que eu tanto amo?
Está na sua cara
E eu sou a culpada, eu preciso dizer
Ei, é tudo culpa minha, na minha cabeça
Fui eu quem nos incendiou
Mas não era o que eu queria
Me desculpe por ter te machucado
Taylor Swift – Afterglow
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Matt não havia dormido nada na noite anterior, talvez muito bêbado ou muito nervoso para isso, não sabia ao certo, mas sabia que sua cabeça rodava e não conseguia parar de pensar na sensação que fora beijar Henri, no meio da rua sem se importar se alguém veria, se aquilo era errado ou se poderiam se arrepender depois – o que parecia ser o caso, mas ao mesmo tempo em que estava mortalmente arrependido e se sentindo culpado por ter feito o que fez, desejava que tudo aquilo acontecesse mais uma vez.
Grunhiu e afundou o rosto no travesseiro. Nunca havia se sentido tão perturbado em toda a sua vida, e não conseguia entender nem cinco por cento das coisas que sentia no momento.
Tomou um susto quando sua mãe bateu na porta e logo o susto se transformou em confusão e um leve sentimento de desespero pelo que a mulher disse a seguir.
– Filho, está acordado? A Lis tá te esperando lá na sala.
– Eu... Já estou descendo – respondeu quase sem fôlego, seu coração martelando sob o peito.
Claro, realmente não tinha uma hora melhor para ela aparecer e bagunçar ainda mais sua cabeça – porque ele sabia muito bem que era exatamente isso o que aconteceria quando a garota olhasse para ele com os olhos castanhos grandes e brilhantes, os lábios erguidos num meio sorriso torto porque ele tinha certeza que Lis estava tão confusa quanto ele e não sabia reagir diante das situações complicadas nas quais ela mesma se colocava.
Era uma completa pirada, mas uma completa pirada que fazia seu peito doer só de pensar na possibilidade de nunca mais poder abraçá-la como costumava fazer, beijando sua testa e dizendo que tudo ficaria bem, porque ela era sua gatinha e Matt a amava mais do que qualquer coisa no mundo.
Com as mãos trêmulas, vestiu uma camiseta e colocou os óculos redondos que estavam sobre a cabeceira branca da cama. Respirou fundo e passou pelo corredor que cheirava a desinfetante de lavanda, provavelmente sua mãe havia acabado de limpar a casa.
– Oi – Lis disse assim que Matt chegou à sala, levantando-se do sofá azul-marinho e dando um sorriso meio torto para o garoto com seus lábios tingidos de batom coral, perfeitamente sincronizado com a situação que ele mesmo imaginara há apenas alguns segundos.
– O que fez com o seu cabelo? – Indagou meio distraído, reparando na franja desajeitada que cobria o rosto de Lis até pouco abaixo das sobrancelhas, mas a menina apenas balançou a cabeça em negação como se não quisesse se lembrar daquilo.
– É, eu... Faço merda de vez em quando, quase sempre. Enfim, você tá bem?
- Sim, só... Vamos conversar lá no quarto – ele respondeu indicando com o polegar em direção ao corredor e Lis assentiu em silêncio, seguindo-o até o cômodo exageradamente organizado.
Ela se sentou na cama e observou o ambiente. Tudo ainda estava exatamente da mesma forma que na primeira vez em que estivera ali: o espelho no guarda-roupa brilhando sem uma marca de dedo sequer, os livros organizados em ordem alfabética na prateleira acima da escrivaninha onde estavam um notebook branco e um vasinho com um pequeno cacto.
Matt era o total oposto de Lis, que sempre deixava a cama bagunçada e as roupas emboladas jogadas pelo quarto.
– Vai pedir desculpas pela milésima vez? – Matt zombou se sentando ao lado de Lis que apenas respirou fundo e riu fracamente.
– Eu tenho sido insuportável com tudo isso, eu sei, mas é que não consigo deixar de me sentir culpada e mesmo sabendo que desculpas não resolvem as coisas, eu... Não sei, me sinto na obrigação...
– Você não tem obrigação nenhuma com ninguém, muito menos comigo – Matt interrompeu e Lis sentiu como se tivesse tomado um soco no estômago, o ar lhe fugindo por um instante. – Somos só amigos agora, não é?
– Eu não sabia o quanto você podia agir feito um filho da puta quando está magoado – ela admitiu e engoliu o choro. – De qualquer forma, só vim ver se você estava bem, porque ainda me preocupo apesar de você não entender isso muito bem.
Lis se levantou e ajeitou sua saia amassada, pronta para ir embora quando Matt segurou sua mão.
– Espera, desculpa. Você tem razão, eu estou magoado e tenho agido como um verdadeiro filho da puta com você por isso, mas não quero que vá embora – Matt confessou e Lis voltou a se sentar, encarando-o com os olhos escuros marejados que quase o deixaram tonto por um momento. – Você faz falta, mesmo que seja só como amiga. Desculpe por tudo isso, mas eu não quero que você se afaste de mim.
– Eu também sinto sua falta – foi tudo o que disse com a voz baixa quase que inaudível apesar de querer gritar que não era somente como amigo. – É sempre bom voltar aqui, sempre me lembro de quando nos conhecemos e começamos a nos falar.
– E você derrubou uma xícara inteira de café na minha cama – Matt lembrou e eles riram.
Ser desastrada sempre fora um dos piores defeitos de Lis, e ela havia conseguido fazer uma cagada daquelas justo na primeira vez em que fora na casa de Matt.
– Achei que você não ia mais querer falar comigo, mas você só riu e continuou fazendo piadinhas sobre isso por mais uns cinco meses depois...
– Você é muito boba, se importa demais com o que vão pensar de você e sempre acha que serão coisas negativas – Matt observou e Lis se encolheu um pouco.
Infelizmente era verdade. Ela mal conseguia se lembrar da última vez em que saíra sozinha na rua, ou em que chegara em uma festa sem se preocupar se alguém estava olhando para ela, se perguntando por que era tão esquisita, pensando que era só uma idiota incapaz de agir como um ser humano normal.
– Eu tô tentando melhorar isso desde... Sempre – ela disse com uma risadinha sem graça. – É difícil acreditar que as pessoas não me enxergam da mesma forma que eu.
– E se enxergarem? Qual o problema nisso? Por que se importa tanto?
– Eu não sei Matt, caramba. É difícil pra você entender, né? Você é perfeito e todos enxergam isso, não conheço uma única pessoa que não goste de você e não te veja como um super príncipe encantado.
– Kate não me vê assim – Matt disse dando de ombros e Lis revirou os olhos, aquilo era óbvio demais.
– A Kate não vê ninguém assim, todo mundo pra ela é insuportável de alguma forma. Aliás, ela me contou que vocês saíram ontem.
– Sim, fomos ao bar jogar sinuca e beber um pouco, acho que ela é movida a álcool – brincou e Lis o encarou com um sorriso, talvez ela não precisasse se preocupar tanto, Matt ficaria bem.
– Fico feliz que você esteja saindo e se distraindo e... A Kate é doida mas é uma boa companhia, as vezes em que saio com ela são sempre as melhores – disse e sentiu sua pele arder quando Matt segurou sua mão.
– Mas e você? Tudo bem? – Ele perguntou e Lis engoliu em seco.
Odiava aquela pergunta, era como se trouxesse de volta tudo de ruim que ela empurrava para um cantinho escuro de sua mente na esperança de que todos aqueles problemas desaparecessem magicamente – e foi exatamente o que aconteceu, sua cabeça voltou a se encher com todas as coisas recentes que havia empurrado para aquele cantinho.
Sentiu sua boca ficar seca e seu peito se apertar de repente, mas se obrigou a sorrir e respirar fundo na esperança de que aquela sensação fosse embora o quanto antes, os olhos baixos pousados sobre seus all-star laranjas talvez um pouco mais chamativos que o necessário.
– Eu tô bem – mentiu e quase se assustou quando, repentinamente, Matt a envolveu em um abraço apertado.
– Você não tem que mentir pra mim, sabe disso – sussurrou e Lis se manteve em silêncio, mas ele pôde sentir quando as lágrimas quentes da menina molharam sua camiseta.
– Não consigo parar de me perguntar quando as coisas vão voltar ao normal, pensando que talvez tivesse sido melhor se o Henri tivesse continuado sem dar notícias, acho que eu estava sofrendo menos sem saber como e onde ele estava do que agora que ele tá aqui – Lis confessou para a surpresa de Matt, que, sem saber o que dizer, apenas acariciou seus cabelos escuros. – Eu costumava ter tantas dúvidas sobre o que sentia, mas agora... Esses dias foram tortura pra mim, eu não quero ser sua melhor amiga, Matt.
– O quê? – Ele murmurou demorando para processar as informações, sem acreditar que ela estava mesmo dizendo aquilo. – Lis, isso...
– Eu sinto sua falta de todas as formas possíveis, e dói toda vez que penso que isso só acabou por minha causa. Eu te amo e me machuca saber que eu machuquei você – ela desabafou de uma vez só, seu coração ardia e se sentia desabar cada vez mais. – Sinto falta de poder conversar com você sobre qualquer coisa, de dormir com você e no dia seguinte acordar e ver o seu sorriso bobo que eu amo pra caralho, sinto falta até de ouvir você brigar comigo por qualquer idiotice aleatória que eu dizia, mas tudo bem porque sei que você me odeia agora, já era de se esperar, eu só faço merda.
Ele podia se fazer de forte o quanto fosse, mas sabia que estava surtando tanto quanto Lis, e também sentia falta dela mais do que qualquer coisa. E estar ali, a abraçando mais uma vez, podendo ouvi-la falar sobre tudo o que a deixava mal enquanto desejava internamente poder dar o mundo à ela... Aquilo o fazia se sentir inteiro novamente – o que logo se quebrava quando se dava conta de que era momentâneo.
Lis na verdade só estava acostumada com ele, não o amava de fato, era questão de tempo até que ela entendesse seus verdadeiros sentimentos e o superasse.
– Eu também sinto sua falta, minha gatinha – murmurou e afastou a franja de Lis para dar um beijo em sua testa. – Mas você está confusa, não sabe bem o que quer...
– Eu quero estar com você – ela o interrompeu e Matt passou o polegar pelas suas bochechas pontilhadas de sardas para secá-las.
Vê-la ali com os olhos castanhos marejados, dizendo que o amava e queria estar com ele, era como uma armadilha – uma das piores – e Matt estava caindo nela direitinho. Sentia que podia derreter quando Lis o olhava daquela forma, pois apesar da tristeza explícita no rosto da garota, era exatamente o mesmo olhar que ela tinha quando confessou também ser apaixonada por ele, quando disse "eu te amo" pela primeira vez após terem se beijado na porta de sua casa completamente encharcados de chuva, de quando confiou nele e lhe contou todos os seus segredos porque sabia que ele não iria machucá-la.
Mesmo sendo tão frágil e infantil, sem ter noção nem sobre um por cento do efeito que causava nas pessoas, Lis agora era como uma das piores e mais pesadas drogas existentes. Matt sabia que se permitisse a si mesmo cair naquilo, não poderia sair de novo tão cedo, e isso o destruiria – e o pior de tudo era que ele estava implorando para ser destruído.
E foi exatamente o que aconteceu quando Lis levantou o rosto e, sem conseguir pensar em qualquer outra coisa, Matt a beijou. Foi como se seus lábios pudessem queimar em contato com os de Lis, que imediatamente correspondeu ao gesto, abrindo levemente a boca pequenina e sentindo a língua quente e úmida de Matt acariciar a sua com delicadeza.
Um arrepio percorreu seu corpo inteiro quando a mão do garoto acariciou sua coxa onde uma cicatriz rosada se fazia presente desde o incidente com sua antiga casa. Ela costumava se incomodar com aquilo, muitas vezes até tendo ataques por fazê-la se lembrar do pesadelo que havia vivido, e tinha sido um longo tempo de espera até que se sentisse confortável e segura para explicar e mostrar à Matt todas as suas cicatrizes – desde a grande e funda em sua perna, até as mais finas, porém mais dolorosas, em seus braços.
Novamente pensou que o garoto desistiria dela, que a acharia fraca por ficar tão mal com coisas tão idiotas como simples marcas que qualquer outra pessoa tinha e lidava normalmente, sem surtos ou pânico. Mas ele a entendeu, disse mais uma vez que estava com ela e tudo ficaria bem porque ela jamais ficaria sozinha outra vez, que Lis era mais forte e tinha aguentado coisas que ele nunca seria capaz de aguentar e seguir em frente como ela estava fazendo, e tudo pelas pessoas que ela amava.
Ele dissera dezenas de vezes que ela era linda, e não precisava se esconder para isso. Então levantou as mangas de seu moletom e beijou seus pulsos marcados, passando delicadamente as pontas dos dedos sobre a pele de Lis.
"Só me prometa que nunca mais vai fazer isso. Sei o que isso foi pra você: pedidos de ajuda porque se forçou a aguentar coisas demais em silêncio, mas você não precisa se machucar ou se calar, agora eu estou aqui e sempre vou estar" Matt dissera na mais pura sinceridade, seus olhos azuis focados em uma Lis que não sabia fazer outra coisa a não ser desabar em lágrimas, exatamente como no presente momento em que ela se afastou do garoto e cobriu o rosto molhado com as mãos fracas e extremamente trêmulas. Seu peito doía e, quanto mais tentava estabilizar a respiração, mais a mesma acelerava em um ritmo descontrolado.
– Eu não devia ter feito isso, eu não devia ter vindo aqui, não era pra isso ter acontecido, mas eu fiz tudo errado de novo, é só isso o que eu sei fazer, um monte de erros – sussurrou para si mesma com a voz falha e embargada, sentia como se pudesse explodir a qualquer momento, e talvez quisesse mesmo explodir.
Estava cansada de tentar resolver as coisas e somente piorá-las ainda mais, e sempre que alguém tentava ajudá-la acabava machucado, exatamente como Matt, Henri, Eliel, Izzy...
Todos que haviam se esforçado para deixá-la melhor tinham se machucado com alguma de suas explosões grandes demais onde ela sempre tomava as decisões erradas e afastava as pessoas que realmente a amavam e haviam feito algo por ela.
– Lis, eu sei que não é fácil e que sua cabeça tá te fazendo pensar um monte de besteiras agora, mas nada disso é verdade – Matt disse de repente voltando a se aproximar da garota e a abraçando o mais forte que pôde. – Você não tem culpa de nada, você não tá me fazendo mal e nem à mais ninguém.
– Por que você sempre mente pra mim, Matt? Eu sei o que eu fiz, sei que você ficou triste por minha causa, mas eu já devia saber, porque é só isso o que eu faço, um monte de coisas erradas que deixam as pessoas que eu amo tristes – ela confessou se atrapalhando um pouco nas palavras, era como se uma criança confusa tivesse tomado seu lugar e isso foi o suficiente para que Matt soubesse que aquele não era mais um de seus surtos "simples", que Lis já não pensava ou dizia as coisas por si própria e de maneira consciente, estava perdida dentro de si mesma mais uma vez.
– Me desculpa, eu sabia que devia ter ficado em casa, eu não queria que as coisas tivessem sido assim, me desculpa – ela repetiu soluçando e o loiro apenas deu um beijo demorado em sua testa. – Você não tem que me tratar assim, eu não mereço você Matt, não mereço ninguém, só esse monte de merda que continua acontecendo comigo só porque eu sou burra.
– Você não merece nada desse monte de problemas, não tem que falar assim de si mesma. Você é maravilhosa, é a pessoa mais inteligente e forte que eu já conheci...
– Eu não quero mais ser forte, eu só quero que isso pare.
– Vai ficar tudo bem, eu tô aqui e você vai ficar bem – ele respondeu e Lis negou, suas mãos formigavam e sua cabeça doía e ela sabia que era mentira.
– Todo mundo diz isso e eu não vou mais acreditar, eu nunca fico bem. Isso nunca para.
Matt não sabia mais o que dizer, podia sentir a dor e o desespero na voz de Lis e mal podia imaginar como deveria ser. Sempre ficar mal com tudo, se culpando por todo e qualquer problema que tinha e tendo que ouvir de todo mundo que as coisas melhorariam e que ela ficaria bem mas, quando menos esperavam, lá estava ela se afogando em seu próprio mar de sentimentos e pensamentos ruins e confusos que, de uma forma ou de outra, sempre conseguiam puxá-la até o fundo, onde ela não podia mais sentir quaisquer esperanças de, um dia, poder respirar de novo.
E aquilo continuava por anos e anos, com ela sempre se mantendo firme e esperando o tal dia em que as coisas melhorariam, mas esse dia nunca chegava. Era difícil, difícil e exaustivo e ela estava cansada de esperar e confiar.
– Vamos deitar aqui um pouco, vou ficar do seu lado, tá? Você não precisa passar por isso sozinha, minha gatinha – Matt disse baixinho e a puxou pela mão com toda a leveza do mundo, deitando-a na cama com a cabeça sobre o travesseiro.
Ele se deitou ao lado de Lis e passou o braço por sua cintura, envolvendo o corpo pequenino e trêmulo da garota com o seu próprio. Se lembrou de todas as vezes que fizeram aquilo: deitados de conchinha em uma cama pequena demais para os dois, abraçados, felizes porque a única coisa que precisavam era da companhia um do outro.
Lis teve a mesma lembrança e a mesma sensação. Sua respiração estabilizou um pouco e ela entrelaçou seus dedos com os de Matt, um pouco mais tranquila por ter se lembrado, em algum lugar de sua mente turbulenta, que podia confiar nele, ele nunca a deixara perdida e sozinha, estava sempre ali, a abraçando e dizendo quantas vezes fosse necessário que ela não era uma má pessoa, nunca fora, e independente das coisas ruins que seus pensamentos diziam e a forçavam a acreditar, ela ficaria bem sim.
Ficaram em silêncio por longos minutos enquanto Lis tomava seu tempo para se acalmar, todas aquelas coisas que a perturbavam deixando de fazer sentido conforme o mar agitado e confuso em sua cabeça relaxava e, finalmente, a deixava em paz. Ela sentia a respiração quente de Matt bater contra o seu pescoço e o polegar do garoto ainda acariciava sua mão, a lembrando de que ele estava ali, e aquilo era reconfortante.
– Obrigada – ela murmurou depois de algum tempo, sua voz ainda levemente fraca e rouca. – Por estar aqui, por não desistir de mim.
– Não importa quantas vezes isso aconteça, quantas vezes você ache que me machucou e me afastou, eu nunca vou desistir de você, Lis – não vou desistir de você porque eu te amo, pensou, querendo muito dizer tais palavras em voz alta, mas sentiu medo.
Sentiu medo porque não queria que ela voltasse a surtar e se culpar por tudo o que havia acontecido – mas também porque ela poderia não corresponder, e então seria a vez dele de ficar mal e ele não estava pronto para lidar com os próprios surtos por enquanto, era mil vezes mais difícil do que ter que lidar com os problemas de Lis. Então o silêncio foi sua opção, era menos arriscado e também machucaria muito menos do que qualquer outra coisa.
– Eu quero te falar uma coisa, Matt – Lis disse para sua surpresa, virando-se na cama para encará-lo com os olhos ainda avermelhados e inchados por conta do choro.
– Você não precisa dizer nada se não quiser ou se for te fazer mal – ele respondeu e ela meneou a cabeça, voltando a segurar a mão do garoto e apoiando sua bochecha no dorso frio da mesma.
– Tudo bem, eu quero – ela confirmou e respirou fundo antes de continuar. – Foi por isso que eu vim aqui na verdade, mas é difícil tomar coragem para falar essas coisas e manter a calma ao mesmo tempo.
– Você não tá grávida não, né? – Matt perguntou levemente em pânico e Lis riu pela primeira vez em algum tempo.
– Graças a Deus não, é só que... Eu amo você, Matt – ela confessou e o pânico de Matt não diminuiu muito, não era tão grave quanto ser pai na adolescência mas não tinha como negar que aquilo mexia com ele, porque ele também a amava e havia evitado dizer aquilo há apenas alguns minutos atrás somente para não machucá-la e nem a si mesmo. – Mas não só você. Por isso me sinto tão culpada e não consigo deixar de pensar que não mereço você, eu já te fiz aguentar tanta coisa e mesmo assim você nunca saiu do meu lado somente pra que agora eu esteja dividida entre alguém que realmente se importa comigo e uma antiga paixãozinha adolescente idiota que eu não fui capaz de superar.
Matt não sabia o que responder, engoliu em seco enquanto ele mesmo se sentia culpado. Lis estava se odiando e constantemente se sentindo um lixo por estar apaixonada por dois garotos diferentes enquanto os dois em questão se divertiam bebendo e trocando beijos às escondidas. Aquilo era loucura e injusto de tantas formas diferentes que ele chegava a sentir dor de cabeça só de pensar em tudo aquilo.
– Lis, eu... Eu também acho que tenho que te contar uma coisa – ele gaguejou e a menina franziu as sobrancelhas, percebendo claramente que Matt estava nervoso. – Aquele dia depois da festa da Hanna, eu...
Um toquinho genérico alto demais começou a tocar no bolso de Lis, que pulou na cama com o susto e se apressou se sentar e pegar o celular para atender a ligação – não sem antes ler na tela o nome do contato que fazia a chamada.
"Hanna Banana ♥"
– Oi meu amor, o que foi? – ela disse assim que deslizou o dedo pelo botão verde e atendeu, segurando o aparelho próximo a orelha.
– Onde você tá? Tá em casa? – Hanna perguntou com sua voz aguda inconfundível.
– Não, eu saí para resolver umas coisas – Lis respondeu de forma vaga sabendo que a amiga a mataria se soubesse que ela estava indo atrás de problemas de novo.
– Então, a Kate já tá aqui e eu preciso que você venha aqui em casa agora mesmo porque eu tenho uma notícia boa e uma melhor ainda. Te vejo em... Dez minutos é o suficiente pra você chegar aqui? Acho que sim, então te vejo em dez minutos, tchau – ela disse um pouco mais animada que o habitual e a ligação foi encerrada antes que Lis tivesse a chance de dizer qualquer coisa ou perguntar o que estava acontecendo.
– Era a Hanna, ela quer que eu vá até a casa dela – Lis contou para Matt e encolheu um pouco os ombros. – Mas acho que posso enrolar um pouquinho. O que você queria me contar?
Matt fingiu uma cara de confusão e balançou a cabeça em um gesto negativo, abrindo um sorriso fraco para a garota.
– Deixa pra lá, provavelmente não era importante porque esqueci – mentiu e colocou sua mão sobre o rosto de Lis, passando os dedos por sua bochecha de forma carinhosa. – Você vai ficar bem?
– São minhas melhores amigas, é claro que vou – ela respondeu como se fosse óbvio e sorriu suavemente para Matt. – Obrigada por ter ficado comigo e me acalmado, e desculpa por ter surtado por causa de um beijo.
– O beijo pode ter sido um gatilho mas sei que não foi só isso, sei que tem muito mais coisa acontecendo nesse coraçãozinho que na verdade é bem maior do que parece, e isso não é ruim, não tem que se culpar por sentir as coisas que sente, infelizmente ninguém manda no próprio coração – Matt admitiu com sinceridade, pensando que nem mesmo ele estava tendo controle sobre as coisas que sentia ultimamente e a última coisa que poderia fazer era culpar Lis ou ficar com raiva dela por amar demais. – E eu também te amo minha gatinha, mas respeito o seu tempo assim como vou respeitar qualquer decisão que tomar sobre isso, eu só quero te ver feliz.
– Obrigada, de verdade – ela agradeceu mais uma vez antes de dar um beijo demorado na bochecha de Matt e sair.
O garoto, por sua vez, voltou a se deitar na cama, novamente nervoso e atordoado demais pelos próprios pensamentos e sentimentos a ponto de ter certeza de que mais uma noite em claro estava por vir.
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