6 - trouble

Problemas à minha esquerda, problemas à minha direita
Eu estive enfrentando problemas quase toda a minha vida
Meu doce amor, você vai me tirar dessa?
Em todos os lugares que eu olho eu vejo um vislumbre de você
Eu disse que era amor e eu fiz isso pela vida
Fiz por você

Tenho muito a perder
Tenho muito a provar
Deus, não me deixe perder a cabeça

Cage the Elephant - Trouble

– △ –

Lis ajeitou sua jaqueta mostarda quando parou na frente da casa de Hanna Mark, encarando a estrutura enorme com seu design moderno de onde saíam luzes coloridas e batidas de rock alternativo extremamente alto. Haviam grupinhos de jovens bebendo e fumando no gramado e pelas janelas era possível ver que a casa estava cheia.

– Não era bem assim que eu imaginava festas em uma cidadezinha pequena e parada como essa – Henri confessou enquanto analisava o cenário levemente caótico. – Achei que as pessoas ficassem dentro de casa jogando cartas e tomando chá, mas teve aquilo ontem e isso hoje...

– Você ainda não viu nada – Lis respondeu com um sorriso nervoso e, ao mesmo tempo, animado, puxando-o pela mão. – Vamos.

Assim que chegou na porta foi recebida por uma Hanna que demonstrava muito claramente já estar embriagada, como sempre usando um vestido de marca e saltos brilhantes. Seus cachos estavam bagunçados e a pele negra brilhando coberta glitter, seus lábios pintados de gloss se abriram para Lis e Henri em um sorriso enorme e ela se apressou em abraçar a garota menor.

– Você veio! Eu achei que ninguém iria querer vir porque todos estariam de ressaca de ontem, mas até a Kate tá aqui, o Matt também tá lá dentro e... Eu conheço você! – Ela disse meio cambaleando e apontando para Henri. – Você também estava na festa ontem e se me lembro bem estudamos na mesma turma no ano... Passado? Não, definitivamente não foi no ano passado. Mas você ficou só uns meses e sumiu...

– É, sumir é uma das especialidades dele – Lis disse fazendo Hanna dar uma gargalhada e Henri sorrir meio torto.

– É o neto da Dona Emy, não é? Bom, não importa, vamos, entrem – ela chamou puxando Lis para dentro da bagunça.

Uma garota pouco mais alta que Lis, vestindo roupas pretas e com o cabelo tingido de azul, pulou do balcão da cozinha onde estava sentada e foi direto até o trio que quase se perdia no meio das outras pessoas.

Ela cutucou Lis com o cotovelo e lhe estendeu um copo descartável cheio de uma bebida vermelha.

– Guardei especialmente pra você.

– Ai Kate, caramba, eu acabei de chegar... – Lis murmurou quase rejeitando o "presente" da amiga.

– Eu já volto, tenho que achar alguém – Hanna avisou já se enfiando no meio da multidão novamente e as duas apenas assentiram.

– Oi – Kate cumprimentou com um sorriso, acenando para Henri que apenas acenou de volta como resposta. – Meu Deus, vocês parecem tensos pra caralho, vou buscar uma bebida pra você também, gatinho.

Henri assentiu e tirou um maço de Marlboro do bolso de seu casaco junto do isqueiro que Lis achara bonitinho. Acendeu um cigarro e deu uma tragada antes de se voltar à menina.

– Lis, eu não sei se... Muita coisa aconteceu ontem e muita coisa aconteceu hoje de novo, eu acho que não tô legal para ficar no meio de tanta gente e tanto barulho... – ele mesmo se interrompeu quando Lis deu um gole em sua bebida e em seguida lhe entregou o copo.

– Bebe, vai te ajudar a relaxar – ela disse e, meio receoso, Henri pegou o copo e bebeu tudo de uma vez. – É, acho que se continuar assim você vai relaxar bem rapidinho.

– Que se foda, já tá tudo uma merda mesmo – Henri xingou e Lis franziu as sobrancelhas sem entender realmente o motivo daquele surto repentino. – Vou procurar o Matt.

O quê?! – Lis gritou ainda mais confusa com aquilo mas Henri já tinha ido sem ao menos olhar para trás. – Mas que droga foi essa?

– O que foi? – Kate perguntou surgindo do nada com uma garrafa de vodka na mão cuja Lis pegou e bebeu antes de responder qualquer coisa. – Marliss, caralho, isso tá puro!

Lis apenas limpou a boca na manga jeans de seu casaco e sorriu.

– Olha, esse dia tá ficando cada vez mais doido, acho que não faz mal se eu ficar doida junto.

– Você sempre fica doida em todo e qualquer rolê, o que mudou dessa vez? – Kate questionou rindo e passando o braço pelos ombros da amiga.

– Dessa vez meu ex e meu... Quase ex, acho, estão aqui e eles estão muito putos comigo e com razão, mas quer saber? Que se foda, já tá tudo uma merda mesmo.

Após algumas horas de dança e conversas altas e sem muito sentido na sala lotada, Lis, Kate e Hanna já estavam na cozinha rindo sozinhas e tomando shots de tequila um seguido do outro. Lis já estava sem seu casaco e Kate havia largado suas botas em algum lugar da casa, sem dar importância para aquilo. Ela abraçou as duas e fez uma careta engraçada.

– Eu acho que vou vomitar – avisou meio mole e Hanna envolveu o rosto cheio de maquiagem borrada da garota em suas mãos suadas com cheiro de álcool e limão.

– Querida, você não pode, ainda não são nem duas da manhã – a mais alta respondeu e Lis riu, concordando.

– É Kate, não é você a fodona que nunca passa mal?

– Ah porra, cala a boca – ela xingou e Lis e Hanna ficaram em silêncio por alguns segundos antes de caírem na gargalhada.

– Hanna! – Uma garota extremamente animada com uma franja grande demais que quase cobria seus olhos estreitos por inteiro gritou um pouco mais ao longe, levantando a mão para chamar atenção mais facilmente. – Vamos lá para cima, vamos jogar verdade ou desafio!

– Ai caramba! – Ela gritou de volta arrancando Lis e Kate dali e as levando escada acima. – Até sinto como se tivéssemos voltado para o primeiro ano!

– Eca, seria esse meu pior pesadelo? – Kate reclamou e Lis concordou.

– Nunca mais eu quero passar por isso de ensino médio.

– Não diga isso, só temos mais seis meses e então estaremos no nosso último ano, nunca mais vamos poder fazer essas besteiras de adolescentes do ensino médio, sei que vai sentir falta – Hanna disse com certo pesar e as outras duas reviraram os olhos.

– Você é tão otimista que chega a ser repugnante, como você me aguenta? – Kate indagou e Hanna riu.

– Eu te amo bobinha, vocês são minhas melhores amigas de todo o mundo – ela respondeu e abraçou as duas assim que chegaram no corredor do primeiro andar. – É sério gente, eu amo muito vocês, ninguém nunca quis ser minha amiga só porque meus pais são ricos, achavam que eu era como aquelas patricinhas dos filmes, mas vocês...

– Nós sabemos meu amor, nós sabemos – Lis a cortou com uma risada e deu tapinhas leves nas costas da menina que já ia começar a chorar.

– Nós também te amamos – Kate disse quebrando o abraço em grupo. – Mas é sério, vamos jogar logo antes que alguém comece a ficar emotiva demais.

Hanna fungou e encolheu os ombros, seguindo-a para dentro do quarto que estava bem tranquilo e organizado se comparado com o resto da casa.

Haviam somente cinco pessoas no cômodo, todas sentadas no tapete formando um círculo com uma garrafa de cerveja vazia no meio. A garota de roupas cheias de estampas coloridas que chamara Hanna minutos atrás estava sentada ao lado de um garoto negro com dreads coloridos no cabelo e de uma loira bronzeada que mexia no celular de forma distraída, quase como se não quisesse ter contato com o mundo real.

Ao lado da garota loira, Matt e Henri conversavam sobre algo e dividiam um cigarro. Eles sorriram assim que viram Lis entrar pela porta e, revirando os olhos, ela se sentou ao lado de Henri, agradecendo por ser Kate quem estava sentada do seu outro lado.

– Todos aqui? – A loira questionou, guardando o celular em uma bolsa holográfica brilhante demais em seu colo e Hanna levantou a mão.

– Presente! Bom Marin, como vai ser? – Perguntou e Marin, a garota de cabelos escuros e franja, sorriu e respirou fundo antes de responder:

– A regra é que... Não há regras! Exceto a de que todos os desafios precisam ser cumpridos e todas as perguntas precisam ser respondidas, estão preparados?

Kate deu de ombros, já familiarizada com qualquer eventual loucura que pudesse surgir, e Hanna assentiu com animação.

A loira foi a primeira a girar a garrafa que parou com o fundo apontado para si e a ponta em direção à Kate que se aprontou em perguntar:

– Verdade ou desafio, Sara?

– Verdade – Sara respondeu revirando os olhos claros e Kate riu.

– De onde seus pais tiram tanto dinheiro? – A garota de cabelos azuis perguntou e Sara bufou antes de responder com o mais puro tédio.

– Que pergunta mais idiota Kate, minha família é formada por políticos, é óbvio que tem muita sujeira envolvida ali e isso não é novidade pra ninguém.

– Bom saber que você é sustentada pelos impostos que pagamos, burguesinha – Marin brincou mas Sara não pareceu achar muita graça, apenas deu um sorriso explicitamente falso e girou a garrafa novamente, parando com o fundo apontado para o garoto de dreads e a ponta para Matt.

– Verdade – Matt respondeu rapidamente e o outro apenas ergueu as sobrancelhas.

– Ele tá bêbado – Lis sussurrou para Kate que fez um biquinho.

– Bom, você também está então... Não pode reclamar muito.

– Você realmente é bi? – Ele perguntou e Matt deu uma risadinha, passando a mão pelo pescoço e seu rosto inteiro ganhando um tom forte de vermelho.

– Sim – ele respondeu e Lis bufou.

– Eu já sabia – respondeu demonstrando claramente seu desinteresse e todos ficaram em silêncio para encará-la. – O que foi?

– Tem alguma coisa estranha aqui, alguma coisa com vocês três – Sara disse estreitando os olhos e apontando para Lis, Henri e Matt.

– É, bom... Eu e a Lis não somos mais um casal porque ela me traiu com o Henri e nem mesmo contou para ele que tinha um namorado, mas tudo bem porque somos todos amigos agora – Matt soltou fazendo um sinal de "joia" com o polegar e o silêncio começou a parecer ainda pior, todos os olhares agora estavam sobre o trio.

– Você é um idiota, Matthew – Lis disse finalmente quebrando o silêncio incômodo e se levantou para sair do quarto, tropeçando em alguma coisa invisível e xingando quando caiu de joelhos no chão.

Henri se aprontou em ajudá-la a levantar mas ela o empurrou, ficando de pé sozinha e indo para fora feito um furacão.

Estava no meio do caminho para o banheiro quando Matt a segurou pelo braço e Lis parou, virando-se para o garoto com os olhos escuros cheios de lágrimas e as bochechas vermelhas de raiva.

– Lis, cacete, me desculpa – ele disse mas tudo o que recebeu como resposta foi o olhar furioso da garota de um metro e meio que o encarava de baixo com o rosto levantado. – Que merda, eu bebi demais.

– Eu também Matt, e nem por isso eu tô agindo igual uma filha da puta com você.

– É, até porque você já fez isso – ele retrucou e Lis resmungou, dando um soco na parede com toda a sua força.

– Ai que inferno! – Gritou, os nós de seus dedos e o dorso de sua mão agora estavam ralados e sangravam, mas Lis havia bebido tanto que mal sentia a dor, tudo o que sentia era raiva, tristeza e culpa. – Eu vou pra casa, isso aqui definitivamente foi uma péssima ideia.

– Vou chamar o Henri.

– Isso, vai lá já que agora vocês dois são super amiguinhos, best friends forever.

– O que foi? Você preferia que essa situação tivesse tomado um rumo ainda pior? Que eu e ele tivéssemos socado a cara um do outro para brigar pela donzela linda e maravilhosa que você é? – Matt jogou tudo de uma vez e Lis sentiu vontade de se jogar da janela e morrer, só para ter um minuto de paz.

– Meu Deus, pare de ser tão imbecil! Eu só... Caramba, isso é muito estranho pra mim, eu ferrei com os dois e vocês ficam agindo como se nada tivesse acontecido, isso quando não se juntam para jogar meus erros na minha cara exatamente como você fez agora Matt, e agradeço muito pelas observações óbvias mas eu já sei muito bem o quanto eu fui filha da puta com vocês, não preciso desse julgamento todo! – Ela gritou tudo rápido demais, ficando sem ar e sentindo o mundo girar à sua volta, de repente era como se tivesse bebido ácido. – E-Eu...

– Lis? – Matt chamou mas a garota não respondeu, apenas correu até o banheiro e, assim que alcançou o vaso sanitário, vomitou tudo o que havia bebido naquela noite e mais um pouco. – Ai... Merda.

Matt se abaixou ao lado da garota e segurou os fios curtos de seu cabelo escuro para que não caíssem no rosto enquanto Lis continuava a colocar tudo para fora. Assim que terminou, secou os olhos lacrimejados no dorso da mão e sentou-se no chão, encostada sobre a parede fria.

Matt tirou a camiseta e a molhou com água na pia, usando-a para limpar a boca da garota que começou a chorar logo em seguida.

– Eu sou um lixo, Matt, uma merda de ser humano, você e o Henri são inteligentes, nem valeria a pena vocês brigarem por um lixo inútil como eu – ela disse e o garoto segurou sua mão, sentando-se no chão ao seu lado. – E agora eu ainda tô passando mal simplesmente por ser uma completa imbecil sem noção, uma chata chorona e...

– Você não é nada disso, Lis. Você é... É perfeita – ele riu, se sentia um idiota. – Eu só não estou tão puto porque sabe... De uma forma ou de outra eu sempre soube que você não me amava da mesma forma que eu te amo ou que você ama o Henri, você é muita areia pro meu caminhãozinho.

– O que você tá falando? Você é lindo Matt, qualquer garota daria tudo pra ser sua namorada e ainda assim você escolheu uma delinquente depressiva que não sabe nem manter um namoro decente. Você é inteligente, é engraçado e romântico e eu... Eu não mereço você, não mereço nenhum de vocês dois – ela disse com a voz embargada e assim que terminou a frase começou a chorar alto e soluçando, parecendo uma criança perdida e desesperada.

Não era muito diferente de como ela estava se sentindo no momento para falar a verdade, queria muito correr para o colo de sua mãe e chorar até desidratar.

Matt já havia visto Lis ficar daquela forma muitas vezes, ela era oito ou oitenta: ou bebia e ficava alegre e sociável, se tornando o centro das atenções de qualquer festa ou rolê, ou bebia e ficava mal, deixando todos os seus problemas virem a tona de uma só vez – o que era o caso atual, e ele sabia que aquilo não iria acabar enquanto ela não dormisse ou ficasse sóbria, e a segunda opção era bem menos provável.

– Ei, vai ficar tudo bem, tá? – Ele disse a abraçando e dando um beijo em sua testa. – Vamos minha gatinha, vou te levar pra casa.

- Para! Para de me chamar assim, eu não sou mais sua namorada, eu sou só uma vadia sem coração que só vai fazer você sofrer, você não tem que me tratar assim – Lis retrucou tropeçando um pouco nas palavras e Matt teve vontade de rir de como ela transformava situações completamente idiotas e sem sentido em seu maior drama pessoal.

– Tudo bem, você não é mais minha gatinha, é uma feiosa então – Matt respondeu e o choro de Lis se intensificou.

– Viu? Eu sempre soube que você me achava feia Matt, me solta, eu vou pra casa sozinha – ela reclamou e se levantou com toda a dificuldade do mundo, cambaleando até a porta onde foi barrada por um borrão alto de óculos com olhos verdes brilhantes e confusos. – Sai da minha frente Henri, sei que vocês me odeiam e tudo bem porque eu odeio vocês também!

– Vamos levar você pra casa Lis, você não tá em condição de ir sozinha e já está tarde, é perigoso – ele disse ignorando completamente as palavras da menina e a abraçando.

Nããão, me soltaaa... – ela disse de forma arrastada porém não fez nada para se livrar do abraço de Henri.

Matt coçou a cabeça e cruzou os braços, observando a garota em prantos que continuava a tentar discutir.

– Não vai adiantar tentar uma conversa, já vi ela assim antes – ele disse e Henri suspirou.

– O que fazemos então?

– △ –

Lis ainda resmungava e reclamava enquanto Matt e Henri a levavam em casa, o loiro, por ser mais alto e ter mais força, a carregava nas costas para evitar uma possível fuga ou tentativa de agressão.

– E então, como você tá? – Matt perguntou e Henri acendeu seu último cigarro, jogando o maço vazio na lixeira mais próxima.

– Torto, acho que também bebi mais do que devia.

– Todos nós – Matt disse rindo. – Só que a Lis é... Você deve saber, ela é bem mais sensível ao álcool do que a maioria.

– Para de falar de mim como se eu não estivesse aqui... – ela murmurou e os dois apenas riram, continuando o caminho em silêncio.

Assim que chegaram na frente do sobrado amarelo, Matt vasculhou nos bolsos da jaqueta de Lis a procura da chave da porta e, assim que achou, se apressou em destrancá-la.

A porta agora estava aberta, mas Lis ainda reclamava e chorava na varanda e Henri precisou se abaixar para conversar com ela.

– Lis, olha, chegamos na sua casa e tudo bem, você vai tomar um banho, comer alguma coisa e descansar, prometo que fico com você até você dormir se quiser, mas você precisa ficar quieta ou vai acordar sua mãe – ele advertiu com seriedade e Lis finalmente ficou em silêncio, seus olhos castanhos perdidos tentando focar nos verdes do garoto.

Ela concordou, usando a pouca consciência que lhe restava para raciocinar que se sua mãe acordasse as coisas ficariam bem feias por ali, e ela com certeza não estava em condições para lidar com um problema daqueles.

Matt a pegou no colo e a levou para dentro, deitando-a no sofá e tirando seus tênis e meia. Lis não reclamou nem tentou se mexer, apenas fechou os olhos e pensou em dormir, mas logo se viu sendo carregada novamente, desta vez até o banheiro do térreo.

– Não quero tomar banho aqui, tem lagartixas – reclamou com a voz arrastada quando Matt a colocou sentada sobre o vaso para despi-la.

– Prefere tomar banho aqui com as lagartixas ou ir para o banheiro lá de cima e acordar sua mãe e seu irmão? – Perguntou e Lis não respondeu. – É, foi o que pensei.

Henri esbarrou no batente da porta e resolveu ficar por ali mesmo, vendo as paredes cobertas por ladrilhos azuis girarem até Matt se voltar à ele.

– Eu vou pegar as roupas dela lá em cima, pode colocar ela debaixo do chuveiro enquanto isso? – O loiro pediu e Henri precisou pensar por um momento até as palavras fazerem sentido em sua cabeça.

– E-Eu... Claro – ele disse e Matt agradeceu, saindo e deixando apenas Lis e Henri no cômodo.

O garoto ligou o chuveiro e checou a temperatura antes de ajudar Lis a se levantar e colocá-la debaixo d'água. Ela abaixou a cabeça enquanto se molhava e cobriu os seios nus com os braços.

– Isso é mesmo preciso? – Perguntou num resmungo e uma expressão confusa tomou conta do rosto de Henri.

– Preciso? – Repetiu pegando o shampoo em uma prateleira na parede e despejando uma boa quantidade do líquido viscoso sobre os cabelos de Lis, esfregando os fios e formando um monte de espuma. – Como assim?

– Sabe... Aquilo, de... Você tem mesmo que me dar banho?

– Você quis dizer se isso é mesmo necessário? – Ele supôs rindo e Lis grunhiu.

– É, você me entendeu.

– Bom, já que você não consegue nem andar sozinha direito e está cheirando a bebida, cigarro e... Vômito, é, eu acho que é necessário sim – Henri explicou deixando que a água lavasse a espuma que havia se formado sobre a cabeça de Lis.

Ele pegou o sabonete pronto para ensaboar a garota mas imediatamente Lis arrancou a barra perfumada de sua mão.

– Ei, eu faço isso! Sei que a gente já... Você sabe, mas ainda assim é estranho, agora vira pra lá porque eu vou ter que tirar essa calcinha – pediu e Henri apenas obedeceu, ficando de costas para Lis e logo em seguida ouvindo o som de algo batendo contra a parede. – Merda.

– Tudo bem aí?

– Eu só escorreguei um pouco, não vou morrer.

Depois de uns cinco minutos Lis desligou o chuveiro e no mesmo instante Matt voltou com um pijama e uma toalha limpa onde a enrolou para secá-la e novamente a colocou sentada sobre a tampa do vaso sanitário.

– O Henri esqueceu de passar o condicionador no meu cabelo – ela reclamou parecendo chateada mas por fim deu de ombros. – Mas não tem problema, eu mesma fiz isso.

– É mesmo? Que bom, gatinha – Matt respondeu distraído, vasculhando o armário acima da pia até encontrar uma pasta de dentes e uma escova cor-de-rosa. – Agora abra a boca.

– O quê... – tentou perguntar mas foi cortada quando o loiro colocou a escova em sua boca. – Hããhnn...

– Sinto muito, ninguém mandou beber até passar mal.

– △ –

Matt e Henri agora estavam deitados um ao lado do outro sobre o tapete felpudo do quarto de Lis enquanto a mesma já se encontrava em um sono pesado em sua cama, enrolada em um lençol fino cor-de-rosa e abraçada com um ursinho de pelúcia.

– Meu Deus, ela nunca me deu tanto trabalho dessa forma – Henri disse e o outro apenas riu como resposta. – Isso virou uma coisa comum ou algo assim?

– Algo assim, pelo menos ela dorme rápido.

– É, bom pra ela, eu não vou dormir tão cedo – Henri admitiu voltando a sentir seu coração bater rápido e o ar faltar a seus pulmões, mais uma vez perturbado pelos seus já familiares problemas com ansiedade.

– Isso tudo realmente mexeu com você, né? – Matt indagou e Henri tentou respirar fundo para responder, tirando os óculos e apertando seus olhos cansados com as pontas dos dedos.

– Muita coisa mexe comigo, de uns tempos pra cá não têm sido muito difícil arrumar motivos pra me deixar preocupado. E agora... Não consigo deixar de me perguntar onde tudo isso vai parar, e a Lis também... Eu sei lá, mas sei que nada do que ela fez foi por mal e tenho certeza de que isso pode estar afetando muito mais ela do que nós dois juntos.

– Ela vai ficar bem. Pode gritar, xingar, chorar ou o que for, mas não vou deixá-la sozinha.

Henri sentiu seu coração se apertar um pouco. Sabia que havia falhado com ela de muitas formas, mas ainda assim não conseguia pensar em outra pessoa abraçando, beijando e cuidando de Lis, a sua Lis.

– Você não me odeia? – Henri perguntou, afinal, tinha muitas possibilidades de Matt se sentir da mesma forma, mas o loiro apenas riu baixinho.

– Eu te odiei um pouco hoje cedo, afinal ela me deixou sozinho no baile da escola por sua causa, e ela ainda era minha namorada e agora não é mais porque... – Matt parou pois sabia onde aquela discussão iria parar, e não queria se irritar ou começar a chorar do nada. – É, acho que eu guardo uma mágoa sim, mas... Por que você tá sendo tão legal e compreensivo comigo?

– Porque eu me sinto culpado, afinal, fui eu quem tirou ela de você.

– Não, isso com certeza não – Matt corrigiu e riu. – Ela nunca foi minha, nem sua, nem de ninguém, a Lis é...

– Estranha.

– Estranha, acho que isso define bem, porque não consigo entender ela.

– E eu achava que entendia mas agora vejo que eu me enganei, nunca cheguei nem perto de entender, e acho que nem ela mesma se entende ainda, por isso tem esse monte de... coisas Henri concluiu e acabou por rir também.

– Você também é um pouco... Intrigante.

– Isso foi um elogio ou...? – O moreno perguntou e Matt meneou a cabeça.

– Não sei bem, mas sei que é interessante, instigante... – ele disse e Henri quase pulou de susto quando sentiu os dedos frios de Matt tocarem seu rosto.

Antes que pudesse raciocinar sobre o que estava acontecendo o garoto já havia se aproximado e agora o beijava como se aquela fosse a coisa mais normal do mundo. Ele entreabriu a boca quando Matt passou a língua pelos seus lábios e apertou sua cintura.

Henri se pegou colocando as mãos por dentro da camiseta de Matt e, antes que aquilo pudesse piorar, parou e se afastou. Os dois ficaram se encarando em silêncio por um momento até Henri soltar uma risadinha nervosa.

– Matt, mas que merda...? Por que fez isso? – Questionou ainda sem ar e o loiro deu de ombros, parecendo quase mais confuso e em choque do que o próprio Henri que havia sido pego por um beijo surpresa.

– Eu não sei, por que correspondeu?

Henri apenas suspirou e fechou os olhos, seu corpo inteiro queimava e suas mãos estavam trêmulas, sentia como se tivesse acabado de passar pela maior descida da maior montanha-russa existente.

– Vamos só dormir e não deixar a Lis saber disso – Matt sugeriu e virou de costas para Henri, seu coração parecia que ia explodir e ele não achava que seria capaz de olhar para o garoto sem infartar tão cedo.

– É, ótima ideia.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top